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Wyler

O Labirinto de Vidro e Cinzas

A luz da manhã em Jericho não trazia a promessa de um novo começo, mas apenas a exposição cruel das ruínas do dia anterior. Wandinha Addams abriu os olhos e, por um breve segundo, a desorientação a atingiu como um golpe físico. O teto não era o de seu dormitório em Nunca Mais, decorado com teias de aranha e o vazio reconfortante. Era o teto de Tyler Galpin.

Ela sentiu o peso do braço dele sobre sua cintura, uma âncora de calor que a prendia àquela cama. As memórias voltaram em uma sucessão de flashes violentos: o bar de beira de estrada, o gosto amargo do álcool barato, a urgência de mãos que buscavam algo além da pele, e o confronto no chuveiro. Mas o que mais ardia em sua mente era o incidente da noite passada. O corte em sua coxa, agora devidamente enfaixado, latejava sob a camiseta cinza de Tyler.

Wandinha sentou-se lentamente, afastando o braço dele. Tyler não acordou imediatamente; ele dormia com a exaustão de quem lutou contra demônios internos e externos. Ela observou as cicatrizes em suas costas, marcas de uma natureza que ele não escolhera, mas que aprendera a abraçar como uma arma.

— Observar alguém dormir é um sinal clássico de psicopatia ou de um interesse romântico deplorável — disse ela, sua voz saindo seca e monótona, apesar do turbilhão interno.

Tyler se mexeu, os olhos abrindo-se devagar. Um sorriso preguiçoso e perigoso surgiu em seus lábios quando ele a viu.

— E no seu caso, Wandinha? Qual das duas opções é a vencedora?

— No meu caso, é uma avaliação técnica de como eu deveria ter deixado você inconsciente antes de permitir que me trouxesse para cá — respondeu ela, levantando-se da cama. A perna protestou, mas ela ignorou a dor com a disciplina de um soldado.

Tyler sentou-se, passando a mão pelo cabelo bagunçado. A vulnerabilidade da noite anterior fora substituída por aquela confiança manipuladora que Wandinha tanto odiava e, secretamente, reconhecia.

— Você não teria sobrevivido àquele corte se eu não tivesse intervindo — disse ele, levantando-se e caminhando até ela. Ele estava apenas de calça de moletom, a pele pálida contrastando com a luz fria da manhã. — E nós dois sabemos que você não queria estar em nenhum outro lugar.

— Suas conclusões são baseadas em um otimismo infundado — rebateu Wandinha. Ela caminhou até a janela, observando a rua deserta. — Meu pai costumava dizer que o amor é uma forma de insanidade temporária. O que aconteceu aqui foi apenas um surto psicótico induzido por estresse e má nutrição.

Tyler parou atrás dela, mas não a tocou. Ele podia sentir a eletricidade estática entre eles, uma tensão que nunca se dissipava, apenas mudava de forma.

— Se foi apenas um surto, por que você ainda está usando a minha camisa? Por que não foi embora no meio da noite?

Wandinha virou-se para encará-lo. Seus olhos negros eram poços de indiferença calculada.

— Porque eu precisava de um lugar para realizar o curativo e a sua casa, ironicamente, é o lugar onde ninguém pensaria em me procurar. É o esconderijo perfeito dentro da toca do lobo. Ou do Hyde, tanto faz.

— Você é uma mentirosa brilhante, Wandinha — Tyler sussurrou, aproximando seu rosto do dela. — Mas eu consigo ouvir o seu coração. Ele está batendo mais rápido. E não é de medo.

— É taquicardia — disse ela, sem recuar. — Um sintoma comum de irritação extrema.

Antes que Tyler pudesse responder, o som de um motor se aproximando da casa os fez congelar. Não era a viatura do xerife; era um som mais leve, mais familiar para Wandinha. Ela espiou pela fresta da cortina.

— Enid — sibilou ela. — E o carro do Xavier.

— Como eles te acharam? — Tyler perguntou, sua expressão endurecendo instantaneamente. O brilho dourado ameaçou retornar aos seus olhos.

— Mão — respondeu Wandinha, olhando para o canto do quarto onde o membro decepado estava tentando se esconder atrás de uma pilha de livros. — Ele deve ter deixado um rastro de migalhas ou sinais de fumaça para a Enid. Ele tem uma lealdade irritante para com a minha colega de quarto.

Mão fez um gesto rápido de "desculpe", mas Wandinha não teve tempo para puni-lo.

