Vôlei família caos perfeito
Faíscas na Areia e Redes ao Vento
O sábado amanheceu com o burburinho característico do fim de semana no litoral. A calmaria quase privativa do dia anterior deu lugar a um desfile colorido de guarda-sóis, tendas armadas na areia e o cheiro distante de espetinhos e frutos do mar fritos. O mar refletia a luz viva da manhã, e a tranquilidade da casa de praia logo seria sacudida por uma onda de energia muito conhecida por elas.
Por volta das dez horas, o som de uma buzina ritmada ecoou pelo portão de entrada. Léo, que já estava na varanda montando peças de lego com o peito nu e a bermuda d'água, ergueu a cabeça num pulo, os olhos verdes cintilando em pura euforia.
— Chegaram! Tio Lucas! Tia Gabi! — berrou o menino ruivo, largando tudo e disparando pelo gramado.
A porta do carro alugado mal havia terminado de bater quando Gabi desceu com seu sorriso largo e contagiante, os óculos escuros na cabeça e os braços já abertos para pegar Léo no ar com uma facilidade atlética invejável. Logo atrás, Lucas Bergmann desdobrou seu corpo esguio e alto para fora do veículo, rindo do entusiasmo do sobrinho.
— E aí, meu gigante! Como você cresceu desde a última semana! — brincou Lucas, bagunçando a cabeleira ruiva de Léo antes de erguer as mãos para cumprimentar Kate, que descia os degraus da varanda com uma expressão acolhedora.
— Sejam bem-vindos ao nosso refúgio — disse Kate, puxando Lucas para um abraço forte de atleta e logo depois abraçando Gabi. — A Julia está lá dentro terminando de trocar o Noah, mas já desce.
Gabi respirou fundo o ar marinho, apoiando as mãos na cintura e olhando para a extensão da praia, apinhada de gente.
— Menina, isso aqui está uma delícia! — comentou a capitã da seleção, os olhos brilhando. — E olha o tanto de barraca que montaram lá embaixo. Kate, amanhã é domingo, a gente tem que ir almoçar numa dessas barracas de praia! Pedir um peixe frito, camarão, pastel de feira... viver a verdadeira experiência do litoral brasileiro.
Julia apareceu na porta da varanda segurando o pequeno Noah no colo, perfeitamente protegido por um chapéuzinho de pano azul. Ao ouvir a proposta de Gabi, a morena arqueou uma sobrancelha, o semblante endurecendo quase que de imediato.
— Nem pensar — disparou Julia com a firmeza habitual, distribuindo beijos rápidos no rosto do irmão e de Gabi enquanto ajustava o bebê contra o peito. — Vocês viram o tanto de gente que tem na praia hoje? Amanhã vai estar o dobro. Eu detesto muvuca, fica barulho demais para o Noah, e eu não tenho paciência para gente empurrando cadeira.
— Ah, Ju, larga de ser chata, capitã do mau humor! — implicou Lucas, rindo da cara fechada da irmã e esticando o dedo para acariciar as bochechinhas rechonchudas de Noah. — É só a gente ir um pouco mais cedo, pegar uma barraca estruturada, com sombra boa. O moleque vai ficar numa boa.
— Por favor, mãe Ju! — implorou Léo, puxando a barra do short dela com os olhinhos verdes pidões. — O tio Lucas disse que vai me ensinar a escolher pastel de queijo!
Julia olhou para Kate em busca de apoio, mas encontrou na esposa um brilho zombeteiro e convencido.
— Vamos, amor — sugeriu Kate em tom manso, aproximando-se por trás e pousando as mãos compridas na cintura de Julia, inclinando-se para sussurrar perto de sua têmpora. — A gente escolhe uma mesa bem ventilada, na ponta. Eu carrego a bolsa térmica do bebê e você não precisa se estressar com nada. Deixa o Léo se divertir.
Pressionada pela família inteira e desarmada pelo toque quente das mãos de Kate em sua cintura, Julia soltou um suspiro pesado de derrota.
— Está bem. Mas se começar a ficar insuportável, nós voltamos na mesma hora — decretou, arrancando vivas de Léo e risadas cúmplices de Gabi e Lucas.
O domingo chegou trazendo um sol escaldante e a promessa de calor que arrastou multidões para a areia. Como previsto, a orla estava tomada de barracas vibrantes, música ao vivo em volumes alternados e garçons correndo entre mesas de plástico.
