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A bela e a fera

O Eclipse da Carne e o Rugido do Silêncio

A terça-feira em Jericho sempre parecia carregar um peso diferente, uma névoa que se arrastava das florestas circundantes para as ruas de paralelepípedos, mas dentro do meu apartamento, o ar estava tão denso que poderia ser cortado com uma das adagas rituais da família de Ravena. Dália já estava no quarto, devidamente instalada em seu berço após uma tarde de brincadeiras que a deixaram exausta. O silêncio que se seguiu não era de paz; era o silêncio que precede a tempestade, o momento exato em que o raio decide onde vai atingir.

Ravena estava parada junto à janela da sala, observando a lua minguante. Ela ainda usava aquele sobretudo escuro que parecia absorver toda a luz do ambiente. Eu, por outro lado, sentia o calor subir pelas minhas pernas, uma agitação que o vestido roxo do shopping — que eu fiz questão de usar novamente — só servia para acentuar. A "Karen docinha" tinha ficado lá fora, trancada do outro lado da porta. O que restava aqui dentro era a herança de Gomez: a paixão devoradora, o desejo que beirava a loucura.

— Você ainda está aqui — eu disse, quebrando o gelo. Minha voz saiu mais rouca do que eu pretendia. — Pensei que levaria a Dália e sairia correndo para os braços da Clarice e seus sapatos de tons pastéis.

Ravena se virou lentamente. Seus olhos não eram apenas ametistas agora; eles eram poços de escuridão pulsante. A menção ao nome da outra foi como um fósforo aceso em um rastro de pólvora.

— Não mencione aquela mulher nesta casa — sibilou ela, dando um passo em minha direção. — Você sabe muito bem que aquele encontro no shopping foi uma farsa. Tanto a minha companhia quanto a sua. Aquela loira... Beatriz... ela cheirava a sabonete comum e previsibilidade.

— Ela era gentil, Ravena — provoquei, sentindo meu coração martelar contra as costelas enquanto ela se aproximava. — Ela não me olhava como se quisesse me trancar em um sarcófago. Ela me tratava como se eu fosse... normal.

— Mas você não é normal! — Ravena rugiu, e desta vez a mesa de centro tremeu, os livros de poesia deslizando para o chão. — Você é o meu caos! Você é a única coisa que faz o meu sangue ferver de um jeito que a meditação não consegue apagar.

Ela parou a centímetros de mim. O frio que emanava dela encontrou o calor da minha pele, criando uma eletricidade estática que fazia os pelos do meu braço se arrepiarem. Eu não recuei. Inclinei a cabeça, desafiando-a com o olhar, o sorriso de uma Addams brincando nos meus lábios.

— Então prove — sussurrei. — Prove que você ainda me reivindica, ou vá embora de vez.

O controle de Ravena se estilhaçou. Foi como ver uma barragem romper. Suas mãos, frias e pálidas, agarraram meu rosto com uma urgência violenta, e seus lábios colaram-se aos meus em um beijo que tinha gosto de desespero e posse. Não havia delicadeza ali; era uma batalha. Eu respondi com a mesma intensidade, minhas mãos subindo para os cabelos escuros dela, puxando-os com força, querendo sentir cada grama daquela frustração acumulada.

Ela me empurrou contra a parede, o impacto fazendo os quadros vibrarem. Eu soltei um gemido baixo, não de dor, mas de triunfo. Minhas pernas se entrelaçaram na cintura dela instintivamente, e Ravena me carregou para o quarto com uma força que ignorava as leis da física.

Quando caímos na cama, o mundo exterior deixou de existir. Não havia passado, não havia ex-namoradas, não havia mágoa. Havia apenas o toque.

Eu me posicionei sobre ela, meu corpo gordinho e macio contrastando com a estrutura magra e tensa de Ravena. Comecei a rebolar devagar, sentindo o atrito do tecido roxo contra o corpo dela, observando a reação em seu rosto. Ravena jogou a cabeça para trás, os olhos revirando, uma expressão de agonia prazerosa que eu conhecia tão bem.

— Karen... — ela arquejou, as mãos descendo para o meu quadril, apertando minha carne com uma força que deixaria marcas. — Você vai me enlouquecer.

— Essa é a ideia, Rav — respondi, inclinando-me para morder o lóbulo da orelha dela. — Quero que você esqueça como se respira sem mim.

Eu me movia com um ritmo possessivo, sentindo o calor aumentar entre nós. Ravena não era de ficar passiva por muito tempo. Ela inverteu nossas posições com um movimento brusco, prendendo meus pulsos acima da cabeça. Seus olhos brilhavam com uma luz sobrenatural, e eu vi sombras dançarem nos cantos do quarto, alimentadas pela nossa energia.

— Você é minha — declarou ela, a voz vibrando com um poder que fazia o colchão flutuar levemente. — De todas as formas, em todas as dimensões.

Ela desceu o rosto para o meu pescoço, e eu senti a pontada aguda de seus dentes. Ravena não apenas beijava; ela marcava território. Eu soltei um grito abafado quando senti a mordida, seguida imediatamente pela sensação quente e úmida de sua língua limpando o local. Era um ciclo de dor e prazer que só nós duas entendíamos.

