You are my destiny.
O Trono de Vidro e o Sussurro da Traição
A primeira noite do novo regime não foi celebrada com o repouso dos justos, mas com a vigília dos estrategistas. No Grande Salão, o silêncio que se seguiu à submissão dos nobres era denso, carregado pelo cheiro de cera queimada e pelo peso de séculos de tradição que acabavam de ser estraçalhados. Kasha permanecia de pé ao lado do trono, sua mão ainda firmemente entrelaçada à de Dalilah. Ela sentia o pulso da loira — rápido, porém constante. Não era o pulso de uma vítima, mas o de uma caçadora que acabara de encurralar sua presa.
— Levem meu pai para os aposentos da ala leste — ordenou Kasha, sua voz cortando o ar como uma lâmina. — Ele terá todo o conforto, mas nenhum visitante. A guarda da porta responderá apenas a mim.
O Rei Valerius, outrora um homem cuja palavra era a lei absoluta em Astris, parecia ter envelhecido dez anos em dez minutos. Ele se levantou, os ombros curvados, e lançou um olhar de puro veneno para a filha antes de ser escoltado pelos soldados que ele mesmo acreditava controlar. O Rei Elian, de Elara, observava a cena com uma mistura de pavor e uma admiração relutante. Ele conhecia o poder de Kasha, mas nunca imaginara que sua própria filha, a "doce" Dalilah, fosse a arquiteta silenciosa daquela rendição.
— E quanto a mim? — perguntou Elian, aproximando-se das duas mulheres. — Serei também um prisioneiro em seu novo império, Kasha? Ou minha filha pretende me exilar antes mesmo da coroação?
Dalilah soltou a mão de Kasha e deu um passo à frente. O vestido de seda branca capturava a luz das tochas, fazendo-a parecer uma aparição divina, mas seus olhos tinham a frieza do aço.
— Você voltará para Elara ao amanhecer, pai — disse Dalilah, sua voz suave, mas inabalável. — Mas não como um soberano absoluto. Você levará consigo o tratado de unificação. Os generais que você acredita serem seus já receberam minhas instruções. Eles sabem que a união com Astris garantirá que as fronteiras de Elara nunca mais sejam ameaçadas pelos nômades do deserto.
Elian franziu a testa, a surpresa estampada em seu rosto.
— Você... você se comunicou com meus generais pelas minhas costas?
— Eu me comuniquei com homens que valorizam a sobrevivência do reino acima do ego de um rei que se recusa a ver o mundo mudando — rebateu Dalilah. — Vá para casa, pai. Descanse. O tempo de reis que trocam filhas por rotas comerciais acabou.
Kasha observou a interação com um sorriso imperceptível. Ela sempre soube que a inteligência de Dalilah era sua arma mais perigosa, mas vê-la em ação, desmantelando a autoridade do próprio pai com tamanha elegância, era inebriante.
Quando o salão finalmente foi esvaziado e apenas as patrulhas de confiança de Kasha permaneciam nos corredores, as duas mulheres se retiraram para os aposentos privados da herdeira de Astris. Assim que a pesada porta de carvalho se fechou, a armadura de Kasha pareceu pesar o dobro. Ela soltou um suspiro longo, encostando a testa na madeira fria.
— Você foi magnífica — murmurou Kasha, sentindo as mãos delicadas de Dalilah em seus ombros.
— Nós fomos — corrigiu Dalilah, começando a desamarrar as tiras de couro da armadura de Kasha. — Mas não se engane, meu amor. O que fizemos hoje foi declarar guerra contra o resto do mundo. Os reinos vizinhos não verão isso como uma união estratégica. Verão como uma abominação e uma oportunidade.
Kasha virou-se, permitindo que Dalilah removesse a peça peitoral de prata.
— Que tentem. Meus espiões relatam que Julian de Oakhaven já está enviando corvos para seu pai. Ele se ajoelhou no salão por medo, mas o orgulho de um homem ferido é um combustível perigoso.
— Julian é um tolo — disse Dalilah, seus dedos subindo para acariciar os longos cabelos pretos de Kasha. — Mas ele tem a maior frota do mar do oeste. Se ele se aliar aos dissidentes de Astris que ainda são leais ao seu pai, teremos um cerco antes da primeira lua nova.