— Você precisa sair daqui — disse Tyler, pegando as roupas dela que haviam secado durante a noite. — Se eles te encontrarem comigo, Nunca Mais vai entrar em colapso. E meu pai... se ele souber que você está aqui, ele vai te entregar para a polícia de Jericho só para provar que eu sou o problema.

— Eu não recebo ordens, Tyler — disse ela, pegando suas roupas. — Mas concordo que a presença da Enid agora seria tão agradável quanto uma infecção fúngica.

Ela se vestiu rapidamente, a dor na perna sendo mascarada pela adrenalina. Tyler a ajudou a descer as escadas, movendo-se com a furtividade de um predador. Eles chegaram à cozinha quando a primeira batida na porta da frente ecoou pela casa.

— Wandinha! Eu sei que você está aí! — O grito de Enid era carregado de preocupação e um toque de histeria. — O Mão nos trouxe até aqui! Se você estiver sendo mantida refém, dê um sinal! Ou apenas grite que vai me matar, eu vou saber que é você!

Wandinha revirou os olhos.

— Vá pelos fundos — Tyler sussurrou, segurando o braço dela por um segundo a mais. — A trilha leva direto para o reservatório. Eu te encontro lá à meia-noite.

— Talvez eu apareça — disse ela. — Ou talvez eu decida que você já sobreviveu por tempo demais.

— Eu conto com a segunda opção — ele sorriu.

Wandinha saiu pela porta dos fundos, deslizando entre os arbustos de azaleia no exato momento em que Xavier e Enid entravam na casa pela frente. Ela não olhou para trás, mas podia sentir o olhar de Tyler seguindo-a, uma marca invisível em suas costas.

A caminhada até o reservatório foi lenta. Sua perna latejava e a falta de sono começava a cobrar seu preço. Ao chegar à margem da água cinzenta, ela se sentou em um tronco caído. O silêncio da floresta era o único remédio que ela aceitava.

— Você parece um cadáver que foi atropelado por um caminhão de sorvete — uma voz disse atrás dela.

Wandinha não se virou. Ela conhecia aquele tom de julgamento.

— Xavier. Suponho que a Enid esteja ocupada revistando a casa do Tyler em busca de evidências de que eu não fui sacrificada em um altar pagão.

Xavier Thorpe caminhou até ela, parando a alguns metros de distância. Ele parecia exausto, as olheiras profundas denunciando noites em claro desenhando pesadelos.

— Ela está em pânico, Wandinha. Todos estão. Você sumiu por quase quarenta e oito horas. E agora o Mão nos leva até a casa do cara que tentou nos matar? O que você está fazendo?

— Eu estou terminando uma investigação — mentiu ela com perfeição.

— Com ele? — Xavier apontou para a direção da cidade. — Eu vi o jeito que você olhou para ele na escola, Wandinha. Eu vi as pinturas que eu mesmo fiz. Há uma conexão entre vocês que é... tóxica. Ele é um monstro.

— Todos somos monstros, Xavier. Alguns de nós apenas têm a decência de não esconder as garras sob suéteres de tricô.

Xavier suspirou, sentando-se no chão.

— Você está ferida. Eu consigo sentir o cheiro de sangue e antisséptico. Ele fez isso com você?

— Um humano medíocre com um canivete fez isso — explicou ela. — Tyler apenas... limpou a bagunça.

— Ele está te manipulando de novo — Xavier disse, a voz cheia de uma mágoa que Wandinha achava tediosa. — Ele quer que você dependa dele. Ele quer que você se sinta segura na escuridão dele para que, quando ele atacar, você não veja o golpe chegando.

Wandinha levantou-se, encarando o artista.

— Eu não sou uma donzela em perigo, Xavier. E eu não preciso de um herói que pinta quadros melancólicos. O que existe entre Tyler e eu é algo que você nunca entenderia. É um reconhecimento de sombras. É o reflexo de um abismo que olha de volta.

— E se o abismo te devorar?

— Então eu espero que ele tenha uma boa digestão — concluiu ela, começando a caminhar em direção a Nunca Mais. — Diga à Enid que estou bem. E diga a ela que, se ela tocar nas minhas coisas para "limpar o ambiente", eu vou transformar o quarto dela em um necrotério.

O dia passou em um borrão de perguntas evitadas e olhares de soslaio. Wandinha trancou-se em seu quarto, ignorando as batidas frenéticas de Enid na porta. Ela precisava de silêncio para analisar o que estava acontecendo. Pela primeira vez em sua vida, as peças do quebra-cabeça não se encaixavam. Ela deveria odiar Tyler Galpin. Ela deveria estar planejando sua execução pública.