O grupo caminhou pela faixa de areia sob o comando vigilante de Julia, que examinava cada metro quadrado com olhos de águia. Kate carregava a cadeirinha portátil e a bolsa de Noah, enquanto Lucas disputava corrida com Léo na beirada da água. Encontraram, finalmente, uma barraca ampla, com cobertura de palha grossa que bloqueava o sol direto e oferecia uma brisa refrescante que vinha do mar.
Acomodaram-se em uma mesa grande no canto. Noah, que estava no colo de Julia até então, começou a resmungar com o calor.
— Passa esse pituquinho para cá, Ju — pediu Gabi, estendendo os braços com carinho. — Deixa a titia paparicar um pouco enquanto vocês olham o cardápio.
Julia hesitou por um milésimo de segundo — sua possessividade materna raramente admitia entregar o filho mais novo a terceiros —, mas conhecia o cuidado de Gabi. Passou o menino com toda a cautela do mundo.
— Apoia a cabeça dele direito, Gabi. Ele acabou de mamar — instruiu Julia, o olhar semicerrado de supervisora.
— Sim, senhora treinadora — respondeu Gabi rindo, aninhando o bebê loirinho que logo se acalmou, hipnotizado pelo movimento dos coqueiros acima deles.
Tudo parecia sob relativo controle até que Julia ergueu os olhos do cardápio plastificado.
Na mesa logo à frente, posicionada diagonalmente à deles, um grupo de pessoas bebia cerveja. Entre elas, uma mulher de cabelos escuros e óculos escuros levantados sobre a cabeça não disfarçava o interesse. O olhar dela não estava no mar, nem na comida, mas cravado com insistência descarada em Ekaterine.
Kate vestia apenas um top esportivo preto e um short solto de secagem rápida. Os ombros largos e perfeitamente desenhados, a pele dourada pelo sol recente e o porte de quase dois metros de pura presença física chamavam atenção onde quer que passasse. A desconhecida parecia devorar cada centímetro da loira com um sorrisinho de canto.
Um estalo invisível de eletricidade percorreu a espinha de Julia. A mandíbula dela travou. O semblante descontraído desmoronou em uma fração de segundo, dando lugar a uma carranca gélida, territorial e furiosa. O sangue quente alemão-brasileiro ferveu nas veias, e seus olhos castanhos cravaram na mulher da mesa vizinha como duas adagas afiadas.
Kate, que conhecia cada microrreação da esposa após anos de convivência íntima, percebeu a mudança de clima instantaneamente. Bastou um olhar de soslaio para a mesa da frente para a russa decifrar todo o cenário. Um sorriso maroto, quase imperceptível, curvou os lábios de Antropova.
Sem fazer alarde, Kate puxou sua cadeira de plástico para mais perto, encurtando qualquer distância entre elas. Inclinou-se devagar sobre o ombro de Julia e enterrou o nariz macio na curva do pescoço cheiroso da morena, dando-lhe um cheiro profundo e demorado, saboreando a fragrância de protetor solar e pele aquecida.
— Que cara fechada é essa, meu amor? — sussurrou Kate contra a pele sensível de Julia, a voz rouca carregada de deboche sensual. — Vai furar a moça só com o olhar?
Julia tentou esquivar o pescoço com um movimento rígido de ombro, fingindo irritação, mas seu corpo traidor estremeceu com a respiração quente da russa.
— Me solta, Kate — murmurou Julia entredentes, os braços cruzados na frente do peito. — Ela está praticamente te despindo com os olhos e você ainda fica de gracinha.
— E você acha que eu ligo para quem está olhando? — retrucou Kate em um sussurro baixo, deslizando a mão direita firme, quente e pesada diretamente para a coxa torneada de Julia.
A mão de Kate repousou sobre a pele bronzeada de Julia, os dedos compridos apertando com uma posse indiscutível, acariciando a parte interna da perna de um jeito que fez o ar faltar nos pulmões da menor. Em seguida, Kate subiu o rosto e depositou um beijo sonoro na bochecha de Julia, descendo os lábios até a linha do maxilar tensionado, marcando território diante de toda a barraca com a naturalidade de quem era dona absoluta daquele espaço.
