A babá e a patroa
Ouro, Linho e Confissões
O silêncio que se seguiu à partida de Rodrigo era denso, mas não durou muito. Jéssica não era mulher de se deixar abater pelo medo por muito tempo; a adrenalina do risco parecia ter despertado nela uma urgência nova, uma necessidade de compensar Luiza pelo susto e pela posição humilhante de se esconder entre cabides.
Luiza estava no quarto de Sofia, organizando os brinquedos com movimentos mecânicos, quando Jéssica apareceu à porta. Ela não usava mais o robe, mas um conjunto de alfaiataria impecável que gritava poder e dinheiro.
— Luiza, deixe isso — disse Jéssica, a voz firme, mas com um brilho suave nos olhos. — Chamei a Maria para ficar com a Sofia o resto da tarde. Nós vamos sair.
Luiza levantou-se, cruzando os braços sobre o peito, a postura defensiva de sempre.
— Sair para onde? Tenho trabalho a fazer aqui, Jéssica. O Rodrigo pode voltar a qualquer momento.
— O Rodrigo foi para uma rodada de negócios no Jockey Club e depois tem um jantar na Barra. Não volta antes da meia-noite — Jéssica aproximou-se, ignorando a resistência da jovem. — E você não vai como babá. Vai como minha acompanhante. Vamos ao Shopping Leblon. Quero que você escolha o que quiser.
— Eu não preciso que você me compre, Jéssica — rebateu Luiza, o queixo erguido. — Eu não sou uma das suas amigas que você agrada com presentes para manter a lealdade.
Jéssica suspirou, dando o último passo que eliminava a distância entre elas. Ela tocou o rosto de Luiza, e desta vez não havia luxúria, apenas uma ternura que desarmou a jovem.
— Eu sei que você não precisa. Mas eu preciso te dar algo. Não é sobre lealdade, Luiza... é sobre o que eu sinto. Eu passei a manhã inteira apavorada com a ideia de te perder se o Rodrigo abrisse aquela porta. E percebi que eu faria qualquer coisa para te ver sorrir, e não apenas para te ver escondida nas sombras.
Luiza olhou nos olhos dela, buscando a mentira, mas encontrou apenas uma vulnerabilidade cristalina. A barreira de Luiza cedeu, apenas um pouco.
— Tudo bem. Mas eu não vou usar nada que me faça parecer uma boneca sua.
— Você nunca poderia ser uma boneca, Luiza. Você tem fogo demais para ser feita de porcelana.
O Shopping Leblon, para Luiza, sempre fora um lugar de passagem ou de observação distante. Agora, entrando pelo braço de Jéssica, o ar parecia diferente. As vendedoras das lojas de luxo faziam reverências silenciosas à Sra. Albuquerque, mas lançavam olhares curiosos para a menina de cachos selvagens e jeans que a acompanhava.
Jéssica a levou primeiro a uma joalheria de renome. O brilho dos diamantes sob as luzes dicroicas era quase ofuscante.
— Escolha algo, Luiza. Algo que te lembre de mim quando eu não estiver por perto.
Luiza olhou para as vitrines, sentindo-se deslocada.
— Isso é ridículo, Jéssica. Um anel desses paga três meses do meu aluguel no subúrbio.
— Esqueça o preço — sussurrou Jéssica em seu ouvido, o hálito quente causando arrepios. — Escolha o que seus olhos pedirem.
Luiza apontou para uma gargantilha de ouro branco com um pequeno pingente de safira, discreta, mas de um azul profundo que lembrava o mar daquela varanda.
— Esta — disse Luiza.
— Ótima escolha — Jéssica sorriu para a vendedora. — Vamos levar. E coloque no pescoço dela agora mesmo.
Enquanto a vendedora fechava o fecho da joia, os olhos de Jéssica não saíram do reflexo de Luiza no espelho. A safira repousava exatamente na base do pescoço da jovem, onde Jéssica adorava depositar seus beijos.
A tarde seguiu em um ritmo frenético. Jéssica parecia determinada a cobrir Luiza de luxo. Foram a lojas de roupas onde vestidos de seda custavam pequenas fortunas. Luiza, fiel à sua personalidade, escolheu peças de cortes retos, modernas e urbanas, que realçavam sua beleza natural sem transformá-la em algo que não era.
— Você está linda — disse Jéssica, quando Luiza saiu do provador com um macacão de linho preto que delineava seu corpo com perfeição.
— Eu me sinto... diferente — confessou Luiza, olhando-se no espelho. — Mas ainda sou eu.
— É exatamente isso que eu amo em você — disse Jéssica, aproximando-se por trás e pousando as mãos nos ombros de Luiza. A vendedora havia se afastado estrategicamente. — Você não muda, não importa o que vista.
Luiza virou-se no círculo dos braços dela.
— Você disse que me ama, Jéssica?
O silêncio caiu entre as araras de roupas de grife. Jéssica hesitou, a máscara de controle tremendo.
