A bela e a fera
O Eco das Sombras e o Veludo do Vinho
O vapor ainda flutuava pelo quarto, carregando o aroma inebriante de sais de banho de cereja negra e óleos essenciais. Eu havia acabado de sair da banheira, a pele ainda quente e levemente rosada pela temperatura da água. No espelho embaçado, eu via apenas os contornos da minha silhueta: baixa, curvilínea, o tipo de corpo que Ravena outrora chamou de "um santuário de suavidade".
Dália finalmente havia adormecido. Tê-la em casa era um caos delicioso, mas quando o silêncio caía sobre o apartamento, o peso da presença de Ravena na sala tornava-se quase físico. Ela não tinha ido embora após o "encontro" que eu inventei. Ela alegou que era tarde demais para o portal de Azarath ou que a energia de Dália estava instável — desculpas esfarrapadas que eu aceitei com um sorriso interno.
Abri a gaveta e tirei a lingerie de renda cor de vinho tinto. Era uma peça de seda e detalhes finos que abraçava meus quadris e sustentava meus seios de uma forma que me fazia sentir poderosa, apesar da minha estatura. Eu não estava fazendo isso por ela, disse a mim mesma enquanto prendia o cabelo em um coque desfeito, deixando algumas mechas caírem pelo pescoço. Eu estava fazendo isso por mim.
Mas, ao caminhar em direção à sala para buscar meu robe, eu sabia que a fronteira entre o "eu" e o "nós" era tão tênue quanto a renda que eu vestia.
A sala estava mergulhada em uma penumbra azulada, quebrada apenas pela luz fraca de uma luminária de canto. Ravena estava sentada no sofá, com um livro de rituais antigos aberto no colo, mas seus olhos não estavam nas páginas. Ela olhava para o vazio, a capa jogada sobre o encosto, revelando seus ombros pálidos sob a túnica escura.
Quando entrei no recinto, o ar pareceu vibrar. Ravena virou a cabeça devagar, e o livro deslizou de seus dedos, caindo silenciosamente sobre o tapete.
— Pensei que você já estivesse dormindo — disse ela, sua voz soando como um violoncelo em uma catedral vazia.
— O banho demorou mais do que o esperado — respondi, parando a poucos metros dela. Eu não estava usando o robe. Deixei que ela visse tudo: a pele macia, a lingerie que parecia mergulhada em vinho, a confiança que eu emanava. — Dália deu trabalho?
Ravena demorou a responder. Seus olhos ametista percorreram cada centímetro do meu corpo, descendo pelas curvas do meu quadril e subindo novamente até encontrarem os meus. Eu vi o brilho roxo em suas pupilas intensificar-se, um sinal claro de que suas emoções estavam lutando contra o controle férreo que ela tanto prezava.
— Ela apagou assim que terminei de ler o terceiro capítulo de "O Corvo" — murmurou Ravena, levantando-se lentamente. — Karen... você não deveria estar andando pela casa assim.
— Por que não? — Dei um passo à frente, sentindo o calor do meu próprio corpo desafiar o frio que costumava cercá-la. — Esta é a minha casa, Ravena. E você é minha ex-esposa. Já viu cada centímetro de mim milhares de vezes. Ou será que sua memória de Azarath é tão curta assim?
— Minha memória é impecável — rebateu ela, a voz subindo uma oitava, carregada de uma tensão que beirava o perigo. — Esse é exatamente o problema. Eu me lembro de tudo. E ver você agora... desse jeito... é uma tortura que nem Trigon seria capaz de conceber.
Sorri, aproximando-me ainda mais até que a ponta do meu nariz quase tocasse o tecido da túnica dela. Eu era muito mais baixa, o que me obrigava a olhar para cima, mas naquele momento, eu sentia que tinha toda a vantagem do mundo.
— Você está incomodada, Rav? — Sussurrei, deixando minha mão roçar levemente o braço dela. — Achei que você estivesse muito ocupada com sua nova namorada para se importar com o que eu visto ou deixo de vestir.
