A dualidade do passado
Labirinto de Espelhos
A sala de atendimento da Dra. Arlene Vance — prima distante do Diretor, embora o parentesco fosse um segredo guardado a sete chaves — não mudara nada em dois anos. O cheiro de sândalo, as poltronas de couro legítimo que rangiam suavemente e a iluminação âmbar projetada para desarmar defesas continuavam ali. No entanto, o ar parecia saturado de uma eletricidade estática que Arlene nunca sentira antes.
À sua frente, sentados em um semicírculo perfeito, estavam os quatro. Jack, Josh, Luna e Kira. Para Arlene, no entanto, seus olhos treinados viam Harry, Oliver, Sarah e Alyssa. Ou, pelo menos, os fantasmas deles.
— É um prazer ver rostos novos na Agência Central — começou Arlene, cruzando as pernas e apoiando o bloco de notas no joelho. Ela manteve a voz num tom melódico, quase hipnótico. — O Diretor Vance acredita que uma avaliação de integração é necessária para garantir que a transição da Divisão Norte para cá seja suave. Podemos começar com uma introdução simples?
Jack, o líder autointitulado, inclinou-se ligeiramente. O movimento foi econômico, sem desperdício de energia.
— Com todo o respeito, Dra. Arlene, já entregamos nossos dossiês — disse Jack. — Nossas especialidades, histórico de missões e tipagem psicológica estão no servidor. O que exatamente a senhora espera extrair de uma conversa que os dados já não tenham fornecido?
Arlene sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos, puramente profissional.
— Dados me dizem o que vocês fazem, Jack. Eu me interesso pelo que vocês sentem. Ou pelo que lembram.
Luna soltou um suspiro entediado, examinando as unhas impecavelmente limpas.
— Sentimentos são variáveis ineficientes em campo — comentou Luna, a voz gélida. — E memórias são apenas registros de dados biológicos. Se a senhora está procurando por traumas de infância ou complexos de herói, sugiro que procure nos arquivos de quem nos precedeu. Ouvimos dizer que os antigos ocupantes desta unidade eram... instáveis.
Arlene sentiu um calafrio. A menção aos "antigos ocupantes" — eles mesmos — foi feita com um distanciamento tão absoluto que parecia genuíno. Ela anotou mentalmente: *Dissociação seletiva ou reprogramação profunda?*
— É interessante que você mencione isso, Luna — disse a psicóloga. — Os agentes que ocupavam este setor, Harry e seu grupo, eram muito queridos por Helena e Marcus. Eles veem em vocês uma semelhança impressionante. Como vocês lidam com esse... equívoco emocional dos seus superiores?
— Nós não lidamos — respondeu Josh, sua voz rouca cortando o silêncio. — Nós os ignoramos. Se dois agentes veteranos preferem viver em um delírio nostálgico a aceitar a realidade da nossa equipe, o problema de competência é deles, não nosso.
— E qual seria a "realidade" de vocês, Josh? — Arlene rebateu rapidamente.
— Eficiência — disse Kira, intervindo pela primeira vez. — Nós somos o resultado de um refinamento. O que quer que tenha existido antes de chegarmos à Divisão Norte é irrelevante. Somos a Equipe Phoenix. Surgimos das cinzas de um sistema que falhou.
Arlene fechou os olhos por um breve segundo. "Surgimos das cinzas". A metáfora era óbvia demais para ser um acidente, considerando que os quatro haviam "morrido" em um incêndio. Mas eles não cediam. Não havia um tique, uma dilatação de pupila, nada que traísse a máscara.
— Vamos fazer um exercício — sugeriu Arlene, levantando-se e caminhando até um quadro branco. Ela desenhou quatro círculos. — Vou falar alguns nomes e quero que me digam a primeira palavra que vier à mente. Sem pensar.
— Exercício de associação livre? — Jack ironizou. — Estamos nos anos 50?
— Apenas colabore, Jack. — Ela apontou para o primeiro círculo. — Sarah.
— Alvo — disse Luna, sem hesitar.
— Oliver.
— Ferramenta — respondeu Josh.
— Alyssa.
— Ruído — disparou Kira.
— Harry.
Jack sustentou o olhar de Arlene por um longo tempo. O silêncio na sala tornou-se opressor.
— Fantasma — disse Jack, finalmente.
Arlene anotou as palavras. Sua mente trabalhava a mil por hora. *Alvo, Ferramenta, Ruído, Fantasma.* Não eram descrições de pessoas. Eram descrições de como eles se viam ou como viam as funções que as "versões anteriores" desempenhavam.
