A distância é só um detalhe
Marcas da Posse
A chuva do lado de fora continuava a fustigar os vidros da suíte, mas o microclima dentro daquele quarto era feito de vapor, suor e o cheiro denso e inconfundível de dois corpos que acabavam de se fundir.
Caio continuava pesado sobre ela, apoiando parte do tronco nos antebraços para não sufocá-la, embora Flora sentisse que qualquer pressão vinda daquele homem era um bálsamo, e não um fardo. O membro dele ainda descansava dentro dela, amolecendo lentamente, mas mantendo a conexão íntima viva enquanto os dois tentavam normalizar o ritmo cardíaco.
Ele afastou uma mecha de cabelo grudada na testa de Flora com a ponta dos dedos, um gesto de uma lentidão quase dolorosa.
— Você tem noção do que acabou de fazer comigo? — perguntou ele, a voz tão grave e arranhada que parecia vir das entranhas.
Flora abriu os olhos devagar. Havia uma névoa de exaustão e delírio no olhar castanho dela, mas também um brilho de triunfo feminino.
— Eu só te dei o que era seu por direito — sussurrou ela, passando as unhas suavemente pela nuca dele, onde os fios curtos estavam molhados. — Foram quatro anos esperando por essa invasão, Caio. Eu sonhava com esse peso em cima de mim todas as noites.
Caio soltou um riso curto, sombrio e satisfeito, antes de morder o queixo dela sem força excessiva, apenas para marcar presença.
— Você não vai mais precisar sonhar. Agora você vai ter que aguentar a realidade. E eu garanto, garota, eu não me canso fácil.
Ele se moveu devagar, retirando-se de dentro dela com um som úmido que arrancou um suspiro involuntário de Flora. O vazio repentino fez o ventre da mulher protestar com uma pontada de carência imediata. Caio rolou para o lado e, sem dar tempo para que o frio do quarto a tocasse, puxou o corpo macio de Flora para cima do seu peito largo.
A pele dele irradiava calor como uma fornalha. Flora repousou a bochecha sobre a tatuagem discreta que ele trazia perto da clavícula — uma data quase apagada, o marco do dia em que ele havia saído da sarjeta para começar a erguer o próprio destino com as mãos nuas.
— O que passa nessa sua cabeça agora? — perguntou ele, os dedos grossos traçando círculos lentos na curva da lombar dela, descendo pelas nádegas que ainda guardavam a ardência leve das palmadas de minutos atrás.
Flora fechou os olhos, escutando o coração dele bater como um tambor ritmado.
— Eu estava pensando em como as pessoas que me machucaram parecem insignificantes agora — confessou ela, sentindo um nó antigo na garganta se desatar pela primeira vez. — Toda a rejeição da minha família, as palavras cruéis que meu ex me dizia para me fazer sentir pequena... quando você me segura desse jeito, tudo isso vira poeira. Você me faz sentir gigante.
A mão de Caio parou na cintura dela. A pegada endureceu, firme o bastante para deixar claro o instinto territorial que corria no sangue dele.
— Eles eram fracos, Flora. Homem fraco tenta diminuir uma mulher foda porque sabe que não tem capacidade de preencher o espaço dela — disse ele, a frieza na voz reservada apenas para os fantasmas do passado dela. — Mas eu não sou fraco. Eu quebrei pedra a vida inteira para me tornar alguém que pudesse te sustentar sem vacilar. Aqueles merdas nunca mereceram nem o seu olhar.
Ele ergueu o queixo dela com o polegar, forçando-a a encará-lo no fundo dos olhos negros.
— E vou te avisar de uma vez por todas — continuou ele, o tom adquirindo aquela cadência dominadora e inegociável. — Ninguém daquela sua família vai voltar a apontar o dedo na sua cara. E se aquele infeliz que ousou encostar em você um dia cruzar o meu caminho, a conversa vai ser em outra língua. Você agora anda sob a minha sombra. Entendeu?
Flora sentiu um arrepio descer pela espinha. Não era medo; era a sensação primitiva de estar sob a guarda de um predador que escolhera ser seu escudo.
— Entendi — respondeu ela, a voz firme. — Mas eu também quero cuidar de você, Caio. Você carrega o mundo nas costas desde moleque. Deixa eu ser o lugar onde você descansa a armadura.
O olhar de Caio amoleceu por uma fração de segundo, tocado pela pureza daquela entrega. Ele selou os lábios nos dela em um beijo profundo, lento e sem pressa, que não tinha a urgência do sexo, mas a solenidade de um pacto de sangue.
