A Dama de Tarth
O Despertar do Abismo e a Semente de Fogo
— Você está distraída, minha Safira — comentou Lucian, sua voz vibrando contra a curvatura do pescoço de Brienne.
Eles estavam no convés da *Fúria de Prata*, o navio capitânia da frota Velaryon, cortando as águas escuras que cercavam os Degraus. Fazia um ano e meio que Brienne de Tarth deixara para trás as dúvidas de sua juventude para se tornar a Senhora de Maré Alta. Nesse tempo, sua pele clara e sardenta ganhara o beijo do sol e o salitre do mar; seus músculos, antes apenas fortes, agora possuíam a precisão letal de quem já havia enfrentado abordagens piratas sob o luar e tempestades que fariam cavaleiros de terra firme chorarem por suas mães.
— Apenas pensando na maré — mentiu ela, sentindo o calor febril de Lucian atrás de si.
Ele era um paradoxo vivo. Naquela noite, enquanto retornavam para Derivamarca após uma patrulha bem-sucedida contra mercenários de Tyrosh, Lucian parecia mais intenso do que o normal. Suas mãos, que rodeavam a cintura de Brienne, estavam estranhamente frias nas extremidades, como se o sangue estivesse se concentrando todo em seu núcleo, deixando seus dedos e o nariz gélidos como o gelo do Norte. No entanto, o resto de seu corpo emanava um calor que Brienne sentia através da armadura de couro.
— A maré está calma — sussurrou ele, virando-a para encará-lo. Os olhos rosados de Lucian brilhavam com uma fome que Brienne aprendera a reconhecer e a desejar. — Mas meu sangue não está.
Quando chegaram aos seus aposentos em Maré Alta, a urgência de Lucian foi avassaladora. Não havia hesitação. Ele a despiu com uma reverência faminta, e Brienne respondeu com a mesma moeda. Naquela noite, o ato de amor foi diferente de todos os outros. Lucian parecia querer fundir sua alma à dela; seus movimentos eram poderosos, ritmados pelo som das ondas que batiam contra as fundações do castelo. O contraste entre o calor extremo de seu peito e o frio cortante de suas mãos longas e finas fazia Brienne estremecer, uma tensão de opostos que a levava a patamares de prazer que ela nunca julgara possíveis para alguém como ela.
No auge daquela união, enquanto o suor brilhava em suas peles sob a luz das velas, Brienne sentiu. Foi uma percepção instintiva, algo que transcendia o físico. Ela soube, com a clareza de uma profecia, que aquela era a semente. A vida estava sendo germinada ali, entre o fogo valiriano e a rocha de Tarth.
Na manhã seguinte, quando o sol nasceu, Brienne não procurou pelo chá da lua. Aos dezoito anos, ela se sentia pronta. Não era mais a donzela assustada; era uma mulher que conquistara seu lugar no mundo pelo aço e pelo amor.
Os meses que se seguiram foram uma surpresa para a corte de Derivamarca. Septa Maryam observava, com um sorriso astuto, enquanto a Senhora de Maré Alta continuava a frequentar o pátio de armas. A gestação de Brienne era tão firme quanto ela mesma. Não havia enjôos debilitantes ou mudanças bruscas de humor; em vez disso, Brienne parecia ter herdado um pouco do calor sobrenatural de Lucian. Ela sentia um calor constante, uma energia renovada que a tornava ainda mais teimosa em seus treinos. E, para sua própria surpresa e leve vergonha, o desejo por seu marido só aumentava, levando-os a momentos de intimidade que faziam os servos evitarem o corredor da torre real durante as tardes.
No final do segundo trimestre, a barriga de Brienne já era uma curva suave e orgulhosa sob suas túnicas de linho.
— Minha senhora, acho que este ponto está... um pouco torto — comentou Elara, uma jovem criada doce e de olhos curiosos que se tornara a companhia constante de Brienne.
Brienne olhou para o pedaço de tecido em suas mãos e soltou um suspiro de frustração.
— O bordado é uma batalha que eu temo nunca vencer, Elara. Preferia estar polindo minha placa de peito.
— Ora, não diga isso — riu a jovem. — É apenas um passarinho... embora pareça um pouco com um peixe com asas.
As duas riram, acomodadas em poltronas perto da janela que dava para o mar. No centro do salão, Lucian estava sentado em seu trono de madeira, cercado por mapas e pergaminhos. Ele parecia um deus de marfim e prata, a atenção focada em rotas comerciais e relatórios de pirataria. O silêncio da tarde foi interrompido pelo som de passos pesados e metálicos.
Vaelor entrou no salão, seguido por um mercador que parecia ter visto um fantasma. O homem estava pálido, suado e tremia visivelmente. Entre eles, carregavam um baú de ferro reforçado, cujas correntes pareciam pesadas demais para o seu tamanho.
— Lucian — chamou Vaelor, sua voz carregada de uma seriedade incomum. — Este homem jura que encontrou algo nas margens das ruínas de Valíria. Ele diz que o baú está... "vivo".
Lucian levantou os olhos dos mapas. O mercador deu um passo à frente, gaguejando.
— Milorde... eu não queria... mas o calor... ele não para de queimar. Achei perto das colunas fumegantes. Por favor, leve-o. Não quero mais esse peso no meu barco.
Lucian fez um sinal para que Vaelor pagasse o homem. O mercador agarrou o saco de moedas de ouro com mãos trêmulas e praticamente fugiu do salão, sem olhar para trás.
