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A bela e a fera

O Eclipse das Estrelas e o Gosto da Traição

As luzes do tapete vermelho eram tão intensas que pareciam querer queimar a verdade sob a minha pele. O evento de gala em Los Angeles estava lotado de rostos que o mundo inteiro adorava, mas para mim, cada flash de câmera parecia um prego sendo batido no meu coração. Eu estava ali, Karen, a mulher que sempre preferiu o silêncio de uma biblioteca ou o calor de uma cozinha ao caos da fama. Mas eu não era apenas Karen. Eu era, ou fui, a chama gêmea de Jenna Ortega.

Eu usava um vestido preto profundo, de um cetim que abraçava minhas curvas e caía suavemente até o chão. Minha baixa estatura sempre me fazia sentir como se eu estivesse submersa em um mar de gigantes elegantes, mas naquela noite, eu carregava o peso de Gomez Addams em minha postura: melancólica, intensa e perigosamente ferida.

Eu tentava evitar olhar para o centro do salão, onde o burburinho era mais alto. Eu sabia quem estava lá. Jenna estava radiante, cercada por fotógrafos, com aquele olhar afiado e misterioso que conquistou o planeta. E ao lado dela, como sempre nos últimos meses, estava Emma. A química entre elas nas telas era inegável, mas o que me matava era o que eu via nas fotos de paparazzi: os sussurros, as mãos dadas, a cumplicidade que antes pertencia apenas a nós duas.

Peguei uma taça de champanhe de uma bandeja que passava, sentindo o líquido gelado descer queimando. Eu me sentia uma intrusa no mundo dela, uma sombra gordinha e doce que não combinava mais com o brilho da estrela em ascensão.

— Você está bebendo como se estivesse tentando afogar um fantasma, Karen — uma voz familiar, rouca e baixa, soou logo atrás de mim.

Meu corpo inteiro travou. Eu reconheceria aquele tom em qualquer lugar. Era Jenna. Virei-me lentamente, tentando manter a máscara de indiferença que levei horas praticando na frente do espelho.

— Fantasmas não morrem por afogamento, Jenna — respondi, minha voz saindo mais firme do que eu esperava. — Eles apenas aprendem a nadar nas águas da amargura.

Jenna deu um passo à frente. Ela estava deslumbrante, o cabelo preso de forma que realçava seus traços fortes. Seus olhos escuros me atravessaram, buscando aquela conexão que sempre tivemos, aquele fio invisível que nos unia como chamas gêmeas.

— Você sumiu — disse ela, ignorando o sarcasmo. — Eu te mandei mensagens. Liguei. Você simplesmente desapareceu no meio da fumaça.

— O que você esperava? — Dei um riso curto e sem alegria. — Que eu ficasse assistindo da primeira fila? Eu vi as entrevistas, Jenna. Eu vi o jeito que você olha para a Emma. Eu vi como o mundo inteiro decidiu que vocês são o casal perfeito. Eu só facilitei as coisas para você.

Jenna franziu a testa, um brilho de irritação e dor cruzando seu rosto. Sem dizer uma palavra, ela segurou meu pulso. O toque dela ainda era o mesmo: elétrico, possessivo, capaz de incendiar minha alma em segundos. Ela me arrastou para uma varanda isolada, longe do barulho da orquestra e dos flashes.

O ar da noite de Los Angeles estava fresco, mas a tensão entre nós era sufocante. Jenna fechou a porta de vidro atrás de nós e se virou, os olhos faiscando sob a luz da lua.

— Como você pode ser tão estúpida? — ela perguntou, a voz tremendo de uma emoção contida. — Você realmente acha que anos de conexão, de tudo o que vivemos, poderiam ser substituídos por marketing de estúdio?

— Marketing? — Cruzei os braços sobre o peito, sentindo-me pequena, mas furiosa. — Não parecia marketing quando você estava rindo com ela naquele jantar. Não parecia marketing quando você esqueceu de me ligar no nosso aniversário porque estava "trabalhando até tarde" com ela. Você escolheu o brilho dela, Jenna. Ela é o que o seu mundo espera de você. Eu sou apenas a Karen.

— Eu fui covarde — admitiu ela, os olhos brilhando com lágrimas próprias. — A fama é um monstro, Karen. Eu quis te proteger desse circo, mas acabei te empurrando para fora da minha vida. Eu percebi que não há segurança em um mundo onde eu não posso te tocar.

— Você me trocou pelo aplauso, Jenna — eu disse, embora meu coração estivesse começando a ceder sob o toque dela.

— Nunca — ela encostou a testa na minha. — Eu trocaria cada prêmio por mais cinco minutos deitada no seu colo. A Emma sabe disso. Todo mundo que me conhece de verdade sabe que meu coração bate em um ritmo que só você conhece.

Eu me afastei, sentindo que precisava de ar, de um conselho que não viesse do furacão que era Jenna. Saí da varanda e caminhei apressadamente pelos corredores do hotel de luxo até encontrar a suíte privada que eu sabia estar reservada para a família Jolie.