— Você já é isso, minha menina — murmurou ele contra a boca dela. — Há muito tempo.
Caio deu um tapinha descarado na coxa dela e sentou-se na cama com a agilidade natural de quem nunca perde o estado de alerta.
— Agora levanta. A gente precisa de um banho. E eu quero tirar esse cheiro de viagem do meu corpo para poder te provar de novo sem pressa.
— De novo? — brincou ela, sentando-se e deixando o lençol cair, expondo os seios empinados com os mamilos ainda intumescidos. — Você acabou de se esvaziar em mim.
Caio percorreu o corpo nu de Flora com os olhos famintos, e ela viu, em tempo real, a respiração dele falhar e a anatomia masculina dar os primeiros sinais de um novo despertar.
— Se você continuar me olhando com essa cara de santa debochada, a gente nem chega até o chuveiro — advertiu ele, com a voz rouca de desejo.
Ele se levantou da cama com uma imponência que sempre desarmava Flora. Caio não tinha a beleza artificial de modelos de passarela; sua presença era bruta, talhada pela vida real. Ele estendeu a mão grande para ela, puxando-a para cima com um movimento fluido antes de passá-la para o colo, carregando-a em direção ao banheiro amplo da suíte.
O espaço era um espetáculo de mármore italiano escuro, vidro temperado e metais escovados. Uma banheira de hidromassagem repousava em um canto, mas Caio caminhou direto para a área do box gigante, que contava com um chuveiro de teto duplo. Ele abriu o registro, e a água quente começou a cair como uma chuva tropical densa, enchendo o ambiente de um vapor perfumado com as notas do sabonete de luxo disponibilizado pelo hotel.
Caio a colocou de pé sobre o piso aquecido e entrou logo atrás dela, fechando a porta de vidro.
A água caiu sobre eles de imediato, encharcando os cabelos de Flora e colando as mechas escuras em seu pescoço e costas. A sensação térmica aliviou a tensão residual dos músculos, mas a presença física de Caio atrás dela reacendeu a eletricidade no ar.
Ele pegou um frasco de sabonete líquido com aroma de âmbar e sândalo, espalhando uma quantidade generosa nas palmas grandes. Em seguida, posicionou-se atrás de Flora, envolvendo-a.
— Fica quieta — comandou ele, a voz misturando-se ao ruído da água caindo. — Deixa eu cuidar de você.
As mãos ensaboadas de Caio começaram a deslizar pelos ombros dela, descendo pelos braços com movimentos firmes e metódicos, como se estivesse lavando não apenas o suor da fornicação recente, mas cada resquício das noites solitárias em que ela chorara a quilômetros dali. Ele desceu para o peito de Flora, cobrindo os seios dela com as palmas escorregadias, massageando a carne macia em círculos lentos enquanto os polegares roçavam os bicos sensíveis.
Flora jogou a cabeça para trás, apoiando-a no ombro molhado de Caio, soltando um gemido longo que reverberou pelo azulejo úmido.
— Caio... isso é bom demais...
— Eu disse que cuidaria de cada centímetro — sussurrou ele no ouvido dela, intercalando as palavras com mordidas na cartilagem da orelha. — Cada pedaço dessa mulher maravilhosa me pertence.
As mãos dele desceram pelo abdômen plano, acariciando as costelas e os quadris, até deslizarem para a fenda entre as pernas dela. Flora abriu ligeiramente as coxas, incapaz de resistir ao toque. Sob a espuma morna, os dedos de Caio encontraram a intimidade inchada e sensível. Ele não foi sutil: o dedo médio deslizou com precisão sobre o clitóris, arrancando um sobressalto agudo do corpo de Flora.
— Olha no espelho — ordenou ele, apontando o queixo para a parede de vidro que refletia suas silhuetas embaçadas pelo vapor. — Olha como você fica linda quando eu toco você aqui.
Flora abriu os olhos com esforço, vendo pelo reflexo esfumaçado o contraste absurdo entre a pele alva de suas curvas e o corpo musculoso, escuro e imponente de Caio atrás dela, mantendo-a presa contra seu peito enquanto a manipulava com destreza obscena.
— Você gosta de me ver assim, não gosta? — provocou ela, a respiração ofegante, balançando o quadril para trás contra a virilha dele.
