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A distância é só um detalhe

Carne e Devoção

O crepúsculo tingiu o horizonte marítimo em tons de cobre e violeta, projetando sombras longas sobre o piso impecável da cobertura. O vento que entrava pela porta entreaberta do terraço trazia consigo o cheiro salgado da maré alta e o frescor característico do início da noite, mas dentro daquele santuário particular o ar permanecia denso, saturado pelo calor residual de dois corpos que não sabiam existir sem colidir.

Caio estava de pé junto à imensa ilha de granito negro da cozinha gourmet, terminando de abrir uma garrafa de vinho tinto encorpado da Toscana. Usava apenas a calça escura de alfaiataria, descalço, com as mangas da camisa cinza dobradas até os cotovelos fortes, revelando os tendões esculpidos e as veias saltadas que Flora tanto adorava traçar com a ponta da língua.

Flora observava-o da beirada da bancada, acomodada em uma das banquetas altas de couro. Vestia apenas uma camisa branca de linho dele, cujas barras alcançavam a metade de suas coxas nuas. Os botões superiores estavam abertos, expondo a pele macia de seu colo, onde duas marcas arroxeadas denunciavam a intensidade da posse que ocorrera horas antes contra a vidraça.

— No que você tanto pensa com esses olhos brilhantes? — perguntou Caio, a voz grave vibrando suavemente na acústica ampla do salão enquanto servia duas taças de cristal.

— Penso que durante anos a minha mente funcionou como uma prisão — respondeu ela com sinceridade crua, os dedos brincando com a barra da camisa larga. — Eu acordava esperando o próximo ataque, a próxima humilhação, o próximo boleto atrasado que a minha família me forçava a pagar para não me deserdarem moralmente. E agora... estar sentada aqui, vestindo a sua roupa, com o mar lá embaixo e você me servindo vinho... parece que estou roubando a vida de outra pessoa.

Caio parou o movimento de imediato. Deixou a garrafa sobre a pedra com um toque seco e caminhou em direção a ela, contornando a bancada com a passos lentos e decididos. Parou entre as pernas abertas de Flora, apoiando as duas mãos nas laterais da banqueta e inclinando-se para a frente até que seus narizes quase se tocassem.

— Escuta muito bem o que eu vou te dizer — murmurou ele, o tom adquirindo aquela cadência perigosamente calma que sempre fazia o coração dela saltar no peito. — Você não roubou porra nenhuma. Essa vida é o troco do que o mundo te deve por tudo o que tentaram roubar de você.

— Às vezes parece bom demais para ser verdade — sussurrou ela, erguendo a mão tímida para tocar a barba curta que cobria a mandíbula tensa do homem.

— Pois se acostume, minha menina — rebateu ele, descendo a boca para depositar um beijo firme e estalado na ponta do queixo dela. — Porque comigo não tem meio-termo. Eu não construí essa muralha inteira para você viver com medo do passado. Mas tem uma coisa que a gente precisa acertar hoje.

Flora ergueu as sobrancelhas, fascinada pela autoridade natural que emanava de cada poro daquele homem.

— O que precisamos acertar, Caio?

— As regras da casa — disse ele, um meio sorriso obscuro e predatório curvando os cantos de seus lábios esculpidos. — Ou, mais especificamente, as regras da minha cama.

O ventre de Flora contraiu-se em uma fisgada de calor líquido.

— Não sabia que tínhamos um regulamento — provocou ela, sustentando o olhar sombrio dele com um atrevimento que beirava a luxúria.

— Pois agora tem — Caio estendeu a mão, segurando a nuca dela e puxando-a levemente para trás, expondo a curva delicada de sua garganta. — Regra número um: você nunca mais esconde uma dor ou uma lágrima de mim. Se você sangrar, eu quero saber quem causou o corte para poder quebrar a lâmina. Regra número dois: a sua culpa acabou. Nada de se sentir indigna do que eu te dou. Eu dou porque eu posso, e porque você é a única dona de tudo isso.

— E a regra número três? — arfou ela, sentindo a respiração dele roçar na artéria pulsante de seu pescoço.

— Regra número três — murmurou ele contra a pele dela, mordiscando a carne macia antes de chupar levemente, renovando a promessa de dor e volúpia —: dentro de quatro paredes, a sua cabeça desliga. O controle é meu. Você me entrega a sua mente, o seu corpo e cada gemido que tiver na garganta. Sem vergonha, sem limites e sem me poupar de nada.

