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A Dama de Tarth

O Espelho de Prata e a Maré de Sangue

A brisa de Tarth trazia o perfume do sal e das flores silvestres, mas para Brienne, o ar parecia subitamente pesado, denso como se estivesse prestes a chover aço. Ela retirou a mão das mãos de Lucian como se tivesse sido queimada. O calor que emanava da pele dele era anormal, uma febre constante que parecia pulsar em sincronia com o mar.

— O senhor está zombando de mim — afirmou ela, a voz falhando por um breve segundo antes de se tornar uma lâmina de gelo. — É uma aposta? Algum jogo cruel que os lordes da corte jogam quando se cansam de caçar piratas? Quantos dragões de ouro Sor Humfrey lhe prometeu para que o senhor me humilhasse dessa forma?

Lucian Velaryon não recuou. Ele permaneceu parado, os braços relaxados ao lado do corpo, as longas tranças peroladas repousando sobre o peito como algas de prata. Seus olhos rosados, que muitos chamavam de fantasmagóricos, estreitaram-se não com raiva, mas com uma curiosidade analítica.

— Eu não aposto com homens como Wagstaff, Lady Brienne — respondeu Lucian, sua voz mantendo a cadência calma de quem observa o horizonte. — Homens que quebram ossos e perdem duelos para donzelas não têm nada que me interesse. E eu não preciso do ouro de ninguém. Derivamarca é rica o suficiente para comprar Tarth três vezes se eu assim desejasse.

— Então por que? — Brienne deu um passo à frente, sua altura superior fazendo sombra sobre ele. — Olhe para mim! Eu não sou uma lady. Sou alta demais, larga demais... meu rosto é uma colcha de retalhos de sardas e cicatrizes. O senhor é... o senhor é como uma pintura de um meistre. Por que pediria a mão de uma "aberração"?

Lucian inclinou a cabeça para o lado. Ele a estudou com uma intensidade que a fez querer se cobrir, mesmo estando totalmente vestida em couro e linho. O olhar dele não era o de um homem cobiçando uma joia, mas o de um capitão avaliando a integridade de um navio de guerra.

— Aberração? — Ele repetiu a palavra como se ela tivesse um gosto amargo. — É isso que lhe dizem? Que o mundo é feito apenas de bonecas de porcelana que quebram ao primeiro sinal de uma tempestade?

Ele deu um passo em direção a ela, diminuindo a distância que Brienne tentava manter.

— Eu vejo seus ombros, Brienne. Eles são largos porque carregam o peso de uma determinação que a maioria dos cavaleiros de Westeros nunca conhecerá. Vejo suas mãos; elas são grandes porque foram feitas para segurar o destino, não apenas agulhas de costura. — Lucian estendeu a mão, mas desta vez não a tocou, apenas gesticulou para o rosto dela. — Suas sardas? Elas parecem as constelações que uso para navegar à noite. E seus olhos... eles são a única razão pela qual as águas desta ilha são chamadas de safiras.

Brienne sentiu um nó na garganta. Era demais. Era uma mentira linda demais para ser suportada.

— O senhor fala como um bardo, Milorde. Mas bardos mentem para ganhar o jantar.

— Eu sou um marinheiro, não um bardo — retrucou ele, um lampejo de sarcasmo brincando nos cantos de seus lábios pálidos. — Marinheiros que mentem para si mesmos sobre a força do vento ou a profundidade do recife acabam no fundo do oceano. Eu sou um homem de fatos. E o fato é que eu a quero. Não como uma decoração, mas como minha Senhora de Maré.

Lorde Selwyn, que observava a troca com uma mistura de esperança e temor, finalmente interveio.

— Lorde Lucian, minha filha sofreu muitas desilusões. Seus noivados anteriores foram... infelizes. Ela tem motivos para duvidar.

Lucian voltou-se para o Lorde de Tarth, sua expressão suavizando-se em uma cortesia impecável.

— Compreendo, Lorde Selwyn. Não espero que ela caia em meus braços simplesmente porque eu pedi. O mar não se acalma apenas porque o capitão ordena. Ele precisa ser conquistado. — Ele olhou novamente para Brienne. — Ficaremos em Tarth por uma semana para os reparos e o reabastecimento. Durante esse tempo, Lady Brienne, eu não pedirei que me ame. Peço apenas que me conheça. E que me permita conhecê-la além do que uma espada de madeira pode revelar.