Ravena segurou meu pulso com uma rapidez sobrenatural. Seus dedos estavam gelados, mas o aperto era possessivo, quase desesperado.
— Não fale dela — sibilou ela. — Não agora. Não quando você está exalando esse perfume e me olhando como se quisesse me ver queimar.
— Talvez eu queira — confessei, minha voz perdendo a provocação e ganhando uma nota de honestidade dolorosa. — Você foi embora, Ravena. Você decidiu que o nosso "doce" era demais para a sua escuridão. E agora você volta aqui, cuida da nossa filha, e me olha com esse desejo que você tenta esconder atrás de meditação e mantras. É cruel.
— Eu fui embora para te salvar de mim mesma! — Ela explodiu, e por um segundo, os objetos ao redor flutuaram alguns centímetros do chão. — Minha magia é instável, meu mundo é perigoso. Você é luz, Karen. Você é sol e açúcar. Eu não queria apagar o seu brilho com as minhas sombras.
— E quem te deu o direito de decidir o que eu posso suportar? — Retruquei, puxando meu pulso e colando meu peito ao dela. — Eu sou uma Addams de coração, Ravena. Nós não buscamos segurança. Nós buscamos a tempestade. E eu sempre amei a sua escuridão.
Ravena soltou um suspiro trêmulo, e a aura negra que a rodeava pareceu suavizar-se, transformando-se em algo mais denso e íntimo. Ela levou as mãos ao meu rosto, seus polegares acariciando minhas bochechas com uma ternura que me fez fechar os olhos.
— Você é tão teimosa — murmurou ela, aproximando os lábios do meu ouvido. — Tão doce e tão irritantemente persistente.
— E você está morrendo de vontade de me beijar — eu disse, sentindo meu coração martelar contra as costelas. — Desde o momento em que abri a porta hoje à noite.
— Sim — admitiu ela, a rendição finalmente transparecendo em sua voz. — Eu estou.
Ela não esperou que eu respondesse. Ravena selou nossos lábios com uma urgência que me tirou o fôlego. Não era um beijo delicado; era um encontro de fomes reprimidas, de meses de silêncio e saudade transformados em contato físico. O gosto dela era como chá de ervas e mistério, e o meu, eu sabia, tinha o açúcar que ela fingia não precisar.
Minhas mãos subiram para o pescoço dela, puxando-a para mais perto, querendo eliminar qualquer espaço que restasse entre nós. Ravena soltou um gemido baixo contra minha boca, e suas mãos desceram para a minha cintura, apertando a carne ali com uma possessividade que me fez arfar.
— Karen... — Ela sussurrou entre os beijos, sua voz carregada de uma vulnerabilidade que ela raramente mostrava. — Isso é um erro. Nós vamos acabar nos destruindo de novo.
— Então que nos destruamos — respondi, mordendo levemente o lábio inferior dela. — Prefiro estar em ruínas com você do que inteira sem você.
Ravena me pegou no colo com uma facilidade que sempre me surpreendia, minhas pernas se entrelaçando em sua cintura instantaneamente. Ela me levou em direção ao quarto, mas parou no batente da porta, olhando para o berço de Dália no corredor.
— Ela está dormindo profundamente — eu disse, acariciando o rosto dela. — Esqueça o mundo lá fora, Ravena. Esqueça Azarath, esqueça sua namorada, esqueça as regras. Apenas seja minha. Só por esta noite.
Ela me colocou sobre a cama, o veludo da colcha contrastando com a renda vinho da minha lingerie. Ravena ficou de pé por um momento, observando-me sob a luz do luar que entrava pela janela. Ela parecia uma deusa das sombras contemplando sua oferenda mais preciosa.
— Eu nunca deixei de ser sua — confessou ela, desfazendo o fecho de sua túnica. — Esse é o meu maior pecado e minha única salvação.