Brienne levantou-se, deixando o bordado de lado, sentindo uma curiosidade magnética. Ela caminhou até o lado de Lucian enquanto ele se aproximava do baú. Mesmo a alguns passos de distância, ela podia sentir a radiação de calor emanando do metal.
— Está quente — observou ela, colocando a mão sobre a barriga, onde sentiu um chute vigoroso do bebê.
— Está mais do que quente, Brienne — murmurou Lucian. — Está pulsando.
Ele colocou as mãos elegantes sobre a tampa de ferro. Brienne notou que, pela primeira vez em meses, as mãos dele não estavam frias. Elas brilhavam com uma tonalidade rosada, respondendo ao que quer que estivesse ali dentro. Com um esforço, Lucian ergueu a tampa.
Um suspiro coletivo ecoou pelo salão.
Aninhado entre brasas negras que, inexplicavelmente, permaneciam acesas e incandescentes sem consumir madeira, estava um ovo. Era grande, do tamanho da cabeça de um homem, coberto por escamas duras e perfeitamente simétricas. A cor era hipnotizante: um tom de azul profundo que lembrava o fundo do oceano em uma noite de tempestade, mas com reflexos prateados que brilhavam como o luar sobre a água.
Lucian estendeu a mão e tocou a casca.
— Pelos deuses — sussurrou ele, os olhos rosados dilatando-se em puro êxtase. — Ele está vivo. Eu sinto o sangue dele.
— Um ovo de dragão? — Vaelor deu um passo atrás, a mão instintivamente indo para o punho de sua adaga. — Em Derivamarca? Lucian, se o Rei Robert souber disso...
— O Rei Robert está bêbado demais em Porto Real para se importar com o que acontece nas profundezas de Maré Alta — interrompeu Lucian, sua voz ganhando um tom de autoridade ancestral. — Este ovo não foi achado por acaso. Ele esperou. Ele sentiu o retorno do sangue.
Lucian olhou para Brienne, e ela viu neles uma promessa de um futuro que nenhum deles ousara imaginar. Ele pegou a mão de Brienne e a colocou sobre a casca do ovo.
O calor era intenso, mas não queimava. Para Brienne, parecia apenas uma extensão do calor que ela já carregava dentro de si. No momento em que sua pele tocou as escamas azul-mar, o bebê em seu útero deu um solavanco tão forte que ela soltou um pequeno arquejo.
— Ele sabe — disse Brienne, maravilhada. — O bebê sentiu.
— O sangue do mar e o sangue do dragão — murmurou Lucian, puxando-a para perto. — Eles diziam que os dragões haviam morrido, Brienne. Diziam que nossa linhagem era apenas uma sombra do passado.
Ele olhou para o ovo, que parecia brilhar com uma luz interna, as brasas ao redor crepitando com uma energia renovada.
— Mas o mar sempre devolve o que lhe pertence. E o fogo... o fogo nunca apaga de verdade.
— O que faremos? — perguntou Brienne, sentindo uma coragem nova arder em seu peito.
Lucian sorriu, e naquele momento ele parecia o herdeiro legítimo de Aegon, o Conquistador, e de Corlys Velaryon, o Serpente Marinha.
— Faremos o que os Velaryon sempre fizeram, minha Safira. Vamos proteger o que é nosso. Vamos chocar este futuro.
Ele se virou para Vaelor, que ainda observava o ovo com uma mistura de pavor e fascínio.
— Vaelor, reforce a guarda nas docas. Ninguém entra ou sai de Derivamarca sem minha permissão expressa. E prepare os aposentos subterrâneos, perto das aberturas vulcânicas. O calor deve ser mantido.
— Você vai tentar chocá-lo? — perguntou Vaelor.
— Eu não — disse Lucian, olhando novamente para Brienne e para sua barriga proeminente. — Nós vamos.
Brienne sentiu uma onda de determinação. Ela não era apenas uma lady ou uma guerreira; ela era a mãe de uma nova era. O ovo de dragão, com suas cores de mar e lua, parecia um espelho de sua própria jornada.
— Ele tem a cor dos seus olhos, Brienne — notou Lucian, tocando suavemente uma das escamas prateadas. — E a força do seu coração.
Naquela tarde, enquanto o sol se punha e pintava o céu de Derivamarca com as cores de um incêndio, a notícia do "tesouro" espalhou-se apenas entre os mais leais. Brienne sentou-se ao lado do baú, sentindo o calor das brasas valirianas confortar seus músculos cansados. Ela sabia que os dias de apenas caçar piratas haviam acabado. Algo muito maior, algo antigo e terrível, estava despertando sob o teto de Maré Alta.
Lucian sentou-se aos pés dela, repousando a cabeça em seu colo.
— Você tem medo? — perguntou ele.
Brienne passou a mão pelos cabelos perolados do marido, sentindo o calor que emanava dele se fundir ao calor do ovo e ao calor da vida em seu ventre.
— Eu sou uma Tarth — respondeu ela com uma firmeza que fez Lucian sorrir. — E sou uma Velaryon. O medo é para aqueles que não conhecem a profundidade do oceano.
— Então que o mundo se prepare — disse Lucian, fechando os olhos enquanto o ovo de dragão emitia um som baixo, quase como um ronronar de chamas. — Pois a maré está subindo, e desta vez, ela trará fogo.
Nas sombras do castelo, o ovo azul e prata brilhava, uma promessa de que o destino de Brienne e Lucian estava apenas começando. A Pérola e a Safira haviam encontrado sua chama, e Westeros nunca mais seria o mesmo quando o primeiro rugido ecoasse das falésias de Derivamarca.