***

Nos dias que se seguiram, Lucian Velaryon provou ser uma criatura de hábitos estranhos e uma vontade inabalável. Ele não a perseguia com flores ou poesias baratas. Em vez disso, ele aparecia no pátio de armas ao amanhecer, observando-a treinar em silêncio, às vezes oferecendo um comentário técnico sobre o equilíbrio de seu peso ou a rotação de seu pulso.

Em uma tarde particularmente quente, Brienne o encontrou sentado nas rochas à beira-mar, longe do porto principal. Ele estava sem as túnicas luxuosas, vestindo apenas uma calça de seda leve. Suas costas estavam voltadas para ela, revelando uma pele tão branca que parecia brilhar sob o sol forte de Tarth.

Brienne parou, hesitante. O sol estava a pino, o tipo de calor que faria qualquer homem de pele clara se queimar em minutos. Mas Lucian parecia... confortável. Mais do que isso, ele parecia absorver a luz.

— O sol não o machuca? — perguntou ela, aproximando-se com cautela.

Lucian virou o rosto, os cabelos perolados caindo sobre os ombros como uma cascata.

— O sol é apenas fogo distante, Brienne. E o fogo e eu temos um entendimento antigo. — Ele bateu na rocha ao lado dele. — Sente-se comigo. O mar está calmo hoje. Quase tão azul quanto seus olhos.

Brienne sentou-se, sentindo-se desajeitada e enorme ao lado da figura esguia dele. Ela abraçou os joelhos, tentando ocupar o menor espaço possível.

— Por que o senhor me olha daquela forma? — perguntou ela subitamente, incapaz de conter a dúvida que a corroía.

— Que forma? — Ele arqueou uma sobrancelha clara.

— Como se estivesse tentando resolver um enigma. Como se... como se estivesse procurando algo que não está lá.

Lucian soltou um suspiro curto e olhou para as ondas.

— Estou tentando entender onde está a "feiura" que você tanto menciona. Eu olho para você e vejo simetria, força e uma honestidade que é rara em nossa classe. Eu vejo uma mulher cujas coxas e panturrilhas têm a força de colunas de mármore, e cujos braços poderiam me sustentar em uma tempestade. — Ele se virou para ela, os olhos rosados brilhando com uma intensidade quase febril. — Em Essos, vi mulheres de todas as cores e formas. Vi belezas que fariam reis chorar. Mas nenhuma delas tinha o fogo que vejo em você quando segura uma espada. Por que eu desejaria uma esposa que se esconde atrás de um véu quando posso ter uma que enfrenta o mundo de frente?

— O senhor é estranho, Lorde Lucian — murmurou ela, sentindo o rosto esquentar. — As pessoas dizem que os Velaryon e os Targaryen têm um toque de loucura. Talvez seja isso.

Lucian riu, um som rico e genuíno que pareceu vibrar no ar.

— Se admirar a força e a lealdade acima da fragilidade e da dissimulação é loucura, então que me tragam a camisa de força. — Ele se inclinou um pouco mais perto. — Diga-me, Brienne, o que você deseja? Se pudesse escolher seu próprio destino, sem as pressões de seu pai ou as expectativas de Westeros, o que faria?

Brienne olhou para o horizonte, onde o azul do mar se fundia com o azul do céu.

— Eu queria ser um cavaleiro — confessou ela, a voz mal passando de um sussurro. — Queria proteger aqueles que não podem se proteger. Queria ser julgada pelo meu valor, não pelo meu rosto.

— Então seja — disse Lucian, com uma simplicidade cortante. — Em Derivamarca, minhas ordens são a lei. Se você quiser liderar minha guarda pessoal, você liderará. Se quiser comandar um navio, eu lhe darei o mais rápido da frota. Eu não quero uma prisioneira em meu castelo, Brienne. Quero uma parceira.

— E os herdeiros? — Brienne perguntou, a realidade de seu dever como lady pesando sobre ela. — O senhor precisará de filhos. Eu não sou... não sou delicada. Talvez eu nem consiga...

Lucian interrompeu-a, colocando um dedo longo e fino sobre os lábios dela. O toque foi elétrico. A pele dele era tão quente que Brienne sentiu um arrepio percorrer sua espinha.