— Você quer a minha rendição completa — sussurrou Flora, os olhos castanhos brilhando de uma fome que espelhava a dele.

— Eu já tenho a sua alma, Flora — Caio desceu a mão pesada até a fenda entre as pernas dela, apertando o tecido da camisa branca diretamente contra sua intimidade exposta. — O que eu quero é a sua devoção absoluta na carne.

Flora soltou um gemido involuntário quando os dedos dele pressionaram seu clitóris através do linho fino. O contato arrancou-lhe o fôlego, acendendo o mesmo pavio incandescente que queimava sem cessar desde o instante em que ele cruzara a porta daquele hotel na noite anterior.

Caio afastou a mão, pegou a própria gravata de seda preta que havia deixado sobre a bancada mais cedo e desdobrou-a com movimentos deliberadamente lentos.

— Vem comigo — ordenou ele, oferecendo a mão para ajudá-la a descer da banqueta.

Flora segurou a mão grande e calejada, descendo com os pés descalços tocando o piso morno. Ele a conduziu pela escada helicoidal até o piso superior, onde a suíte máster se abria para uma varanda suspensa protegida por parapeitos de vidro espesso. O quarto principal já contava com uma cama monumental em estrado baixo de madeira maciça, cercada por lençóis de linho cor de carvão e almofadas densas.

Caio levou-a até o centro da cama e puxou os ombros da camisa branca, fazendo a peça escorregar pelos braços de Flora e cair em silêncio no colchão. Ela ficou completamente nua diante dele sob o luar que agora inundava o ambiente, sentindo a brisa suave da varanda lamber suas curvas arfantes.

— Senta — comandou ele, a voz firme.

Flora sentou-se na beirada do colchão, com os pés apoiados no tapete macio. Seus seios fartos subiam e desciam no ritmo acelerado de sua respiração.

Caio ajoelhou-se entre as pernas dela, mantendo-se na altura perfeita para encará-la nos olhos. Ele ergueu a gravata preta entre as duas mãos.

— Junta os pulsos — pediu ele, o tom autoritário temperado com uma ternura quase sagrada.

— Vai me amarrar? — perguntou ela, o pulso disparando em uma mistura eletrizante de ansiedade e excitação pura.

— Eu vou te ensinar a soltar o peso do mundo — explicou ele, segurando os pulsos delicados de Flora e unindo-os com firmeza, sem machucar. — Você passou a vida inteira tentando se defender com essas mãos, segurando o que não devia, protegendo quem só te machucava. Hoje você não vai segurar nada. Você vai deixar que eu carregue você.

Com nós precisos e seguros, Caio amarrou os pulsos dela com a seda fina da gravata, garantindo que houvesse firmeza sem interromper a circulação. Ele beijou a pele sensível logo acima dos nós, seus lábios quentes contrastando com a textura macia do tecido.

Em seguida, puxou-a delicadamente para trás, deitando-a no centro dos lençóis escuros. Ele levantou os braços amarrados de Flora, acomodando-os acima da cabeça dela sobre as almofadas.

— Fica assim — disse ele, levantando-se e retirando a calça de uma só vez, revelando o membro já ereto, colossal e latejante, cuja veia principal pulsava com o ritmo de sua própria fera interior. — Não mexe um dedo até eu mandar.

Flora engoliu em seco, vendo a imponência física do homem que pairava sobre ela como uma força da natureza. A vulnerabilidade de estar amarrada, completamente aberta e exposta diante dele, operava um milagre silencioso em sua mente torturada: todo o ruído do passado, todo o medo de não ser suficiente, simplesmente desaparecia sob o peso daquela rendição consentida.

Caio caminhou até o pequeno frigobar embutido no closet e voltou trazendo um pequeno recipiente com cubos de gelo.

Ele subiu na cama com a graça fluida de um leopardo, posicionando-se de joelhos entre as coxas bem abertas de Flora.

— Caio... o que é isso? — murmurou ela, os olhos arregalados de curiosidade devassa.

— Uma lição sobre contrastes, minha mulher — murmurou ele, pegando um cubo de gelo com as pontas dos dedos e passando-o lentamente pelos lábios dela.

