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a dama e o vagabundo

O Fim da Máscara e o Gosto da Liberdade

O silêncio da madrugada na periferia tinha um peso diferente do silêncio da mansão. Na mansão, o silêncio era gélido, carregado de expectativas e segredos guardados sob tapetes caros. Aqui, no quarto do Janjão, o silêncio era apenas uma pausa entre as batidas do coração. Acordei com a luz azulada do tablet refletindo nas paredes descascadas. Janjão estava sentado, encostado na cabeceira, com os olhos fixos na tela, mas dava para ver que seus pensamentos estavam longe.

— Perdeu o sono, é? — perguntei com a voz rouca, esticando os braços e sentindo a maciez da renda do meu pijama contra a pele.

— Perdi — ele concordou, voltando o olhar para mim. Havia uma intensidade ali que sempre me fazia esquecer quem eu deveria ser lá fora. — Muita coisa na cabeça, Hanna. A turma, os rachas... e você.

Eu não disse nada. Apenas sorri, aquele sorriso que eu nunca mostrava ao meu pai ou às órfãs do Raio de Luz. Arrastei-me pela cama e subi em cima dele, sentindo o calor do seu corpo através do lençol. Comecei a me movimentar devagar, observando a reação em seu rosto. Janjão soltou um suspiro pesado e colocou as mãos na minha cintura, os dedos calejados apertando minha pele com uma firmeza que me guiava.

— Mais rápido — ele pediu, a voz agora um comando rouco.

Eu obedeci. O ritmo aumentou e, com ele, a sensação de que eu estava finalmente no controle de algo real. Meus gemidos começaram a escapar, sem a pirraça de antes, mas carregados de uma urgência que só ele despertava. Janjão deslizou as mãos pela barra do meu vestido de renda, subindo o tecido até que ele fosse apenas um detalhe inútil entre nós. Ele o tirou com pressa, jogando-o em algum canto escuro do quarto, e levou as mãos até meus seios, apertando-os com uma força que me fazia arquear as costas e morder o lábio.

— Porra, Hanna... você acaba comigo — ele grunhiu.

Depois de um tempo, o calor ficou insuportável. Janjão se levantou e foi até a janela, abrindo-a apenas um pouco para deixar o ar frio da madrugada entrar. Eu fiquei deitada, apenas de lingerie, observando a silhueta dele contra a luz fraca da rua. Ele parecia um rei em seu domínio de concreto. Logo, ele fechou a janela, trancando o mundo lá fora novamente, e caminhou em direção ao banheiro. Eu o segui, impulsionada por uma curiosidade magnética.

Ele ficou encostado na parede de azulejos frios, me olhando com um desafio mudo.

— O que aconteceu? — perguntei, parando na porta.

— Você sabe muito bem o que eu quero, Hanna — ele disse, cruzando os braços.

Eu não precisei de mais explicações. Aproximei-me e me ajoelhei na frente dele, no chão frio. Segurei seus cabelos com as duas mãos, sentindo a textura áspera, e me concentrei nele. O tempo parou ali dentro. Não havia Dr. José Ricardo, não havia herança, não havia o peso do sobrenome Almeida Campos. Havia apenas o prazer cru e a entrega total.

Quando voltamos para a cama, a urgência tinha se transformado em algo mais profundo. Ele me despiu completamente, deixando-me nua sob a luz fraca, e me possuiu com uma intensidade que me fez perder o fôlego. Eu mordia a boca para não gritar, sentindo cada movimento dele como se fosse uma tatuagem na minha alma. Quando senti o ápice chegando, não consegui segurar; dei um gemido alto, um som de puro prazer que ecoou pelo quarto à prova de som.

Janjão se inclinou sobre mim, beijando meu pescoço, descendo até meus ombros. Eu estava segura. Graças a um procedimento que fiz escondida há meses, eu sabia que não poderia engravidar, então não havia medo, apenas a liberdade de sentir tudo sem consequências.

Mais tarde, estávamos novamente no banheiro. Eu estava sentada em cima da pia de mármore sintético, com as pernas entrelaçadas na cintura dele enquanto ele me explorava com a língua. Minhas mãos estavam enterradas em seus cabelos, e meus olhos reviravam enquanto os gemidos voltavam a preencher o espaço pequeno. Era uma coreografia de rebeldia e desejo que parecia não ter fim. Ele parou por um momento, me olhou nos olhos e começou a me sarrar com uma força que me deixou sem forças, até que eu não aguentasse mais nada além de desabar em seus braços.

Voltamos para o quarto e nos vestimos com roupas leves. Deitados, o cansaço começou a pesar, mas não era apenas o cansaço físico. Era o cansaço de ser duas pessoas. Olhei para o teto e depois para o meu celular, que brilhava em cima da cômoda. A farsa tinha que acabar.

