A descoberta do amor
Geometria Analítica e Outras Complicações
A terça-feira passou como um teste de resistência para Alice. Cada vez que ela cruzava com uma jaqueta do time de basquete nos corredores, seu estômago dava um solavanco involuntário. Ela tentava se convencer de que era apenas o café forte que tomara no café da manhã, mas a verdade era mais incômoda: ela estava ansiosa para a quarta-feira. E Alice Smith não era o tipo de pessoa que ficava ansiosa por interações sociais. Ela preferia a previsibilidade dos números, onde $x$ sempre tinha um valor determinado se você seguisse as regras.
Quando a quarta-feira finalmente chegou, o céu de Saint Jude estava de um azul pálido, quase da cor da blusa que Sarah a obrigara a vestir. Alice se olhou no espelho do banheiro da escola antes da última aula, ajeitando os óculos.
— É apenas uma tutoria, Alice. Você vai explicar frações e funções. Não é um lançamento de foguete — murmurou ela para o próprio reflexo.
— Falando sozinha de novo, Smith? — Sarah entrou no banheiro, retocando o batom. — Isso é sinal de genialidade ou de colapso nervoso iminente. No seu caso, aposto nos dois.
— Ele nem deve aparecer — disse Alice, ignorando a provocação. — Jogadores de basquete têm memória de curto prazo para compromissos que não envolvam uma bola laranja.
— O Mateus? — Sarah riu, guardando o batom na bolsa. — Aquele garoto está contando os minutos. Eu o vi no corredor hoje cedo e ele parecia um Golden Retriever esperando o dono chegar em casa. Vá logo para a biblioteca.
A biblioteca do Colégio Saint Jude era o santuário de Alice. O cheiro de papel antigo e o silêncio reverencial eram seu habitat natural. Ela escolheu uma mesa nos fundos, longe das janelas, onde a luz era constante e as distrações eram mínimas. Espalhou seus cadernos, o livro de Cálculo e um conjunto de canetas coloridas perfeitamente alinhadas.
Exatamente às 15h30, a porta pesada de madeira da biblioteca rangeu. Mateus Brown entrou, parecendo visivelmente fora de lugar entre as estantes de literatura clássica. Ele carregava uma mochila pendurada em um ombro só e um copo de papel em cada mão. Ao avistar Alice, um sorriso aliviado cruzou seu rosto.
— Achei que você fosse desistir de mim antes mesmo de começarmos — disse ele, aproximando-se e colocando os copos sobre a mesa. — Trouxe café. Caramelo macchiato, se eu bem me lembro do que você costuma beber no intervalo.
Alice olhou para o copo e depois para ele, surpresa.
— Você prestou atenção no meu café?
— Eu sou um observador, Smith — ele respondeu, puxando a cadeira à frente dela. — É uma habilidade subestimada no basquete. Você precisa saber para onde os outros estão indo antes mesmo de eles saberem.
— Bom, espero que use essa habilidade para observar os sinais de menos nas equações — ela retrucou, tentando esconder o fato de que estava impressionada. — Vamos começar?
Mateus suspirou, abrindo o caderno. As páginas estavam uma bagunça de garranchos e diagramas de jogadas de basquete desenhados nas margens. Alice sentiu uma pontada de compaixão. Para alguém cujas notas eram tão baixas, o esforço de estar ali, em plena tarde de sol, era considerável.
— Onde exatamente você se perdeu? — perguntou ela, inclinando-se sobre a mesa.
— Honestamente? — Mateus coçou a nuca, parecendo genuinamente envergonhado. — Acho que foi em algum momento entre o oitavo ano e a semana passada. Eu entendo a lógica, mas quando as letras começam a se misturar com os números, meu cérebro entra em curto-circuito.
— Matemática é apenas uma linguagem, Mateus. Se você aprender o alfabeto, consegue ler o livro — ela explicou, puxando uma folha em branco. — Pense na quadra de basquete. Se você está no ponto A e quer chegar ao ponto B para um arremesso, você está calculando uma trajetória. É física, é geometria. Você faz isso o tempo todo sem perceber.
— É diferente — ele murmurou, observando-a escrever uma fórmula com uma caligrafia impecável. — Na quadra, eu não tenho tempo para pensar. Eu apenas sinto o movimento. Aqui... aqui eu tenho tempo demais para perceber o quanto eu não sei.
Alice parou a caneta e olhou para ele. O capitão do time, o garoto que parecia ter o mundo aos seus pés, estava demonstrando uma insegurança que ela conhecia bem.
