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A Dama de Tarth

O Retorno da Maré e o Desdém do Dragão

Três meses podem ser uma eternidade para quem espera o desastre, mas para Brienne de Tarth, eles passaram como um suspiro febril entre o treino de espada e o olhar constante para o horizonte. Ela tentara convencer a si mesma de que Lorde Lucian Velaryon era um delírio do sol de verão, uma miragem valiriana que desapareceria assim que encontrasse uma donzela de beleza clássica em algum porto das Cidades Livres.

Contudo, o horizonte não mentia.

Quando as velas verde-água surgiram novamente, não eram apenas dois navios. Uma frota de doze embarcações de guerra, com cascos negros como obsidiana e mastros que pareciam tocar as nuvens, entrou na Baía das Safiras. O som das trombetas de concha ecoou pelas falésias de Tarth, anunciando que o Senhor das Marés não vinha apenas para uma visita, mas para reivindicar o que lhe fora prometido.

Lucian desembarcou com a mesma elegância etérea, mas desta vez vestia uma armadura de escamas de dragão polidas que refletiam a luz do sol em tons de esmeralda e prata. Seus cabelos perolados estavam presos em tranças complexas, e seus olhos rosados brilharam com uma satisfação predatória ao ver Brienne esperando no cais.

Ela não estava usando um vestido. Brienne vestia uma túnica de couro azul nova, feita sob medida, que acentuava a largura de seus ombros e a força de sua postura. Ela segurava a própria espada na cintura.

— Eu disse que voltaria — disse Lucian, parando a poucos passos dela. O calor que emanava dele parecia ter dobrado de intensidade durante a viagem. — E vejo que a minha Safira não perdeu o brilho.

— O senhor é um homem de palavra, Milorde — respondeu Brienne, sentindo o rosto queimar, mas mantendo o queixo erguido.

A aceitação foi formalizada naquela mesma noite, em um banquete que superou qualquer celebração que Tarth já vira. Ouro de Derivamarca fluía como água, e os presentes que Lucian trouxe — sedas de Yi Ti, pérolas negras de Asshai e um manto feito de penas de pássaros exóticos — foram empilhados no salão.

No entanto, a tensão surgiu na manhã seguinte, durante os preparativos para a cerimônia.

Lorde Selwyn, Brienne, Lucian e sua comitiva estavam reunidos no grande salão com a Septa Roelle. A mulher era uma figura magra e severa, que passara anos tentando "corrigir" Brienne com beliscões, críticas ácidas e sermões sobre a indignidade de uma mulher que não sabia se submeter. Para Roelle, o fato de um lorde tão belo e poderoso querer Brienne era uma afronta às leis dos deuses e dos homens.

— Devemos discutir a logística para a cerimônia no Septo de Tarth — começou a Septa Roelle, sua voz arrastada como pergaminho seco. — É imperativo que Lady Brienne use o véu mais pesado disponível. Para... para manter a modéstia, é claro. E as orações aos Sete devem começar ao amanhecer. Sob a bênção do Pai e da Mãe, talvez possamos pedir que eles concedam à noiva um pouco mais de... graça feminina.

Brienne baixou os olhos para as próprias mãos, sentindo a velha familiaridade da vergonha rastejando por seu pescoço. Ela conhecia aquele tom. Era o tom que dizia que ela precisava ser escondida para ser aceitável.

— Os Sete têm muito trabalho a fazer para tornar este casamento apresentável — continuou Roelle, lançando um olhar de desdém para a espada de Brienne encostada na parede. — A bênção dos Sete é a única coisa que impedirá que esta união seja vista como um capricho excêntrico de um lorde jovem demais.

Um som súbito interrompeu o sermão da Septa. Foi uma risada. Não uma risada educada, mas uma gargalhada rouca e cheia de escárnio.

Vaelor, o braço direito de Lucian, estava encostado em uma coluna de pedra. Ele era quatro anos mais velho que o lorde, um homem de ombros largos, pele bronzeada pelo sol e olhos cinzentos que denunciavam sua origem bastarda das Terras da Coroa. Ele era o irmão de consideração de Lucian, o homem que cuidava das costas do "Fantasma do Mar" em todas as abordagens.

— Bênção dos Sete? — Vaelor riu novamente, limpando uma lágrima imaginária do canto do olho. — Porra, não.

A Septa Roelle empalideceu, sua boca abrindo e fechando como a de um peixe fora d'água.

— Como ousa... esse vocabulário na presença de uma serva dos deuses! Lorde Lucian, seu subordinado é um blasfemo!

Lucian Velaryon não se moveu. Ele estava sentado em uma cadeira entalhada, com uma perna cruzada sobre a outra, observando Brienne com uma intensidade que ignorava completamente a presença da Septa. Ele girava um anel de safira no dedo, parecendo mais interessado na forma como a luz da manhã destacava as sardas no nariz de sua noiva do que na indignação da velha mulher.

— Vaelor tem um ponto, Septa — disse Lucian, sua voz suave e perigosa como o deslizar de uma adaga.

— Um ponto? — guinchou Roelle. — O casamento deve ser realizado sob a luz dos Sete! É a tradição de Westeros!

Vaelor deu um passo à frente, cruzando os braços musculosos sobre o peito.