Minhas mãos se soltaram e eu agarrei os ombros dela, minhas unhas cravando-se na pele pálida, deixando sulcos vermelhos que se destacavam como cicatrizes de guerra. Eu queria que ela sentisse o que eu senti durante todos esses meses de separação: a ardência, a necessidade, a marca constante.

— Mais — eu pedi, puxando o cabelo dela para trás para que ela olhasse para mim. — Não pare.

Ravena desceu os beijos pelo meu colo, suas mãos explorando cada curva do meu corpo com uma reverência sombria. Ela parou nos meus seios, chupando a pele com uma voracidade que me fazia arquear as costas, os dedos dela trabalhando em sincronia para me levar ao limite. O quarto parecia estar girando, o ar saturado com o cheiro de sândalo, suor e o perfume de violetas que emanava de mim.

Eu a puxei para cima novamente, querendo sentir o peso dela sobre mim. Nossos corpos estavam colados, uma confusão de membros e respirações curtas. Eu comecei a rebolar novamente sob ela, buscando o encaixe perfeito, sentindo a tensão de Ravena atingir o ponto de ruptura. Ela gemia meu nome como se fosse uma prece proibida, as mãos dela agora arranhando minhas costas, retribuindo cada marca que eu havia deixado nela.

— Eu odeio o quanto eu preciso de você — ela sussurrou contra meus lábios, entre um beijo e outro. — Odeio o quanto o seu cheiro me persegue em Azarath.

— Então pare de lutar — eu disse, puxando-a para um beijo profundo, nossas línguas se entrelaçando em uma dança frenética. — Apenas aceite que você está perdida em mim.

O clímax veio como uma explosão de energia negra e luz purpúrea. Por um segundo, o tempo parou. Eu senti a magia de Ravena percorrer meu sistema, um choque elétrico que me fez tremer violentamente em seus braços. Nós nos seguramos uma à outra como se fôssemos as únicas âncoras em um oceano em fúria. As sombras no quarto finalmente se acalmaram, voltando para os cantos, e o colchão tocou o chão com um baque surdo.

Ficamos ali, ofegantes, o suor fazendo nossos corpos grudarem na seda dos lençóis. O silêncio voltou, mas desta vez era um silêncio carregado de satisfação e de uma verdade que não podia mais ser ignorada.

Ravena enterrou o rosto no meu pescoço, sua respiração voltando ao normal aos poucos. Eu acariciava suas costas, sentindo as marcas das minhas unhas, um mapa de tudo o que havíamos acabado de compartilhar.

— Você não vai a lugar nenhum — disse ela, a voz ainda rouca, mas com uma determinação inabalável. — Nem com padeiros, nem com astrofísicas, nem com ninguém.

Eu sorri para o teto, sentindo a doçura de Gomez e a astúcia dos Addams brilharem em mim.

— E a Clarice? — perguntei, só para provocá-la uma última vez.

Ravena se levantou sobre os cotovelos, olhando-me com uma seriedade mortal.

— Clarice será um parágrafo esquecido na história dela mesma. Eu vou terminar com isso amanhã. Eu não posso mais fingir, Karen. Tentar viver sem você é como tentar respirar no vácuo. É doloroso e inútil.

Eu levei a mão ao rosto dela, limpando uma mecha de cabelo suada.

— Levou tempo para você admitir — eu disse suavemente. — Mas eu sempre soube. Nossas almas estão amarradas com arame farpado, Rav. Dói, mas não solta.

Ela inclinou-se e me deu um beijo casto, quase doce, se não fosse pelo gosto de sangue e desejo que ainda pairava no ar.

— terça-feira que vem — ela começou —, eu não quero vir apenas para buscar a Dália. Eu quero vir para ficar.

— Então venha — respondi, fechando os olhos e me aconchegando no abraço dela. — Mas traga mais do que apenas você mesma. Traga a coragem de ser feliz no meio do nosso caos.

Ravena não respondeu com palavras, apenas me apertou mais forte. No monitor de bebê, ouvimos o som suave de Dália se mexendo no sono, o elo biológico que nos manteve unidas quando tudo o mais parecia desmoronar.

Enquanto o sono começava a nos envolver, eu sabia que a batalha estava longe de acabar. Haveria explicações, términos difíceis e o eterno conflito entre a luz e a sombra. Mas ali, naquele quarto desordenado, com as marcas de mordidas e arranhões ainda ardendo em nossa pele, eu tinha a certeza de que o eclipse havia terminado. O sol e a lua haviam se encontrado, e o resultado era uma escuridão tão brilhante que nada no mundo seria capaz de apagar.

A "Karen docinha" tinha vencido, mas foi a Karen Addams quem realmente conquistou o coração da Rainha das Sombras. E enquanto a noite de Jericho se transformava em madrugada, eu soube que nunca mais haveria um encontro no shopping que pudesse nos separar. Nós éramos o pecado e a salvação, a mordida e o beijo. E, finalmente, estávamos em casa.