Voltar ao resumo

yutata

O Eco do Silêncio e o Barulho do Coração

O silêncio que se seguiu à declaração de Batatinha foi tão denso que poderia ser cortado com uma faca. Os membros da Turma, que esperavam encontrar dois amigos exaustos, irritados ou, no mínimo, emburrados, estavam estáticos. As câmeras, que antes apontavam ansiosas para a porta, agora tremiam levemente nas mãos de quem as segurava.

— Espera aí... — começou um deles, coçando a cabeça e alternando o olhar entre as mãos entrelaçadas de Yuyu e Batatinha. — Isso é sério? Ou é só o delírio de quem ficou respirando o mesmo ar por dois dias seguidos?

Yuyu soltou uma risada anasalada, aquela que sempre desarmava qualquer um, mas desta vez havia um brilho diferente em seu olhar. Ele não soltou a mão de Batatinha; pelo contrário, entrelaçou os dedos com ainda mais força.

— Podem chamar do que quiserem — disse Yuyu, caminhando calmamente pelo corredor como se nada tivesse mudado, embora soubesse que *tudo* havia mudado. — Mas acho que vocês nos devem uma explicação melhor do que "tempo de qualidade". Quem teve a ideia da tranca eletrônica?

Batatinha, sentindo o rosto ainda um pouco quente, mas com o coração transbordando uma coragem que ele não sabia que possuía, completou:

— É, e quem vai pagar pela pizza que a gente vai pedir agora? Porque a comida lá dentro acabou faz tempo e eu sinto que poderia comer um rodízio inteiro sozinho.

A Turma começou a se dispersar entre risos nervosos e burburinhos. Alguns ainda tentavam processar a naturalidade com que os dois assumiram aquela nova dinâmica. Não houve um anúncio formal, não houve drama. Apenas a verdade nua e crua de dois corações que se encontraram no isolamento.

Enquanto caminhavam em direção à sala principal da casa, Batatinha sentiu o ambiente familiar de uma forma nova. As luzes pareciam mais brilhantes, os sons da casa — o zunido da geladeira, o barulho dos carros na rua — pareciam uma sinfonia de boas-vindas. Mas nada se comparava ao peso reconfortante da mão de Yuyu na sua.

— Você está bem? — sussurrou Yuyu, aproximando-se do ouvido de Batatinha enquanto os outros se amontoavam na cozinha para decidir o sabor da pizza.

— Estou... — Batatinha sorriu, olhando para os próprios pés antes de encarar Yuyu. — Só estou tentando entender como a gente demorou tanto para fazer isso. Precisou de uma tranca e um cronômetro, sério?

— Às vezes a gente precisa que o mundo pare de girar um pouco para percebermos o que está bem na nossa frente — respondeu Yuyu com uma sabedoria mansa. — Mas não se acostume, eu ainda vou cobrar a revanche daquele jogo de cartas que você roubou lá dentro.

— Eu não roubei! — protestou Batatinha, dando um empurrão de leve no ombro de Yuyu. — Eu apenas usei táticas avançadas de distração.

— Sei... — Yuyu riu, puxando-o para um abraço rápido antes que o resto do grupo voltasse a prestar atenção neles. — Táticas muito eficazes, devo admitir.

A noite seguiu com uma energia caótica, típica da Turma. Eles pediram quatro pizzas gigantes, e o assunto do "confinamento" era o tópico principal. No entanto, sempre que alguém tentava fazer uma piada mais pesada ou invasiva, Yuyu desviava o assunto com uma habilidade impressionante, protegendo a bolha de privacidade que eles haviam construído nas últimas 48 horas.

Batatinha observava Yuyu de soslaio. Ele admirava como o amigo — agora algo mais — conseguia manter a compostura enquanto ele mesmo sentia que poderia explodir de alegria a qualquer momento.

— Então, Batata — disse um dos amigos, apontando um pedaço de pizza de calabresa para ele —, o que foi a pior parte? O cheiro do Yuyu depois de dois dias sem banho decente ou as histórias dele?

Batatinha olhou para Yuyu, que arqueou uma sobrancelha, desafiando-o a responder.

— Na verdade — começou Batatinha, fazendo uma pausa dramática —, a pior parte foi perceber que o quarto não era à prova de som quando o Yuyu resolveu cantar no chuveiro. Ele é um ótimo editor, mas como cantor... digamos que ele é um excelente amigo.

A sala explodiu em gargalhadas, e Yuyu jogou um guardanapo em Batatinha, rindo junto.

— Traidor! — exclamou Yuyu. — E eu que achei que tínhamos um pacto de silêncio sobre o que aconteceu lá dentro.

