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a dama e o vagabundo

Sombras de Porcelana e o Gosto do Perigo

A luz da manhã de segunda-feira era impiedosa. Ela atravessava as cortinas de linho da mansão, revelando cada partícula de poeira que dançava no ar, perfeitamente alinhada à ordem impecável do meu quarto. Eu estava sentada diante da penteadeira, observando meu reflexo. A Hanna da noite anterior, de saia de couro e olhos marcados, havia sido enterrada sob camadas de corretivo e um batom cor de boca quase invisível.

Prendi meu cabelo preto em um rabo de cavalo baixo, deixando a franja perfeitamente alinhada. O uniforme do colégio — aquela saia plissada que eu detestava e a camisa branca engomada — parecia uma camisa de força. Coloquei meus anéis de prata, os mesmos que Janjão costumava girar com os dedos, e respirei fundo. Era hora de entrar em cena.

Desci as escadas e encontrei meu pai, o Dr. José Ricardo, terminando o café. Ele nem levantou os olhos do jornal quando entrei, mas sua voz era carregada daquela autoridade paternal que ele achava que me moldava.

— Bom dia, Hanna. Espero que seu estudo com a Rita tenha sido produtivo. Falei com o pai dela ontem à noite e ele mencionou o quanto vocês duas estão dedicadas às atividades da paróquia.

Senti um frio na espinha, mas meu rosto não vacilou. Rita era mesmo uma ótima cobertura; ela devia ter manipulado o pai tão bem quanto eu manipulava o meu.

— Foi maravilhoso, papai — respondi, servindo-me de uma torrada com a delicadeza de uma boneca de louça. — A Rita tem uma visão muito pura das coisas. Sinto que estou aprendendo muito sobre responsabilidade e... compaixão.

— Ótimo — disse ele, finalmente me olhando com um sorriso de aprovação. — Porque hoje, depois da escola, quero que você passe no Orfanato Raio de Luz. Preciso que entregue uns documentos para a diretora e, claro, as crianças sentem sua falta. Mili não para de perguntar por você.

Forcei um sorriso que me doeu os músculos da face.

— Claro, papai. Será um prazer.

O trajeto até o colégio foi o de sempre: o silêncio do motorista, o vidro fumê me escondendo do mundo e a náusea constante de viver duas vidas. Assim que o carro me deixou na esquina, esperei que ele sumisse de vista. Em vez de entrar no portão principal, caminhei três quadras para o lado oposto.

Lá estava a moto preta, encostada em um muro pichado. Janjão estava com o capacete no braço, fumando um cigarro que ele apagou assim que me viu.

— Atrasada, princesa — disse ele, jogando a fumaça para o lado. — Achei que o velho tinha te trancado no cofre.

— Ele quase fez isso — respondi, subindo na garupa e sentindo o cheiro de couro e tabaco que me acalmava. — Vamos sair daqui antes que algum inspetor me veja.

Passamos a manhã no galpão da linha do trem. Lá, eu não era a herdeira Almeida Campos; eu era apenas a Hanna. Bebemos cerveja quente, rimos das histórias de Janos sobre os rachas de moto e eu até arrisquei uns tragos no cigarro do Janjão, sentindo a fumaça queimar meus pulmões de um jeito que me fazia sentir viva.

— Você tem que ir pro orfanato hoje, não tem? — Janjão perguntou, deitado no sofá velho, puxando-me para o seu peito.

— Tenho. Meu pai quer que eu faça o papel de "irmã mais velha" — suspirei, brincando com a corrente no pescoço dele. — Eu odeio aquele lugar, Janjão. O cheiro de desinfetante barato, aquelas crianças carentes penduradas na minha saia... A Mili então, com aquele ar de santinha, me dá nos nervos.

— Você devia levar um pouco de caos pra lá — ele sugeriu, com um brilho malicioso nos olhos. — Imagina a cara daquelas órfãs se a "Hanna boazinha" chegasse com cheiro de bebida e falando gíria.

— Meu pai me mataria — ri, embora a ideia fosse tentadora. — Mas logo, logo, aquele lugar vai ser meu. E aí as regras vão mudar.

