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A descoberta do amor

A Geometria dos Arremessos e o Efeito de Borda

A sexta-feira chegou com uma energia elétrica que parecia vibrar nas paredes de tijolos aparentes do Colégio Saint Jude. O corredor principal, geralmente um caos de adolescentes sonolentos, estava decorado com faixas azuis e douradas. Era o dia do primeiro jogo oficial da temporada, contra o maior rival da liga, o Oak Ridge High. Para a maioria, era o evento social do semestre. Para Alice, era apenas mais um dia em que ela teria dificuldade para encontrar uma mesa silenciosa no refeitório.

Ela estava em seu armário, tentando equilibrar o livro de Biologia Celular e seu caderno de anotações, quando uma sombra alta se projetou sobre ela. O cheiro de sabonete cítrico e o calor emanando do corpo atlético ao seu lado já eram sinais familiares.

— Você vai, não vai? — A voz de Mateus era baixa, mas carregada de uma expectativa que ele não conseguia disfarçar.

Alice se virou lentamente, ajeitando os óculos que insistiam em escorregar pelo nariz. Mateus estava usando a jaqueta do time, os ombros parecendo ainda mais largos sob o tecido grosso. Ele parecia nervoso, o que era um contraste bizarro para o capitão que, em poucas horas, estaria liderando o time diante de um ginásio lotado.

— Eu não sou muito fã de multidões, Mateus — disse ela, embora seu coração já estivesse traindo sua postura defensiva. — E eu tenho um documentário sobre a vida marinha para terminar de ver.

— Alice, é o primeiro jogo. E, tecnicamente, você é a razão de eu estar em quadra hoje — ele insistiu, dando um passo para mais perto, o que a fez recuar milímetros até encostar no metal frio do armário. — Se você não tivesse me explicado aquela função quadrática na quarta-feira, o treinador teria me cortado da escalação hoje de manhã. Você é meu amuleto de sorte acadêmico.

Alice soltou uma risada curta, desviando o olhar para os próprios pés.

— Amuleto de sorte? Isso é estatisticamente improvável, Mateus. O seu desempenho depende da sua memória muscular e do seu condicionamento físico, não da minha presença na arquibancada.

Mateus deu um meio sorriso, aquele que fazia as covinhas aparecerem e que Alice secretamente já tinha catalogado como sua maior fraqueza.

— Esqueça a estatística por uma noite. Vai por mim... ou vai por causa da pizza que eu prometi se vencermos.

Alice ponderou. Ela sabia que Sarah a arrastaria de qualquer maneira, mas havia algo no modo como Mateus a olhava — como se a opinião dela fosse a única que realmente importasse naquele corredor barulhento — que a desarmava completamente.

— Tudo bem — ela cedeu, sentindo o rosto esquentar. — Mas se eu for atingida por uma bola perdida, eu vou cobrar honorários médicos.

— Eu protejo você — ele prometeu, os olhos brilhando. — Te vejo lá, Smith. Na primeira fila, de preferência.

O ginásio do Saint Jude estava um verdadeiro caldeirão. O som dos tênis rangendo no assoalho de madeira, os gritos da torcida e o ritmo frenético da banda marcial criavam uma atmosfera que Alice normalmente acharia insuportável. No entanto, sentada ao lado de uma Sarah eufórica, ela se pegou observando o aquecimento com um interesse que ia além da biomecânica.

— Eu não acredito que você realmente veio — gritou Sarah por cima do barulho. — E não acredito que o Mateus Brown parou o aquecimento só para olhar para cá.

Alice olhou para a quadra. Mateus estava no meio de uma bandeja, mas, ao aterrissar, seus olhos varreram a arquibancada até encontrá-la. Ele levantou a mão em um aceno discreto e abriu um sorriso radiante antes de voltar para a fila de arremessos.

— Ele só está sendo educado — murmurou Alice, embora estivesse apertando as alças da mochila com força.

— Educação não faz um capitão de time ignorar o treinador para acenar para a "nerd da biblioteca" — retrucou Sarah, arqueando uma sobrancelha. — Alice, olha em volta. Ninguém aqui entende o que está acontecendo.

