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A descoberta do amor

O Teorema da Atração e o Gosto de Pizza

A lanchonete do Joe era um monumento ao clichê americano: bancos de couro vermelho levemente rasgados, luzes de neon piscando em tons de azul e um cheiro onipresente de gordura e orégano. Naquela noite, o lugar estava saturado. A vitória contra o Oak Ridge High havia transformado o estabelecimento no epicentro da euforia do Colégio Saint Jude.

Alice Smith sentia-se como um elemento estranho em uma tabela periódica desconhecida. Ela estava sentada em uma mesa comprida nos fundos, cercada pelo barulho ensurdecedor de risadas masculinas e o som de copos de refrigerante batendo. Ao seu lado, Mateus ocupava um espaço que parecia grande demais para o banco, seu braço apoiado casualmente no encosto atrás da cabeça de Alice, criando uma espécie de bolha protetora.

Além de Alice, as únicas outras garotas no grupo eram Sarah — que já estava entrosada com Lucas, discutindo táticas de jogo como se fosse uma técnica profissional — e Chloe, a capitã da equipe de natação, que tinha vindo com Gabe. Chloe era simpática, mas Alice ainda se sentia ligeiramente intimidada pela facilidade com que aquelas pessoas ocupavam o espaço ao redor delas.

— Você está muito quieta, Smith — sussurrou Mateus, inclinando-se para que apenas ela ouvisse acima da gritaria de Leo sobre um arremesso de três pontos. — Está pensando em física quântica ou apenas planejando sua fuga estratégica pela janela do banheiro?

Alice deu um meio sorriso, mexendo no canudo do seu copo.

— Estou calculando a probabilidade de eu sobreviver a essa noite sem desenvolver um zumbido permanente nos ouvidos — ela respondeu, olhando para ele. — E, para sua informação, a janela do banheiro está trancada. Eu verifiquei quando cheguei.

Mateus soltou uma risada vibrante, aquela que fazia seus olhos azuis se estreitarem de um jeito que desarmava qualquer defesa de Alice.

— Você é incrível. Sério. Ninguém mais checaria as saídas de emergência em uma comemoração de vitória.

— É precaução básica, Brown. O caos é uma força imprevisível.

— Ei, casal! — gritou Lucas do outro lado da mesa, levantando uma fatia de pizza de pepperoni. — Menos conversa intelectual e mais celebração. Alice, o Mateus nos disse que você previu o lance livre final. Isso é verdade ou ele está apenas tentando fazer você parecer uma profeta da matemática?

Alice sentiu o rosto queimar. Ela odiava ser o centro das atenções, mas a mão de Mateus desceu suavemente para o seu ombro, um toque leve que serviu como uma âncora.

— Ela não previu — disse Mateus, defendendo-a —, ela calculou. Existe uma diferença fundamental, Lucas, embora eu não espere que você entenda a semântica disso.

— Ela é o nosso cérebro — completou Gabe, erguendo o copo. — À Alice, a única pessoa capaz de fazer o Brown pensar antes de agir!

Todos brindaram com seus copos de papel, e Alice sentiu uma onda estranha de calor que não vinha apenas da timidez. Pela primeira vez, ela não se sentia apenas como a "garota inteligente" que ficava na periferia dos grupos sociais. Ela se sentia parte de algo.

A noite avançou entre fatias de pizza e histórias de vestiário que Alice achou surpreendentemente engraçadas. Ela descobriu que Chloe era uma entusiasta de biologia marinha e as duas acabaram em uma discussão profunda sobre a inteligência dos polvos, enquanto os rapazes as olhavam como se estivessem falando grego.

— Viu só? — disse Mateus, quando o grupo começou a se dispersar para as máquinas de pinball no fundo da lanchonete. — Eu disse que você ia se divertir.

— Eu admito que a taxa de entretenimento superou minhas expectativas iniciais — concedeu Alice.

— Isso é um elogio vindo de você.

O ambiente estava ficando cada vez mais barulhento, e o ar parecia subitamente pesado para Alice. Ela precisava de um pouco de oxigênio que não estivesse misturado com o aroma de fritura.

— Mateus, eu vou tomar um pouco de ar lá fora. Está ficando um pouco... barulhento demais aqui dentro.

— Eu vou com você — ele disse imediatamente, levantando-se.

— Não precisa, você é o capitão, deveria estar com seus amigos.

— Meus amigos estão ocupados tentando quebrar o recorde do Pac-Man — Mateus indicou Lucas e Gabe, que quase entravam dentro da máquina de jogos. — E eu prefiro a companhia da minha tutora.

