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A Dama de Tarth

O Rugido da Prata e o Despertar do Leviatã

A brisa que soprava das falésias de Derivamarca não era mais apenas salgada; ela carregava o calor residual de uma fornalha que nunca se apagava. Nove anos haviam transformado a ilha de um posto avançado de comércio em um santuário de poder antigo. No pátio de treinamento de Maré Alta, o som do aço contra o aço ecoava com uma cadência rítmica.

Brienne de Tarth, agora Senhora de Maré Alta, moveu-se com uma fluidez que desafiava seu tamanho. Ela não era mais a jovem desajeitada que Sor Humfrey Wagstaff tentara diminuir. Ela era uma força da natureza. Seu oponente, um jovem de nove anos com ombros que prometiam a mesma envergadura da mãe e cabelos dourados como o sol de Tarth, tentava encontrar uma brecha na guarda dela.

— Mantenha os pés firmes, Aemon — instruiu Brienne, desviando um golpe de prática com uma facilidade insultuosa. — Se o convés balançar e sua base falhar, o mar o levará antes que o inimigo o faça.

— O mar não me levaria, mamãe — retrucou o menino, os olhos azuis intensos brilhando com a mesma determinação férrea da linhagem Tarth. — O pai diz que as ondas reconhecem o próprio sangue.

— O seu pai é um romântico valiriano, Aemon — disse uma voz melodiosa vinda da galeria superior.

Lucian Velaryon desceu as escadas de pedra com a elegância de um gato. O tempo fora generoso com ele; aos vinte e sete anos, ele parecia ainda mais etéreo, seus cabelos perolados agora presos em tranças complexas que desciam pelas costas. Em seus braços, ele carregava a pequena Rhaenys, de cinco anos. A menina, uma imagem espelhada de Lucian com seus cabelos platinados, ria enquanto puxava uma das contas marítimas no cabelo do pai.

— Eu não sou romântico, sou realista — disse Lucian, aproximando-se de Brienne e depositando um beijo casto em sua testa suada, ignorando o cheiro de esforço e aço. — E a maré está mudando, minha Safira. Um corvo chegou de Porto Real.

O clima leve dissipou-se instantaneamente. Brienne embainhou sua espada de treino.

— O Rei Robert?

— Morto — respondeu Lucian, a voz tornando-se fria e calculista. — E Ned Stark foi executado como um traidor. O reino está em chamas, Brienne. Os Lannister tomaram o Trono de Ferro com um rapaz que tem tanto direito a ele quanto eu tenho ao Trono de Dorne.

Um tremor percorreu o chão, não de um terremoto, mas de algo muito maior. Umbraxis, o dragão que eclodira nas entranhas de Maré Alta, soltou um rugido das cavernas vulcânicas abaixo do castelo. A criatura agora era colossal, suas escamas azul-mar e prata refletindo a luz como joias vivas, e seu fogo... seu fogo era uma lenda que mantinha os piratas longe das rotas marítimas por puro terror.

— Precisamos ir — disse Brienne, olhando para os filhos. — O Norte vai se levantar. E se Ned Stark foi morto, o mundo que conhecemos acabou.

— Iremos — concordou Lucian. — Mas as crianças ficam. Umbraxis cuidará deles. Ninguém, nem mesmo um exército Lannister, ousaria tocar nesta ilha enquanto ele respirar.

A despedida foi dolorosa, mas necessária. Lucian e Brienne partiram com uma frota de navios de cascos escuros, deixando Derivamarca sob a guarda da criatura mais letal de Westeros.

Os meses que se seguiram foram um borrão de sangue e traição. O caos engoliu as Terras da Tempestade e as Terras fluviais. Quando Renly Baratheon caiu, assassinado por uma sombra, Brienne encontrou-se no centro de uma tempestade de acusações. Lucian, que estava com a frota bloqueando a Baía da Água Negra, quase incendiou a costa quando soube que sua esposa era caçada como uma regicida.

Foi nas Terras Fluviais que eles se reuniram, e foi lá que Lucian encontrou Jaime Lannister pela primeira vez após a fuga de Brienne com Lady Catelyn Stark.