Julia mordeu o lábio inferior, lutando bravamente para manter a expressão austera, mas a mão de Kate em sua perna e os beijos suaves no pescoço estavam desmanchando sua muralha de raiva pedaço por pedaço.
Do outro lado da mesa, Lucas e Gabi assistiam à cena com risadinhas mal contidas.
— Ai, meu Deus, olha lá o bloqueio duplo da Julia sendo armado — zombou Lucas, dando uma cotovelada de leve em Gabi. — Coitada da mulher da outra mesa, não sabe o perigo que está correndo. Vai levar uma bolada na cara sem nem saber de onde veio.
— Julia não pode ver uma sombra passando perto da Kate que já quer expulsar do ginásio com cartão vermelho — completou Gabi, rindo baixo para não acordar Noah, que cochilava no seu ombro. — Relaxa, Bergmann! A Kate só tem olhos para essa sua cara de brava.
— Fiquem quietos vocês dois e peçam a comida logo — resmungou Julia, embora as maçãs de seu rosto estivessem ligeiramente avermelhadas, traindo seu embaraço.
Kate aproveitou a brecha para roubar mais um selinho demorado nos lábios de Julia, apertando-lhe a coxa uma última vez antes de voltar a prestar atenção no cardápio, satisfeita por ter domado — ao menos temporariamente — o ciúme feroz da esposa.
A segunda-feira chegou trazendo o fim daquele pequeno retiro à beira-mar. Precisavam retornar à mansão principal da família, na capital, pois a semana seria cheia de compromissos, treinos agendados e passeios que haviam planejado com antecedência.
A viagem de volta, no entanto, foi regida pela teimosia indomável de Julia.
Apesar das tentativas de Kate de puxar assunto durante o trajeto na rodovia, Julia permaneceu sentada no banco do carona com os óculos escuros cobrindo os olhos, mantendo uma postura ereta e respondendo apenas com monossílabos cortantes. O ciúme da cena na barraca de praia ainda queimava no fundo de seu peito, amplificado pela pose convencida que Kate havia adotado depois de notar o flerte alheio. Para Julia, o silêncio era sua melhor arma de retaliação.
O relógio marcava cerca de nove horas da noite quando o carro finalmente cruzou os portões de ferro da enorme mansão. As luzes externas iluminavam o amplo jardim gramado, cercado por palmeiras imponentes e uma área de lazer completa.
Assim que desceram, Julia pegou Noah — que dormia profundamente no bebê conforto — e subiu direto para o quarto do pequeno no segundo andar, disposta a banhá-lo com calma e acomodá-lo no berço oficial.
Lá embaixo, Lucas e Gabi, que haviam chegado no outro carro logo atrás, pareciam inesgotáveis. O ar fresco da noite parecia ter renovado as forças do irmão e da amiga de Julia.
— Quem vai perder feio no toque hoje? — provocou Lucas, pegando uma bola de vôlei que descansava na varanda e girando-a na ponta do dedo indicador.
— Eu nunca perco para você, Bergmann mais novo! — rebateu Gabi, tirando os chinelos e correndo descalça para o centro do gramado iluminado.
— Eu quero jogar! Eu fico no time da tia Gabi! — gritou Léo, pulando na grama com a energia típica de uma criança de sete anos que se recusava a aceitar que a hora de dormir estava próxima.
Os três logo formaram uma rodinha animada no jardim. Os toques precisos, as manchetes acrobáticas de Gabi e as risadas estridentes de Léo quebravam a quietude da noite quente.
Kate, cansada da estrada e sentindo a tensão deixada pelo silêncio da esposa, optou por não se juntar à brincadeira com a bola. Caminhou até a grande rede de algodão tramado pendurada entre duas colunas robustas na lateral da varanda, de frente para o jardim. Deitou-se confortavelmente, cruzando os tornozelos e balançando devagar, com as mãos apoiadas atrás da cabeça, observando o filho rir enquanto tentava levantar a bola para o tio.
Minutos depois, um vulto silencioso apareceu na porta de vidro que dava acesso à sala.
Julia havia acabado de deitar Noah. Vestia uma camiseta de algodão larga e um short macio, com os cabelos soltos caindo em ondas escuras pelos ombros. Parou no batente da porta, com os braços cruzados sobre o peito e a mesma carranca emburrada desenhada no rosto bonito, fitando o jardim sem dizer uma palavra.
