A Amante do Quarto Hokage
Pecados sob a Aurora
A tempestade arrefeceu nas horas que antecederam o amanhecer, deixando para trás um gotejar rítmico e melancólico que ecoava contra as lajes do antigo posto avançado. O ar denso, outrora saturado pelo aroma inebriante de jasmim e ozônio, esfriava com rapidez cruel, como se o próprio mundo tentasse congelar e soterrar o que havia acontecido entre aquelas paredes esquecidas.
Minato Namikaze estava sentado na penumbra, as costas apoiadas contra a rocha fria. A respiração, antes descompassada pelo calor proibido do contato, agora saía em baforadas brancas e lentas. Seus dedos repousavam inertes sobre o chão úmido, fechados com força suficiente para fazer os nós dos dedos empalidecerem.
A ferida em seu flanco já não doía; o Byakugou de Sayore havia reconstituído a carne e os tecidos com precisão milimétrica, sem deixar cicatriz perceptível. Mas havia uma dor diferente, invisível e lancinante, corroendo seu peito de dentro para fora. O peso da culpa assentou-se sobre seus ombros com a força de uma montanha.
A poucos passos de distância, Sayore Uchiha ajustava o colete negro de jōnin. Seus movimentos eram deliberados, lentos e destituídos de qualquer arrependimento. Havia uma solenidade quase régia na forma como ela prendia os longos cabelos escuros com a costumeira fita vermelha, deixando apenas duas mechas finas emoldurarem seu rosto impecável. O losango violeta em sua testa reluzia sob a penumbra tênue da madrugada, impassível e perfeito.
Ela não parecia uma mulher que havia sucumbido ao calor do momento; parecia uma conquistadora inspecionando o território recém-reivindicado.
— O esquadrão de rastreamento de Konoha cruzará o perímetro em vinte minutos — disse ela, sem se virar. Sua voz era suave, aveludada, mas carregava o peso de uma verdade inalterável. — Se você deseja manter a farsa de que esteve sozinho o tempo todo, sugiro que vista o seu manto.
Minato fitou o tecido branco jogado na lama a alguns metros. O kanji vermelho de Hokage parecia uma zombaria gravada nas costas da capa.
— Sayore... — começou ele, a voz rouca, áspera pelo silêncio prolongado.
A Uchiha virou-se lentamente. Os olhos dela, negros como um poço sem fundo, desceram sobre ele com uma mistura calculada de triunfo e desdém soberbo.
— Não comece — interrompeu ela, dando um passo em sua direção. O som de seus passos na pedra molhada soou como o tique-taque de um relógio que marcava uma condenação inevitável. — Não manche o que aconteceu aqui com desculpas covardes de homem honrado. Você não foi forçado. Não havia genjutsu em meus olhos. Você me tomou porque quis. Porque, pela primeira vez na sua vida imaculada, você se permitiu desejar algo que queima.
Minato ergueu os olhos azuis, outrora tão claros e inabaláveis, agora nublados por uma sombra de amargura.
— Eu traí tudo o que jurei proteger — disse ele, e cada palavra parecia arranhar sua garganta. — Traí a confiança de quem me ama, a responsabilidade que este título exige... e ultrapassei uma linha que jamais deveria ter sido cruzada com você.
Sayore soltou uma risada baixa, um som cortante que ecoou pelo refúgio de pedra. Ela se abaixou diante dele, sem medo, aproximando o rosto a escassos centímetros do dele.
— Você fala de traição como se o seu coração devesse pertencer ao mundo inteiro, Minato — sussurrou ela, erguendo a mão enluvada para tocar a lateral do queixo dele. Seus dedos eram frios, mas o toque fez a pele de Minato arder como brasa viva. — Mas a verdade é que você estava vazio. Cercado por bajuladores, preso a um destino de mártir e atado a uma mulher que não consegue entender a escuridão do poder que você carrega. Você me beijou porque precisava lembrar que ainda está vivo.
Minato segurou o pulso dela com firmeza, interrompendo a carícia. O aperto não foi violento, mas carregava uma determinação desesperada.
— Não ouse falar de Kushina — rosnou ele, os olhos faiscando com uma faísca rara de rigidez perigosa. — O que aconteceu aqui foi uma fraqueza minha. Um erro monumental pelo qual pagarei sozinho. Mas isso acaba agora. Quando atravessarmos os portões de Konoha, nós voltaremos a ser o Hokage e a sua subordinada. Nada mais.
Sayore não se intimidou com a força do aperto. Em vez disso, um sorriso provocador curvou seus lábios rubros. Pequenas partículas de cristal rosado dançaram em torno de seus pulsos, cintilando no ar frio.
— Você pode mentir para os conselheiros, Minato. Pode mentir para ela quando voltar para casa e deitar ao lado dela. Pode até mentir para si mesmo em frente ao espelho do seu escritório luxuoso — sibilou ela, inclinando-se mais, até que seus lábios quase roçassem a orelha dele. — Mas você nunca mais vai conseguir olhar para mim em uma reunião sem lembrar do gosto da minha boca. Você nunca mais sentirá a chuva sem se lembrar de como suas mãos seguraram a minha cintura neste chão sujo. Você é meu agora, sensei. Pelo menos uma parte sua... a parte mais sombria e verdadeira.
