Wyler
O Sangue das Flores de Plástico
A névoa de Jericho parecia ter se solidificado dentro da pequena cabana abandonada na orla da floresta, transformando o ar em algo denso e difícil de engolir. Wandinha Addams estava parada diante de Tyler Galpin, mas não havia rastro da conexão sombria que compartilharam sob o vapor do chuveiro ou sob os lençóis de sua cama. Em seus olhos, restava apenas o gelo absoluto de uma acusação que ela vinha cozinhando em fogo baixo desde o dia em que descobriu a verdade.
— Você realmente acredita que uma noite de conveniência física apaga o fato de que você é um assassino por procuração? — A voz de Wandinha cortou o silêncio como um bisturi. — Cada toque seu, Tyler, me lembra das mãos que apertaram o pescoço de Kinbott. Cada palavra "doce" que sai da sua boca é um eco da manipulação que você usou para me levar exatamente onde queria: para o altar de Crackstone.
Tyler deu um passo à frente, as mãos estendidas em um gesto de súplica que parecia patético aos olhos dela.
— Wandinha, por favor, me escuta... Eu não era eu mesmo. Eu estava perdido.
— Você era um monstro — ela o interrompeu, a voz subindo de tom, algo raro para sua natureza contida. — Você me usou. Você me fez acreditar que havia algo real entre o barista órfão e a garota estranha, enquanto nos bastidores você estava lambendo o sangue dos meus amigos das suas garras. Você é uma abominação, Tyler. Não pela sua natureza de Hyde, mas pela covardia da sua escolha.
A raiva, um sentimento que Wandinha costumava canalizar para a escrita ou para a tortura recreativa, transbordou. Em um movimento rápido e preciso, ela desferiu um tapa violento no rosto de Tyler. O som do impacto estalou na cabana, deixando uma marca vermelha vívida na pele pálida dele.
Tyler não revidou. Ele cambaleou para trás, a cabeça baixa, os ombros subindo e descendo em espasmos curtos. Quando ele levantou o rosto, Wandinha sentiu um estalo incômodo em seu peito. Ele estava chorando. Não eram lágrimas de manipulação, como as que ele usara na delegacia; eram lágrimas pesadas, silenciosas e carregadas de uma dor que parecia vir de séculos atrás.
— Você acha que eu escolhi isso? — A voz dele saiu quebrada, um sussurro rouco. — Você acha que eu queria ser o bicho de estimação daquela mulher?
— Laurel Gates deu a você um propósito, e você o aceitou com gratidão — sibilou Wandinha, embora o tremor no queixo de Tyler estivesse começando a corroer sua determinação.
— Ela me quebrou, Wandinha! — Tyler gritou, a voz falhando. — Ela não apenas me transformou. Ela me isolou. Ela me fazia sentir que o mundo me odiava e que só ela me amava. E então... então ela tirou a última coisa que eu tinha. Ela tirou minha virgindade, Wandinha. Da forma mais fria e mecânica possível, apenas para garantir que eu estivesse totalmente sob o controle dela.
Wandinha estacou. O gelo em suas veias pareceu evaporar, deixando para trás um vazio desconfortável.
— Eu me sentia sujo — continuou Tyler, as lágrimas escorrendo sem parar. — Toda vez que eu olhava para você na lanchonete, eu sentia que estava manchando você só de respirar o mesmo ar. Eu queria ser o cara que te dava cafés e sorrisos, mas por dentro eu era um cadáver apodrecendo. Eu era um escravo, Wandinha. Um escravo de uma mulher que usava meu corpo e minha mente como ferramentas de vingança.
Tyler começou a ofegar. Suas mãos foram ao peito, apertando a camisa com força. Seus olhos, antes focados nela, começaram a vagar de forma errática.
— Tyler? — O tom de Wandinha mudou. A frieza deu lugar a uma observação clínica preocupada.
— Eu não consigo... eu não consigo respirar — ele disse, a voz sufocada. — O ar... está sumindo.
