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When two worlds collide

Cicatrizes de Vidro

O sol de inverno em Turim entrava timidamente pelas frestas da persiana automática, desenhando listras de luz sobre o tapete de seda do quarto principal. Kenan já estava acordado. Ele raramente dormia até tarde, mesmo quando o clube lhe dava folga. Sua natureza inquieta, somada ao instinto de proteção que se tornara quase uma obsessão desde a perda do bebê, o mantinha em um estado de vigília constante.

Ele observou Amanda. Ela parecia tão pequena sob o edredom egípcio, os cabelos castanhos espalhados como uma moldura escura sobre o travesseiro branco. A respiração dela era curta, quase imperceptível. Kenan estendeu a mão, o risco na sobrancelha franzindo-se em concentração, e tocou a bochecha dela com as costas dos dedos. A pele dela era fria, mas macia.

— Acorde, meu anjo — sussurrou ele, aproximando o rosto do dela. — O café já está servido na varanda.

Amanda resmungou algo ininteligível e se encolheu, tentando escapar da claridade. Kenan, porém, não era um homem que aceitava um "não" como resposta, nem mesmo em momentos de preguiça matinal. Ele a puxou para o seu peito, envolvendo-a com seus braços fortes, sentindo o calor do corpo dela contra o seu.

— Ken... — ela murmurou, abrindo os olhos castanhos devagar. — Que horas são?

— Tarde o suficiente para você precisar se alimentar — ele respondeu, a voz carregada de uma autoridade carinhosa. — Eu pedi para prepararem aquelas frutas que você gosta e o pão de queijo que sua tia mandou a receita para o chef.

Amanda sorriu fraco, sentindo o peito apertar de gratidão e, ao mesmo tempo, de uma leve sufocação. Kenan cuidava dela como se ela fosse uma peça de porcelana prestes a quebrar. Após o aborto espontâneo, essa atenção triplicara. Ele controlava o que ela comia, as horas que ela dormia e, principalmente, quem tinha acesso a ela.

— Você é muito mandão — disse ela, esticando os braços para circular o pescoço dele.

— Sou o seu marido — ele rebateu, selando os lábios dela com um beijo possessivo, que começou lento e logo se tornou exigente. — E eu sei o que é melhor para você agora.

Eles se levantaram e seguiram para a varanda gourmet, que oferecia uma vista panorâmica dos Alpes cobertos de neve. O café da manhã estava impecável, mas o silêncio que se seguiu não era de paz, era de antecipação. Amanda sabia que a calmaria era apenas o prelúdio de uma nova tempestade. O assunto da turnê ainda pairava sobre eles como uma nuvem negra.

— Recebi uma mensagem do meu empresário — começou Amanda, mexendo no iogurte sem realmente comer. — A gravadora aceitou reduzir as datas na Europa, Kenan. Mas Nova York é inegociável. Eu preciso estar lá para o lançamento do álbum e para o festival.

Kenan, que estava bebendo seu café expresso, pousou a xícara com uma força desnecessária sobre a mesa de vidro. O som seco fez Amanda sobressaltar-se.

— Inegociável? — Ele riu, um som sem humor. — Nada é inegociável quando se trata da minha esposa atravessando o oceano sozinha enquanto ainda está se recuperando de um trauma.

— Eu não estou sozinha, Kenan! — Amanda elevou um pouco a voz, a frustração começando a vencer a submissão. — Eu tenho uma equipe de vinte pessoas. Tenho seguranças, assistentes...

— Você tem empregados — cortou ele, os olhos verdes escuros brilhando com aquela intensidade controladora que ela conhecia tão bem. — Você não tem ninguém que te proteja como eu. Ninguém que saiba o que você sente só pelo modo como respira. Três semanas em Nova York é tempo demais.

— São apenas dez dias agora! — ela exclamou, deixando a colher cair. — Eu fiz o que você pediu. Eu briguei com eles, eu mudei o cronograma, eu perdi dinheiro! O que mais você quer de mim?

Kenan levantou-se e contornou a mesa. Ele não gritava. O poder de Kenan residia na calma gélida e na presença física imponente. Ele parou atrás da cadeira dela, colocando as mãos em seus ombros e apertando-os levemente.

— Eu quero que você entenda que o mundo lá fora não se importa com você, Amanda. Eles querem a "estrela", o "produto". Eu quero a minha mulher. Eu quero a mulher que chora no meu colo à noite porque ainda dói aqui dentro — ele deslizou uma das mãos para o ventre dela, um gesto que era ao mesmo tempo um carinho e uma lembrança dolorosa.

Amanda sentiu as lágrimas pinicarem seus olhos. Ele sempre fazia isso. Ele usava as vulnerabilidades dela para mantê-la por perto. Era uma forma distorcida de amor, mas era a única que eles conheciam.

— Você está me sufocando — sussurrou ela, embora não fizesse menção de se afastar.

— Eu estou te mantendo viva — corrigiu ele, inclinando-se para sussurrar em seu ouvido. — Se você for para Nova York, eu vou junto. Já falei com o meu agente. Vou pedir uma licença de dez dias. Eles que digam que estou lesionado.

