voce e meu
O Eco da Doçura no Império do Silêncio
A manhã em Mônaco havia começado com uma agitação atípica. Lily, geralmente o centro gravitacional da mansão, tivera que partir cedo para um workshop de fotografia analógica em Nice, uma paixão que Oscar incentivava com fervor, chegando a montar um laboratório de revelação profissional em uma das alas da casa. Pela primeira vez em meses, Oscar ficaria sozinho com Anna durante um dia inteiro de trabalho intenso.
No escritório de carvalho escuro e vidros blindados que davam para o Mediterrâneo, o ar estava carregado com a seriedade de uma fusão multibilionária. Oscar Piastri, vestindo uma camisa de alfaiataria azul-clara com as mangas dobradas até os antebraços, estava sentado diante de três monitores monumentais.
— — Os números da logística em Cingapura não batem com as projeções do trimestre passado, Miller — disse Oscar, sua voz fria e precisa como um bisturi. — Se a margem de erro continuar acima de 2%, eu vou pessoalmente reestruturar a diretoria regional. Fui claro?
Do outro lado da tela, quatro executivos em ternos cinzas assentiram freneticamente. O CEO da Piastri Holdings não era conhecido por dar segundas chances quando se tratava de negligência.
Nesse exato momento, a porta pesada do escritório se abriu com um rangido suave. Oscar não precisou desviar os olhos da tela para saber quem era. O som dos pezinhos descalços no tapete persa era um código que ele conhecia de cor.
Anna, com seu pijama de seda rosa decorado com pequenos coalas, entrou segurando um coelho de pelúcia surrado e um livro de ilustrações sobre o sistema solar. Ela parou ao lado da cadeira giratória de Oscar, observando as luzes piscando nos monitores.
— — Papai? — sussurrou ela. Para Anna, o mundo era frequentemente alto demais, então ela falava baixo, como se protegesse um segredo.
Oscar fez um sinal discreto com a mão para os executivos, silenciando o microfone da conferência. A transformação em seu rosto foi instantânea: o vinco autoritário entre as sobrancelhas desapareceu, substituído por uma suavidade que nenhum acionista jamais veria.
— — Oi, meu passarinho — disse ele, girando a cadeira para ficar de frente para ela. — A mamãe saiu faz pouco tempo. Você dormiu bem?
— — O Sol é muito grande, papai — disse ela, ignorando a pergunta e apontando para a capa do livro. — Ele queima os olhos?
Oscar sorriu, sentindo o peso da responsabilidade de ser o sol daquele pequeno universo.
— — Queima se olharmos direto, querida. Por isso ele fica longe. Mas ele aquece a gente, não é? O papai precisa terminar uma conversa com aqueles senhores na tela. Você consegue esperar um pouquinho no sofá?
Anna olhou para os homens minúsculos nos monitores. Eles pareciam sérios e cinzas. Ela balançou a cabeça negativamente e estendeu os braços.
— — Aqui — pediu ela.
Oscar olhou para a câmera. Ele sabia que a reunião era crucial. Bilhões de dólares estavam em jogo. Ele suspirou, mas não era um suspiro de irritação, era de rendição. Ele a pegou no colo, acomodando-a em sua perna esquerda, enquanto voltava a ligar o áudio.
— — Continuando, Miller — disse Oscar, a voz voltando ao tom metálico, enquanto sua mão esquerda acariciava os cabelos castanhos de Anna com uma delicadeza infinita. — Eu quero o relatório de auditoria na minha mesa virtual até as seis da tarde, horário de Genebra. E não me venha com desculpas sobre o fuso horário.
Os executivos arregalaram os olhos ao verem uma pequena mão infantil aparecer na tela, tentando tocar o nariz de Oscar. O CEO nem piscou.
— — Alguma dúvida? — perguntou ele, arqueando uma sobrancelha.
— — N-nenhuma, senhor Piastri — gaguejou Miller, tentando ignorar o fato de que o homem mais temido do mercado financeiro estava agora servindo de apoio para uma criança que tentava enfiar um coelho de pelúcia dentro da gola de sua camisa de mil dólares.
— — Ótimo. Dez minutos de intervalo. Voltamos para discutir a aquisição da refinaria.
Oscar desligou a câmera e o áudio. Ele soltou um suspiro longo e relaxou os ombros.
— — Você é uma pequena sabotadora de negócios, sabia, Anna? — brincou ele, beijando o topo da cabeça dela.
— — O Sol é uma estrela, papai? — perguntou ela, alheia a refinarias e auditorias.
— — É a estrela mais importante para nós. Quer ver uma coisa?
Ele abriu uma aba em um dos monitores laterais e mostrou fotos em alta resolução enviadas pela NASA. Anna ficou hipnotizada pelas explosões solares e pelas cores vibrantes. Por alguns minutos, o bilionário e a criança ficaram em silêncio, unidos pela maravilha do cosmos.
Mas o telefone de mesa tocou. Era Agatha, a governanta.
— — Senhor Piastri, o almoço da pequena Anna está pronto. Devo buscá-la?
Anna apertou a camisa de Oscar. Ela não queria sair. O escritório era silencioso, e o cheiro de sândalo do pai era seu porto seguro quando Lily não estava.
— — Não, Agatha. Traga uma bandeja para cá. Almoçaremos juntos no escritório hoje.