Kate notou sua presença imediatamente. Seus olhos claros acompanharam a postura rígida de Julia, achando aquela pose de invocada absolutamente irresistível.
Kate estendeu uma das mãos longas na direção dela e deu dois tapinhas no espaço vazio ao seu lado na rede.
— Vem cá, marrenta. Deita aqui comigo — chamou Kate com uma voz suave e aveludada.
Julia hesitou, encarando Kate com os olhos semicerrados, sustentando o orgulho por mais alguns segundos. No entanto, o cansaço do dia e a saudade do calor da esposa falaram mais alto. Com passos lentos e a cara ainda fechada, ela caminhou até a varanda e se acomodou de lado na rede, deitando o tronco contra o peito de Kate, mas mantendo o rosto virado para o lado oposto.
Kate não perdeu tempo. Passou o braço musculoso ao redor dos ombros de Julia, puxando-a com força protetora contra si, e apoiou o queixo no topo da cabeça dela.
— Você passou a viagem inteira sem falar uma palavra comigo por conta do que aconteceu lá na praia, não passou? — perguntou Kate em um tom baixo, quase zombeteiro, roçando os lábios na orelha de Julia. — Uma bobagem minúscula daquelas, meu bem...
Julia bufou, virando o rosto bruscamente para encarar os olhos claros de Kate a poucos centímetros de distância.
— Bobagem para você, né, Ekaterine? — disparou Julia, as sobrancelhas franzidas em pura indignação. — Você adora quando ficam te olhando daquele jeito. Ficou toda se achando na mesa!
— Eu não fiquei me achando, Julia — respondeu Kate, a voz descendo uma oitava, firme e densa, com aquela possessividade crua que igualava as duas em temperamento. Seus dedos deslizaram até o queixo de Julia, segurando-o com firmeza carinhosa. — Você sabe muito bem que ninguém naquela praia, nem em lugar nenhum desse mundo, me interessa além de você. Se olham, o problema é delas. O que me importa está deitado bem aqui nos meus braços, emburrada feito uma criança mimada.
— Eu não sou mimada — rebateu Julia, mas o tom já havia perdido a agressividade, desmanchando-se sob a intensidade do olhar de Kate.
— É a mulher mais teimosa e ciumenta que eu já conheci — disse Kate com um sorriso provocador antes de inclinar o rosto e tomar a boca de Julia em um beijo profundo.
Foi um beijo lento, possessivo, que reivindicava tudo o que pertencia a elas. A mão de Kate desceu pelas costas de Julia, acariciando com calma, desarmando cada músculo tenso do corpo da morena. Julia suspirou contra os lábios de Kate, entregando-se por completo ao beijo, deixando que os dedos se perdessem nos fios loiros da nuca da esposa. Quando se separaram, a carranca de Julia havia desaparecido por completo, substituída por um olhar lânguido e um rubor suave no rosto.
— Convencida — murmurou Julia, escondendo o rosto na curva do pescoço de Kate, acomodando-se de vez entre as pernas compridas da russa no balanço preguiçoso da rede.
— Mas você ama essa convencida — devolveu Kate, rindo baixo e depositando beijinhos estalados no topo da cabeça da esposa, iniciando aquele clima de namoro aconchegante enquanto descansavam.
Do meio do gramado, o som da bola caindo na grama foi seguido por risadas altas. Lucas e Gabi haviam parado o rally de toques e agora observavam a varanda com sorrisos travessos.
— Olha lá, o clima esquentou na rede! — gritou Gabi em tom de brincadeira, as mãos nos quadris. — Bastou meia dúzia de beijos e a capitã brava já amoleceu todinha!
— Não disse, Gabi? O bloqueio caiu rapidinho! — completou Lucas, arrancando uma risada de Léo, que tentava imitar as poses do tio.
Julia ergueu a cabeça do ombro de Kate, mostrando a língua para o irmão do outro lado do gramado com um sorriso genuíno finalmente brotando nos lábios.
— Vão treinar manchete que vocês ganham mais, seus idiotas! — gritou Julia de volta, a voz cheia de afeto disfarçado.
Kate apertou o abraço na cintura de Julia, rindo contra seus cabelos, enquanto o balanço suave da rede embalava o final de noite daquela família barulhenta, imperfeita e absolutamente completa.