— Ninguém nasce sabendo, Mateus. Até o Einstein teve que aprender a tabuada. Agora, olhe para esta função. Esqueça que são letras. Pense nelas como posições em campo.
Durante a hora seguinte, o silêncio da biblioteca foi preenchido pelo som baixo da voz de Alice e pelo riscar do lápis de Mateus. Ela era uma professora paciente, mas firme. Não deixava que ele pulasse etapas e o obrigava a explicar o raciocínio em voz alta.
— Então, se eu passar o $2x$ para o outro lado... ele vira negativo? — perguntou ele, franzindo a testa com uma concentração intensa.
— Exatamente — incentivou Alice. — Por quê?
— Porque ele está mudando de lado na igualdade. É como mudar de campo no intervalo?
Alice soltou uma risadinha.
— Quase isso. Digamos que é uma questão de equilíbrio. A igualdade é como uma balança. O que você faz de um lado, tem que compensar do outro.
— Você faz parecer simples — disse ele, recostando-se na cadeira e olhando para ela. — Por que os professores não explicam assim?
— Talvez porque eles não joguem basquete — ela deu de ombros, sentindo o rosto esquentar sob o olhar dele. — Ou talvez porque eles não vejam o mundo como uma série de padrões esperando para serem decifrados.
Mateus ficou em silêncio por um momento, apenas observando Alice. Ela estava com o cabelo preso em um coque frouxo, e algumas mechas morenas caíam sobre seu rosto. Ela as afastava com um gesto impaciente toda vez que se concentrava em um problema difícil.
— O que foi? — perguntou ela, percebendo o silêncio. — Tem alguma dúvida sobre o gráfico?
— Não — Mateus sorriu de canto. — Eu só estava pensando que a Sarah estava errada.
Alice franziu o cenho.
— Errada sobre o quê?
— Ela me disse uma vez que você era uma máquina de calcular sem sentimentos. Mas eu acho que você é mais como... um código secreto. Difícil de decifrar, mas que faz todo o sentido quando você encontra a chave.
Alice sentiu o coração falhar uma batida. Ela não estava acostumada a elogios que não envolvessem seu desempenho acadêmico.
— A Sarah fala demais — disse ela, voltando os olhos para o livro. — E você deveria estar se concentrando na parábola, não em metáforas baratas sobre a minha personalidade.
— Não foi uma metáfora barata — ele insistiu, a voz ficando um pouco mais grave. — Eu realmente admiro o jeito que você vê as coisas. Eu passo o dia tentando não ser notado por nada além do meu porte físico, e você... você parece notar tudo. Até o meu café favorito.
— Eu não notei o seu café favorito — corrigiu ela, recuperando o sarcasmo. — Eu apenas deduzi, baseado na frequência com que você segura aquele copo térmico azul, que você prefere bebidas com muito açúcar e pouca cafeína real.
Mateus riu, uma risada que ecoou um pouco alto demais para o ambiente, atraindo um olhar reprovador da bibliotecária.
— Viu? Observadora. Eu não disse?
Eles continuaram o estudo por mais trinta minutos, até que as luzes da biblioteca piscaram, sinalizando que o prédio fecharia em breve. Mateus conseguiu resolver os últimos três problemas sozinho, o que lhe rendeu um "muito bem" genuíno de Alice.
— Eu sobrevivi — comemorou ele, fechando o caderno. — Acho que meu cérebro ainda está inteiro.
— Não se anime muito — Alice guardava suas canetas com precisão cirúrgica. — Na próxima semana entraremos em trigonometria. É onde os filhos choram e as mães não veem.
— Mal posso esperar — ele disse, com uma ironia que a fez sorrir. — Então... sobre o meu pagamento. Pizza ou aula de arremesso?
Alice parou, com a mochila já no ombro.
— Você estava falando sério sobre isso?
— Eu nunca brinco sobre comida ou sobre basquete, Smith — ele se levantou, sua altura de 1,80m fazendo-a se sentir pequena, mas não intimidada. — Tem uma pizzaria a duas quadras daqui. Eles têm a melhor calabresa da cidade e, o mais importante, eles não conferem boletins na entrada.
Alice hesitou. Seu plano para aquela noite envolvia terminar um relatório de biologia e assistir a um documentário sobre buracos negros pela terceira vez. Mas, ao olhar para Mateus, que segurava a porta da biblioteca para ela com um olhar de expectativa, ela sentiu que o relatório poderia esperar.
— Tudo bem — cedeu ela. — Mas eu escolho os sabores. Nada de abacaxi na pizza, Mateus. Eu tenho padrões.
— Abacaxi na pizza é um crime contra a humanidade — concordou ele, caminhando ao lado dela pelo corredor vazio. — Fico feliz que estejamos na mesma página sobre as coisas importantes da vida.