— O sangue que corre nas veias do meu Lorde não veio dos Sete Ándalos, velha — disse o bastardo, com um sorriso de dentes brancos. — Derivamarca lembra de coisas que seus livros de orações esqueceram. Nós somos do mar. E o sangue dele... bem, o sangue dele é do fogo.

— O que ele quer dizer — Lucian interveio, finalmente desviando o olhar de Brienne para fixá-lo na Septa, e o brilho rosado em seus olhos fez a mulher recuar um passo — é que eu não pretendo me ajoelhar diante de estátuas de pedra que nunca fizeram nada pela minha casa. Minha família foi queimada e afogada enquanto os seus Sete observavam em silêncio.

— Mas... mas Lady Brienne é uma seguidora da Fé! — protestou Roelle, buscando apoio na noiva.

Brienne olhou para Lucian. Ela esperava ver a arrogância de um lorde que impunha sua vontade, mas encontrou algo diferente. Ele estava oferecendo a ela um escape. Ele estava desafiando a autoridade que a fizera sofrer por anos.

— Lady Brienne — disse Lucian, levantando-se e caminhando até ela — é uma guerreira. E guerreiros pertencem àqueles que entendem o sacrifício. Eu não a casarei em um septo abafado, cercada por hipócritas que sussurram sobre sua aparência.

Ele pegou a mão de Brienne, o calor de sua pele fundindo-se à dela.

— Nós nos casaremos na beira das falésias, onde o mar encontra a rocha. — Lucian voltou-se para Selwyn e Roelle, sua aura de comando preenchendo o salão. — Onde o vento pode levar qualquer insulto para longe e onde o único julgamento será o da força e do fogo.

— Isso é... isso é paganismo! — Roelle exclamou, tremendo. — É um escândalo! O que dirão em Porto Real?

— Dirão que o Senhor das Marés encontrou uma rainha à sua altura — retrucou Vaelor, batendo no ombro de Lucian. — E quem não gostar, pode vir discutir com a nossa frota. A água é profunda o suficiente para enterrar quantos septões forem necessários.

Lucian sorriu para Brienne, ignorando o caos que acabara de instalar.

— Você se importa, Brienne? De deixar de lado os incensos e as estátuas por um momento?

Brienne sentiu um peso enorme saindo de seus ombros. A ideia de não ter que caminhar por um corredor de septo sob os olhares de julgamento da Septa Roelle e de outros nobres era o maior presente que ele poderia lhe dar.

— Eu nunca me senti muito em casa nos septos, Milorde — confessou ela, a voz firme. — Eles sempre pareceram... pequenos demais para mim.

Lucian riu, um som baixo e melodioso.

— Então estamos de acordo. Vaelor, prepare os homens. Quero o altar montado na Ponta da Safira. E Septa...

Ele olhou para a mulher, que parecia prestes a ter um desmaio.

— Se eu ouvir mais uma palavra sobre "véus de modéstia" ou "falhas femininas", farei questão de que você aprenda a rezar para o Deus Sete-Faces enquanto nada até o continente. E garanto que não sou um instrutor de natação paciente.

A Septa Roelle saiu do salão em um silêncio absoluto, seu rosto uma máscara de horror. Lorde Selwyn, embora chocado, deu de ombros. Ele conhecia a reputação dos Velaryon; eles sempre foram um povo à parte, mais próximos de suas origens valirianas do que das leis de Aegon, o Conquistador.

— Você realmente não se importa com o escândalo? — Brienne perguntou, quando ficaram a sós com Vaelor e seu pai.

Lucian pegou a mão dela e a levou aos lábios, beijando-a com uma devoção que não tinha nada de fingida.

— Brienne, eu comando navios que enfrentam tempestades que fariam os Sete tremerem de medo. Você acha que me importo com a opinião de uma mulher que nunca viu nada além das paredes de um castelo?

— Ela a tratou mal por muito tempo — disse Vaelor, aproximando-se com uma expressão mais séria. — Eu vi como ela olhou para você. Lucian não tolera veneno em seu convés. E agora, Lady Brienne, você faz parte do convés dele.

Brienne olhou para os dois homens. Lucian, com sua beleza impossível e seu fogo interno, e Vaelor, o bastardo leal que falava o que pensava. Pela primeira vez, ela sentiu que não estava apenas sendo levada para um casamento, mas que estava sendo recrutada para uma família que valorizava o aço acima da seda.

— Obrigada — sussurrou ela.

Lucian inclinou-se, sussurrando perto do ouvido dela:

— Não me agradeça ainda. O casamento na falésia é apenas o começo. Depois disso, você verá Derivamarca. E eu lhe prometo, Brienne... ninguém nunca mais ousará fazê-la se sentir pequena.

Ele se afastou, seus olhos rosados brilhando com uma promessa de proteção e paixão.

— Agora, vamos treinar. Vaelor diz que é o melhor espadachim da frota, e eu adoraria ver você derrubá-lo no chão para que ele aprenda um pouco de humildade antes da cerimônia.

Vaelor soltou uma gargalhada e desembainhou sua espada de treino.

— Aceito o desafio! Vamos ver se a Safira de Tarth é tão dura quanto dizem!

Brienne sorriu, desembainhando a sua. O peso do aço em sua mão parecia mais leve do que nunca. Sob o céu aberto, longe dos septos e das regras sufocantes, ela finalmente começou a acreditar que o mar e o fogo poderiam, de fato, criar um lugar para ela.