Ela puxou o braço com força graciosa, libertando-se do aperto dele sem esforço, e levantou-se em toda a sua estatura aristocrática.
Minato permaneceu imóvel, a mandíbula travada. Ele sabia que ela estava certa. O veneno daquela memória já estava entranhado em seu sangue, indelével como uma marca de selamento. Ele havia quebrado o próprio juramento, e a mulher à sua frente era o carrasco mais belo que o mundo shinobi já havia produzido.
Sem dizer mais nada, Sayore deu meia-volta e saltou para fora do posto de pedra, desaparecendo na névoa úmida da manhã como um espectro de seda negra e cinzas.
Minato respirou fundo, apoiando as mãos nos joelhos trêmulos para se erguer. Ele apanhou o manto de Quarto Hokage da lama, limpou os resquícios de sujeira com movimentos mecânicos e vestiu-o sobre os ombros. Ao passar os dedos pelo colarinho, sentiu algo minúsculo e sólido cair na palma de sua mão: uma pétala solitária de cristal carmesim, translúcida, brilhando com um reflexo sangrento sob o sol nascente.
Ele fechou o punho com força, cravando as arestas afiadas na própria carne até sangrar, antes de guardá-la no bolso mais fundo de seu colete.
***
A fumaça matinal subia das chaminés de Konoha quando Sayore atravessou os portões principais. Os guardas Chūnin postados nas guaritas curvaram-se instintivamente ao reconhecerem o brasão do leque Uchiha bordado com fios de prata nas costas de sua capa de viagem. Nenhum deles ousou encará-la por mais de um segundo; a aura que a cercava era de uma frieza tão cortante que o ar parecia perder a temperatura ao seu redor.
Ela caminhou pelas ruas da vila sem pressa. As pessoas comuns abriam caminho, murmurando elogios velados à sua beleza quase inacreditável ou temendo a lenda de seus feitos sangrentos na fronteira. Sayore ignorava a todos com o desprezo natural dos predadores de topo.
Ao entrar no complexo Uchiha, a atmosfera mudou. O som suave da água correndo nas canaletas de pedra e o vento balançando as folhas de bambu traziam a ilusão de serenidade, mas o peso da vigilância constante e do orgulho sufocante do clã estava sempre presente.
No pátio da residência principal, um jovem garoto de cabelos negros treinava lançamentos de shuriken contra alvos de madeira dispostos em ângulos quase impossíveis. O som seco e metálico das lâminas atingindo o centro exato dos troncos cessou no instante em que Sayore cruzou o portão de madeira de lei.
Itachi virou-se, abaixando a mão que segurava a última arma. Aos dez anos, seus traços já carregavam a solenidade precoce que preocupava até mesmo os mais velhos do clã, mas ao ver a irmã, suas sobrancelhas suavizaram ligeiramente.
— Você voltou — disse o garoto, a voz serena, aproximando-se com passos comedidos. — O pai esperava você ontem à noite. Ele convocou uma reunião extraordinária do conselho do clã para discutir a redistribuição das forças policiais.
Sayore parou diante do irmão mais novo. Seus olhos, implacáveis para o resto do mundo, amoleceram por uma fração de segundo. Ela ergueu a mão enluvada e tocou a testa de Itachi com dois dedos, empurrando-o de leve para trás em um gesto afetuoso e antigo.
— Deixe que Fugaku brinque de governante com os velhos decrépitos — disse ela, o tom destituído de qualquer respeito filial. — Ele se preocupa demais com o poder das palavras e de menos com o poder real.
Itachi não respondeu de imediato. Seus olhos escuros, profundos e perspicazes muito além de sua idade, fixaram-se no rosto da irmã. Havia algo diferente nela. Um brilho febril em suas pupilas, uma oscilação tênue no fluxo de chakra que emanava de sua pele.
— A missão foi difícil? — perguntou ele, o tom carregado de uma preocupação silenciosa. — O seu chakra está... inquieto. Há resquícios de uma assinatura estranha em você. Rápida e cortante. Como um raio.
A astúcia do irmão fez os cantos dos lábios de Sayore se curvarem em um sorriso enigmático.
— Apenas o resíduo de uma tempestade passageira, Itachi — respondeu ela com suavidade. — Nada com que você deva se preocupar. Onde está Sasuke?
— Dormindo com a mãe — disse ele, ainda sustentando o olhar analítico sobre ela, sentindo que havia um abismo que Sayore se recusava a revelar. — O Quarto Hokage foi visto retornando sozinho há poucos minutos. Disseram que ele enfrentou uma emboscada na fronteira.
O nome de Minato pairou no ar entre eles. Sayore respirou fundo, saboreando a lembrança do gosto dele em seus lábios, o fogo secreto que agora a alimentava por dentro.
— Minato Namikaze é forte demais para ser derrubado por tolos na floresta — disse ela, a voz fria como gelo, virando-se para o corredor da casa. — Treine mais, Itachi. O mundo lá fora é implacável, e a fraqueza é a única coisa imperdoável.
