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A bela e a fera

O Sorriso do Caos e o Gelo no Estômago

O silêncio do meu apartamento era preenchido apenas pelo som rítmico do balanço de Dália em seu berço portátil. Eu estava na cozinha, organizando alguns potes de papinha, tentando manter minhas mãos ocupadas para que minha mente não vagasse para o fato de que a campainha tocaria a qualquer momento. Eu usava um avental com estampa de cupcakes, algo que Ravena sempre achou "ofensivamente adorável", e meu cabelo estava preso em um coque frouxo que desafiava a gravidade.

Eu sou Karen. Sou baixa, tenho curvas que lembram as colinas suaves de uma pintura clássica e um temperamento que muitos descrevem como "doce demais para o próprio bem". Meu pai sempre dizia que eu herdei o coração de Gomez Addams — intenso, devoto e talvez um pouco dramático demais quando o assunto é amor. O problema é que o objeto do meu afeto, ou melhor, do meu ex-afeto, era Ravena.

Ravena não era como eu. Ela era o vácuo entre as estrelas, uma presença sombria e magnética que parecia carregar o peso do submundo em seus ombros pálidos. Quando estávamos juntas, éramos o equilíbrio perfeito: meu açúcar para o sal dela. Mas as coisas mudaram. E agora, o som da campainha não era o prelúdio de um beijo apaixonado, mas o sinal de uma transação de guarda compartilhada.

Respirei fundo, ajustei o avental sobre meus quadris e caminhei até a porta. Ao abrir, o ar pareceu esfriar instantaneamente.

— Você está três minutos atrasada — eu disse, tentando imprimir uma firmeza na voz que eu definitivamente não sentia.

Ravena estava parada ali, envolta em sua capa azul-escura habitual, o capuz caído para trás revelando o rosto de porcelana e os olhos ametista que ainda faziam meu estômago dar piruetas. Ela segurava a bolsa de fraldas preta (com detalhes de morcegos, claro) em uma mão.

— O trânsito em Azarath estava... complicado — respondeu ela, sua voz monótona escondendo qualquer emoção, mas notei como seus olhos percorreram meu rosto, demorando-se talvez um milésimo de segundo a mais do que o necessário.

— Entre — dei passagem, sentindo o perfume dela de sândalo e incenso antigo me atingir como um soco. — A Dália acabou de cochilar. Ela sentiu sua falta hoje.

Ravena entrou no apartamento com a elegância de um predador. Ela parecia fora de lugar entre minhas almofadas coloridas e as fotos de família na estante. Ela caminhou até o berço e observou nossa filha por um momento. O rosto de Ravena suavizou-se, uma transformação que apenas Dália e, antigamente, eu, tínhamos o privilégio de ver.

— Ela cresceu desde a última terça-feira — sussurrou Ravena.

— É o que bebês fazem, Rav — respondi, usando o apelido antigo sem querer. Mordi o lábio inferior imediatamente. — Enfim, você trouxe as coisas dela?

— Sim. Está tudo aqui. — Ela colocou a bolsa no sofá. — Obrigada por ficar com ela hoje, Karen. Eu sei que não era seu turno, mas...

— Mas você tem um encontro — completei, sentindo um gosto amargo na boca. Tentei sorrir, aquele meu sorriso de "está tudo bem" que eu sabia que não a enganava totalmente. — Com a namorada nova. Como é o nome dela mesmo? Estelar? Terra? Algo assim?

Ravena me encarou. Havia uma tensão no ar, uma eletricidade estática que fazia os pelos dos meus braços se arrepiarem.

— O nome dela não importa — disse ela, cruzando os braços. — É apenas um jantar. Nada que mude as engrenagens do universo.

— Ah, claro. Apenas um jantar — eu disse, caminhando até a cozinha para pegar um copo de água, precisando de distância. — Você está muito bonita, a propósito. Esse tom de roxo combina com o seu... desespero existencial.

Ouvi os passos dela me seguindo. Ravena parou no batente da porta da cozinha. Eu podia sentir o olhar dela nas minhas costas, na curva da minha cintura, no jeito que meu vestido abraçava meu corpo. Eu era baixinha perto dela, mas meu espírito sempre ocupou muito espaço.

— Você está tentando ser sarcástica, Karen — observou ela. — Não combina com você. Você é feita de luz e otimismo irritante. O sarcasmo é o meu departamento.

— As pessoas mudam, Ravena — virei-me, apoiando as mãos no balcão. — Especialmente quando são deixadas para trás para criar uma criança metade-demônio enquanto a outra metade sai para comer lagosta com uma modelo de capa.

— Ela não é modelo — rebateu Ravena, e por um momento vi uma faísca de irritação em seus olhos. Ou seria ciúme da minha atenção? — E eu nunca deixei você para trás. Nós decidimos que nossas naturezas eram incompatíveis.

— Minha natureza "doce" era compatível o suficiente para você há dois anos — retruquei, sentindo as lágrimas arderem, mas me recusando a deixá-las cair. — Mas tudo bem. Eu não ligo. De verdade. Espero que vocês se divirtam. Espero que ela goste de meditação silenciosa e de chá de ervas amargas.

Houve um silêncio pesado. Ravena deu um passo à frente, entrando no meu espaço pessoal. Ela era tão fria quanto eu era quente.

— Você está mentindo — disse ela, a voz agora um sussurro baixo e perigoso. — Você liga. Suas emoções estão flutuando ao seu redor como um enxame de abelhas. Eu posso senti-las. Elas são... doces e dolorosas.

— Saia da minha cabeça, Ravena — pedi, embora não me movesse. — Vá para o seu encontro. Não deixe a moça esperando.