— Kenan, você é o camisa 10 da Juventus! — Amanda virou-se na cadeira para encará-lo, chocada. — Você tem o clássico contra a Inter de Milão na próxima semana. Você não pode simplesmente sumir.

— Eu posso fazer o que eu quiser — ele declarou, o queixo erguido com a arrogância típica de quem sabe que é indispensável. — O futebol é o que eu faço, Amanda. Você é quem eu sou. Se o clube não entender isso, eles que procurem outro para vestir a 10.

— Você vai arruinar sua carreira por causa de um ciúme bobo — ela disse, embora uma parte dela, a parte mais profunda e dependente, se sentisse lisonjeada por tal sacrifício.

— Não é ciúme. É posse — ele admitiu, sem um pingo de vergonha, puxando-a para que ela ficasse de pé à sua frente. — Você é minha, Amanda. Cada centímetro desse corpo, cada nota que você canta, cada pensamento que você tem. Eu não vou deixar você sozinha em um hotel em Manhattan cercada de abutres e produtores que só querem tirar proveito da sua imagem.

— Eu sei me cuidar — ela tentou argumentar, mas sua voz saiu fraca.

— Não sabe — ele rebateu, segurando o rosto dela com firmeza. — Você é doce demais, pequena demais para esse mundo imundo. Por isso eu estou aqui. Para ser o seu escudo.

O clima de tensão foi interrompido pelo toque do celular de Kenan. Era o clube. Ele ignorou a primeira chamada, mas na segunda, Amanda o empurrou levemente.

— Atenda. Pode ser importante.

Kenan bufou, mas atendeu. A conversa foi em italiano, rápida e ríspida. Ele gesticulava enquanto falava, a veia do pescoço saltando. Quando desligou, ele parecia ainda mais irritado.

— O treino foi antecipado. Querem que eu esteja lá em quarenta minutos para uma reunião com a diretoria.

— Vá — disse Amanda, tentando disfarçar o alívio de ter alguns momentos de solidão para processar tudo. — Eu vou ficar bem. Vou aproveitar para ensaiar um pouco no piano.

Kenan a estudou por um longo minuto. Ele caminhou até ela, pegou o celular dela que estava sobre a mesa e o colocou no bolso de sua própria calça.

— Kenan! O que você está fazendo? — ela perguntou, incrédula.

— Você não precisa de distrações enquanto ensaia — disse ele, com um sorriso de canto que não chegava aos olhos. — Se precisar de algo, use o interfone e fale com o segurança na porta. Eu volto para o almoço. E Amanda... nem pense em ligar para o seu empresário do telefone fixo. Eu vou saber.

Ele a beijou com força, um beijo que provava que, mesmo ausente fisicamente, ele ainda comandava o espaço dela. Depois, saiu, deixando o som metálico da porta blindada se fechando ecoar pelo apartamento.

Amanda desabou na poltrona. Ela amava Kenan com uma intensidade que beirava a loucura, mas momentos como aquele a faziam sentir que ela era apenas um pássaro em uma gaiola de ouro. Ela caminhou até o piano de cauda na sala, mas não tocou. Em vez disso, sentou-se no chão, abraçando os próprios joelhos.

A dor da perda do bebê ainda era um buraco negro em seu peito. Ela sentia que Kenan tentava preencher esse buraco com controle, enquanto ela tentava preenchê-lo com música. Eram dois mecanismos de defesa que colidiam violentamente.

Cerca de uma hora depois, o interfone tocou. Amanda estranhou. Kenan não voltaria tão cedo. Ela atendeu com o coração acelerado.

— Senhora Yildiz? — Era a voz do porteiro do prédio. — Há uma entrega para a senhora. Um envelope lacrado, marcado como urgente e pessoal. O entregador disse que é da clínica médica.

O sangue de Amanda gelou. A clínica onde ela fizera os exames após o aborto.

— Pode subir — disse ela, a voz trêmula.

Minutos depois, ela estava com o envelope em mãos. Suas mãos tremiam tanto que ela quase rasgou o papel lá dentro. Ao ler o conteúdo, ela sentiu o chão sumir. Não era apenas um relatório de rotina. Eram resultados complementares que ela não esperava.

"Paciente: Amanda Ribeiro Yildiz. Nota: Avaliação de tecidos e marcadores hormonais. Observação: Presença de anomalia congênita uterina não detectada anteriormente. Risco elevado para futuras gestações. Recomenda-se acompanhamento psicológico e físico rigoroso."

As lágrimas começaram a cair, manchando o papel timbrado. "Risco elevado". A frase ecoava em sua mente. Ela sabia o que isso significava para Kenan. Ele queria uma família, ele queria herdeiros, ele queria que ela fosse a mãe de seus filhos tanto quanto queria que ela fosse sua esposa.

A porta da frente se abriu com um estrondo. Kenan entrou, parecendo furioso.