— Vocês negam ser eles — continuou Arlene, voltando a se sentar. — Mas o DNA não mente. O Diretor Vance confirmou a compatibilidade. Como vocês explicam estarem vivos e serem geneticamente idênticos a quatro adolescentes que morreram em um galpão há dois anos?
Jack deu um sorriso de lado, algo que Arlene reconheceu como um traço de Harry, mas desprovido de qualquer calor humano.
— A Agência Central sempre experimentou com clonagem e manipulação genética em seus programas de elite, não é? — Jack sugeriu, sua voz carregada de uma ironia perigosa. — Talvez sejamos o Plano B. Talvez a "Equipe Phoenix" seja apenas o que a agência criou para substituir os fracassos do passado usando o mesmo material genético. Isso nos tornaria eles? Ou apenas versões melhoradas que não cometem os mesmos erros sentimentais?
Arlene sentiu o peso daquela teoria. Era uma jogada mestre. Ao sugerirem que poderiam ser clones ou experimentos, eles criavam uma barreira intransponível. Mesmo que o DNA fosse o mesmo, a identidade era nova. Eles estavam matando seus eus passados através da lógica.
— Vocês estão sugerindo que são produtos de laboratório? — perguntou Arlene.
— Estamos sugerindo que a verdade é o que o Diretor Vance decidir que seja — disse Kira. — Mas para nós, o que importa é que não temos pais, não temos infância e não temos dívidas emocionais com Helena ou Marcus.
A consulta prosseguiu por mais uma hora, uma batalha de xadrez verbal onde Arlene tentava encontrar uma rachadura e os quatro respondiam com paredes de concreto. Quando a sessão finalmente terminou e os quatro saíram da sala em formação, Arlene permaneceu sentada, olhando para o vazio.
Momentos depois, a porta lateral se abriu. O Diretor Vance entrou, seguido por Helena e Marcus, que pareciam exaustos de observar através do vidro unidirecional.
— E então? — perguntou Vance, a voz rouca. — O que a sua "ciência" diz, Arlene?
Arlene suspirou, jogando o bloco de notas sobre a mesa.
— Eles são eles, Vance. Não há dúvida. Mas, ao mesmo tempo... eles não são.
— O que isso significa? — Helena perguntou, a voz embargada. — Eu vi o jeito que o Jack olhou para a cicatriz no braço dele quando você mencionou o Harry. Ele se lembra!
— Ele se lembra do trauma, Helena, não da memória — explicou Arlene, levantando-se e começando a andar pela sala. — Eu tenho uma teoria. E ela é muito mais sombria do que uma simples amnésia ou lavagem cerebral.
Marcus cruzou os braços, tenso.
— Prossiga.
— Eles sofreram o que chamamos de "Morte Psíquica Voluntária" — começou Arlene. — Pensem no que aconteceu. Eles foram traídos pela única família que conheciam: a Agência. Foram deixados para morrer em chamas. Depois, sobreviveram sozinhos em uma floresta, caçados, feridos. Para sobreviver a essa dor — a dor da traição, não apenas a física —, eles precisaram matar as crianças que eram.
— Eles criaram essas novas identidades para se proteger? — Marcus perguntou.
— Não é apenas uma proteção, Marcus. É um pacto de suicídio de identidade — Arlene explicou, apontando para as anotações no quadro. — Eles se convenceram de que Harry, Sarah, Oliver e Alyssa morreram naquele fogo. Para eles, admitir que são essas pessoas é voltar ao estado de vulnerabilidade que quase os destruiu. Jack, Luna, Josh e Kira não são "máscaras". São o que sobrou quando a esperança foi extirpada.
Vance estreitou os olhos.
— Então eles estão mentindo quando dizem que não se lembram?
— Eles não estão mentindo no sentido convencional — disse Arlene. — Se você perguntar a um computador se ele é uma máquina de escrever, ele dirá que não, mesmo que algumas de suas peças tenham vindo de uma. Eles reescreveram o próprio código. Eles se veem como novas entidades. E aqui está a parte perigosa: eles nos veem como os vilões da história.
Helena soltou um soluço sufocado.
— Mas nós os amamos! Nós tentamos salvá-los!
— Para eles, o amor de vocês é uma ameaça — continuou Arlene. — Porque o amor exige que eles voltem a ser as crianças frágeis que foram traídas. Eles preferem ser as armas letais da Phoenix do que os órfãos protegidos da Central.
