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a dama e o vagabundo

Gritos, Risos e Outras Frequências

A luz azulada do tablet era a única coisa que iluminava o quarto, além do brilho fraco do abajur no canto. Na tela, Paulo Gustavo fazia a gente rir com as confusões da Dona Hermínia, mas a nossa atenção já estava longe do enredo do filme há muito tempo. O clima entre eu e o Janjão era sempre assim: uma mistura de desejo, rebeldia e uma palhaçada que ninguém mais no mundo entenderia. Se as "órfãs perfeitinhas" do Raio de Luz ou o meu pai, o todo-poderoso José Ricardo, vissem a Hanna Almeida Campos agora, teriam um colapso nervoso. E era exatamente isso que tornava tudo tão vicioso.

A mãe dele tinha saído pouco antes com um novo peguete. Ela passou pela porta toda produzida, deu uma piscadinha para a gente e disse que não tinha hora para voltar. Eu adorava aquela mulher. Ela era o oposto da rigidez da mansão; ela não julgava, não impunha regras absurdas e, principalmente, não fingia ser o que não era.

— Cara, você ouviu o que eu ouvi antes dela sair? — Janjão perguntou, largando o tablet de lado e se apoiando nos cotovelos. — Ela tava no telefone com o cara e a voz dela mudou totalmente. Ficou toda "ai, vem logo me buscar".

Eu soltei uma gargalhada, jogando a cabeça para trás. Meus cabelos pretos se espalharam pelo travesseiro.

— É óbvio, Janjão! Ela sabe o que quer — respondi, sentando-me na cama e ajeitando a alça do meu pijama de renda. — E agora eles devem estar em algum motel de beira de estrada, e ela deve estar gritando o nome dele pro bairro inteiro ouvir.

— Duvido nada — ele riu, entrando na brincadeira. — O cara deve estar achando que é o garanhão, e ela lá, só fazendo a cena dela.

Foi o gatilho para a nossa diversão da noite. Começamos a competir para ver quem fazia a melhor imitação de casal em momentos íntimos. Eu comecei, fazendo uma voz fina e exagerada, jogando o corpo para trás e fingindo uma falta de ar dramática.

— "Oh, meu Deus, você é incrível! Mais rápido!" — Eu gemi de pirraça, mordendo o lábio inferior e fechando os olhos, fazendo uma performance digna de Oscar.

Janjão rolou de rir, mas logo se recompôs para fazer a parte do homem. Ele engrossou a voz, fazendo uma cara de esforço que era hilária.

— "Isso, vai, agora eu sou o seu dono!" — Ele exclamou, imitando o jeito autoritário e ridículo que alguns caras tentam forçar.

— Ficou igualzinho ao peguete da sua mãe! — eu disse entre gargalhadas, dando um tapa de leve no braço dele. — Aposto que ele manda ela ir mais rápido e ela finge que tá adorando só pra ganhar um jantar depois.

— E a vizinha, Hanna? Você ouviu a vizinha do 402 ontem? — Janjão se sentou, empolgado. — Parecia que a mulher tava sendo exorcizada, juro por Deus. Era um sofrimento, um negócio agoniante.

Eu me inclinei para frente, entrando no personagem da vizinha. Fiz uma expressão de dor misturada com prazer, uma coisa bem caricata, e soltei um gemido longo, arrastado, daqueles que fazem qualquer um se perguntar se a pessoa está bem ou se precisa de uma ambulância.

— "Aaaai, para... não, continua! Socorro, eu vou morrer!" — Eu imitava, arqueando as costas e fazendo uma cena completa, mordendo a boca e revirando os olhos.

Janjão estava quase sem ar de tanto rir. O quarto, que era à prova de som para quem estava do lado de fora, ecoava com as nossas palhaçadas. Era o nosso palco particular.

— Ela faz exatamente assim! — Janjão exclamou, tentando recuperar o fôlego. — Parece que tá levando uma surra, mas tá lá todo dia pedindo bis. O marido dela deve achar que é o rei da cocada preta.

— O problema é que, pra dar um gemido daqueles, o cara tem que estar fazendo o serviço direito, né? — provoquei, lançando um olhar desafiador para ele. — Ou então ela é uma atriz melhor do que eu quando finjo que gosto das meninas do orfanato.

— Ah, é? Você acha que é difícil tirar um som desses de você? — Ele perguntou, o tom de voz mudando de brincalhão para algo mais profundo, mais carregado.

— De mim? Eu sou difícil, Janjão. Você sabe disso — respondi, desafiando-o com o olhar, sentindo meu coração acelerar um pouco.

Nesse exato momento, um som abafado veio da parede lateral. A vizinha — sim, a própria — tinha começado a sua "sessão" noturna. O som era exatamente como tínhamos imitado: um gemido alto, agudo, que parecia atravessar o isolamento improvisado.

— Olha lá! Começou o show! — Janjão sussurrou, rindo baixo.

— Ela tá pedindo ajuda, Janjão! Vai lá imitar ela de novo — eu disse, me preparando para soltar mais um gemido de brincadeira para competir com o som da parede.

Mas antes que eu pudesse abrir a boca para a próxima imitação, Janjão foi mais rápido. Ele se aproximou num movimento ágil, me puxando para ele. Com uma das mãos, ele agarrou meu peito por cima da renda fina do pijama, apertando com uma firmeza que me pegou de surpresa.