Flora arfou com o choque térmico. A umidade fria derreteu sobre sua boca entreaberta, e antes que ela pudesse processar a sensação, Caio desceu o cubo de gelo pela linha de sua garganta, traçando um caminho gélido até os seios. Quando a pedra tocou a aréola sensível, o mamilo de Flora endureceu instantaneamente como uma pedra preciosa.

Um gemido rouco rompeu de sua garganta, e ela tentou puxar as mãos para tocar os próprios cabelos, mas a gravata manteve seus braços presos acima da cabeça, forçando-a a suportar o excesso de estímulos.

— Isso... é frio demais... — ela gemeu, arqueando a coluna.

— O frio prepara a pele para o fogo — disse Caio, descartando o gelo derretido e cobrindo imediatamente o mesmo mamilo com a boca fervente.

A transição foi violenta e deliciosa. A língua áspera e quente dele envolveu a carne congelada, chupando com força voraz enquanto os dentes raspavam suavemente a base do broto intumescido. Flora gritou contra o silêncio da suíte, seus quadris rebolando em desespero sobre o lençol.

— Caio! Meu Deus, você me enlouquece...

— É para enlouquecer mesmo — rosnou ele, abandonando o seio e descendo a trilha de beijos quentes e mordiscos possessivos pelo abdômen dela, lambendo a umidade que o gelo deixara para trás. — Eu quero você tão perdida que a única coisa que reste na sua mente seja a minha voz.

Ele abriu ainda mais as pernas de Flora, empurrando as coxas macias para os lados com os antebraços pesados. O cheiro dela, uma mistura inebriante de sabonete refinado e a secreção salgada do desejo acumulado, invadiu o olfato de Caio com a potência de uma droga letal.

Ele posicionou a boca bem sobre o epicentro daquele calor.

Sem aviso, a língua de Caio desferiu uma estocada larga e precisa, varrendo a fenda inteira de baixo para cima, recolhendo cada gota da lubrificação abundante que escorria por suas dobras.

Flora soltou um grito rasgado, os pulsos repuxando a gravata com toda a força de seus tendões.

— Caio, por favor!

— Relaxa para mim — ordenou ele entre lambidas profundas e ritmadas. — Abre tudo para a minha boca, Flora. Deixa eu te limpar.

Ele não teve piedade. Seus lábios sugaram o clitóris inchado com a sofisticação e a fome de quem compreendia perfeitamente a anatomia daquele corpo. Ao mesmo tempo, Caio inseriu dois dedos compridos e calejados dentro dela, empurrando-os até a base com um movimento giratório que encontrou o ponto de maior sensibilidade nas paredes anteriores de sua carne.

Flora perdeu o fôlego. As pernas dela começaram a tremer incontrolavelmente sobre os ombros largos dele. O prazer era tão denso, tão cortante, que beirava a dor doce da aniquilação total. Ela gemia palavras desconexas, insultos amorosos, súplicas para que ele parasse misturadas ao terror de pensar na interrupção daquele êxtase.

— Você é minha — rosnava Caio contra a umidade dela, os dedos entrando e saindo em um ritmo implacável enquanto a língua torturava o botão central. — Fala de quem você é!

— Sua! Eu sou sua, porra! Faz o que você quiser de mim, Caio!

— Então goza na minha cara, garota. Não segura nada. Despeja tudo em cima de mim!

A ordem de Caio foi a faísca final. Flora jogou a cabeça para trás, os olhos revirando sob as pálpebras cerradas enquanto um orgasmo colossal a atingia como uma maré violenta. Seu ventre contraiu-se com tanta força que o som de sua própria respiração tornou-se um uivo abafado. Ela jorrou uma onda quente e copiosa contra a boca dele, inundando os lábios do homem que continuava a sugá-la com fervor religioso, bebendo cada gota de sua entrega sem soltar os dedos de seu interior.

Quando os tremores começaram a diminuir, deixando Flora em um estado de quase inconsciência pelo prazer extenuante, Caio ergueu o rosto. Sua boca e seu queixo brilhavam com a prova indiscutível da devassidão compartilhada.

Ele subiu pela extensão da cama, deitando-se sobre ela como uma armadura de carne e ossos densos.

Com agilidade rápida, Caio desatou o nó da gravata, libertando os pulsos de Flora. As mãos dela, fracas e trêmulas, caíram imediatamente sobre os ombros musculosos dele, as unhas cravando-se nos deltoides suados.