Eles saíram pela porta lateral, que dava para um pequeno pátio de cimento atrás da lanchonete. O ar da noite estava fresco, um contraste delicioso com o calor abafado do Joe. O céu estava limpo, exibindo uma tapeçaria de estrelas que parecia brilhar com mais intensidade longe das luzes fortes do ginásio.

Alice caminhou até uma mureta baixa e sentou-se, observando a imensidão acima deles. Mateus ficou de pé ao lado dela, as mãos nos bolsos da jaqueta do time.

— Ali está ela — disse Alice, apontando para um ponto específico no céu. — Orion. É a constelação mais fácil de identificar nesta época do ano. Veja aquelas três estrelas alinhadas? É o Cinturão de Orion.

Mateus olhou para cima, seguindo o dedo dela.

— É impressionante como você sabe o nome de tudo. Estrelas, funções, tipos de café...

— Nomes dão ordem ao mundo, Mateus. Se você sabe o nome de algo, você tem um pouco de controle sobre isso.

— E como você chama o que está acontecendo aqui? — ele perguntou, sua voz baixando de tom, tornando-se mais séria. — Porque eu sinto que não tenho controle nenhum sobre isso.

Alice baixou a mão e olhou para ele. Mateus não estava olhando para as estrelas; ele estava olhando para ela. A luz amarelada de um poste próximo criava sombras dramáticas em seu rosto, destacando a linha forte de sua mandíbula e a suavidade inesperada em seu olhar.

— Eu chamaria de... uma anomalia estatística — ela respondeu, embora sua voz tivesse falhado levemente. — O capitão do time de basquete e a nerd da robótica não costumam ocupar o mesmo espaço-tempo fora das obrigações acadêmicas.

— Eu odeio estatística — murmurou Mateus, dando um passo para mais perto. — E odeio esses rótulos. Eu não quero ser o "capitão" para você, Alice. Eu só quero ser o Mateus. O cara que é péssimo em matemática, mas que não consegue parar de pensar na garota que tentou me ensinar o que é uma parábola.

Alice sentiu o pulso acelerar. Ela conhecia a teoria de tudo: a biologia da atração, a liberação de dopamina e oxitocina, a resposta de luta ou fuga. Mas a prática era esmagadora. Mateus estava tão perto que ela podia sentir o calor que emanava dele, ocupando todo o seu campo de visão.

Ele parecia hesitar. Mateus Brown, o garoto que enfrentava defesas de gigantes sem piscar, parecia ter medo de avançar aqueles últimos dez centímetros. Ele a admirava tanto, tinha tanto respeito por aquele intelecto e por aquela timidez, que parecia paralisado pela possibilidade de ultrapassar um limite que ela não estivesse pronta para cruzar.

Alice percebeu a hesitação dele. Ela viu o modo como ele olhou para os lábios dela e depois desviou o olhar rapidamente para os olhos, como se estivesse pedindo uma permissão silenciosa que sua voz não conseguia formular.

Ela sempre fora a garota que esperava. Esperava pelos resultados das provas, esperava pela vez de falar, esperava que a vida acontecesse de acordo com o cronograma. Mas, naquele momento, sob o brilho de Orion e o som abafado da comemoração lá dentro, Alice Smith decidiu que não queria mais esperar.

Ela se inclinou para frente.

Foi um movimento rápido, mas decidido. Ela envolveu as lapelas da jaqueta de Mateus com as mãos, puxando-o levemente para baixo enquanto se elevava na ponta dos pés na mureta.

O beijo aconteceu no meio de uma respiração interrompida.

No início, foi apenas um toque suave, uma exploração cautelosa. Os lábios de Mateus estavam quentes e tinham um leve gosto de refrigerante de cereja. Mas, no segundo seguinte, o choque inicial de Mateus transformou-se em uma resposta urgente. Ele envolveu a cintura de Alice com os braços, puxando-a para mais perto, eliminando qualquer espaço que restasse entre eles.

Alice sentiu um calafrio percorrer sua espinha que nenhuma lei da termodinâmica poderia explicar. O mundo ao redor desapareceu — o barulho da lanchonete, o cheiro de asfalto, as preocupações com o vestibular. Havia apenas a sensação das mãos grandes de Mateus em suas costas e o modo como ele suspirou contra a boca dela, um som de alívio e descoberta.

Quando eles finalmente se afastaram, apenas alguns centímetros, as testas ainda encostadas, a respiração de ambos estava curta.

— Uau — sussurrou Mateus, com os olhos ainda fechados. — Eu acho que... eu acho que meu cérebro acabou de entrar em colapso total.