O ar fugiu dos meus pulmões e o gemido que saiu da minha garganta não foi fingido, nem foi uma imitação da vizinha. Foi real, agudo e carregado de uma eletricidade que percorreu todo o meu corpo.

— Esse... esse foi legítimo — ele disse, com um sorriso convencido no rosto, soltando-me devagar enquanto me observava recuperar o fôlego.

Eu tentei manter a pose de durona, mas minhas bochechas estavam queimando e meu sorriso era de puro deleite.

— Golpe baixo, Janjão. Isso não vale — eu disse, embora estivesse rindo. — Você me pegou desprevenida.

— Mas funcionou, não funcionou? O gemido foi igualzinho ao da mulher do 402, só que com mais estilo — ele brincou, deitando-se novamente e me puxando para o seu peito.

Eu me acomodei ali, sentindo o calor do corpo dele e o cheiro de perfume barato misturado com algo que era só dele. A adrenalina da brincadeira começou a baixar, dando lugar a uma sensação de conforto que eu só sentia ali, naquele quarto bagunçado, longe das colheres de prata e das etiquetas da mansão.

— Sabe — comecei, passando o dedo pelos desenhos das tatuagens que ele tinha no braço —, meu pai morreria se ouvisse metade do que a gente fala aqui.

— Seu pai vive em outra galáxia, Hanna. Ele acha que você é uma boneca de porcelana que ele pode colocar na prateleira do orfanato pra decorar o ambiente — Janjão respondeu, a voz agora mais séria.

— Ele quer que eu assuma o Raio de Luz. Consegue imaginar? Eu, cercada daquelas crianças choronas o dia inteiro. "Hanna, me dá um abraço?", "Hanna, por que você é tão linda?". Eca.

— Você faz o papel bem demais. Até eu, se não te conhecesse, acharia que você é um anjo que caiu do céu.

— É sobrevivência, Janjão. Naquela casa, se você não for perfeito, você é invisível. Ou pior, você é um problema pro Dr. José Ricardo. O Júnior já é o "problema" da família só por ter um pouco de bom senso. Eu prefiro ser a herdeira perfeita e fazer o que eu quero pelas costas de todo mundo.

— E o que você quer, Hanna? Além de me deixar maluco e imitar os vizinhos?

Eu olhei para o tablet, onde o filme já estava nos créditos finais.

— Eu quero isso aqui. Quero poder beber, fumar, falar besteira e não ter que pedir licença pra respirar. Quero que, quando meu pai se for, eu tenha dinheiro suficiente pra nunca mais ter que pisar naquele orfanato, a menos que seja pra vender o terreno e construir um shopping.

Janjão deu uma risada curta, beijando o topo da minha cabeça.

— Você é cruel, garota. Eu gosto disso.

— Eu não sou cruel. Eu sou prática. Aquelas crianças não têm futuro de qualquer jeito, por que eu deveria gastar o meu fingindo que me importo?

Ficamos em silêncio por um tempo, ouvindo apenas o som distante do trânsito e, ocasionalmente, algum grito vindo da vizinhança. O mundo lá fora parecia tão pequeno comparado ao que tínhamos ali dentro.

— A gente devia gravar a vizinha um dia desses — ele sugeriu, voltando ao tom de brincadeira. — Imagina colocar pra tocar no som do carro quando a gente passar na frente da casa dela?

— Você não tem limite, né? — eu ri, imaginando a cena. — Ela ia morrer de vergonha. Ou ia achar que era um elogio.

— Com certeza ela ia achar que é famosa.

A gente continuou ali, fazendo graça, comentando sobre as pessoas da escola, sobre os planos da nossa turma e sobre como o mundo era ridículo. Eu me sentia poderosa. Hanna Almeida Campos, a menina doce de 17 anos, era uma invenção. A Hanna real era essa que estava ali, de pijama de renda, rindo de gemidos de vizinhos e planejando um futuro onde as regras não existiam.

— Ei — Janjão me chamou, fazendo-me olhar para ele.

— O quê?

— Se um dia a casa cair na mansão... você sabe que aqui é o seu lugar, né? Minha mãe não tava brincando quando disse que a porta tá aberta.

Eu sorri, sentindo um aperto estranho no peito. Não era o tipo de coisa que eu estava acostumada a ouvir. Na mansão, o "lugar" era condicionado ao comportamento. Ali, era só... lugar.

— Eu sei. Mas a casa não vai cair. Eu sou boa demais no que faço, lembra?

— Eu lembro. Mas é bom saber.

Eu me inclinei e o beijei, um beijo longo que calou qualquer outra imitação ou brincadeira. Naquela noite, entre risos e provocações, eu tinha certeza de uma coisa: o Orfanato Raio de Luz podia até ser a minha herança, mas o meu reino era aquele quarto, e o meu trono era qualquer lugar onde eu pudesse ser exatamente quem eu era.

— Agora — eu sussurrei contra os lábios dele —, chega de imitar a vizinha. Eu acho que a gente consegue fazer melhor do que ela.

Janjão sorriu, aquele sorriso de quem já sabia o que vinha a seguir, e puxou o cobertor sobre nós, selando o nosso mundo particular mais uma vez.