Ela tinha razão. Os amigos de Mateus, o grupo de elite dos atletas que geralmente ignorava qualquer pessoa com uma média acima de 9.0, estavam trocando olhares confusos. Lucas, o ala-pivô e melhor amigo de Mateus, cutucou o capitão enquanto voltavam para o banco.

— Quem é a morena, Brown? — perguntou Lucas, alto o suficiente para que algumas pessoas na primeira fila ouvissem. — Eu nunca vi ela em nenhuma festa.

— É a Alice — respondeu Mateus, sem tirar os olhos da quadra, mas com uma nota de orgulho na voz que não passou despercebida. — Ela é a garota mais inteligente dessa escola. E a que tem o melhor sarcasmo também.

— A Smith? A rainha do clube de robótica? — Lucas parecia genuinamente chocado. — Cara, eu achei que você estivesse saindo com a Chloe, da equipe de natação.

— A Chloe é legal — disse Mateus, pegando uma garrafa de água —, mas ela não sabe a diferença entre uma parábola e um arremesso de gancho. A Alice sabe. E ela é... diferente.

O jogo começou e, para surpresa de Alice, ela se viu envolvida. Ela começou a analisar as jogadas como se fossem equações em movimento. Mateus era o centro de tudo. Ele se movia com uma fluidez que desafiava a gravidade, distribuindo passes e infiltrando-se na defesa adversária com uma precisão matemática. Toda vez que ele fazia uma cesta, ele dava uma olhada rápida na direção de Alice, como se buscasse a aprovação dela.

No intervalo, o Saint Jude liderava por cinco pontos. Mateus estava suado, ofegante, mas parecia mais vivo do que nunca. Enquanto o time se dirigia ao vestiário, Lucas e outros dois jogadores, Gabe e Leo, pararam perto da mureta onde Alice e Sarah estavam.

— Ei — disse Lucas, dirigindo-se a Alice com uma curiosidade nada sutil. — Você é a tutora do Mateus, certo? O cara não cala a boca sobre como você é um gênio.

Alice sentiu todos os olhares do setor se voltarem para ela. A timidez ameaçou assumir o controle, mas ela respirou fundo e ajeitou a postura.

— Eu apenas ajudo ele a não transformar a matemática em uma língua morta — respondeu ela, com um tom seco que fez Sarah segurar o riso.

— Ela é modesta — interveio Sarah. — Ela é a razão de ele não ter reprovado em Física no semestre passado.

— Bom, seja lá o que você esteja fazendo, continue — disse Gabe, impressionado. — O Brown está jogando como se tivesse tomado dez energéticos. Ele está tentando impressionar alguém, e eu tenho um palpite de que não é o olheiro da faculdade.

Os jogadores riram e seguiram para o vestiário, deixando Alice com o coração acelerado. Ela não estava acostumada a ser notada por aquele círculo social, e muito menos a ser o motivo de conversa entre eles.

O segundo tempo foi tenso. O Oak Ridge reagiu, e a vantagem do Saint Jude caiu para apenas um ponto nos segundos finais. O ginásio estava em silêncio absoluto quando Mateus sofreu uma falta técnica. Ele teria dois arremessos livres. O jogo estava em suas mãos.

Mateus se posicionou na linha de lance livre. Ele quicou a bola três vezes — seu ritual de sempre. O suor escorria por sua testa, e o cansaço era visível em seus ombros. O barulho da torcida adversária era ensurdecedor, tentando desconcentrá-lo.

Alice, sem pensar, levantou-se. Ela não gritou, mas seus olhos encontraram os dele no meio da multidão. Ela fez um gesto discreto com a mão, imitando o ângulo de 45 graus que haviam discutido na biblioteca quando falavam sobre trajetórias ideais.

Mateus viu. Ele respirou fundo, fechou os olhos por um segundo e sorriu. O primeiro arremesso entrou limpo, sem sequer tocar no aro. O segundo seguiu o mesmo caminho. O ginásio explodiu em comemoração.