— Algumas coisas são grandes demais para serem guardadas, Yuyu — retrucou Batatinha, piscando para ele.

Mas, por trás das brincadeiras, havia uma troca de olhares constante. Era como se eles estivessem conversando em uma frequência que só os dois alcançavam. "Você está cansado?", os olhos de Yuyu perguntavam. "Um pouco, mas não quero que esse dia acabe", os de Batatinha respondiam.

Quando a madrugada chegou e a maioria da Turma já havia se recolhido ou estava jogada nos sofás em um coma alimentar, Batatinha e Yuyu se viram sozinhos na varanda da casa. O ar da noite estava fresco, e o céu, embora poluído pelas luzes da cidade, mostrava uma ou outra estrela teimosa.

— É estranho, não é? — perguntou Batatinha, encostando-se no parapeito.

— O quê? — Yuyu se aproximou, ficando ao lado dele, os ombros se tocando.

— Estar "livre". Por um momento, lá dentro, eu achei que ia enlouquecer. Mas agora aqui fora... parece que uma parte de mim ainda está naquele quarto.

Yuyu olhou para o horizonte, pensativo.

— Eu entendo. Lá dentro não tinha pressão. Não tinha público, não tinha quebras de expectativa. Éramos só nós. Aqui fora, a gente tem que lidar com o fato de que as pessoas vão falar, vão comentar, vão criar teorias.

Batatinha suspirou, sentindo o peso da realidade.

— Você tem medo disso? — perguntou ele, a voz baixa.

Yuyu se virou para ele, pegando as duas mãos de Batatinha e trazendo-as para perto de seu peito.

— Eu tenho medo de muitas coisas, Batatinha. Tenho medo de perder meu canal, de falhar com meus amigos... mas de você? — Ele balançou a cabeça negativamente. — De nós? Eu não tenho medo nenhum. Se a gente conseguiu sobreviver àquelas 48 horas e sair de lá querendo ficar perto um do outro, acho que a gente sobrevive a qualquer comentário de internet.

Batatinha sentiu um nó na garganta, mas era um nó de felicidade.

— Você sempre sabe o que dizer. É irritante.

— É um talento natural — brincou Yuyu, antes de suavizar a expressão. — Mas falando sério... eu não trocaria o que aconteceu naquele quarto por nada. Nem pela liberdade.

— Nem eu — admitiu Batatinha. — Mas da próxima vez, espero que a porta tenha uma chave e que eu esteja com ela no bolso.

Yuyu riu e puxou Batatinha para um beijo calmo. Não era mais o beijo urgente e carregado de incerteza do quarto. Era um beijo de promessa. Uma promessa de que o que começou entre quatro paredes não terminaria ali.

— Sabe o que eu estava pensando? — disse Batatinha, quando se separaram, ainda mantendo os rostos próximos.

— No quê?

— A gente prometeu se vingar da Turma. O plano das bolinhas de gude e do sal no açúcar ainda está de pé?

Yuyu deu um sorriso malicioso, o tipo de sorriso que Batatinha tanto amava.

— Com certeza. Mas acho que podemos esperar até amanhã de manhã. Hoje... hoje eu só quero dormir sem um cronômetro vermelho brilhando na minha cara.

— Justo — concordou Batatinha. — Mas eu fico com o lado direito da cama.

— Nem pensar! O lado direito é meu!

Eles entraram na casa, trocando empurrões brincalhões e risadas abafadas para não acordar os outros. A vida lá fora continuava a mesma, o canal ainda precisaria de vídeos, e a rotina voltaria a cobrar seu preço. No entanto, para Batatinha e Yuyu, o mundo nunca mais seria o mesmo. O sono que viria a seguir não seria apenas um descanso após o confinamento, mas o primeiro capítulo de uma história que eles finalmente tinham parado de esconder.

Enquanto se ajeitavam, Batatinha olhou para o celular. Nenhuma notificação de cronômetro. Apenas uma mensagem de um dos amigos no grupo da Turma: "Espero que vocês dois estejam felizes. A pizza estava ótima, mas a cara de vocês saindo do quarto foi impagável."

Batatinha sorriu e desligou a tela. Ele não precisava de redes sociais ou de aprovação externa naquele momento. Ele olhou para o lado e viu Yuyu já fechando os olhos, com uma expressão de paz que ele raramente via.

— Boa noite, Yuyu — sussurrou.

— Boa noite, Batatinha — respondeu o outro, a voz já arrastada pelo sono. — E só para constar... o lado direito ainda é meu.

Batatinha riu baixinho, fechando os olhos e deixando-se levar pelo cansaço. As 48 horas haviam acabado, mas para eles, o tempo estava apenas começando.