— Você ainda aguenta mais? — perguntou ele, os olhos negros ardendo com uma determinação que beirava a insanidade.

— Eu aguento tudo o que você me der — sussurrou Flora, a voz fraca, mas o olhar carregado daquela devoção imutável. — Entra em mim. Eu preciso sentir você lá dentro agora, senão meu peito não aguenta.

Caio sorriu, um sorriso gutural e triunfante. Ele agarrou os quadris dela, erguendo-os alguns centímetros do colchão, e guiou a cabeça rígida e ensopada de seu membro até a fenda esticada e hipersensível.

Ele não esperou. Afundou-se nela com um golpe único, maciço e devastador.

Flora soltou um arquejo profundo, as lágrimas de pura plenitude brotando espontaneamente em seus olhos enquanto o homem a preenchia até o último milímetro possível. A sensação de ter aquele aço quente pulsando em suas entranhas após o orgasmo oral foi quase dolorosa de tão intensa, enviando fagulhas de eletricidade direto para o centro de seu ser.

— Olha para mim — comandou Caio, com a respiração curta contra a boca dela.

Ela abriu os olhos marejados e encontrou a alma daquele sobrevivente exposta diante de si: todo o amor, toda a possessividade, a brutalidade e o cuidado de quem finalmente encontrara o único porto seguro em um oceano de desgraças passadas.

— Eu te amo tanto que chega a doer os meus ossos — declarou Caio em um rosnado grave, antes de começar a estocar com força metódica e profunda.

— Eu te amo... meu amor, meu homem... — ela respondia a cada impacto seco de suas pelves.

O ritmo tornou-se uma dança de impacto e comunhão. Caio desferia golpes longos, tirando o membro quase por completo para depois afundar com todo o peso de seu corpo musculoso, arrancando gemidos rasgados da mulher a cada nova invasão. Os lençóis escuros embolavam-se sob as costas de Flora, testemunhas da fúria com que aqueles dois renegados celebravam a própria redenção.

Ele entrelaçou os dedos nos dela, prensando as mãos de Flora contra os travesseiros enquanto acelerava as investidas, tornando-as mais curtas, impiedosas e vorazes. O suor dos dois escorria em rios tênues, colando os peitos em um atrito febril.

Flora sentiu uma segunda onda de prazer começar a se formar em suas entranhas, desta vez mais escura, mais profunda, impulsionada pelo atrito daquela pica violenta esmagando sua sensibilidade.

— Caio... eu vou de novo... eu não consigo parar! — gritou ela, arqueando o quadril para receber as marteladas com ainda mais força.

— Vai junto comigo, garota! — rugiu ele, os músculos das costas se contraindo em relevos de pedra. — Segura a minha mão e vai!

Flora desmoronou em uma segunda convulsão dilacerante, apertando o membro dele com espasmos internos que pareciam querer sugar a própria vida de dentro daquele homem.

Sentir a mulher estrangular seu pênis na tempestade do segundo orgasmo quebrou a última barreira de controle de Caio. Ele soltou um urro cavernoso, empurrou até bater com força contra o colo do útero dela e despejou rios de sêmen fervente em rajadas violentas e descompassadas, esvaziando-se por inteiro dentro da mulher que o resgatara da escuridão.

Ficaram imóveis. O único som na suíte gigantesca era o estertor de duas respirações entrecortadas, que aos poucos desaceleravam sob a brisa fresca que vinha do mar.

Caio desabou suavemente para o lado, trazendo o corpo macio de Flora para os seus braços e cobrindo os dois com o linho escuro. O membro dele repousou, exausto, enquanto seus dedos acariciavam com extrema lentidão os cabelos negros e úmidos da mulher que repousava a cabeça sobre o seu coração.

O silêncio confortável tomou conta do quarto, o tipo de silêncio que só existe quando duas almas feridas finalmente encontram a cura definitiva no mesmo abrigo.

— Caio? — sussurrou Flora depois de um longo tempo, sentindo o pulsar constante do peito dele.

— Fala, meu amor.

— Eu nunca mais vou ter medo de nada.

Caio beijou o topo da cabeça dela com uma lentidão solene, fechando os olhos com a certeza de que a guerra havia finalmente terminado.

— Eu não vou deixar, Flora. Essa vida agora é nossa. E o mundo que tente nos tirar daqui.

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