A bela e a fera
O Neon de Ametista e o Veneno do Desejo
A música pulsava através do chão da boate "O Elixir", uma batida grave que eu sentia vibrar nas solas dos meus pés e subir pelas minhas coxas. O lugar estava saturado com o cheiro de fumaça doce, perfumes caros e o calor de corpos em movimento. Eu estava usando um vestido de veludo preto, curto o suficiente para mostrar que minhas pernas eram grossas e macias, e com um decote que valorizava o colo que Ravena sempre dizia ser o seu refúgio favorito. Eu era baixa, era gordinha, e naquela noite, eu me sentia absolutamente letal.
— Karen, você precisa parar de olhar para a porta e começar a olhar para esse drink! — gritou Bia, uma das minhas amigas, tentando ser ouvida acima do sintetizador ensurdecedor.
— Eu não estou olhando para a porta — menti, dando um gole generoso na minha margarita de morango. — Estou apenas apreciando a decoração gótica decadente. É muito a minha cara.
— Sei — Bia riu, puxando-me para o centro da pista. — Esqueça a ex-mulher sombria por uma noite. Vamos dançar!
Eu me deixei levar. Eu dançava com aquela confiança que só quem tem a doçura de um Addams e a intensidade de um furacão possui. Eu sabia que chamava atenção; minhas curvas se moviam com uma graça que desafiava a gravidade, e meu sorriso, embora doce, carregava uma promessa de perigo. Eu estava cercada por amigas, rindo, jogando o cabelo para trás, quando o ar ao meu redor subitamente esfriou.
Não era um frio de ar-condicionado. Era aquele gelo familiar, aquela queda de temperatura que sinalizava a presença de algo — ou alguém — com uma conexão direta com as dimensões sombrias.
Eu não precisei me virar para saber que ela estava lá. Mas, quando finalmente olhei por cima do ombro, meu coração deu um solavanco.
Ravena estava encostada no balcão de mármore do bar. Ela parecia uma visão saída de um pesadelo elegante, vestida inteiramente de couro escuro e seda. E, para meu absoluto desgosto, havia uma garota pendurada nela. Uma loira alta, magra como um palito, que sussurrava algo no ouvido de Ravena enquanto passava a mão pelo ombro da minha ex.
— Ignora, Karen. Apenas ignora — sussurrei para mim mesma, voltando a dançar com mais vigor.
Eu fechei os olhos e me perdi na música, deixando meu corpo ditar o ritmo. Eu sentia os olhares na boate, mas havia um que queimava mais que os outros. Era um olhar que eu conhecia na pele, um olhar que costumava me despir em segundos. Ravena estava me observando. Ela não estava ouvindo a loira; ela estava fixada em mim, seus olhos ametista brilhando no escuro da boate.
— Oi — uma voz suave soou perto do meu ouvido.
Abri os olhos e dei de cara com uma garota de cabelos acobreados e um sorriso gentil. Ela era bonita, com um jeito atlético e olhos que brilhavam de admiração.
— Você dança muito bem — disse ela, aproximando-se um pouco mais do que o necessário para uma conversa casual. — Sou a Taís.
— Karen — respondi, mantendo o ritmo da dança, mas permitindo que ela entrasse no meu espaço pessoal. — Obrigada, Taís.
— Quer companhia para a próxima música? — perguntou ela, colocando a mão levemente na minha cintura.
Pelo canto do olho, vi Ravena se empertigar no balcão. A garota loira tentou beijar o pescoço dela, mas Ravena a afastou bruscamente, sem tirar os olhos de mim e de Taís. Uma onda de satisfação sombria percorreu minha espinha.
— Eu adoraria — respondi para Taís, sorrindo com toda a doçura venenosa que eu conseguia reunir.
Dançamos juntas por três músicas. Taís era charmosa, fazia elogios sobre como eu era "gostosa e fofa ao mesmo tempo", e eu deixei que ela se aproximasse. Eu sentia a pressão da mão dela na minha lombar, e por um momento, quase esqueci o par de olhos roxos que pareciam querer incendiar a boate inteira.
Quase.
— Com licença, vou ao banheiro rapidinho e já volto — disse para Taís, dando-lhe um tapinha no ombro.
— Não demora, Karen. Vou estar te esperando aqui — ela piscou.
Caminhei em direção ao corredor dos fundos, onde o som da música ficava um pouco mais abafado. Eu precisava de um minuto para respirar, para lavar o rosto e acalmar o tremor nas minhas mãos. Entrei no banheiro feminino, que por sorte estava vazio, e me apoiei na pia de porcelana gelada.