Enquanto caminhavam em direção ao estacionamento, o silêncio entre eles não era mais o silêncio desconfortável do primeiro dia de aula. Era algo novo, uma frequência que Alice ainda não sabia nomear.
— Ei, Alice — chamou ele, antes de chegarem aos carros.
— Sim?
— Obrigado. Por não me tratar como se eu fosse um caso perdido. Muita gente desiste de me explicar as coisas quando eu não entendo de primeira.
Alice parou e olhou para ele. O sol poente criava uma aura dourada ao redor de Mateus, destacando o loiro de seu cabelo e a sinceridade em seus olhos.
— Você não é um caso perdido, Mateus. Você só precisa de uma tradução melhor. E, para sua sorte, eu sou fluente em quase tudo o que é difícil.
— Eu estou começando a perceber isso — ele disse suavemente.
Eles seguiram em carros separados para a pizzaria, mas Alice se pegou olhando pelo retrovisor o tempo todo, apenas para ter certeza de que o jipe preto de Mateus ainda estava lá.
A pizzaria era um lugar barulhento e acolhedor, com toalhas de mesa xadrez e cheiro de orégano. Eles se sentaram em uma mesa de canto, e a conversa fluiu com uma facilidade que assustou Alice. Eles não falaram sobre matemática. Falaram sobre a pressão de ser o capitão do time, sobre o desejo de Alice de viajar para o deserto do Atacama para ver as estrelas sem poluição luminosa, e sobre como o ensino médio parecia uma simulação estranha.
— Às vezes eu acho que todo mundo está seguindo um roteiro — disse Mateus, gesticulando com um pedaço de pizza. — O atleta, a nerd, a popular, o esquisito. É como se a gente não pudesse ser nada além disso.
— Os rótulos são eficientes — Alice comentou, bebendo um pouco de refrigerante. — Eles poupam as pessoas de terem que realmente conhecer umas às outras. É mais fácil me chamar de "a garota dos dez" do que tentar entender por que eu me escondo atrás dos livros.
— E por que você se esconde? — perguntou ele, fixando o olhar nela.
Alice hesitou, brincando com o guardanapo.
— Porque os livros não esperam nada de mim. Eles estão lá, imutáveis. As pessoas... as pessoas são variáveis. E eu sempre tive dificuldade com variáveis que não seguem uma lógica linear.
— Eu posso ser uma variável bem difícil — admitiu Mateus, com um sorriso triste. — Mas eu prometo que não sou ilógico. Eu só sou... um pouco lento para processar algumas funções.
— Eu acho que estou começando a entender a sua lógica, Mateus Brown — ela disse, e pela primeira vez naquela noite, não houve timidez em sua voz.
Quando saíram do restaurante, a noite já estava fria. Mateus a acompanhou até o carro dela.
— Então... quarta que vem? — perguntou ele, as mãos nos bolsos da jaqueta.
— Quarta que vem — confirmou ela. — E traga o capítulo cinco lido. Eu vou saber se você estiver mentindo.
— Eu não mentiria para a minha tutora favorita — ele piscou para ela. — Boa noite, Alice.
— Boa noite, Mateus.
Ela entrou no carro e esperou que ele se afastasse antes de dar a partida. Seu coração estava acelerado, e não era por causa do café. Alice Smith, a garota que tinha um plano de dez anos, percebeu que o segundo ano não seria apenas sobre sobreviver às aulas. Seria sobre aprender a lidar com variáveis imprevisíveis, cabelos loiros bagunçados e a estranha, mas maravilhosa, sensação de que o tempo, perto de certas pessoas, não passava devagar por tédio, mas porque cada segundo parecia importante demais para ser desperdiçado.
Ao chegar em casa, Sarah mandou uma mensagem: "E aí? A pizza estava com gosto de romance ou de hipotenusa?"
Alice sorriu para a tela do celular e respondeu: "Tinha gosto de calabresa. Mas a geometria foi surpreendentemente interessante."
Ela se deitou, olhando para o teto do quarto, onde brilhavam estrelas de plástico que brilhavam no escuro. Pela primeira vez, a astrofísica parecia menos fascinante do que a ideia de uma tarde na biblioteca. Alice Smith estava começando a entender que, às vezes, as equações mais difíceis de resolver são aquelas que não envolvem números, mas sim a coragem de deixar alguém entrar no seu mundo perfeitamente organizado. E Mateus Brown, com sua falta de jeito com os números e sua facilidade com os sorrisos, estava bagunçando tudo da melhor forma possível.