A babá e a patroa
Sombras no Café e Fagulhas de Vidro
O sol da tarde de quinta-feira caía sobre o Leblon com uma intensidade dourada, mas dentro da cobertura, o clima era de uma sofisticação gélida. Luiza estava na cozinha, organizando as frutas para o lanche de Sofia, quando o interfone tocou. Era Mariana, uma das amigas de longa data de Jéssica, descrita pela própria patroa como uma "alma livre da alta sociedade".
Luiza sentiu um incômodo imediato. Desde as noites de paixão que dividira com Jéssica, seus sentidos pareciam em alerta máximo. Cada toque, cada olhar trocado nos corredores era carregado de uma eletricidade que beirava o insuportável. E agora, a presença de uma estranha no santuário que elas haviam construído parecia uma invasão.
— Luiza, querida, poderia preparar um café para nós na varanda? — Jéssica apareceu na porta da cozinha. Ela usava um vestido envelope de seda verde-esmeralda que realçava a cor de seus olhos. — A Mariana acabou de chegar.
— Claro, Jéssica — respondeu Luiza, forçando um tom profissional. — Faço agora mesmo.
Jéssica hesitou por um segundo na porta, os olhos fixos nos lábios de Luiza, uma lembrança silenciosa do que havia acontecido horas antes entre aqueles mesmos balcões de mármore. Mas o som da campainha a trouxe de volta à realidade. Ela deu um sorriso enigmático e saiu.
Minutos depois, Luiza caminhava em direção à varanda equilibrando uma bandeja de prata com bules de porcelana e pequenas iguarias finas. O som das risadas de Mariana já preenchia o ar.
— ...e eu disse a ele: "Querido, se você quer exclusividade, compre um quadro, não uma mulher!" — Mariana gargalhava, jogando a cabeça para trás. Ela era deslumbrante, com um estilo boêmio-chique e um olhar que parecia avaliar o preço de tudo o que via.
Ao notar a aproximação de Luiza, Mariana interrompeu a frase e inclinou-se para frente, observando a jovem babá com um interesse nada discreto.
— E quem é essa beldade, Jéssica? Você não me disse que tinha contratado uma modelo para cuidar da Sofia.
Jéssica, que estava com uma expressão relaxada, subitamente empertigou-se na cadeira. Seus olhos se estreitaram levemente, um sinal que Luiza já aprendera a identificar como o início de uma tempestade interior.
— Esta é a Luiza, Mariana. Ela é a babá da Sofia — disse Jéssica, a voz soando um pouco mais seca do que o normal.
— Prazer, Luiza — Mariana disse, estendendo a mão e segurando a de Luiza por um tempo ligeiramente longo demais. — Você tem traços incríveis. Esses cachos... são naturais?
— São, sim — respondeu Luiza, mantendo a postura firme e retirando a mão com delicadeza, mas sem desviar o olhar. A personalidade forte da jovem não a deixava ser intimidada pelo luxo alheio. — Com licença, vou servir o café.
Luiza começou a servir as xícaras. Enquanto se inclinava, sentiu o olhar de Mariana percorrer seu corpo, parando deliberadamente em suas curvas realçadas pela calça justa. O clima na varanda mudou. O ar, antes leve com as fofocas de Mariana, tornou-se denso.
— Sabe, Jéssica — Mariana continuou, ignorando o silêncio súbito da amiga —, estou precisando de alguém com essa energia lá em casa. O meu assistente é um tédio. Luiza, você não tem interesse em mudar de ares? Pago o dobro do que a Jéssica te oferece, e garanto que as festas são muito mais divertidas.
Luiza sentiu o impacto daquelas palavras, mas antes que pudesse responder, ouviu o som seco de uma xícara sendo colocada com força sobre o pires de porcelana.
— A Luiza não está à venda, Mariana — disparou Jéssica. O tom de voz era baixo, mas carregado de uma autoridade perigosa. — E ela está muito bem instalada aqui. Não acho que ela tenha interesse em lidar com a sua... "energia".
Mariana soltou uma risadinha afetada, captando a tensão no ar, mas decidindo brincar com o fogo.
— Calma, amiga! Não precisa rosnar. Só estou dizendo que uma menina bonita assim não deveria ficar trancada em um apartamento o dia todo. — Ela voltou-se para Luiza com um sorriso predatório. — O que você acha, Luiza? Gostaria de conhecer meu ateliê em Santa Teresa qualquer dia desses? Posso te mostrar uma vista do Rio que você nunca viu.