Quando o cronômetro zerou e a vitória foi confirmada, o campo foi invadido. Alice tentou se afastar, sentindo que sua cota de interação social já havia sido ultrapassada, mas foi impedida por uma mão firme em seu pulso.

— Onde você pensa que vai, Smith? — Mateus estava lá, exausto, cheirando a esforço e vitória, com a rede da cesta pendurada no pescoço como um troféu.

— Eu... eu achei que você fosse comemorar com o time — disse ela, sentindo-se pequena diante da energia dele.

— Eu vou. Mas primeiro... — Ele se virou para os amigos que se aproximavam, incluindo Lucas e os outros. — Pessoal, essa é a Alice. Oficialmente, a pessoa que salvou a minha temporada.

Lucas olhou para Alice, mas desta vez não havia deboche ou curiosidade superficial. Havia um respeito genuíno.

— Belo ângulo de 45 graus, Alice — disse Lucas, piscando para ela. — O Brown me contou que você ensinou isso para ele. Você é bem mais legal do que as garotas com quem ele costuma sair. E, honestamente, muito mais bonita também.

Mateus deu um empurrão amigável em Lucas, o rosto ficando quase tão vermelho quanto o de Alice.

— Chega de elogios, Lucas. Vai para o vestiário antes que eu te escale para limpar a quadra.

Os jogadores se afastaram rindo, deixando os dois sozinhos em um pequeno oásis de calma no meio do caos.

— Você foi incrível lá fora — disse Alice, a voz suave. — A aceleração constante no último quarto foi... impressionante.

— Foi a física, Alice — ele brincou, dando um passo para mais perto. — Eu só segui as instruções da minha tutora.

— Você seguiu o seu talento, Mateus. Eu só dei os nomes técnicos para o que você já fazia.

Houve um silêncio carregado entre eles. Mateus olhou para Alice como se estivesse vendo algo muito mais precioso do que o troféu do campeonato. Ele estendeu a mão e, com cuidado, afastou uma mecha de cabelo que tinha caído sobre os olhos dela.

— Obrigado por vir. De verdade. Significa muito para mim que você estivesse aqui.

— Eu prometi, não prometi? E eu sempre cumpro minhas promessas — ela respondeu, sentindo que o "buraco negro" do ensino médio, sobre o qual haviam conversado, não era tão assustador quando se tinha alguém para segurar sua mão na escuridão.

— Então você vai cumprir a promessa da pizza também? — Mateus perguntou, com um brilho travesso nos olhos. — O time vai se reunir na lanchonete do Joe. Eu queria que você fosse comigo. Não como minha tutora, mas... como minha acompanhante.

Alice olhou para Sarah, que estava a alguns metros de distância fazendo sinais de polegar positivo de forma exagerada. Depois voltou a olhar para Mateus. Ele não era apenas o capitão loiro e popular. Ele era o garoto que se importava com buracos negros, que trazia o café dela do jeito certo e que via nela algo que nem ela mesma conseguia enxergar às vezes.

— Eu não tenho a roupa certa para uma festa de vitória de atletas — ela tentou uma última defesa.

— Você está perfeita, Alice — ele disse, a voz cheia de uma sinceridade que a fez estremecer. — Você está sempre perfeita.

Alice sorriu, um sorriso que não era sarcástico nem tímido, mas pleno.

— Tudo bem, Brown. Mas eu ainda escolho os sabores. E nada de azeitonas.

— Fechado — ele riu, oferecendo o braço para ela.

Enquanto caminhavam juntos para fora do ginásio, sob os olhares surpresos e cochichos de toda a escola, Alice percebeu que a geometria da sua vida estava mudando. As linhas retas e previsíveis que ela sempre seguiu estavam se curvando em direção a Mateus, criando uma nova forma, complexa e emocionante. E, pela primeira vez, ela não precisava de uma fórmula para saber que o resultado seria exatamente o que ela precisava. O segundo ano estava apenas começando, e as variáveis nunca pareceram tão interessantes.