— Aqueles idiotas da diretoria acham que podem ditar como eu gerencio minha vida pessoal! — Ele gritou enquanto jogava as chaves na mesa. Mas parou abruptamente ao ver Amanda no chão, cercada por papéis, chorando compulsivamente.

Em dois segundos, ele estava ao lado dela, o ciúme e a raiva do clube esquecidos, substituídos por uma preocupação avassaladora.

— O que aconteceu? Amanda! Você está machucada? Alguém entrou aqui? — Ele a pegou no colo, sentando-se no sofá com ela em seu colo.

Ela não conseguia falar, apenas entregou o papel a ele. Kenan leu rapidamente. O silêncio que se seguiu foi pior do que qualquer grito. Ele leu uma, duas, três vezes. O rosto dele, antes vermelho de raiva, ficou pálido.

— Isso... — ele começou, a voz falhando — isso não muda nada, Amanda.

— Muda tudo, Kenan! — ela soluçou contra o peito dele. — Você quer filhos. Você quer uma família perfeita. E eu... eu sou quebrada. Eu não consigo nem te dar isso.

Kenan apertou o abraço, enterrando o rosto no pescoço dela. Ele sentiu uma pontada de culpa por ser tão duro com ela mais cedo, por tentar controlá-la quando ela já carregava um peso que ele não podia carregar por ela.

— Olhe para mim — ele ordenou, afastando-a apenas o suficiente para que seus olhos se encontrassem. — Olhe para mim agora.

Amanda obedeceu, os olhos vermelhos e inchados.

— Eu não me casei com um útero, Amanda. Eu me casei com você. Se a gente nunca tiver um filho biológico, eu não me importo. Eu adoto dez crianças, eu compro um time de futebol inteiro se for preciso para preencher esta casa. Mas eu nunca, ouviu bem? Nunca vou deixar você se sentir menos por causa de um pedaço de papel.

— Mas você é o Kenan Yildiz — ela disse, a voz pequena. — O mundo espera que você tenha sucessores. Sua família na Turquia...

— Que se dane o mundo! Que se dane a minha família! — Ele explodiu, mas não de raiva dela. — Eles não dormem com você. Eles não sabem o que é amar alguém a ponto de sentir dor física. Você é a minha prioridade absoluta. Se isso significa que seremos apenas nós dois contra o resto, então que assim seja.

Ele a beijou, um beijo carregado de uma promessa de proteção eterna. Mas, no fundo, Kenan sentia o medo. O medo de que essa nova dor afastasse Amanda dele, ou pior, que a fizesse buscar refúgio no trabalho, longe de seus olhos.

— Você não vai para Nova York — disse ele, a possessividade voltando à tona, agora disfarçada de cuidado médico. — Você ouviu o que diz aqui. "Risco elevado". Você precisa descansar. Você precisa de mim.

— Kenan, o médico disse para futuras gestações, não para a minha vida profissional — ela tentou intervir, mas ele já estava decidido.

— Não importa. Eu não vou correr o risco de você ter um colapso nervoso longe de mim. Eu vou ligar para o seu empresário agora mesmo. Eu vou cancelar essa turnê.

— Você não pode fazer isso! — Amanda tentou se levantar, mas ele a segurou firme.

— Eu posso e eu vou. Eu sou o seu marido, Amanda. Eu protejo o que é meu. E você é a coisa mais preciosa que eu tenho. Se você me odeia agora por isso, tudo bem. Mas você vai estar segura. Comigo.

Ele pegou o celular dela do bolso e começou a discar. Amanda assistia a tudo com uma mistura de terror e alívio. Era a montanha-russa de sempre. Ele a salvava ao mesmo tempo em que a prendia. Ele a amava ao mesmo tempo em que a anulava.

— Alô? — Kenan disse ao telefone, a voz de comando que usava nos campos de futebol agora direcionada à carreira da esposa. — Aqui é o Kenan Yildiz. Amanda não vai viajar. Sim, eu sei o que o contrato diz. Mande a multa para o meu advogado. Ela está sob meus cuidados agora. Não ligue mais para este número.

Ele desligou e olhou para Amanda. Ela estava estática no sofá.

— Agora — disse ele, levantando-a e levando-a em direção ao quarto —, nós vamos esquecer o mundo lá fora. Eu vou cuidar de você. E ninguém, absolutamente ninguém, vai tirar você de mim.

Naquela tarde, as portas da cobertura em Turim foram trancadas por dentro. O mundo das celebridades, os gramados da Itália e os palcos de Nova York pareciam distantes, irrelevantes. Ali dentro, entre as paredes de luxo e as sombras da perda, Kenan e Amanda continuavam sua dança perigosa. Um amor que era um refúgio, mas também uma sentença. Eles pertenciam um ao outro, e naquele momento, com o coração de Amanda em pedaços e a posse de Kenan em seu ápice, a certeza de que nunca se separariam era a única coisa que restava.

Mesmo que o preço dessa união fosse a liberdade dela, e a sanidade dele. Eles eram Kenan e Amanda. E a tempestade estava apenas começando.