Luiza percebeu o brilho de fúria nos olhos de Jéssica. Era ciúme. Um ciúme possessivo, cru e elegante, escondido sob camadas de etiqueta. Por um momento, a jovem sentiu um prazer secreto ao ver a poderosa Jéssica Albuquerque perder o controle por causa dela.
— Agradeço o convite, Mariana — disse Luiza, dando um passo para trás e cruzando os braços, o que destacou sua postura decidida. — Mas eu gosto do meu trabalho aqui. E a vista desta cobertura... — Ela lançou um olhar rápido e significativo para Jéssica — ...é exatamente o que eu estava procurando.
Jéssica relaxou os ombros minimamente, mas a mandíbula continuava tensa.
— Luiza, pode levar a Sofia para o quarto de brinquedos? Acho que ela já terminou o lanche — ordenou Jéssica, sem olhar para a babá, focando toda a sua atenção em Mariana, como se marcasse território.
— Com licença — Luiza retirou-se, sentindo o peso dos olhos das duas mulheres em suas costas.
Ao entrar na sala, Luiza soltou a respiração que nem sabia que estava prendendo. Ela pegou Sofia pela mão e a levou para o andar de cima, mas seus ouvidos continuavam atentos ao que acontecia lá fora. As vozes na varanda agora eram murmúrios rápidos. Jéssica parecia estar dando uma lição de moral na amiga, enquanto Mariana tentava se desculpar entre risinhos nervosos.
Cerca de meia hora depois, Luiza ouviu a porta principal se fechar. Mariana havia ido embora.
O silêncio que se seguiu no apartamento era pesado, como a calmaria antes de um temporal de verão. Luiza deixou Sofia entretida com um quebra-cabeça e desceu as escadas. Jéssica estava parada na varanda, de costas, observando o mar. O vento balançava seu vestido verde, e ela parecia uma estátua de mármore esculpida pela própria melancolia.
Luiza aproximou-se devagar.
— Ela já foi? — perguntou em voz baixa.
Jéssica não se virou imediatamente.
— Sim. Já foi. E espero que não volte tão cedo.
— Você estava com ciúmes — afirmou Luiza, não como uma pergunta, mas como uma constatação que a divertia.
Jéssica virou-se bruscamente. O rosto, geralmente sereno, estava marcado por uma irritação vibrante.
— Eu não gosto do modo como ela olhou para você, Luiza. Como se você fosse um objeto de desejo passageiro, algo para ser colecionado.
— E como você olha para mim, Jéssica? — Luiza deu um passo à frente, desafiando a distância. — Porque, para o mundo, eu sou a babá. Para a sua amiga, eu sou uma "belda de" interessante. E para você?
Jéssica caminhou até Luiza, o espaço entre elas diminuindo até que o perfume de peônias se tornasse novamente inebriante. Ela segurou o rosto de Luiza com as duas mãos, os polegares acariciando as maçãs do rosto da jovem.
— Para mim, você é o que me tira o sono. Você é o que me faz querer que o Rodrigo nunca mais volte de viagem. — A voz de Jéssica tremeu levemente. — Ver aquela mulher tocando na sua mão, oferecendo-lhe uma vida que ela nem entende... me deu vontade de expulsá-la daqui aos gritos.
Luiza sorriu, sentindo a força daquele sentimento.
— Você não precisa ter medo da Mariana. Nem de ninguém. Eu escolhi estar aqui. E não foi pelo salário.
— Você é muito jovem, Luiza — sussurrou Jéssica, encostando a testa na dela. — Às vezes eu esqueço disso pela sua força, mas você é jovem. Tem o mundo inteiro pela frente. E eu tenho medo de que você perceba que este apartamento é uma gaiola, mesmo que seja de ouro.
— Uma gaiola só prende quem quer fugir — rebateu Luiza. — Eu não estou tentando fugir de você.
Jéssica soltou um suspiro longo e puxou Luiza para um beijo urgente, um beijo que carregava toda a frustração e a possessividade da última hora. Não era um beijo delicado; era uma reivindicação. As mãos de Jéssica desceram para as costas de Luiza, apertando-a contra seu corpo como se tentasse fundi-las.