Às duas da tarde, a diversão acabou. Janjão me deixou perto do orfanato. Eu usei um chiclete de menta forte para disfarçar o cheiro de cigarro e limpei qualquer vestígio de rebeldia do meu rosto. Quando atravessei o portão do Raio de Luz, a máscara já estava colada.

— Hanna! Você veio! — Mili correu em minha direção, os olhos brilhando com aquela sinceridade irritante.

— Oi, Mili! — exclamei, abrindo os braços e fingindo um entusiasmo que me dava náuseas. — Eu não podia passar o dia sem ver vocês.

Entreguei os documentos na diretoria e fui levada para o pátio. Pata estava sentada em um banco, observando as outras crianças correrem. Ela me olhou de cima a baixo, os olhos estreitos, como se pudesse ver através da minha camisa branca perfeitamente engomada.

— Você está diferente hoje, Hanna — disse Pata, sem se levantar.

— Diferente como, Pata? — perguntei, mantendo o tom suave, mas sentindo o perigo.

— Não sei. Parece que você está com pressa. E seu perfume... é forte demais. Está tentando esconder algum cheiro?

Senti meu coração disparar, mas soltei uma risadinha cristalina, a mesma que eu usava nos jantares de gala do meu pai.

— Ora, Pata, você e sua imaginação! É apenas um perfume novo que ganhei. Gostou?

— Tanto faz — ela deu de ombros, voltando a olhar para o nada. — Só acho que você faz esforço demais para parecer perfeita. Ninguém é tão perfeita assim.

— Pata, não seja grosseira! — Mili interveio, aproximando-se de nós. — A Hanna é maravilhosa com a gente. Ela não precisa fazer esforço nenhum.

— Obrigada, Mili — eu disse, tocando o ombro dela com uma falsa ternura. — A Pata só está em um dia difícil, eu entendo.

Passei a hora seguinte contando histórias inventadas sobre viagens que nunca fiz e prometendo presentes que eu não tinha intenção de comprar. Cada "obrigada, Hanna" e cada abraço daquelas crianças parecia um peso de chumbo. Eu as detestava. Detestava a fraqueza delas, a dependência, a forma como elas olhavam para mim como se eu fosse a salvação.

Quando finalmente saí de lá, senti que podia respirar novamente. O motorista já me esperava. No banco de trás, peguei meu celular e vi uma mensagem do Janjão: "A mãe saiu. Vem pra cá à noite?".

O jantar na mansão foi uma tortura de etiquetas. Júnior falava sobre um novo projeto social, e meu pai o ouvia com desdém, enquanto me usava como exemplo de como uma Almeida Campos deveria se comportar.

— Veja a Hanna, Júnior. Ela frequenta o orfanato com prazer, ela entende a importância do nosso sobrenome — disse meu pai, cortando a carne com precisão cirúrgica.

— Eu só acho que a gente devia ouvir mais o que as crianças precisam, e não o que fica bem na foto do jornal — Júnior rebateu, irritado.

— Papai tem razão, Júnior — eu disse, com a voz mais doce do mundo. — A imagem da família é fundamental para que possamos continuar ajudando. Sem credibilidade, não temos recursos.

Meu pai sorriu para mim, orgulhoso. Ele não tinha ideia de que aquela "credibilidade" era o que financiava minhas noites de perdição.

Assim que o jantar terminou, fingi uma enxaqueca e subi para o quarto. Tranquei a porta, troquei o uniforme por um vestido de renda preta curto — o favorito do Janjão — e calcei meus tênis para facilitar a fuga. Saí pela janela lateral, descendo pela mureta do jardim como uma sombra.

A casa do Janjão estava silenciosa, mas a música baixa vinha do quarto dele. Entrei sem bater. Ele estava em pé, encostado na parede, observando a janela. Quando me viu, seus olhos percorreram meu corpo com uma intensidade que fez meu sangue ferver.

— Você fica muito melhor assim do que com aquela roupa de colégio de freira — ele disse, a voz rouca.