Kasha segurou o rosto de Dalilah, forçando-a a olhar em seus olhos.
— Eu não vou deixar que nada tire isso de nós. Eu passei anos conquistando terras para um pai que não me valorizava. Agora, eu conquistarei a paz para a mulher que eu amo. Amanhã, começaremos a redistribuição das terras da coroa para os camponeses. Se o povo estiver conosco, os nobres não terão onde se esconder.
— É uma estratégia ousada — comentou Dalilah, seus olhos brilhando com o desafio intelectual. — Dar poder à base para enfraquecer o topo. Você realmente é uma estrategista nata, Kasha.
— E você é a alma deste plano, Dalilah. Sem a sua rede de informações em Elara, eu estaria apenas dando um golpe de estado. Com você, eu estou fundando uma nova era.
As duas se aproximaram, o perfume de rosas brancas de Dalilah misturando-se ao cheiro de metal e couro de Kasha. O beijo que compartilharam foi carregado de alívio, mas também de uma promessa sombria. Elas sabiam que o sangue derramado no campo de batalha era apenas uma parte do preço. O verdadeiro custo seria a vigilância eterna.
No entanto, a calmaria da noite foi interrompida horas depois. Um batido rítmico e urgente ecoou na porta do quarto. Kasha estava de pé em um segundo, a mão alcançando a adaga que mantinha sob o travesseiro.
— Quem ousa? — rugiu ela.
— Senhora, é o Capitão Thorne — a voz do seu oficial mais leal soou abafada pela madeira. — Temos um problema nas masmorras. E não é com o seu pai.
Kasha olhou para Dalilah, que já se envolvia em um roupão de seda, a expressão alerta.
— Vá — disse Dalilah. — Eu vou para a biblioteca real. Se houve um movimento agora, preciso verificar se nossos arquivos de tratados foram violados.
Kasha assentiu e saiu rapidamente, encontrando Thorne no corredor mal iluminado. O capitão estava pálido.
— O que aconteceu, Thorne? Fale de uma vez.
— O Príncipe Julian, senhora. Ele não partiu como ordenado. Encontramos dois de seus homens tentando libertar os prisioneiros políticos das celas inferiores. Mas há algo pior.
— Pior do que uma tentativa de fuga?
— Eles não estavam tentando apenas libertá-los, senhora. Estavam tentando assassiná-los e deixar evidências que incriminariam a Princesa Dalilah. Queriam criar uma revolta interna, fazendo parecer que a "estrangeira" estava limpando o caminho para o domínio total de Elara sobre Astris.
Kasha sentiu uma fúria fria borbulhar em seu peito. Julian não queria apenas o trono; ele queria destruir a reputação da única pessoa que Kasha protegia com a própria vida.
— Onde ele está? — perguntou Kasha, sua voz tão baixa que era quase um sussurro, o sinal mais perigoso de sua raiva.
— No pátio leste, tentando chegar às cavalariças. Meus homens o cercaram, mas ele alega imunidade diplomática.
Kasha não respondeu. Ela caminhou a passos largos pelos corredores de pedra, seus pés descalços fazendo quase nenhum som, mas sua presença emanando uma autoridade letal. Quando chegou ao pátio, viu Julian cercado por seis guardas de elite. Ele parecia desgrenhado, mas ainda mantinha o queixo erguido com a arrogância de quem nasceu em berço de ouro.
— Kasha! — exclamou ele ao vê-la. — Diga a esses cães para se afastarem. Isso é um ultraje! Eu sou um convidado de honra!
Kasha caminhou até ele, parando a poucos centímetros. Ela era ligeiramente mais baixa, mas naquele momento, parecia uma gigante diante dele.
— Um convidado de honra não envia assassinos para as minhas masmorras, Julian — disse ela. — Você tentou manchar o nome da minha rainha. Em Astris, o castigo para traição é a morte. Para calúnia contra a coroa, é a extração da língua.
Julian empalideceu, dando um passo atrás.
— Você não ousaria. Meu pai esmagaria este reino!
— Seu pai está a três semanas de viagem daqui — rebateu Kasha. — E até que ele chegue, você será apenas mais um corpo nas valas de Astris. No entanto, eu sou uma mulher de lógica.
Ela sinalizou para Thorne, que lhe entregou uma espada. Kasha jogou a arma aos pés de Julian.
