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Wave feelings

O Ritmo das Marés e o Som do Silêncio

O sol ainda nem tinha cruzado a linha do horizonte quando o despertador de Kyle tocou, mas ele já estava acordado. Naquela manhã, o som dos ponteiros parecia mais alto que o normal, ou talvez fosse apenas a adrenalina residual da noite anterior. Ele se espreguiçou, sentindo os músculos das costas reclamarem levemente — um lembrete das horas passadas sobre a prancha no dia anterior. No entanto, sua mente não estava focada nas manobras ou na previsão do tempo. Ele ainda conseguia sentir o rastro do beijo de Amber em sua bochecha.

Kyle levantou-se, vestiu sua bermuda de surf e uma camiseta gasta, e foi para a cozinha. Ele preparou um café forte, observando através da janela a névoa matinal que cobria a costa da Califórnia. Pegou o celular e hesitou por um longo minuto diante da tela. Ele queria escrever para ela, mas as letras pareciam teimar em se misturar. "B-O-M D-I-A". Ele escreveu e apagou três vezes, temendo que a dislexia o fizesse cometer um erro bobo logo cedo. Por fim, enviou apenas um emoji de sol e uma onda. Era seguro. Era a linguagem dele.

A resposta veio dois minutos depois, enquanto ele amarrava as pranchas no teto da caminhonete.

— "Bom dia, surfista. Boa sorte com os pequenos hoje. Lua mandou um miau de encorajamento."

Kyle sorriu para o aparelho, sentindo um calor no peito que nada tinha a ver com a temperatura externa. Ele dirigiu até a praia, onde seus alunos de seis anos já o esperavam, pulando na areia com uma energia que só as crianças possuem às sete da manhã.

— Tudo bem, pessoal! — gritou Kyle, batendo palmas para reunir o grupo. — Hoje o mar está calmo, perfeito para aprendermos a ler a onda antes mesmo de subirmos na prancha.

Enquanto explicava os movimentos básicos, Kyle percebeu como era fácil ensinar. Ali, ele não precisava de manuais ou quadros negros. Ele usava as mãos, o corpo e a voz. Ele via o brilho nos olhos das crianças e se reconhecia nelas. Ele era o instrutor paciente, o herói da praia. Mas, no fundo, ele se perguntava se Amber o veria da mesma forma se o visse tentando preencher um formulário de impostos ou lendo um contrato de patrocínio.

A manhã passou voando. Após a aula, Kyle encontrou Nick no calçadão. O amigo estava encostado em um quiosque, devorando um burrito de café da manhã.

— Cara, você está com uma cara de quem ganhou na loteria ou de quem não dormiu nada — Nick comentou, limpando o canto da boca. — E considerando que não vi nenhum bilhete premiado, aposto na segunda opção.

— Eu dormi bem, Nick — mentiu Kyle, sentando-se ao lado dele.

— Sei. Tem a ver com a ruiva, não tem? Eu vi o jeito que vocês ficaram para trás ontem. O clima estava tão pesado que dava para cortar com uma quilha.

Kyle suspirou, passando a mão pelo cabelo loiro e salgado.

— Eu não sei, cara. Ela é... ela é incrível. Mas às vezes eu sinto que sou um peixe fora d'água perto dela. Ela viaja, conhece gente importante, posa para revistas. E eu? Eu sou o cara que mal consegue ler a legenda das fotos dela sem se confundir todo.

Nick parou de comer e olhou para o melhor amigo com uma seriedade rara.

— Kyle, escuta aqui. Você é o melhor surfista que eu conheço. Você tem um coração que não cabe nesse peito atlético. A Amber não quer um professor de gramática, ela quer alguém que a faça se sentir em casa. E, pelo que eu vejo, você é o sofá favorito dela.

Kyle riu da comparação absurda, mas o conselho de Nick, à sua maneira torta, fez sentido.

Enquanto isso, do outro lado da cidade, Amber estava sentada em uma cadeira de maquiagem desconfortável. O estúdio era frio e cheirava a spray de cabelo e café barato. Uma assistente tentava domar seus cachos ruivos, enquanto outra aplicava uma base pesada sobre suas sardas.

— Podemos cobrir um pouco mais essas manchas no nariz? — perguntou o fotógrafo, um homem magro de óculos escuros que parecia permanentemente entediado. — Quero uma pele de porcelana hoje.

Amber sentiu aquela velha pontada de insegurança. "Manchas". Era assim que ele chamava as sardas que Kyle dizia parecerem constelações. Ela apertou as mãos no colo, sentindo falta do toque áspero e caloroso de Kyle. Com ele, ela não precisava de porcelana; ela podia ser areia, sal e imperfeição.

— Na verdade — disse Amber, sua voz tremendo levemente, mas ganhando força —, eu prefiro que as sardas apareçam. Elas fazem parte de quem eu sou.

O fotógrafo baixou a câmera, surpreso com a súbita demonstração de confiança da modelo que costumava apenas obedecer.

— É para uma campanha de "beleza natural", não é? — continuou ela, lembrando-se das palavras de Kyle sobre sua energia. — Nada é mais natural do que a pele real.

O homem hesitou, olhou para ela através da lente e, finalmente, deu de ombros.

— Certo. Vamos tentar do seu jeito.