Alice soltou uma risadinha trêmula, mas não soltou a jaqueta dele.

— Foi uma iniciativa necessária — ela disse, tentando recuperar seu tom analítico, embora estivesse visivelmente abalada. — A tensão acumulada estava criando um desequilíbrio no sistema. Eu apenas restaurei a ordem.

Mateus abriu os olhos e sorriu, um sorriso bobo e genuíno que ela nunca tinha visto antes.

— Se restaurar a ordem significa isso, eu quero viver em um estado constante de caos só para você me consertar de novo.

— Não se acostume, Brown. Eu ainda sou uma professora exigente.

— Eu sou um aluno muito dedicado — ele rebateu, inclinando-se para dar um selinho rápido e carinhoso na ponta do nariz dela. — Alice, eu... eu realmente gosto de você. E não é porque você me ajuda com os estudos. É porque você é a única pessoa que me faz sentir que eu não preciso ser perfeito o tempo todo.

Alice sentiu um nó na garganta. Ela passou a vida tentando ser perfeita para ser notada, e ali estava o garoto mais popular da escola dizendo que a amava justamente por ela permitir que ele fosse imperfeito.

— Eu também gosto de você, Mateus. Mesmo que você ainda confunda catetos com hipotenusas de vez em quando.

— Ei! Eu estou melhorando — ele protestou, rindo.

Eles ficaram ali por mais algum tempo, abraçados no frio da noite, sentindo que o segundo ano do ensino médio tinha acabado de se tornar muito mais complexo e, ao mesmo tempo, muito mais simples.

Quando finalmente decidiram voltar para dentro, Sarah estava encostada na porta lateral, observando-os com um sorriso de "eu sabia" que ocupava todo o seu rosto.

— Demoraram, hein? — Sarah disse, cruzando os braços. — Eu estava prestes a mandar uma equipe de busca ou ligar para o observatório astronômico para ver se vocês tinham sido abduzidos.

— Estávamos apenas... discutindo algumas variáveis — disse Mateus, sem soltar a mão de Alice.

Sarah olhou para as mãos dadas e depois para o rosto corado de Alice.

— Variáveis, sei. O nome disso na minha terra é química orgânica de alto nível.

— Vamos entrar, Sarah — interrompeu Alice, embora estivesse sorrindo. — Eu ainda quero aquela fatia de pizza de chocolate que o Joe prometeu para a sobremesa.

O restante da noite passou como um borrão de felicidade. Alice sentou-se à mesa, mas desta vez não se sentia uma intrusa. Ela participou das piadas, riu das histórias exageradas de Lucas e até explicou para Gabe por que a trajetória do seu último arremesso foi prejudicada pelo efeito de borda.

Mateus não soltou a mão dela por um segundo sequer sob a mesa.

Quando a lanchonete começou a esvaziar e os pais começaram a chegar para buscar os alunos mais novos, Mateus acompanhou Alice até o seu carro.

— Então, amanhã na biblioteca? — perguntou ele, enquanto ela abria a porta do motorista. — Temos aquele trabalho de História sobre a Revolução Industrial.

— Sábado na biblioteca, Mateus? — Alice arqueou uma sobrancelha. — Você realmente está levando a sério essa coisa de ser um bom aluno.

— Eu estou levando a sério a coisa de passar o máximo de tempo possível com você — ele corrigiu, encostando-se na porta do carro. — Os livros são apenas um bônus.

— Às dez horas, então. E não se atrase. Eu não tolero impontualidade.

— Estarei lá às nove e meia com dois cafés. Caramelo macchiato?

— Você aprende rápido, Brown.

Ele se inclinou e a beijou uma última vez, um beijo de "boa noite" que prometia muitos outros "bons dias". Alice entrou no carro e, enquanto dirigia para casa, percebeu que a música no rádio parecia fazer mais sentido, que as luzes da cidade pareciam mais brilhantes e que sua vida, antes uma equação linear e segura, agora era uma função exponencial de possibilidades.

Ela não sabia onde aquilo ia dar. O ensino médio era volátil, as pressões do basquete e das notas altas ainda estavam lá, e o mundo lá fora era vasto e intimidador. Mas, enquanto olhava pelo retrovisor e via o vulto de Mateus acenando até ela dobrar a esquina, Alice Smith sentiu que tinha encontrado a única resposta que realmente importava.

O amor, ela concluiu, não era uma ciência exata. Era muito melhor do que isso. Era a única coisa que tornava a incerteza algo absolutamente maravilhoso.