— Eu disse? — ela tentou desviar, mas o olhar de Luiza era um ímã. — Talvez eu tenha dito. E talvez seja a verdade mais assustadora que eu já enfrentei.
— Você não pode me amar e me manter no quarto de serviço, Jéssica — disse Luiza, a voz baixa e carregada de uma seriedade que cortava o ar. — O ouro e a seda são lindos, mas eles não mudam o fato de que, quando voltarmos, eu entro pela porta da cozinha e você pela principal.
— Eu sei — respondeu Jéssica, uma lágrima solitária escapando e borrando levemente sua maquiagem perfeita. — Mas hoje... hoje eu queria que você sentisse que o meu mundo também te pertence.
Elas terminaram as compras com sacolas que enchiam o porta-malas do carro luxuoso. Antes de voltarem para casa, Jéssica dirigiu até o Mirante do Leblon. O sol estava se pondo, pintando o céu do Rio com cores impossíveis de descrever.
— Por que paramos aqui? — perguntou Luiza.
— Porque aqui não tem paredes de mármore. Nem Rodrigo, nem babás, nem patroas — Jéssica desligou o carro e olhou para Luiza. — Eu te trouxe para comprar aquelas coisas porque eu queria te dar o mundo, mas eu sei que você prefere a verdade.
— E qual é a verdade, Jéssica?
— A verdade é que eu estou apavorada — confessou a mulher, segurando a mão de Luiza. — Eu amo o meu conforto, amo a segurança que o Rodrigo me dá, amo a vida que construí. Mas nada disso vale a pena se eu não puder ter você. Eu te amo, Luiza. De um jeito que eu não achei que fosse capaz de amar ninguém depois de tantos anos vivendo de aparências.
Luiza sentiu o coração disparar. A confissão de Jéssica era o que ela mais desejava e, ao mesmo tempo, o que mais temia.
— E o que fazemos com isso? — perguntou Luiza. — O amor não paga as contas, e certamente não impede o Rodrigo de nos destruir se descobrir.
— Nós vamos ser cuidadosas — disse Jéssica, aproximando-se para um beijo que, ali, no escuro do carro e diante da imensidão do mar, pareceu o primeiro beijo real que trocaram. — Eu vou te proteger, Luiza. Eu juro.
— Eu não preciso de proteção, Jéssica — disse Luiza entre os lábios dela. — Eu preciso de você. Por inteiro.
— Você me tem — murmurou Jéssica. — De todas as formas que importam.
Ao voltarem para a cobertura, a realidade as recebeu com o ar gelado do ar-condicionado central. Luiza carregou as sacolas para o seu quarto, escondendo-as no fundo do armário. O ouro e a seda agora eram segredos, assim como o amor que acabara de ser declarado.
Jéssica foi para o quarto de Sofia, assumindo o papel de mãe dedicada. Luiza foi para a cozinha preparar um chá, sentindo o peso da safira em seu pescoço, escondida sob a gola da camiseta de trabalho.
Mais tarde, quando a casa estava em silêncio e Rodrigo ainda não havia retornado, Jéssica apareceu na cozinha. Ela não disse nada, apenas caminhou até Luiza e a abraçou por trás, escondendo o rosto em seus cachos.
— Obrigada por hoje — sussurrou Jéssica.
— Obrigada pelas roupas, Jéssica. Mas obrigada principalmente por ter dito o que disse no mirante.
— Eu não retirei uma palavra — Jéssica virou Luiza para frente. — Você é a minha liberdade, Luiza. Mesmo que vivamos em uma prisão de luxo.
— Então vamos fazer essa prisão valer a pena — disse Luiza, puxando-a para um beijo que selava o pacto.
Naquela noite, Luiza dormiu com a gargantilha de safira. Ela sabia que o caminho à frente seria cheio de espinhos disfarçados de pétalas de rosa, que o ciúme de Jéssica voltaria e que a presença de Rodrigo seria uma sombra constante. Mas, pela primeira vez, ela sentia que não era apenas uma menina branca de dezoito anos perdida no Rio de Janeiro.
Ela era a mulher amada por Jéssica Albuquerque. E Luiza, com sua personalidade forte e seus cachos indomáveis, estava pronta para quebrar cada vidro daquela cobertura, se fosse necessário, para manter aquele amor vivo.
Quando Rodrigo finalmente entrou no apartamento, passando pela sala em direção ao quarto, ele não percebeu nada de diferente. O mármore brilhava, o silêncio era absoluto e sua esposa parecia dormir tranquilamente. Ele não viu a safira escondida no quarto de serviço, nem ouviu o eco das confissões feitas no mirante.
O Rio de Janeiro continuava lá fora, vibrante e caótico. E dentro daquela cobertura, um incêndio silencioso consumia as estruturas do que a sociedade chamava de família perfeita, alimentado por seda, ouro e um amor que não pedia permissão para existir.