— Você está sendo ridícula, Karen — murmurei para o meu reflexo. — Ela está com outra. Você está com outra. É assim que a vida funciona.
A porta do banheiro se abriu com um estrondo suave, mas carregado de energia. Eu não precisei olhar para saber quem era. O perfume de sândalo e incenso de Azarath inundou o cubículo pequeno.
— O que você pensa que está fazendo? — A voz de Ravena era um rosnado baixo, vibrando com uma possessividade que fez os espelhos vibrarem levemente.
Virei-me devagar, cruzando os braços sobre o peito. Ravena estava parada junto à porta, que ela havia trancado com um movimento sutil de dedos. Ela parecia furiosa.
— Estou usando o banheiro, Ravena. É para isso que esses lugares servem — respondi com uma calma que eu definitivamente não sentia.
— Não se faça de sonsa, Karen — ela deu um passo à frente, invadindo meu espaço. — Quem é aquela garota? E por que ela estava com as mãos em você daquele jeito?
— O nome dela é Taís. E ela estava comigo porque eu permiti — dei de ombros, forçando um sorriso de descaso. — Ela é muito gentil. E, ao contrário de certas pessoas, ela não parece ter medo de demonstrar que me acha atraente em público.
Ravena soltou uma risada seca, sem humor.
— Atraente? Ela estava te olhando como se fosse um pedaço de carne. Ela não sabe nada sobre você. Ela não sabe que você gosta de ler contos de terror antes de dormir ou que seu corpo reage a cada toque meu como se fosse o primeiro.
— Isso não importa mais, não é? — Dei um passo em direção a ela, sentindo o calor que emanava do seu corpo. — Você está lá fora com uma loira que parece um enfeite de natal. Por que você se importa com quem eu danço?
Ravena me prensou contra a pia, suas mãos espalmando o mármore frio de cada lado do meu quadril. Ela era um pouco mais alta que eu, o que a obrigava a inclinar o rosto para baixo, seus olhos ametista faiscando de um ciúme doentio e delicioso.
— Eu me importo porque você ainda é minha — sussurrou ela, a voz carregada de uma promessa perigosa. — Você pode dançar com quem quiser, pode tentar me ignorar, mas no final da noite, é o meu nome que você sussurra quando está sozinha.
— Você está sendo arrogante — eu disse, embora minha respiração estivesse ficando curta. — Você me deixou, lembra? Você disse que precisava de "espaço". Pois bem, este é o meu espaço. E a Taís está lá fora esperando por mim.
— Deixe que ela espere — Ravena aproximou o rosto do meu pescoço, e eu senti o hálito quente dela contra a minha pele. — Aquela menina é uma distração barata. Ela não aguenta dez minutos da intensidade que você exige. Ela não conhece a escuridão que nós compartilhamos.
— E a sua loira? — provoquei, sentindo meu corpo trair minha mente e se inclinar em direção a ela. — Ela conhece a sua escuridão? Ou ela só serve para você fingir que seguiu em frente?
Ravena rosnou, um som puramente animal, e enterrou o rosto na curva do meu pescoço, aspirando meu perfume com uma voracidade que me fez tremer.
— Ela não é nada — admitiu Ravena, a voz abafada contra a minha pele. — Ela é um ruído de fundo. Um erro que eu cometi para tentar apagar o seu cheiro da minha mente. Mas não funciona, Karen. Nunca funciona.
Senti as mãos dela subirem pelas minhas coxas, o couro de suas luvas contrastando com a maciez do meu vestido de veludo. Eu deveria empurrá-la. Eu deveria voltar para a Taís e provar que eu era independente. Mas eu era uma Addams de coração, e nós nunca fomos bons em resistir ao que nos incendeia.
— Você é tão possessiva — murmurei, minhas mãos encontrando o colarinho da jaqueta dela e puxando-a para mais perto. — É doentio.
— É o que somos — Ravena levantou o rosto, seus lábios a milímetros dos meus. — Você ama isso. Você ama saber que eu mataria qualquer pessoa que tentasse tirar você de mim.
— Talvez — confessei, sentindo o desejo queimar como ácido no meu estômago. — Mas isso não muda o fato de que você me machucou.
— Eu sei — Ravena suavizou o olhar por um breve segundo, uma vulnerabilidade rara cruzando sua expressão. — E eu vou passar o resto da eternidade compensando isso. Mas não me peça para ficar assistindo enquanto outra pessoa toca o que pertence a mim.