Bati na porta e, segundos depois, Shiloh abriu. Ela me olhou com aqueles olhos que pareciam ler minha alma e, sem dizer nada, me puxou para dentro. Angelina estava sentada em uma poltrona de veludo, elegante como uma pintura renascentista, segurando uma xícara de chá. Ela era minha mãe de alma, a mulher que me acolheu quando o mundo de Hollywood tentou me mastigar.

— Minha querida — Angelina disse, sua voz suave como seda. — Você parece ter visto um espectro.

Sentei-me no chão, aos pés dela, enquanto Shiloh se sentava ao meu lado, colocando a mão no meu ombro.

— É a Jenna, mãe — comecei, sentindo o peso das palavras. — Eu não aguento mais. Ela diz que somos chamas gêmeas, mas parece que tudo o que eu dei para ela simplesmente evaporou.

— O que ela fez agora? — perguntou Shiloh, com um tom protetor.

— Ela age como se a Emma fosse o novo centro do universo dela — desabafei, olhando para Angelina. — Ela diz que quer ser diferente, que quer uma vida nova, e parece que nessa vida não cabe uma garota baixinha e gordinha que gosta de cozinhar e ler poemas fúnebres. Parece que ela prefere a perfeição plástica da Emma ao meu amor real.

Angelina inclinou-se para frente, acariciando meu rosto com os dedos longos.

— Karen, ouça-me bem. Jenna está perdida no labirinto da própria imagem. Ela é jovem e o mundo está gritando no ouvido dela o tempo todo. Mas você não é "comum". Você é a âncora dela. E às vezes, as pessoas que estão à deriva têm medo da âncora porque ela as obriga a parar e encarar o que realmente sentem.

— Mas dói — eu disse, abraçando meus próprios joelhos. — Dói ver que tudo o que construímos parece ter virado fumaça por causa de um "shipp" de internet.

— Jenna é sua chama gêmea — Shiloh interveio, a voz firme. — E chamas gêmeas não evaporam. Elas podem diminuir até virarem brasas, mas o fogo ainda está lá. Se ela disse que quer ser diferente, talvez seja porque ela está tentando se encontrar. O problema é que ela está procurando nos lugares errados.

— Eu sinto que dei tudo de mim — continuei, sentindo as lágrimas caírem. — Dei meu apoio, meu corpo, minha alma. E agora parece que ela olha para a Emma com um brilho que nunca mais vi direcionado a mim.

— Você está comparando o brilho de um refletor com o brilho do sol — Angelina disse seriamente. — O que ela tem com a Emma é luz artificial. O que ela tem com você é o calor que impede que ela congele por dentro. Se ela não perceber isso logo, ela vai se perder para sempre. Mas você, Karen, não pode se diminuir para caber na confusão dela.

— O que eu devo fazer? — perguntei, buscando a sabedoria delas.

— Você deve ser você mesma — Shiloh sorriu. — Seja a Addams intensa que você é. Seja a mulher doce que não aceita migalhas. Se Jenna quer você, ela tem que vir buscar você no meio da tempestade, não em um tapete vermelho.

Levantei-me, secando o rosto. A força de Angelina e o apoio de Shiloh me deram a coluna vertebral que eu tinha perdido nos últimos meses.

— Eu vou voltar lá — disse eu. — Mas não vou ser a sombra dela. Se ela me quer, vai ter que provar que o que temos não evaporou.

Saí da suíte e voltei para o salão. Jenna ainda estava na varanda, olhando para a cidade. Quando me viu entrar, ela se levantou prontamente.

— Karen, por favor... — ela começou.

— Não, Jenna — interrompi, aproximando-me dela com a intensidade de um vulcão prestes a entrar em erupção. — Você diz que quer ser diferente. Você diz que gosta da Emma porque ela é "fácil" e "perfeita" para o mundo. Mas eu não sou o mundo. Eu sou a sua chama gêmea. E se você acha que tudo o que eu te dei evaporou, você não está apenas mentindo para mim, está mentindo para a sua própria alma.

Jenna ficou em silêncio, o impacto das minhas palavras visível em seus ombros caídos.

— Eu não gosto da Emma do jeito que você pensa — ela sussurrou. — Eu só... eu tive medo de não ser o suficiente para você se eu não fosse a "Jenna Ortega" que todos esperam.

— Você sempre foi o suficiente — eu disse, pegando a mão dela e colocando-a sobre o meu coração. — Sente isso? Isso aqui não bate por uma estrela de cinema. Bate pela garota que tem medo do escuro e que ama poesia. Se você escolher a Emma, você escolhe a imagem. Se você me escolher, você escolhe a verdade.

Jenna olhou para nossas mãos unidas e depois para os meus olhos. O brilho ametista da paixão, aquele que eu achava que tinha morrido, voltou com uma força avassaladora.

— Eu escolho a verdade — disse ela, puxando-me para um abraço apertado. — Eu escolho você, Karen. Mil vezes você.

Naquela noite, sob o olhar atento de Angelina e Shiloh que observavam de longe, a chama gêmea não evaporou. Ela se tornou um incêndio que Hollywood jamais seria capaz de apagar. Eu era Karen, a "docinha" com alma de Gomez Addams, e Jenna era minha. E desta vez, não haveria Emma, nem fama, nem mentiras que pudessem nos separar.