— Prometa-me — disse Jéssica entre os beijos, a respiração ofegante — que você não vai dar ouvidos a pessoas como a Mariana. Que você não vai me deixar sozinha neste mausoléu.
— Eu não vou a lugar nenhum — prometeu Luiza, sentindo o coração de Jéssica martelar contra o seu. — Mas você vai ter que aprender a lidar com o fato de que as pessoas vão olhar. Eu não sou invisível, Jéssica.
— Eu sei que não é — Jéssica afastou-se apenas o suficiente para olhar nos olhos castanhos de Luiza. — Esse é o problema. Você brilha tanto que é impossível não notar. E eu sou egoísta, Luiza. Quero esse brilho só para mim.
Luiza riu, uma risada que quebrou a tensão da tarde.
— A grande Jéssica Albuquerque, admitindo fraqueza? O Rio de Janeiro pararia se soubesse.
— O Rio de Janeiro que se dane — declarou Jéssica, puxando Luiza pela mão em direção ao escritório. — O Rodrigo liga em uma hora para falar com a Sofia. Até lá, eu quero que você me mostre que não pertence a mais ninguém.
Dentro do escritório, com a porta trancada e as persianas semiabertas filtrando a luz do pôr do sol, o ciúme de Jéssica transformou-se em uma paixão voraz. Ela jogou Luiza sobre a poltrona de couro, despindo a jovem com uma pressa que beirava o desespero. Cada toque era uma marcação de território, cada beijo uma promessa de exclusividade.
Luiza correspondia com a mesma intensidade, sua personalidade forte não permitindo que ela fosse apenas um receptáculo do desejo alheio, mas uma participante ativa. Ela explorava Jéssica com uma audácia que fazia a mulher mais velha perder o fôlego e a compostura.
— Você é minha — murmurava Jéssica, enquanto Luiza a guiava para o ápice do prazer. — Só minha.
— Sempre — respondia Luiza, embora no fundo de sua mente uma pequena voz a lembrasse de que o "sempre" era uma palavra perigosa em um apartamento cheio de segredos.
Quando o sol finalmente se pôs, mergulhando o Leblon na penumbra azulada da noite, as duas mulheres ficaram ali, em silêncio, recuperando o fôlego entre os móveis de madeira cara e os livros de arte. A crise provocada por Mariana havia passado, mas deixara algo novo em seu rastro: a consciência de que o sentimento que as unia não era mais apenas uma atração passageira ou um capricho proibido. Era algo que doía, que queimava e que, mais cedo ou mais tarde, exigiria um preço que talvez nenhuma das duas estivesse pronta para pagar.
O telefone de Jéssica vibrou sobre a mesa. Era Rodrigo.
O encanto quebrou-se instantaneamente. Jéssica levantou-se, ajeitando o vestido com movimentos mecânicos, a máscara de esposa perfeita voltando ao lugar com uma precisão assustadora.
— Preciso atender — disse ela, o tom de voz subitamente neutro. — Vá ver a Sofia, Luiza. Prepare-a para falar com o pai.
Luiza vestiu-se em silêncio, sentindo o frio do ar-condicionado substituir o calor dos braços de Jéssica. Ela olhou para a patroa, que agora falava ao celular com um sorriso falso e uma voz melodiosa, perguntando sobre os negócios em São Paulo.
A jovem babá saiu do escritório sem dizer uma palavra. Enquanto subia as escadas, sentia um peso no estômago. O ciúme de Jéssica fora uma prova de amor, sim, mas a facilidade com que ela voltava à mentira era um lembrete cruel de onde Luiza realmente estava na hierarquia daquela casa.
Ao entrar no quarto de Sofia, Luiza encontrou a menina dormindo abraçada ao urso de pelúcia. Ela sentou-se na beirada da cama e acariciou os cabelos da criança.
— O que estamos fazendo, Sofia? — sussurrou Luiza para o silêncio do quarto.
Lá embaixo, ela ouvia a voz de Jéssica rindo de algo que Rodrigo dissera. O Rio de Janeiro brilhava lá fora, indiferente aos dramas humanos, e Luiza sabia que, embora tivesse vencido a batalha contra Mariana, a guerra pela alma de Jéssica estava apenas começando. E naquela guerra, o fogo do ciúme era apenas a primeira faísca de um incêndio que ameaçava consumir tudo o que ela conhecia.