Ela selou nossos lábios com um beijo que tinha gosto de saudade, fúria e uma necessidade avassaladora. Era um beijo que reivindicava território, que apagava qualquer vestígio de Taís ou da loira lá fora. Eu respondi com a mesma força, minhas unhas cravando-se nos ombros dela, querendo marcar cada centímetro daquela pele pálida.
Ravena me levantou, sentando-me na pia de mármore. O frio da pedra contra minhas pernas nuas era o contraste perfeito para o calor febril do corpo dela. Ela me beijava como se estivesse morrendo de sede e eu fosse a única fonte de água no deserto de sua alma.
— Karen... — ela sussurrou contra minha boca —... diga que você é minha. Diga para eu ouvir.
— Você é uma idiota controladora — respondi, puxando o lábio inferior dela com os dentes. — Mas sim, eu sou sua. Infelizmente para a minha sanidade, eu sempre serei sua.
Alguém tentou abrir a porta do banheiro, forçando a maçaneta.
— Tem gente! — gritei, sem tirar os olhos de Ravena.
Ravena soltou um risinho sombrio, um som que raramente saía de seus lábios. Ela se afastou apenas o suficiente para me olhar nos olhos, suas mãos ainda possessivamente firmes na minha cintura.
— Vamos sair daqui — disse ela. — Agora.
— E os nossos acompanhantes? — perguntei, embora já soubesse a resposta.
— Eles que se encontrem e chorem as mágoas juntos — Ravena deu de ombros, a indiferença voltando à sua face, exceto pelo brilho possessivo que permanecia direcionado a mim. — Eu vou te levar para casa. Para a nossa casa.
— Ravena... — tentei protestar, mas ela me calou com um beijo curto e firme.
— Sem discussões, Karen. Eu já tive paciência demais assistindo você dançar com aquela... humana. Se eu ficar aqui mais cinco minutos, eu juro que transformo esta boate em um mausoléu.
Ajeitei meu vestido e meu cabelo no espelho, tentando esconder o fato de que eu tinha acabado de ser "reivindicada" em um banheiro público. Ravena destrancou a porta e me ofereceu o braço, um gesto cavalheiresco que escondia a ameaça implícita de que ela não me soltaria nunca mais.
Saímos do corredor e atravessamos a boate. Vi Taís parada perto da pista, procurando por mim com uma expressão confusa. Quando ela nos viu passando — eu, agarrada ao braço de uma Ravena que parecia pronta para decapitar qualquer um que cruzasse nosso caminho —, ela abriu a boca para falar algo, mas Ravena apenas lançou-lhe um olhar tão gélido, tão carregado de poder sombrio, que a pobre garota recuou dois passos e desviou o olhar instantaneamente.
A loira que estava com Ravena tentou se aproximar, mas Ravena nem sequer reduziu o passo.
— Acabou, Clarisse. Vá para casa — disse Ravena, sem nem olhar para ela.
Saímos para o ar fresco da noite de Jericho. O silêncio da rua era um bálsamo depois do caos sonoro da boate. Ravena me conduziu até o seu carro — um clássico preto que parecia um carro fúnebre de luxo — e abriu a porta para mim.
— Você é impossível — eu disse, sentando-me no banco de couro.
— E você é viciada nisso — respondeu ela, fechando a porta e dando a volta para o banco do motorista.
Enquanto ela dirigia pelas ruas desertas, eu olhava para o perfil dela, iluminado pelas luzes da cidade. Ravena era complicada, era sombria, e o seu ciúme era uma força da natureza que eu não tinha certeza se queria domar.
— Karen? — chamou ela, sem tirar os olhos da estrada.
— O quê?
— Na próxima vez que você quiser me deixar com ciúmes, tente alguém que seja minimamente um desafio. Aquela garota era um insulto ao meu bom gosto.
Eu ri, uma risada doce que preencheu o silêncio do carro.
— Não haverá próxima vez, Ravena. Pelo menos não se você aprender a se comportar.
— Addams e Azarath não se comportam, Karen — ela pegou minha mão e a levou aos lábios, beijando meus dedos com uma ternura que contrastava com a fúria de minutos atrás. — Elas apenas dominam.
Eu me encostei no banco, sentindo o calor voltar ao meu corpo. O neon de ametista da boate tinha ficado para trás, mas o veneno do desejo ainda corria em nossas veias. Eu era gordinha, era baixinha, e era a única pessoa no mundo capaz de colocar a Rainha das Sombras de joelhos. E, enquanto o carro nos levava de volta para o nosso refúgio particular, eu soube que, não importa quantas loiras ou astrofísicas cruzassem nosso caminho, o eclipse final sempre pertenceria a nós duas.