Ela sentiu o impacto. O membro de Caio estava rígido novamente, pesado e quente, pressionando a fenda de suas nádegas com a insistência de uma barra de ferro.
— Eu vivo por essa porra, Flora — rosnou ele, a respiração agora pesada e curta contra a nuca molhada dela. — Você não tem noção de quantas vezes eu quase peguei o primeiro voo no meio da madrugada só para virar você de quatro e te foder até você esquecer o próprio nome.
— Pois você está aqui agora — disse ela, virando-se dentro do abraço dele para encará-lo de frente, a água escorrendo pelo rosto dos dois. Ela segurou o rosto dele entre as mãos molhadas, os olhos brilhando com uma devassidão consciente. — O que está esperando?
Caio a encarou por um segundo interminável, a mandíbula travada pela intensidade do desafio. Ele não respondeu com palavras.
Com um movimento brusco e eficiente, ele a girou de costas novamente e apoiou as duas mãos de Flora contra o vidro temperado do box.
— Firma os pés — ordenou ele, a voz ríspida pela luxúria desenfreada. — E segura firme.
Flora obedeceu de imediato, espalmando as mãos no vidro molhado e empinando o quadril para trás, oferecendo-se sem qualquer pudor. A posição a deixava completamente vulnerável e escancarada para ele.
Caio segurou o quadril dela com as duas mãos, cravando os dedos na carne com força calculada para deixar as marcas de sua posse. Ele não usou preliminares demoradas dessa vez; a água quente e o desejo acumulado já a haviam deixado incrivelmente lubrificada. Ele posicionou a glande pulsante na entrada estreita e empurrou para a frente com um único golpe implacável.
— Ah, meu Deus! — gritou Flora, o som abafado pelo vapor do chuveiro.
Ele entrou até o talo de uma só vez, esticando-a com uma precisão cirúrgica. A sensação de preenchimento completo sob a torrente de água quente foi avassaladora, fazendo os dedos dos pés de Flora se curvarem contra o chão.
— Muito apertada... puta merda, Flora... — praguejou ele entre os dentes, fechando os olhos enquanto recuperava o fôlego daquela invasão brutal.
Ele começou a se mover imediatamente. O ritmo não era o mesmo da cama; era mais urgente, mais cru. O som do impacto constante de seu quadril contra as nádegas dela misturava-se ao barulho da água batendo no chão. As mãos de Flora escorregavam no vidro a cada estocada violenta, forçando-a a usar os músculos das pernas para se sustentar contra a força avassaladora do homem que a tomava por trás.
— Caio, mais... bate forte... — suplicou ela, despida de qualquer vergonha, tomada por uma necessidade animalesca de sentir a força dele.
— Você quer força, garota? — ele rebateu, puxando os cabelos dela para trás com uma das mãos, obrigando-a a arquear a coluna e expondo a garganta dela para a água. — É isso que essa sua buceta gulosa quer?
— É! Me fode com força, meu amor!
Ele acelerou. O ritmo tornou-se frenético, implacável. Cada investida ecoava pelo banheiro como um trovão domesticado. Caio descia uma das mãos até a virilha dela enquanto continuava a bombear sem piedade, usando o polegar para pressionar o clitóris no exato compasso em que afundava dentro dela.
A estimulação dupla foi devastadora. Flora sentiu a onda de choque subir pelos pés, uma contração elétrica que paralisou seus pulmões.
— Caio! Eu vou... eu não vou aguentar! — gritou ela, a voz rompendo a barreira do controle.
— Goza para mim! — ordenou ele no ouvido dela, intensificando a fricção com fúria. — Goza na minha pica, porra! Mostra de quem você é!
O orgasmo de Flora veio como uma explosão de artilharia, arrancando um grito estridente de sua garganta enquanto suas paredes internas apertavam o membro de Caio em um espasmo contínuo e selvagem. Ela tremeu da cabeça aos pés, as pernas cedendo sob o peso do prazer insano.
Sentir a mulher desmoronar em seus braços foi o ponto de não retorno para Caio. Ele soltou um rugido gutural, segurou a cintura dela com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos, e desferiu quatro estocadas curtas, profundas e desesperadas, descarregando jatos espessos e quentes bem no fundo do ventre dela.
Eles permaneceram unidos por longos segundos, o peito dele colado nas costas dela, ambos respirando com dificuldade enquanto a água continuava a cair sobre suas cabeças, lavando o suor e selando o clímax daquela batalha de amor e fúria.