— Nossos filhos seriam gigantes, Brienne. Teriam o sangue do mar e a força das montanhas. — Ele sorriu de forma provocante. — E quanto ao ato de gerá-los... garanto que não tenho interesse em delicadeza. Prefiro a paixão de uma guerreira ao tédio de uma boneca.

Brienne desviou o olhar, o coração martelando contra as costelas. Ela queria acreditar. Pela primeira vez em seus dezesseis anos, ela sentia que não precisava se desculpar por existir.

— Por que eu? — ela perguntou uma última vez. — O senhor poderia ter qualquer lady dos Sete Reinos. Por que Tarth? Por que eu?

Lucian levantou-se, oferecendo-lhe a mão. Quando ela a aceitou, ele a puxou para cima com uma firmeza que a surpreendeu. Ele não a soltou. Em vez disso, ele usou a outra mão para acariciar a linha da mandíbula dela, o polegar passando sobre a cicatriz quase imperceptível em sua bochecha.

— Porque eu passei minha vida cercado por fantasmas e sombras, Brienne. Minha família se foi, meu nome é um eco de um passado glorioso. — Seus olhos rosados mergulharam nos dela. — Eu não quero uma sombra ao meu lado. Eu quero algo real. Algo sólido. Algo que o mar não possa levar. E quando vi você naquele pátio, com aquela espada de madeira e aquele olhar de desafio... eu soube. O Fantasma do Mar finalmente encontrou sua âncora.

Brienne não respondeu com palavras. Ela não sabia como. Mas ela não retirou a mão. Ela permitiu que ele a conduzisse de volta ao castelo, caminhando lado a lado. Ela ainda era mais alta, ainda era mais larga, ainda se sentia desajeitada. Mas, sob o olhar de Lucian Velaryon, ela começou a sentir que, talvez, o mundo é que estivesse errado, e não ela.

Naquela noite, durante o jantar, Lucian não se sentou longe dela. Ele moveu sua cadeira para o lado da de Brienne, ignorando o protocolo e os olhares surpresos dos servos. Ele falava com ela sobre as cidades livres, sobre as especiarias de Yi Ti e sobre como o aço valiriano de sua espada, "Clamor das Marés", parecia cantar quando estava perto de alguém com um espírito forte.

Lorde Selwyn observava os dois, e pela primeira vez em anos, o peso em seus ombros pareceu diminuir. Ele viu sua filha, que sempre fora retraída e silenciosa em banquetes, inclinar-se para ouvir o que o jovem lorde dizia. Viu-a rir — um som raro e curto — de algo sarcástico que Lucian comentara sobre a etiqueta da corte de Porto Real.

No final da semana, quando os navios de casco escuro estavam prontos para partir, Lucian parou diante de Brienne no cais. O sol da manhã refletia nas águas, criando um brilho de safiras que combinava com os olhos dela.

— Eu voltarei em três meses — declarou Lucian, diante de todos. — Voltarei com uma frota cerimonial e o consentimento formal do Trono de Ferro, embora eu pouco me importe com o que Robert Baratheon pensa.

Ele se aproximou de Brienne, que vestia uma túnica azul-escuro com o brasão de Tarth.

— Você terá esse tempo para pensar, Brienne. Para decidir se quer ser a Senhora de Derivamarca ou se prefere ficar aqui, nas águas calmas de seu pai.

Brienne olhou para os navios, para as velas verde-água que prometiam aventura, perigo e, acima de tudo, respeito. Ela olhou para o homem à sua frente — o albino de olhos de sangue que a via como ninguém mais via.

— O senhor é muito persistente, Milorde — disse ela, um pequeno sorriso brincando em seus lábios.

— O mar nunca desiste de beijar a areia, Brienne — respondeu ele, pegando a mão dela e beijando-a com uma reverência profunda. — Por que eu seria diferente?

Enquanto o navio de Lucian se afastava, cortando as águas cristalinas, Brienne permaneceu no cais até que as velas verde-água fossem apenas um ponto no horizonte. Ela levou a mão ao rosto, tocando o lugar onde o polegar dele estivera.

Ela ainda se sentia grande demais. Ainda se sentia "feia" pelos padrões dos homens comuns. Mas, pela primeira vez, Brienne de Tarth não se importava. Pois ela sabia que, em algum lugar além daquele horizonte, havia um Senhor das Marés que contava os dias para retornar à sua Safira.

E ela, pela primeira vez, também estava contando.