O ensaio fluiu melhor do que qualquer outro. Amber sentia-se leve. Ao final do dia, ela só queria uma coisa: o silêncio da praia e a presença de Kyle. Ela pegou seu carro — que já havia saído da oficina — e dirigiu direto para a casa dele, parando apenas para pegar dois milk-shakes de chocolate no caminho.

Kyle morava em uma pequena casa de madeira perto da costa. O lugar era simples, decorado com pranchas antigas, troféus de competições locais e fotos de seus amigos. Quando Amber estacionou, viu Kyle sentado na varanda, consertando uma rede de descanso. Ele estava sem camisa, e a luz dourada do fim de tarde realçava cada músculo e cada sarda em seus ombros.

— Serviço de entrega de açúcar — anunciou ela, saindo do carro com um sorriso radiante.

Kyle levantou-se imediatamente, os olhos verdes brilhando ao vê-la.

— Você é um anjo enviado do céu, Amber. Eu estava prestes a começar a roer a madeira dessa varanda de fome.

Eles se sentaram nos degraus da entrada, lado a lado. O ar estava fresco e o cheiro do mar era onipresente.

— Como foi o trabalho? — perguntou Kyle, aceitando o milk-shake.

— Foi... diferente. Eu bati o pé sobre as minhas sardas hoje. Lembrei do que você disse.

Kyle parou de beber e olhou para ela, genuinamente impressionado.

— Sério? Isso é incrível, Amber! Eu sabia que você tinha essa força.

— Eu não teria tido se não fosse por você — ela confessou, baixando o olhar para o copo. — Às vezes eu me perco no que os outros esperam que eu seja. É exaustivo tentar ser perfeita o tempo todo.

— Para mim, você é perfeita quando está rindo das piadas ruins do Nick ou quando tenta esconder que está com medo das ondas grandes — Kyle disse suavemente.

Ele colocou o milk-shake de lado e estendeu a mão, cobrindo a mão de Amber com a sua. A pele morena dele contrastava com a dela, mas os dedos se encaixavam perfeitamente.

— Amber, eu preciso te contar uma coisa — começou Kyle, a voz hesitando. — Eu passei o dia pensando no que aconteceu ontem. No que eu quase disse.

Amber sentiu o coração acelerar. Ela se virou para ele, os olhos heterocromáticos fixos nos dele.

— E o que você ia dizer?

— Que eu sou péssimo com palavras. Que eu me sinto um idiota toda vez que tento ler algo importante e não consigo. Mas que, quando estou com você, nada disso parece importar. Você me faz querer ser a melhor versão de mim mesmo, e não apenas o cara que sabe surfar.

Amber sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos, mas era uma emoção boa, um alívio que ela não sabia que precisava.

— Kyle, você não faz ideia do quanto eu admiro você. Você é a pessoa mais autêntica que eu conheço. Você não finge ser nada. E para uma garota que vive num mundo de aparências, você é a minha única verdade.

Kyle aproximou o rosto do dela. Desta vez, não havia telefones tocando, nem amigos por perto, nem a interrupção da rotina. Havia apenas o som das ondas ao longe e a respiração compartilhada.

— Posso te beijar agora? — ele sussurrou, a insegurança ainda presente em sua voz.

— Eu achei que você nunca fosse perguntar — Amber respondeu com um sorriso fraco antes de encurtar a distância.

O beijo foi lento, doce e carregado de todas as coisas que eles não conseguiam expressar em voz alta. Tinha gosto de chocolate e cheiro de mar. Para Kyle, foi como pegar a onda mais longa de sua vida, aquela que você deseja que nunca termine. Para Amber, foi como finalmente chegar em casa depois de uma longa viagem.

Quando se separaram, Kyle encostou a testa na dela, fechando os olhos.

— Uau — foi tudo o que ele conseguiu dizer.

Amber riu, uma risada cristalina que ecoou pela varanda silenciosa.

— "Uau" define bem.

Eles ficaram ali por um longo tempo, observando as estrelas começarem a surgir no céu da Califórnia. A vida não era simples; Kyle ainda teria suas dificuldades com as letras, e Amber ainda teria que lidar com as pressões de sua carreira e as inseguranças de sua vida familiar. Mas, naquele momento, sentados nos degraus de madeira, eles sabiam que não precisavam enfrentar nada sozinhos.

— Ei, Kyle? — chamou ela, quebrando o silêncio confortável.

— Oi?

— Você me ensina a surfar de verdade? Sem ser naquela prancha de espuma para iniciantes?

Kyle sorriu, o peito estufado de orgulho.

— Só se você prometer que não vai ficar brava quando cair na água.

— Eu não prometo nada — ela brincou, encostando a cabeça no ombro dele.

A noite caiu sobre eles como um manto protetor. No horizonte, o Pacífico continuava seu movimento eterno, mas para Kyle e Amber, o mundo tinha finalmente encontrado o seu eixo. Eles eram apenas dois jovens, com suas marcas, medos e sonhos, descobrindo que o amor, assim como o surf, exige coragem para se lançar ao desconhecido, mas a recompensa de deslizar sobre a água vale cada queda.

Enquanto a gata Lua aparecia na porta, miando por atenção, Kyle passou o braço em volta de Amber, puxando-a para mais perto. Ele não precisava ler nenhum livro para saber que aquele era o começo do melhor capítulo de sua vida. E, pela primeira vez, ele não tinha pressa nenhuma de chegar ao fim.