A bela e a fera
Veludo Carmim e o Gosto do Pecado
O espelho do banheiro estava levemente embaçado pelo vapor do banho, mas eu não precisava de uma imagem nítida para saber que estava diferente. Naquela noite, a "Karen docinha" tinha dado uma folga para o avental de cupcakes. Eu deslizei o vestido de veludo carmim pelo corpo, sentindo o tecido pesado e macio abraçar minhas curvas de um jeito que faria meu pai, Gomez, aplaudir de pé e minha mãe suspirar de orgulho. Ele era curto o suficiente para ser perigoso e justo o suficiente para não deixar dúvidas sobre o que havia por baixo.
Eu não tinha usado o verde que Ravena sugeriu. Não. Se ela queria jogar, eu usaria a cor do sangue, da paixão e do vinho proibido.
Passei o batom vinho, uma cor tão profunda que beirava o preto, destacando o desenho dos meus lábios. Eu parecia uma fruta madura pronta para ser colhida, ou talvez uma armadilha muito bem montada. O toque final foi o perfume: nada de baunilha hoje, apenas sândalo e um toque de jasmim noturno.
A campainha tocou exatamente às sete horas. Ravena era pontual como um relógio de catedral assombrada.
Respirei fundo, ajeitei o decote e caminhei até a porta. Quando a abri, o ar do corredor pareceu ser sugado para dentro dos pulmões dela. Ravena estava lá, com sua capa escura e a expressão de quem estava pronta para um funeral, mas seus olhos ametista se arregalaram. Ela me percorreu de cima a baixo, e eu vi o pomo de Adão em seu pescoço pálido mover-se quando ela engoliu em seco.
— Você... — Ela começou, a voz falhando por um milésimo de segundo. — Você não está usando o verde.
— Mudei de ideia, Ravena — eu disse, dando um passo para o lado com um sorriso languido. — O carmim combina mais com o meu humor hoje. Entre, a Dália está terminando de jantar.
Ravena entrou, mas seus movimentos estavam rígidos. Ela parecia estar tentando não respirar muito perto de mim, mas o perfume já deveria estar fazendo efeito. Ela deixou a pequena bolsa que trazia sobre a mesa e fixou o olhar em mim, ignorando completamente os brinquedos espalhados pelo chão.
— Esse vestido é... inadequado para uma livraria — comentou ela, a voz subindo um tom, denunciando sua irritação.
— Quem disse que vamos para uma livraria? — Perguntei, arqueando uma sobrancelha enquanto caminhava até a cozinha. — Vamos a um novo bar de vinhos no centro. Luz de velas, música baixa, esse tipo de coisa.
Ouvi os passos dela atrás de mim, mais pesados do que o normal. Ravena estava perdendo a compostura, e eu estava adorando cada segundo.
— Você não deveria sair assim — sibilou ela, parando na entrada da cozinha enquanto eu pegava minha bolsa. — Está frio lá fora. E as pessoas... as pessoas olham, Karen.
— Deixe que olhem, Rav — respondi, virando-me para encará-la. Eu estava a poucos centímetros dela agora. Senti o calor do meu corpo contrastando com a aura gélida que ela tentava manter. — Eu passei muito tempo escondida atrás de roupas largas e obrigações maternas. Hoje eu quero ser vista.
Ravena deu um passo à frente, invadindo meu espaço pessoal com uma urgência que me fez estremecer. Seus olhos brilhavam com aquela luz roxa perigosa.
— Você quer ser vista por ele? Por esse... padeiro de poesias? — A voz dela era um rosnado baixo. — Ele não tem ideia de quem você é. Ele vai ver a superfície e achar que pode te possuir.
— E por que isso te incomoda tanto? — Perguntei, inclinando a cabeça, deixando meu cabelo cair sobre um ombro. — Você tem a sua namorada, Ravena. Você tem os seus jantares. Por que eu não posso ter os meus?
A mandíbula dela se contraiu. Ela estendeu a mão e, desta vez, não parou no meio do caminho. Seus dedos frios tocaram a pele exposta do meu ombro, deslizando pelo veludo carmim. O toque dela era como gelo seco, queimando e congelando ao mesmo tempo.
— Porque você é minha — a palavra escapou dos lábios dela antes que ela pudesse filtrá-la.