— — Mas, senhor... a reunião...
— — Eu dou um jeito, Agatha. Obrigado.
Vinte minutos depois, a cena no escritório era digna de um filme surrealista. Oscar estava de volta à videoconferência, discutindo cláusulas contratuais complexas sobre direitos de propriedade intelectual, enquanto usava a mão livre para cortar pequenos pedaços de frango orgânico e oferecer a Anna, que estava sentada no tapete aos seus pés, usando a mesa de centro de vidro como sua mesa de jantar.
— — A cláusula 12.4 é inaceitável — declarou Oscar para um advogado em Londres. — Ela dá margem para interpretações ambíguas sobre a patente do software. — Ele se inclinou para baixo, sussurrando para a filha: — Coma o brócolis, passarinho. O brócolis faz você ficar forte como um astronauta.
Anna olhou para o vegetal verde, depois para o pai.
— — Astronautas comem árvores pequenas?
— — As melhores árvores do espaço — afirmou Oscar, sem perder o ritmo da conversa no fone de ouvido. — Como eu dizia, Miller, reescreva a cláusula. Se o fornecedor não gostar, diga que eu pessoalmente sugeri que eles procurassem outro comprador.
A tarde avançou e a paciência de Anna começou a diminuir. A sobrecarga sensorial de estar em um ambiente fechado por tanto tempo, mesmo com o pai, começou a se manifestar. Ela começou a alinhar seus lápis de cor no chão, mas se um deles saísse da linha perfeita, ela soltava um gemido de frustração que ecoava no microfone de Oscar.
— — Está tudo bem, Anna — murmurou ele, sentindo a tensão dela.
— — A cor azul está errada, papai! — disse ela, a voz subindo de tom, as lágrimas começando a brilhar nos olhos.
Oscar percebeu que ela estava prestes a ter uma crise. Ele não hesitou.
— — Senhores, suspendam a reunião por trinta minutos. Emergência familiar.
Ele não esperou por respostas. Desligou tudo. Ajoelhou-se no tapete ao lado da filha e começou a ajudá-la a alinhar os lápis.
— — Veja, o azul está aqui. Ele só queria brincar de esconder com o verde. Vamos colocá-lo no lugar? Bem devagar.
Ele passou os próximos vinte minutos ignorando as notificações frenéticas em seu celular. Ele focou apenas em ajudar Anna a regular suas emoções. Ele contou os lápis com ela, um por um, em uma voz rítmica e calma, até que a respiração da menina voltou ao normal.
— — Desculpe, papai — sussurrou ela, escondendo o rosto no pescoço dele.
— — Você nunca precisa pedir desculpas por sentir as coisas, Anna — disse ele, abraçando-a com força. — O papai está aqui. O mundo pode esperar.
Quando Lily finalmente chegou em casa, no final da tarde, a mansão estava em um silêncio absoluto. Ela subiu as escadas com o coração leve, carregando sua câmera e algumas fotos reveladas. Ao abrir a porta do escritório, ela parou e sorriu, a cena diante dela fazendo seus olhos arderem de emoção.
Oscar estava sentado no chão, encostado no sofá de couro. Ele tinha o laptop aberto no colo, digitando furiosamente com uma mão. Com a outra, ele segurava Anna, que havia adormecido profundamente, atravessada em seu colo, usando o braço do pai como travesseiro.
Havia pratos de comida pela metade, lápis de cor espalhados por todo o tapete e um bilhão de dólares em contratos pairando no ar digital, mas Oscar parecia a imagem da paz absoluta.
Lily pegou a câmera e, sem fazer barulho, capturou o momento. O CEO implacável e sua pequena âncora.
Oscar levantou os olhos e viu a esposa. Ele não se moveu para não acordar Anna, mas o brilho em seus olhos claros dizia tudo.
— — Como foi o dia, grande empresário? — sussurrou Lily, aproximando-se e beijando a testa dele.
Oscar olhou para Anna, depois para a tela do computador onde uma mensagem dizia "Acordo Fechado".
— — Foi o dia mais produtivo da minha vida, Lily — respondeu ele em um fio de voz. — Eu fechei uma fusão, descobri que astronautas comem árvores pequenas e aprendi que o Sol é, de fato, a estrela mais importante do meu sistema.
Lily sentou-se ao lado dele no tapete, encostando a cabeça em seu ombro.
— — A família mandou mensagens o dia todo, reclamando que você não atendeu as ligações sobre o jantar de domingo.
Oscar soltou uma risada abafada, fechando o laptop e deixando-o de lado. Ele envolveu Lily com o braço livre, mantendo a família unida em um abraço silencioso no chão do escritório.
— — Eles podem esperar, Lily. O mundo inteiro pode esperar. Hoje, eu só precisei ser o papai da Anna. E, honestamente? É o único cargo que eu não aceito perder por nada neste mundo.
Ali, na penumbra do escritório em Mônaco, cercado por luxo e poder, Oscar Piastri sentia-se o homem mais rico da Terra. Não pelas ações ou pelas mansões, mas pela confiança da pequena menina em seu colo e pelo amor da mulher ao seu lado. O CEO bilionário havia vencido mais uma vez, mas, desta vez, o troféu era o silêncio doce de um lar em paz.