Em vez disso, ela se pegava tocando a cicatriz em sua perna, lembrando-se do cuidado com que ele a lavara.

À meia-noite, a névoa desceu sobre Nunca Mais como um sudário. Wandinha saiu pela janela, movendo-se sem ser vista pelos guardas ou pelas gárgulas vigilantes. O reservatório estava envolto em um silêncio sepulcral.

Tyler estava lá, sentado na beira da água, jogando pedras na superfície espelhada.

— Você veio — disse ele, sem se virar.

— Eu precisava de ar puro. O cheiro de otimismo e hormônios adolescentes em Nunca Mais estava me sufocando.

Tyler levantou-se e caminhou até ela. A luz da lua refletia em seus olhos, tornando-os quase prateados.

— Eu tenho algo para você — disse ele, tirando um pequeno frasco do bolso. — É uma toxina que meu pai confiscou de um contrabandista há anos. Ele acha que é apenas veneno, mas eu sei que você gosta de colecionar... raridades.

Wandinha pegou o frasco, examinando o líquido violeta lá dentro.

— Cicuta destilada com veneno de cobra-coral. Uma escolha clássica. Você tem um gosto refinado para homicídios, Tyler.

— Eu aprendi com a melhor.

Eles ficaram em silêncio por um longo tempo, observando a névoa dançar sobre a água.

— O que nós somos, Wandinha? — Tyler perguntou subitamente. A manipulação desaparecera de sua voz, restando apenas uma curiosidade crua.

Wandinha guardou o frasco e olhou para ele.

— Nós somos uma anomalia estatística. Um erro no código do universo. Duas notas dissonantes que, por algum motivo macabro, criam uma harmonia perfeita no meio do caos.

Tyler sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos, mas que carregava uma verdade sombria.

— Eu não quero te matar, Wandinha. Pelo menos, não hoje.

— Que coincidência — disse ela. — Eu também decidi adiar sua dissecação para a próxima terça-feira.

Tyler aproximou-se, segurando o rosto dela com as mãos frias. Wandinha não recuou. Ela sentiu a respiração dele contra a sua pele, o cheiro de pinho e perigo.

— Eles vão vir atrás de nós — ele sussurrou. — Nunca Mais, meu pai, a polícia... eles não vão nos deixar em paz.

— Deixe que venham — respondeu Wandinha, seus olhos brilhando com uma determinação letal. — Eu sempre preferi um final sangrento a um final feliz.

Tyler a beijou então, um beijo que tinha o gosto de despedida e de promessa. Era um pacto selado na escuridão, um compromisso entre dois monstros que decidiram que o mundo era pequeno demais para ambos, a menos que estivessem juntos.

Quando se afastaram, Wandinha sentiu uma clareza que não sentia há meses. Ela sabia que o caminho à frente seria pavimentado com corpos e segredos, mas ela não se importava.

— Volte para casa, Tyler — disse ela. — Mantenha o seu disfarce. Eu vou manter o meu. Temos um jogo para jogar.

— E quem vai ganhar? — ele perguntou, recuando para as sombras.

Wandinha olhou para a lua, um sorriso imperceptível surgindo em seus lábios.

— O caos, Tyler. O caos sempre ganha no final.

Ela voltou para Nunca Mais com passos leves, a mente já traçando planos de sabotagem e proteção. Ela sabia que Xavier estava certo sobre uma coisa: a conexão entre eles era tóxica. Mas o que Xavier não entendia é que Wandinha Addams era imune a venenos. Ela os colecionava.

Ao entrar no quarto, ela encontrou Enid dormindo profundamente, cercada por suas pelúcias coloridas e luzes de neon. Wandinha sentou-se em sua escrivaninha e pegou sua máquina de escrever.

— Capítulo 22 — sussurrou ela para o vazio. — Onde a heroína percebe que o vilão não é o seu inimigo, mas o seu reflexo mais fiel.

O som das teclas batendo contra o papel ecoou pelo quarto, uma música de percussão que celebrava a destruição da normalidade. Wandinha Addams finalmente encontrara o que procurava: um mistério que ela não queria resolver, e um monstro que ela não queria caçar.

Pois, no labirinto de vidro e cinzas que era sua vida, Tyler Galpin era a única saída. Ou talvez, a entrada definitiva para o seu próprio inferno pessoal. E ela nunca estivera tão ansiosa para queimar.