Eu senti um choque percorrer minha espinha. Meus lábios se abriram levemente, o batom vinho brilhando sob a luz da cozinha.
— "Sua"? — Repeti, a voz num sussurro desafiador. — Acho que você esqueceu de assinar os papéis de renovação desse contrato, Ravena. Nós terminamos, lembra? "Incompatíveis", foi o que você disse.
— Eu disse muitas bobagens para tentar me proteger de você — ela rebateu, aproximando o rosto do meu. Eu podia sentir o cheiro de incenso que emanava dela, misturando-se ao meu perfume. — Você é um caos doce demais, Karen. Você desarmoniza tudo o que eu construí. Mas ver você assim... saindo para encontrar outro...
Ela apertou o meu ombro, não o suficiente para machucar, mas o suficiente para me prender ali. A possessividade dela estava transbordando, quebrando as barreiras de Azarath.
— O que você vai fazer, Ravena? — Desafiei, meu coração batendo tão forte que eu tinha certeza de que ela podia ouvir. — Vai me impedir de sair? Vai usar seus poderes para trancar a porta?
— Eu não preciso de magia para isso — disse ela, a voz rouca. Seus olhos desceram para os meus lábios, fixando-se na cor profunda do batom.
Nesse momento, um choro baixo veio do quarto. Dália tinha acordado.
O feitiço se quebrou, mas apenas parcialmente. Ravena não recuou. Ela apenas desviou o olhar por um segundo antes de voltar a focar em mim.
— Vá — disse ela, embora sua mão ainda estivesse no meu ombro. — Vá para o seu encontro. Mas saiba que eu estarei aqui, na sua casa, cuidando da nossa filha e contando cada segundo até você voltar. E se ele encostar um dedo em você...
— Se ele encostar um dedo em mim, o quê? — Provoquei, sentindo uma onda de adrenalina.
— Ele vai descobrir que o inferno não é apenas um conceito metafórico — respondeu ela, soltando-me bruscamente.
Eu sorri, um sorriso vitorioso e secreto. Ajeitei o vestido mais uma vez e peguei minhas chaves.
— O jantar dela está na geladeira. Não a deixe dormir muito tarde, ela fica rabugenta — eu disse, caminhando em direção à porta da sala.
Parei com a mão na maçaneta e olhei para trás. Ravena ainda estava parada na cozinha, uma silhueta de sombras e dor reprimida contra a luz quente do ambiente.
— Ah, e Ravena? — Chamei.
— O que é? — Ela perguntou, sem se virar.
— Não me espere acordada. O vinho daquele bar dizem ser excelente, e eu pretendo aproveitar cada gota.
Saí e fechei a porta, ouvindo o som de algo quebrando na cozinha — provavelmente um copo que se estilhaçou sob a pressão telecinética dela. Sorri enquanto descia as escadas. Eu não tinha um encontro com um padeiro, na verdade, eu ia apenas me sentar sozinha naquele bar, ler um livro de poesias sombrias e tomar uma taça de Merlot.
Mas Ravena não precisava saber disso. Ela precisava sentir o medo da perda, precisava entender que o "doce" Gomez Addams que vivia em mim também sabia como travar uma guerra psicológica.
Enquanto eu caminhava pela rua fria, sentindo o veludo contra minha pele, eu sabia que a noite seria longa para ela. E quando eu voltasse, com o gosto de vinho nos lábios e o perfume de liberdade no corpo, Ravena estaria pronta para admitir que não importa quantas namoradas perfeitas ela encontrasse, nenhuma delas jamais seria o seu caos favorito.
Eu era a luz que ela tentava evitar, mas era a única luz que conseguia iluminar o abismo que ela chamava de coração. E naquela noite, o carmim venceria o azul-escuro.
Entrei no bar, escolhi a mesa mais visível da vitrine e pedi a garrafa mais cara. Eu sabia que, de algum lugar nas sombras da minha sala, Ravena estava tentando não usar sua projeção astral para me vigiar. E eu fiz questão de erguer a taça, brindando ao vazio, sabendo que ela sentiria o gosto do meu triunfo em cada poro de sua pele gélida.
O jogo estava apenas na metade, e eu nunca estive tão pronta para ganhar.