Peguei o aparelho. Meus dedos tremiam levemente, mas não de medo, e sim de antecipação. Abri a conversa com meu pai. O Dr. José Ricardo provavelmente estava dormindo em seu pijama de seda, sonhando com a filha perfeita que ele achava que tinha criado.

— O que você está fazendo? — Janjão perguntou, notando a luz do celular.

— Terminando com o teatro — respondi.

Comecei a digitar. As palavras saíam como veneno e mel ao mesmo tempo.

"Pai, cansei. Cansei da mansão, cansei do orfanato e, principalmente, cansei de você. Aquela princesinha que você exibe para os seus amigos investidores nunca existiu. Eu namoro, eu vou a festas, eu bebo e eu vivo de verdade. Nesse exato momento, estou com o meu namorado, o homem que realmente me ama pelo que eu sou, não pelo que eu represento. Não quero mais olhar na sua cara. E antes que você abra a boca para me xingar de puta ou qualquer outra coisa, saiba que eu sou mesmo. Pelo menos sendo assim, eu sou feliz. Não me procure mais."

Apertei "enviar". O ícone de mensagem enviada pareceu o som de uma explosão silenciosa. Janjão, que estava ao meu lado, leu a mensagem por cima do meu ombro. Ele arregalou os olhos, surpreso com a minha coragem.

— Você enlouqueceu, Hanna? Ele vai te deserdar. Vai te deixar sem nada — ele disse, mas havia um brilho de admiração em seu olhar.

Olhei para ele, larguei o celular e coloquei as mãos em seu rosto. Dei um selinho demorado, sentindo o gosto dele, o gosto da minha nova vida.

— Isso foi por você — sussurrei. — E por mim. Eu não quero o dinheiro dele se eu tiver que viver em uma gaiola de ouro. Eu prefiro o seu quarto, a sua vida e a nossa verdade.

Janjão me puxou para um abraço apertado. Ficamos ali, abraçados, assistindo a qualquer coisa que passava na TV, mas eu não estava prestando atenção. Eu me sentia leve, como se tivesse tirado uma armadura de chumbo que carreguei por dezessete anos.

Pela manhã, a porta do quarto se abriu devagar. Sônia, a mãe do Janjão, entrou com duas canecas de café. Ela olhou para mim, depois para o celular jogado na cama e sorriu. Ela já sabia de tudo; Janjão devia ter contado enquanto eu cochilava.

— Então a passarinha finalmente saiu da gaiola? — ela perguntou, sentando-se na beirada da cama.

— Saí, Sônia. E não pretendo voltar — respondi, aceitando o café.

— Você sabe que as portas aqui estão sempre abertas para você, Hanna — ela disse, segurando minha mão. — Eu tive o Janjão cedo, vivi minha vida sem dar satisfação para ninguém e sou feliz assim. Se você quer ser você mesma, aqui é o lugar. Pode morar com a gente o tempo que quiser.

— Obrigada — eu disse, sentindo uma vontade genuína de chorar, algo que eu nunca permitia na mansão. — De verdade.

Sônia saiu, deixando-nos a sós novamente. Janjão me olhou de um jeito diferente hoje. Não era apenas desejo; era respeito.

— Então agora você é oficialmente uma de nós? — ele perguntou, passando o braço pelo meu pescoço.

— Eu sempre fui — respondi, encostando a cabeça em seu peito. — Só demorei para avisar ao resto do mundo.

O Dr. José Ricardo deve ter acordado com a notificação do celular. Ele deve ter gritado, quebrado algum vaso de porcelana caro ou chamado os advogados. Mas, para mim, ele agora era apenas uma sombra distante. Eu olhei pela janela do quarto e vi a rua começando a despertar. O barulho dos carros, os vizinhos conversando, o cheiro de pão fresco... tudo parecia mais real, mais colorido.

Eu sabia que o futuro não seria fácil. Eu não teria mais os vestidos de grife, as viagens internacionais ou a conta bancária ilimitada. Mas eu teria as noites com o Janjão, o apoio da Sônia e, acima de tudo, a minha própria voz. No Raio de Luz, as crianças buscavam uma família. Ironicamente, eu, a herdeira de tudo, só encontrei a minha quando decidi perder tudo.

— O que vamos fazer hoje? — Janjão perguntou, beijando o topo da minha cabeça.

— O que a gente quiser — respondi, fechando os olhos e me deixando levar pelo calor do momento. — O que a gente quiser.

A farsa da menina Almeida Campos tinha terminado. Em seu lugar, nascia uma mulher que não tinha medo do asfalto, que não tinha medo do julgamento e que, finalmente, tinha encontrado o seu lugar no mundo. O orfanato que eu herdaria? Que ficasse para o Júnior ou para o governo. Minha única herança agora era a minha liberdade. E ela valia muito mais do que qualquer império de mentiras.