Ela estendeu a mão, como se fosse tocar minha bochecha, mas parou no meio do caminho. Seus dedos tremeram levemente antes de ela os recolher para dentro das mangas da capa. Aquele gesto me quebrou mais do que qualquer palavra. Ela ainda sentia algo. Eu sabia. O vínculo que criamos quando Dália nasceu não era apenas biológico; era algo forjado no caos que só nós duas entendíamos.

— Eu vou — disse ela, recuperando sua máscara de indiferença. — Voltarei para buscá-la amanhã cedo.

— Na verdade — comecei, tentando manter a voz casual enquanto brincava com a borda do meu avental —, eu ia te pedir um favor.

Ravena arqueou uma sobrancelha.

— Um favor?

— Sim. Na próxima semana. Na sexta à noite. Eu preciso que você fique com a Dália.

Ravena estreitou os olhos.

— Por quê? Você tem algum seminário de culinária?

— Não — dei um sorriso largo, o tipo de sorriso que meu pai usaria antes de um duelo de espadas. — Eu tenho um encontro.

O ar na cozinha pareceu congelar. Literalmente. Uma fina camada de geada apareceu na borda do copo de água sobre a mesa. Os olhos de Ravena brilharam em um roxo intenso por um segundo antes de voltarem ao normal.

— Um encontro? — repetiu ela, as palavras saindo como se fossem pedras de gelo.

— Sim. Com um rapaz que conheci na livraria. Ele é adorável. Gosta de poesia clássica, faz o próprio pão e, o mais importante, ele acha que minhas curvas são "obras de arte renascentistas" — menti um pouco na última parte, mas a reação de Ravena valeu a pena.

Ela apertou os punhos. A aura negra que costumava emanar dela quando estava perdendo o controle começou a oscilar nas bordas de sua capa.

— Você mal teve tempo de dormir com os dentes da Dália nascendo, e já está procurando... entretenimento? — perguntou ela, a voz carregada de um veneno que ela raramente usava comigo.

— Ora, Ravena, você não pode ter o monopólio da felicidade romântica — eu disse, aproximando-me dela, sentindo-me estranhamente poderosa. — Se você pode seguir em frente com a sua namorada perfeita, eu também posso encontrar alguém que não se importe com o fato de que eu sou "doce demais".

— Ele não vai saber lidar com você — sibilou ela. — Ele não vai saber o que fazer quando você começar a cantar para as plantas ou quando ficar triste porque um filme de animação terminou.

— E você sabia? — perguntei, a voz suavizando, perdendo a provocação e ganhando uma nota de melancolia. — Porque, se bem me lembro, você costumava dizer que essas eram as coisas que te mantiam sã.

Ravena desviou o olhar. O silêncio que se seguiu não era hostil, era carregado de arrependimento. Ela deu um passo para trás, em direção à porta da sala.

— Sexta-feira às sete — disse ela, sem me olhar nos olhos. — Eu estarei aqui.

— Ótimo — respondi, seguindo-a. — Divirta-se hoje, Rav. Tente não transformar o garçom em um sapo se ele errar o pedido.

Ela parou na porta e se virou. Por um momento, a máscara caiu completamente. Havia uma fome em seu olhar, uma possessividade que ela tentava enterrar sob séculos de disciplina de Azarath.

— Eu não prometo nada — disse ela. — E Karen...

— Sim?

— Use aquele vestido verde. O de veludo. — Ela fez uma pausa, a voz falhando por um segundo. — Se você vai sair com esse... padeiro... certifique-se de que ele saiba exatamente o que está perdendo se não te tratar como a rainha que você é.

Antes que eu pudesse responder, ela se foi, deixando para trás apenas o cheiro de incenso e um rastro de frio no corredor.

Fechei a porta e encostei a testa na madeira fria. Meu coração estava martelando contra minhas costelas. Eu não tinha um encontro. Pelo menos não ainda. Mas a reação dela... a faísca de puro ciúme e a dor mal disfarçada em seus olhos me deram uma esperança terrível.

Caminhei de volta para o berço e olhei para Dália. A pequena tinha um tufo de cabelo escuro e a pele pálida da mãe, mas o nariz era meu, e o jeito que ela sorria enquanto dormia era puro Gomez Addams.

— Sua mãe é uma idiota, pequena — sussurrei, acariciando a mãozinha dela. — Mas ela ainda nos ama. Ela só é sombria demais para admitir que precisa de um pouco de açúcar na vida dela.

Dália soltou um pequeno suspiro e se virou.

Eu sabia que a próxima sexta-feira seria um desastre. Eu teria que encontrar um encontro de verdade, ou pelo menos fingir um muito bem. Mas enquanto eu limpava a geada da mesa da cozinha, não pude deixar de sorrir. Ravena podia tentar o quanto quisesse, mas ela não podia apagar o fato de que, no fundo, ela ainda pertencia a nós. E eu, com toda a minha doçura e minhas curvas, era a única pessoa capaz de navegar pelas sombras dela sem se perder.

O jogo tinha começado. E se havia algo que uma Addams (ou alguém que amava como uma) sabia fazer, era jogar com o coração, mesmo que isso significasse um pouco de caos e algumas mentiras bem contadas.

— Prepare-se, Ravena — murmurei para o apartamento vazio. — Você acha que sabe lidar com demônios e monstros, mas você não tem ideia do que uma mulher "docinha" e determinada pode fazer.

A noite estava apenas começando, e em algum lugar da cidade, Ravena estava sentada em um restaurante chique, provavelmente ignorando a namorada e pensando no meu vestido verde. E essa ideia, mais do que qualquer papinha ou avental de cupcake, me fez sentir que eu já tinha vencido.