Quando ela se juntou a mim na cama, o frio que a cercava desapareceu, substituído por um calor febril. Suas mãos exploraram cada curva do meu corpo, cada dobra de pele que eu às vezes tentava esconder, mas que sob o toque dela, tornavam-se obras de arte. Ravena beijou a curva do meu pescoço, descendo para o meu colo, seus lábios traçando o caminho da renda vinho.
— Você é tão linda — sussurrou ela contra minha pele. — Tão cheia de vida.
— E você é a única que sabe como me fazer sentir assim — respondi, puxando-a para cima de mim. — Não me deixe de novo, Ravena. Não use a sua magia para fugir do que você sente.
— Eu não posso prometer que as sombras não voltarão — disse ela, olhando-me nos olhos, a cor ametista brilhando com uma intensidade eterna. — Mas eu prometo que, enquanto eu tiver forças, eu lutarei para voltar para este quarto. Para você.
O resto da noite foi um borrão de sensações e sussurros. Não havia mais espaço para o sarcasmo ou para os jogos de ciúmes que tentamos jogar mais cedo. Havia apenas a verdade crua de duas almas que, apesar de mundos opostos, não conseguiam funcionar separadas.
Horas depois, quando a primeira luz do amanhecer começou a tingir o céu de um cinza pálido, eu estava deitada com a cabeça no peito de Ravena. O silêncio da casa era reconfortante. Eu podia ouvir a respiração rítmica de Dália pelo monitor de bebê e as batidas do coração de Ravena sob meu ouvido.
— Ravena? — Chamei baixinho.
— Hum? — Ela respondeu, passando os dedos pelos meus cabelos desgrenhados.
— O que vamos fazer sobre a namorada? — Perguntei, sentindo um pingo de insegurança retornar.
Ravena ficou em silêncio por um longo tempo. Ela se inclinou e beijou o topo da minha cabeça.
— Eu vou terminar com ela, Karen. Eu tentei encontrar uma normalidade que não existe para mim. Eu tentei ser alguém que não precisa de você, e falhei miseravelmente.
— E o meu encontro com o padeiro? — Brinquei, olhando para ela com um sorriso travesso.
Ravena arqueou uma sobrancelha, e um pequeno sorriso sombrio apareceu em seus lábios.
— Se aquele homem aparecer na sua porta, eu vou garantir que todos os pães que ele assar pelo resto da vida tenham gosto de cinzas e desespero.
Ri alto, sentindo a felicidade borbulhar no meu peito. Era um sentimento Addams: possessivo, um pouco insano, mas absolutamente real.
— Acho que isso resolve as coisas — eu disse, aninhando-me mais nela.
— Por enquanto — disse Ravena, fechando os olhos. — Mas não pense que vou facilitar para você. Você ainda é irritantemente doce.
— E você ainda é deliciosamente amarga — retruquei. — É por isso que funcionamos.
Dália soltou um pequeno resmungo pelo monitor, indicando que logo acordaria para o café da manhã. O dia estava começando, e com ele, uma nova chance de reconstruir o que havíamos quebrado. Não seria fácil, e as sombras de Ravena ainda estariam lá, assim como meu otimismo teimoso. Mas enquanto o sol nascia sobre Jericho, eu sabia que a cor vinho daquela noite ficaria marcada em nossas memórias como o momento em que paramos de fugir.
— Eu te amo, Ravena — sussurrei, quase pegando no sono.
Houve uma pausa longa, o tipo de pausa que Ravena usava para processar emoções que a assustavam. Mas então, senti o aperto de seus braços ao meu redor fortalecer-se.
— Eu te amo, Karen. Mais do que a escuridão ama o silêncio.
E naquele pequeno apartamento, cercadas por brinquedos de bebês e livros de rituais, o açúcar e o sal finalmente encontraram seu equilíbrio perfeito novamente. A família estava completa, e o caos, como sempre, era o nosso convidado de honra.