Lentamente, Caio a puxou contra si, tirando o peso dela do vidro. Ele desligou o registro com um movimento mecânico, envolvendo Flora em seus braços protetores no silêncio repentino que se instalou, quebrado apenas pelo gotejar ritmado da água.
Ele a virou de frente, beijando-a na testa, nos olhos e finalmente nos lábios entreabertos.
— Você está bem? — perguntou ele, a voz voltando àquele tom suave e aveludado que reservava unicamente para ela.
Flora abriu os olhos, com um sorriso exausto e radiante desenhado no rosto.
— Eu nunca estive tão viva em toda a minha existência.
Caio sorriu, um sorriso genuíno que desarmava qualquer traço da rigidez que o mundo o forçara a carregar. Ele pegou uma toalha felpuda gigante no toalheiro aquecido e começou a secá-la com um cuidado meticuloso, secando mecha por mecha de seus cabelos, passando o tecido pelas pernas trêmulas da mulher que agora definia o centro de seu universo.
Minutos depois, vestidos apenas com roupões confortáveis de algodão egípcio, os dois voltaram para o quarto. A chuva lá fora parecia ter diminuído para uma garoa branda, e a cidade abaixo brilhava como um mar de diamantes estendido pela janela panorâmica.
Caio caminhou até a mesinha de centro, pegou um envelope pardo espesso que repousava ao lado de sua pasta de couro e voltou para a cama, onde Flora já estava deitada sob o edredom limpo.
Ele se sentou ao lado dela e colocou o envelope sobre o colo da mulher.
— O que é isso? — perguntou ela, franzindo o cenho delicado.
— O nosso futuro — respondeu ele com simplicidade, mas com uma autoridade que fez o coração dela disparar. — Abre.
Com as mãos ainda levemente trêmulas pelo cansaço do sexo, Flora puxou o lacre do envelope. Dentro, havia um conjunto de documentos de compra e venda de um imóvel, plantas arquitetônicas e um par de chaves douradas presas a um chaveiro de couro trabalhado.
Os olhos dela correram pelas folhas timbradas. Era a escritura de uma cobertura duplex no bairro mais nobre da cidade, com uma vista deslumbrante para o mar e espaço para tudo o que dois sobreviventes poderiam sonhar em construir. No campo do proprietário, dois nomes estavam impressos com tinta indelével: *Caio Albuquerque e Flora Mendes*.
Flora cobriu a boca com a mão, as lágrimas brotando instantaneamente em seus olhos, dessa vez nascidas de uma alegria tão avassaladora que parecia doer fisicamente.
— Caio... isso é... você comprou isso?
— Eu comprei para nós — corrigiu ele, pegando a mão esquerda dela e entrelaçando os dedos aos seus. — Eu disse a você, anos atrás, que quando eu colocasse as minhas mãos em você, não haveria mais despedidas no aeroporto, nem telas de celular entre nós. A sua vida lá atrás acabou, Flora. Suas dores ficaram no passado.
Ele levou a mão dela aos lábios, beijando os nós dos dedos com reverência.
— A partir de amanhã, você se muda para lá comigo. Nós vamos mobiliar aquela porra do jeito que você quiser. Você vai pintar as paredes, plantar flores na varanda, fazer o que tiver vontade. Mas vai ser ao meu lado. Embaixo do mesmo teto. Na mesma cama.
Flora não conseguiu conter o choro. Ela se lançou nos braços dele, enterrando o rosto na curva do pescoço cheiroso de Caio, sentindo o tecido macio do roupão dele contra sua bochecha.
— Eu aceito — soluçou ela, apertando-o com todas as forças que lhe restavam. — Eu aceito tudo o que vier de você. Minha vida inteira é sua.
Caio acariciou os cabelos dela, sentindo um peso colossal sair de seus próprios ombros. Ele havia lutado contra a fome, contra a rua, contra a miséria e contra a solidão. Mas ali, com Flora segura em seus braços, ele sabia que finalmente havia vencido a guerra mais importante de sua existência: a batalha para ter o direito de amar e ser amado em plenitude.
— Tenta descansar um pouco agora, meu amor — murmurou ele, deitando-se ao lado dela e puxando o edredom sobre os dois corpos. — A gente tem a vida inteira pela frente a partir de amanhã.
Flora aninhou-se no peito firme de Caio, fechando os olhos com a certeza inabalável de que nenhuma tempestade do mundo seria capaz de derrubar o império que os dois haviam começado a erguer sobre as cinzas do passado.