Ele caiu de joelhos, o rosto ficando pálido, quase azulado sob a luz fraca da lua que entrava pelas frestas. A hiperventilação era severa. Wandinha se ajoelhou à frente dele, suas mãos hesitando antes de tocarem seus ombros.
— Tyler, olhe para mim. Concentre-se na minha voz. É um ataque de pânico. Sua fisiologia está reagindo a um trauma psicológico agudo. Respire comigo.
— Eu sou um monstro — ele soluçou entre os espasmos de falta de ar. — Eu estraguei tudo. Eu estraguei você. Você me odeia... e você tem razão. Todo mundo tem razão.
— Tyler, pare com isso — ordenou ela, sentindo uma pontada de culpa que detestava. Ela fora longe demais? Ela, que sempre se orgulhou de saber exatamente onde cortar para causar a dor máxima, agora sentia o peso de ter atingido um nervo exposto que não deveria ser tocado.
Ele agarrou as mãos dela, as unhas cravando-se levemente na pele de Wandinha. O calor dele era febril.
— O melhor... o melhor seria se eu parasse — Tyler disse, as palavras saindo com dificuldade extrema enquanto ele lutava por oxigênio. — Se eu não existisse mais. Se eu me matasse, Wandinha... você finalmente seria feliz. Você estaria segura. O mundo estaria limpo.
O coração de Wandinha deu um solavanco violento contra suas costelas. O pensamento de um mundo sem Tyler Galpin deveria ser satisfatório para ela. Deveria ser a conclusão lógica de sua vingança. Mas, ao olhar para o rapaz destruído à sua frente, ela percebeu que a ideia da morte dele era a única coisa que realmente a aterrorizava.
— Não diga idiotices — disse ela, a voz tremendo levemente. — Sua morte seria um desperdício de potencial biológico e um tédio narrativo.
— Não... eu quero que você seja feliz — ele insistiu, as lágrimas lavando o rosto manchado. — Eu faria isso por você. Eu morreria por você agora mesmo, só para ver você sorrir sem esse peso nos ombros.
Wandinha segurou o rosto dele com ambas as mãos, forçando-o a olhar diretamente para ela.
— Tyler Galpin, escute bem. Se você ousar morrer, eu vou até o inferno, arrasto sua alma de volta e te mato eu mesma, de forma muito mais lenta e dolorosa. Você não tem permissão para me deixar.
A intensidade das palavras dela pareceu atordoá-lo o suficiente para que o ritmo de sua respiração começasse a desacelerar. Ele a olhou, os olhos vermelhos e inchados, buscando qualquer sinal de mentira.
— Você... você não me quer morto? — perguntou ele, a voz infantil em sua vulnerabilidade.
— Eu quero que você sofra — admitiu Wandinha, sentindo uma lágrima solitária e traiçoeira escapar de seu próprio olho. — Mas quero que sofra ao meu lado. Quero que carreguemos nossas cicatrizes juntos. Laurel Gates não é mais dona de você. E eu... eu não sou sua dona, Tyler. Eu sou sua igual. Na escuridão, na sujeira e na dor.
Ela o puxou para perto, envolvendo-o em um abraço apertado. Tyler desmoronou contra ela, escondendo o rosto em seu pescoço e chorando como se todas as barreiras que ele construíra tivessem finalmente cedido. Wandinha o segurou, ignorando a umidade em seu ombro e a confusão em sua mente.
Pela primeira vez em sua vida, a lógica não importava. O ódio e o amor eram fios da mesma teia, e ambos estavam enrolados em torno deles, prendendo-os de uma forma que nenhuma lâmina poderia cortar.
— Respire, Tyler — sussurrou ela contra o cabelo dele. — Apenas respire. Nós vamos descobrir como queimar o resto do mundo depois.
Naquele momento, na cabana esquecida pelo tempo, o monstro e a garota sombria não eram mais herói ou vilão. Eram apenas dois fragmentos de vidro tentando se tornar um espelho novamente, mesmo que as bordas ainda cortassem quem se atrevesse a chegar perto.