O Regicida estava acorrentado, mas sua língua permanecia tão afiada quanto sua espada perdida.

— Então a Mulher Grande encontrou um marido? — zombou Jaime, olhando para Lucian com um sorriso torto. — Diga-me, Velaryon, é verdade o que dizem? Ela é tão desajeitada na cama quanto é no pátio? Ou você apenas gosta de cavalgar cavalos de carga?

O movimento de Lucian foi tão rápido que os guardas mal viram. Ele não usou uma espada. Ele usou o punho. O estalo do nariz de Jaime quebrando ecoou pelo acampamento.

— Se você abrir essa boca imunda para falar da minha esposa novamente — sibilou Lucian, segurando Jaime pelos cabelos dourados e forçando-o a olhar em seus olhos rosados, que agora brilhavam com um calor sobrenatural —, eu vou queimar cada dedo seu até que você implore pela misericórdia do mar. E acredite, Lannister, eu não se queimo, mas você... você vai virar cinzas.

Brienne colocou a mão no ombro de Lucian, acalmando a fúria do marido.

— Ele não vale o seu esforço, Lucian. Temos coisas maiores para enfrentar.

E as coisas maiores vieram. A traição dos Frey e dos Bolton no Casamento Vermelho foi o estopim. Lucian não esperou por ordens. Ele convocou Umbraxis. As Gêmeas, as torres orgulhosas da Casa Frey, conheceram o destino de Harrenhal. O fogo azul do dragão Velaryon derreteu a pedra e transformou os traidores em sombras carbonizadas em poucos minutos.

— Justiça valiriana — murmurou Lucian, enquanto observava as ruínas fumegantes do topo de seu dragão, com Brienne firme atrás dele, segurando sua cintura.

Eles resgataram Sansa Stark das garras de Mindinho, uma manobra estratégica que envolveu a frota Velaryon e a inteligência calculista de Lucian. Quando chegaram à Muralha, encontraram um Jon Snow ressuscitado e um Norte fragmentado.

A Batalha dos Bastardos foi o ponto de virada. Ramsay Bolton achou que tinha a vantagem com suas táticas cruéis e seu conhecimento do terreno. Ele não contava com o rugido que rasgou as nuvens de inverno.

Umbraxis desceu como um meteoro de prata. O fogo azul limpou as fileiras dos Bolton, enquanto Brienne liderava a cavalaria pesada, uma Valquíria de armadura azul, protegendo Rickon Stark no último segundo antes que uma flecha pudesse alcançá-lo.

Winterfell foi retomada. O Norte tinha novos aliados, e Jon Snow olhava para o dragão colossal com uma mistura de pavor e reconhecimento.

— Ele é maior que os dragões da Rainha Daenerys — observou Jon, enquanto se reuniam no Grande Salão.

— Ele é o primeiro de sua linhagem em séculos — respondeu Lucian, limpando o sangue de sua lâmina. — E ele não é o único.

Quando Daenerys Targaryen chegou a Winterfell com seus três dragões, a tensão era palpável. A Mãe dos Dragões esperava ser a única força aérea do mundo. Ela não esperava encontrar Lucian Velaryon, montado em uma besta que fazia Drogon parecer um irmão mais novo.

— Um Velaryon — disse Daenerys, seus olhos violetas estudando Lucian e a mulher alta e imponente ao seu lado. — Disseram-me que sua casa era leal ao meu pai.

— Minha casa é leal ao mar e ao nosso próprio sangue, Majestade — respondeu Lucian, educado mas firme. — E minha esposa, Brienne, é a rocha sobre a qual meu orgulho se sustenta. Se deseja o Norte, terá que passar por nós.

Mas a Longa Noite não permitia disputas políticas. O Rei da Noite avançava.

Durante os preparativos, em um dos pátios cobertos de neve, Lucian encontrou Tormund Terror de Gigantes. O selvagem estava observando Brienne com uma admiração nada sutil.