— Você disse no salão que era um guerreiro. Prove. Se você me vencer, poderá partir com sua vida e sua frota. Se eu vencer... bem, você servirá de exemplo para qualquer um que pense que Dalilah é um alvo fácil.
Julian olhou para a espada no chão e depois para Kasha. Ele sabia que ela era uma veterana de dez batalhas, enquanto ele mal havia praticado contra mestres de esgrima pagos para deixá-lo ganhar. Mas o desespero é um motivador potente. Ele pegou a espada.
— Você vai se arrepender disso, sua vadia arrogante! — gritou ele, avançando com um golpe desajeitado.
Kasha esquivou-se com uma facilidade quase insultante. Ela não desembainhou sua própria espada de imediato. Ela queria que ele sentisse o peso de sua incompetência. Ela desviou de mais dois golpes, o som do metal de Julian cortando o ar vazio sendo o único ruído no pátio silencioso.
— É por isso que eu nunca me casaria com você, Julian — disse ela, enquanto circulava-o como um lobo. — Você é lento, previsível e confia demais no seu nome.
Com um movimento rápido como o bote de uma serpente, Kasha sacou uma adaga oculta e desarmou Julian, chutando sua espada para longe. Antes que ele pudesse reagir, ela o agarrou pelo pescoço e o empurrou contra a parede de pedra.
— Você vai voltar para Oakhaven — sibilou ela no ouvido dele. — Mas vai levar uma mensagem. Diga ao seu pai que Astris e Elara são uma só carne e uma só lâmina. Se ele enviar um único navio para as nossas águas, eu pessoalmente queimarei o seu porto com você amarrado ao mastro principal do seu navio capitânia.
Ela o soltou, e Julian caiu de joelhos, ofegante.
— Thorne, coloque-o em uma carroça de esterco e leve-o até a fronteira. Se ele for visto em nossas terras novamente, matem-no.
Enquanto Julian era arrastado, Kasha limpou as mãos na túnica, sentindo a adrenalina começar a baixar. Ela voltou para o castelo, indo direto para a biblioteca. Lá, encontrou Dalilah cercada por pergaminhos e mapas, uma única vela iluminando seus cachos loiros.
— O problema foi resolvido? — perguntou Dalilah, sem levantar os olhos de um mapa de rotas comerciais.
— Julian não será mais uma preocupação — respondeu Kasha, aproximando-se e abraçando-a por trás. — Ele tentou ser inteligente. Falhou miseravelmente.
Dalilah inclinou a cabeça para trás, apoiando-a no ombro de Kasha.
— Ele foi apenas o primeiro, Kasha. Haverá outros. Mais espertos, mais cruéis.
— Eu sei — Kasha beijou o topo da cabeça de Dalilah. — Mas eles cometem o mesmo erro repetidamente. Eles olham para você e veem uma flor delicada. Olham para mim e veem apenas uma força bruta. Eles não entendem que, juntas, somos o inverno que nunca termina para os nossos inimigos.
Dalilah sorriu, apontando para um ponto no mapa onde as fronteiras de Astris e Elara se encontravam.
— Eu encontrei algo interessante nos registros de impostos do seu pai. Há uma linhagem de barões no norte que tem retido ouro. Eles eram leais ao seu irmão, se ele tivesse nascido.
Kasha estreitou os olhos.
— Então começaremos por lá. Amanhã, cavalgaremos para o norte. Não como conquistadoras, mas como rainhas exigindo o que é nosso por direito.
— E depois? — perguntou Dalilah, virando-se nos braços de Kasha.
— Depois — disse Kasha, seus olhos brilhando com uma ambição que poderia incendiar o mundo —, nós mostraremos a este continente que o sangue da coroa não precisa de um herdeiro homem para ser eterno. Nós construiremos um império, Dalilah. E ninguém, nem reis, nem deuses, poderá nos deter.
Naquela noite, sob o céu estrelado de Astris, as duas rainhas não apenas planejaram o futuro; elas selaram um pacto que seria escrito em ouro e sangue. O mundo pensava que elas eram o fim de uma era, mas Kasha e Dalilah sabiam que eram, na verdade, o início de algo muito mais grandioso. A força e a inteligência haviam se tornado uma só, e o trono de vidro de Astris nunca mais seria o mesmo.