— Eu odeio aquela roupa — respondi, aproximando-me e colando meu corpo ao dele. — Odeio tudo naquela mansão.

A batida de um funk pesado começou a tocar em algum lugar do bairro, o grave fazendo as janelas vibrarem levemente. Eu comecei a me mover no ritmo da música, rebolando devagar contra ele, sentindo a provocação subir pela minha espinha. Janjão segurou minha cintura com força, as mãos quentes apertando minha pele através da renda.

— Você quer me deixar maluco, não quer? — ele sussurrou no meu ouvido.

— Talvez — eu disse, mordendo o lábio e olhando-o desafiadoramente. — Ou talvez eu só queira esquecer que amanhã tenho que ser a Hanna Almeida Campos de novo.

Ele me girou e me prensou contra a parede, beijando meu pescoço com uma urgência que me arrancou um gemido. Naquele momento, o quarto era à prova de som para o mundo, mas para nós, cada estalo, cada respiração e cada batida da música lá fora eram amplificados.

Depois de um tempo, caímos na cama, exaustos. Janjão pegou o tablet e colocamos "Minha Mãe é uma Peça". Era a nossa tradição: a comédia para aliviar a tensão do que éramos. Mas eu não conseguia ficar quieta. A adrenalina da fuga ainda corria nas minhas veias.

— Sabe — eu disse, rindo baixinho enquanto assistíamos a uma cena da Dona Hermínia —, aposto que sua mãe está exatamente assim agora no motel com o peguete dela.

Comecei a imitar gemidos exagerados, de pirraça, jogando a cabeça para trás.

— "Ai, vai mais rápido! Oh, meu Deus!" — eu dizia entre gargalhadas, fazendo cena e mordendo o lábio.

Janjão rolou de rir e entrou na brincadeira, engrossando a voz para imitar o homem.

— "Isso, vai, agora eu sou o seu dono!" — Ele exclamou, mandando ela ir mais rápido, gesticulando de um jeito ridículo.

Nós dois começamos a imitar o casal imaginário, rindo tanto que mal conseguíamos respirar. Eu me inclinei, fazendo uma pose dramática, gemendo e rindo ao mesmo tempo. Era libertador. Ali, eu podia ser vulgar, podia ser barulhenta, podia ser tudo o que o Dr. José Ricardo abominava.

— Você é doida, Hanna — ele disse, recuperando o fôlego e me puxando para um abraço.

— Eu não sou doida, Janjão. Eu só estou cansada de ser de porcelana.

Ficamos em silêncio por um momento, apenas ouvindo o som da TV.

— E se a Pata descobrir? — ele perguntou de repente. — Ela parece ser esperta.

— Deixa ela descobrir — respondi, o olhar tornando-se frio e calculista. — Quem vai acreditar nela? Ela é uma órfã sem nada. Eu sou uma Almeida Campos. Eu posso destruir a vida dela com uma palavra para o meu pai.

Janjão me olhou com uma mistura de admiração e medo.

— Às vezes eu esqueço o quanto você pode ser perigosa.

— Eu aprendi com o melhor — disse eu, pensando no meu pai. — Ele esmaga quem fica no caminho dele com um sorriso no rosto. Eu só estou seguindo a tradição da família.

O sono começou a chegar, mas eu ainda sentia a eletricidade da noite. Eu sabia que, em poucas horas, teria que voltar para a mansão, escalar a janela e colocar o uniforme de novo. Teria que sorrir para a Mili, ser gentil com a diretora e ouvir os sermões do meu pai sobre moral e bons costumes.

Mas enquanto eu fechava os olhos, sentindo o cheiro do Janjão e o conforto daquela cama bagunçada, eu sabia que a porcelana estava trincada. E um dia, ela iria quebrar de vez, revelando para o mundo a Hanna que só o Janjão conhecia. E, naquele dia, o Orfanato Raio de Luz não seria um lugar de esperança, mas o meu reino de sombras.

— Boa noite, princesa — Janjão sussurrou, já quase dormindo.

— Boa noite, meu rei — respondi, sorrindo na escuridão, pronta para mais um dia de mentiras perfeitamente ensaiadas.