— Aquela mulher... — disse Tormund, suspirando. — Eu quero ter bebês com ela. Grandes bebês que conquistarão o mundo.

Lucian, que estava afiando uma adaga de vidro de dragão, parou o movimento. Ele se levantou, sua estatura elegante contrastando com a brutalidade do ruivo.

— Tormund, não é? — Lucian sorriu, mas era o sorriso de um tubarão. — Eu entendo sua admiração. Minha esposa é, de fato, a mulher mais magnífica de Westeros.

— Sua esposa? — Tormund cuspiu no chão. — Você é muito bonito e magro para ela, rapazinho de seda. Ela precisa de um homem de verdade, com pelos no peito e...

Lucian não esperou o fim da frase. Ele avançou, e a luta que se seguiu foi tudo menos elegante. Foi uma briga de taverna elevada a um duelo de honra. Lucian usou sua agilidade para desviar dos golpes pesados de Tormund, acertando pontos de pressão com precisão cruel. No fim, ambos acabaram na neve, ofegantes e cobertos de lama gelada.

— Ela... ela bate mais forte que você — resmungou Tormund, limpando o sangue do lábio.

— Eu sei — respondeu Lucian, estendendo a mão para ajudar o selvagem a se levantar. — Por isso eu me casei com ela. E se você insinuar que ela precisa de outro homem novamente, eu vou deixar Umbraxis brincar com você.

A Longa Noite foi um pesadelo de gelo e fogo. Quatro dragões iluminaram os céus de Winterfell. Umbraxis, com seu fogo azul intenso, provou ser a ruína de milhares de mortos-vivos. Brienne lutou no solo, defendendo as criptas com uma bravura que se tornaria lendária, enquanto Lucian coordenava as defesas com uma precisão cirúrgica.

A vitória veio com um custo, mas as perdas foram mínimas comparadas ao que poderiam ter sido. O Rei da Noite caiu, e o amanhecer trouxe uma nova realidade.

Porto Real foi o ato final. Cersei Lannister, ao ver quatro dragões circulando a Fortaleza Vermelha e a frota Velaryon bloqueando todas as saídas, escolheu, pela primeira vez na vida, a sobrevivência sobre o orgulho. Ela entregou a cidade a Daenerys sem que uma única gota de sangue inocente fosse derramada pelo fogo.

Meses depois, a paz finalmente se estabeleceu. Jon Snow e Sansa Stark governavam o Norte como reis independentes, uma concessão que Daenerys aceitou após a mediação astuta de Lucian. Daenerys sentava-se no Trono de Ferro, com Tyrion Lannister como sua Mão.

E em Derivamarca, a vida voltava ao seu ritmo natural.

Brienne estava na varanda de Maré Alta, observando o sol se pôr sobre o mar. Ela sentiu as mãos quentes de Lucian envolverem sua cintura.

— Aemon está tentando ensinar Rhaenys a montar Umbraxis — comentou ela, sorrindo ao ver o dragão colossal deitado na areia, permitindo que a menina platinada subisse em seu focinho com uma paciência infinita.

— Ele é um bom dragão — disse Lucian. — E eles são bons filhos.

— Nós conseguimos, Lucian — sussurrou Brienne. — O mundo não se destruiu.

— O mundo tentou — respondeu Lucian, virando-a para si. — Mas ele não contava com a Safira de Tarth e o Fantasma do Mar.

Ele a beijou, um beijo que carregava o peso de nove anos de batalhas, perdas e triunfos. O mar rugia abaixo deles, e o fogo do dragão brilhava ao longe, mas ali, nos braços um do outro, havia apenas a paz que só aqueles que enfrentaram o inferno e voltaram juntos poderiam conhecer.

— Para onde vamos agora, meu senhor? — perguntou Brienne.

Lucian olhou para o horizonte, onde as velas de sua frota dançavam sob o luar.

— Para onde a maré nos levar, Brienne. Mas, desta vez, iremos como uma família. O dragão, o cavalo marinho e a safira. O mundo é nosso, minha rainha. E ninguém, nunca mais, ousará rir de nós.