Ela adentrou o casarão silencioso, deixando o irmão para trás, absorto em pensamentos sombrios sobre os caminhos tortuosos que a primogênita dos Uchiha insistia em trilhar.
***
Ao meio-dia, o sol brilhava alto sobre Konoha, banhando o Edifício do Fogo em uma claridade impiedosa.
Dentro de seu gabinete, Minato Namikaze estava cercado por três membros do conselho e dois comandantes da ANBU. Os relatórios da emboscada haviam sido catalogados; o veneno neutralizado fora registrado como obra de sua própria destreza com jutsus de cura básicos — uma mentira necessária para não levantar perguntas sobre quem realmente havia salvado sua vida.
Quando os conselheiros finalmente deixaram a sala, o silêncio caiu como chumbo sobre o Hokage.
Minato soltou um longo suspiro e apoiou a testa nas mãos entrelaçadas sobre a mesa de mogno. O cheiro de papel e tinta não era suficiente para mascarar a fragrância fantasma que parecia impregnada em sua própria pele. Ele havia tomado um banho frio ao retornar, trocado de roupa, esfregado as mãos até que a derme ficasse em carne viva, mas a sensação de Sayore sob seus dedos recusava-se a desaparecer.
Uma batida suave na porta quebrou o transe.
— Entre — autorizou ele, endireitando a postura em um reflexo condicionado de autoridade.
A porta abriu-se, revelando uma mulher de longos cabelos vermelhos como o fogo mais puro. Kushina entrou carregando uma marmita embrulhada em tecido azul-claro, um sorriso radiante iluminando seu rosto cansado.
— Você é um idiota completo, Minato! — ralhou ela, marchando em direção à mesa com as bochechas coradas de indignação genuína e alívio mal disfarçado. — Enviou a equipe médica embora e voltou sozinho da fronteira? Eu deveria bater em você com uma frigideira até você aprender a respeitar o próprio corpo, dattebane!
O som daquela voz, tão vibrante, calorosa e cheia de vida, atingiu o estômago de Minato como um soco físico.
Ela contornou a mesa e depositou a refeição sobre os papéis. Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, Kushina jogou os braços ao redor do pescoço dele, apertando-o em um abraço desesperado. O calor dela era reconfortante, o perfume de sabão caseiro e lavanda familiar como o próprio ar que ele respirava.
— Fiquei tão preocupada... — murmurou ela contra o ombro dele, a voz embargada pela vulnerabilidade que ela raramente mostrava. — Prometa que não vai se arriscar assim de novo. Konoha precisa de você. Eu preciso de você.
Minato fechou os olhos com força. Ele ergueu os braços e a envolveu com gentileza, mas o gesto parecia mecânico, roubado. Quando seus lábios tocaram os cabelos vermelhos de Kushina, um calafrio hediondo percorreu sua espinha: sua mente, traidora e profana, evocou imediatamente o toque sedoso dos cabelos negros de Sayore, o gosto de ferro e tempestade do beijo no abrigo de pedra.
— Eu prometo, Kushina — disse ele, a voz soando vazia aos seus próprios ouvidos. — Eu estou aqui.
Ela se afastou com um sorriso satisfeito, limpando uma lágrima rápida do canto do olho antes de apontar com o dedo indicador para a marmita.
— Coma tudo! Se eu souber que você pulou o almoço de novo, vou invadir esta sala e puxar suas orelhas na frente dos velhos conselheiros!
Minato forçou um sorriso — o sorriso caloroso e brilhante do Quarto Hokage, o escudo que ele erguia para tranquilizar o mundo.
— Pode deixar. Obrigado pelo almoço.
Com uma risada alta que ecoou pelos corredores, Kushina despediu-se e saiu, deixando a porta entreaberta.
Minato desabou sobre o encosto da cadeira. Ele olhou para a comida caseira na mesa. A culpa era um monstro sufocante, apertando sua garganta até roubar-lhe o fôlego. Ele olhou para a janela semicircular, para a vista ampla da vila em paz.
Ao longe, parada no topo da muralha que cercava o distrito Uchiha, uma figura esbelta vestida de preto observava o prédio do Hokage. A distância era de quase um quilômetro, mas com a visão aprimorada de um shinobi de elite, Minato pôde ver claramente os cabelos escuros balançando contra o vento e o brilho escarlate inconfundível de dois olhos que o fitavam através do abismo de concreto.
Sayore sabia. Ela sabia exatamente o inferno em que o havia aprisionado.
Minato levou a mão ao bolso do colete e tocou o fragmento afiado da flor de cristal que ela deixara para trás. A aresta cortou a ponta de seu polegar, uma pontada aguda de dor que o ancorou à realidade.
Ela havia dito a verdade nas sombras do Vale do Fim. Ele poderia fingir para o mundo, poderia liderar a nação e sorrir para a mulher que amava, mas uma fissura fora aberta em sua armadura dourada. E através daquela fenda minúscula, o fogo do clã Uchiha continuaria queimando, silencioso e destrutivo, esperando o momento exato em que tudo ao redor viraria cinzas.