— E a teoria de Jack sobre serem clones? — Vance perguntou. — Ele parecia muito convincente.
— Aquilo foi um teste — Arlene sorriu tristemente. — Ele queria ver se você, Vance, estaria disposto a aceitar uma mentira conveniente para justificar o uso deles como ferramentas. Ele está testando a sua moralidade. Se você aceitar que eles são "novas versões" ou "clones", você prova para eles que nunca se importou com quem eles eram de verdade, apenas com o que eles podem fazer.
O silêncio caiu sobre a sala. Marcus olhou para a tela de monitoramento, onde os quatro agora caminhavam pelo corredor, mantendo uma distância milimétrica entre si, como uma unidade de combate perfeita.
— Eles vieram para cá com um propósito — murmurou Marcus. — Se eles nos odeiam tanto, por que voltaram? Por que não fugiram para outro país?
— É o que eu temo — disse Arlene. — Eles não voltaram para casa. Eles voltaram para o local do crime. Na mente deles, a Agência Central é um monstro que precisa ser estudado, usado ou... destruído. Eles não são agentes retornando ao serviço. São infiltrados em território inimigo que por acaso possuem as chaves da porta da frente.
Vance bateu com a mão na mesa, a face endurecida.
— Eu não me importo com a psicologia por trás disso agora. Eles são os melhores que temos e estão sob contrato. Se eles querem brincar de fantasmas e clones, que brinquem. Mas eu quero resultados.
— Você vai acabar de matá-los se fizer isso, Vance — avisou Arlene.
— Eles já estão mortos, Arlene — retrucou o Diretor, saindo da sala. — Você mesma disse. O que sobrou são as armas. E eu pretendo usá-las.
Enquanto os agentes veteranos saíam, Arlene voltou seu olhar para a câmera do corredor. Jack parou por um segundo diante de um espelho decorativo. Ele não ajeitou o cabelo, não procurou por imperfeições. Ele apenas encarou o próprio reflexo com uma frieza que Arlene nunca vira em um ser humano.
Jack sabia que estava sendo observado. Ele levou a mão ao pescoço, onde Harry costumava usar uma corrente com uma medalha que Helena lhe dera. A corrente não estava mais lá. Em seu lugar, havia uma cicatriz de queimadura em formato de estrela.
Ele não desviou o olhar. Ele não piscou.
— Eles não são clones, Arlene — sussurrou Helena, que havia ficado para trás. — Eu vi o jeito que a Luna se moveu quando você falou de "ruído". Ela ainda odeia barulho alto, assim como a Alyssa odiava. Eles estão lá dentro. Estão gritando por trás dessas paredes de gelo.
— Talvez estejam, Helena — Arlene respondeu, fechando sua pasta. — Mas tome cuidado. Às vezes, quando você tenta quebrar o gelo para salvar alguém, você acaba se afogando na água fria que está por baixo. Eles não querem ser salvos. Eles querem justiça. E no mundo deles, justiça geralmente significa que ninguém sai vivo.
No alojamento, os quatro se trancaram. Josh já havia desativado os novos dispositivos de escuta com um inibidor de frequência portátil que ele mesmo construíra.
— A psicóloga é boa — disse Kira, sentando-se na cama. — Ela quase chegou lá.
— Ela acha que nos entende — disse Luna, verificando o fio de sua lâmina. — Ela acha que somos "vítimas de trauma" tentando esquecer.
Jack caminhou até a janela, observando o pátio da Agência onde, anos atrás, eles costumavam treinar e rir sob a supervisão de Marcus.
— Deixe que pensem isso — disse Jack. — É melhor para nós se eles buscarem por crianças feridas. Enquanto eles procuram por Harry e os outros, eles não verão o que Jack e a Phoenix estão preparando.
— E o Diretor? — Josh perguntou. — Ele não pareceu convencido pela conversa de clone.
— Vance é um pragmático — Jack respondeu, virando-se para a equipe. — Ele não se importa com quem somos, desde que matemos quem ele mandar. Ele é o mais perigoso, porque ele nos usará até não sobrar nada. Mas é exatamente por isso que ele vai nos dar acesso aos níveis 4 e 5. Ele acha que tem o controle dos nossos contratos.
Jack abriu um pequeno compartimento secreto em seu relógio, projetando um holograma codificado de um arquivo que eles haviam roubado da Divisão Norte. Era um registro financeiro oculto, vinculando o Agente Miller a uma conta fantasma de Vance.
— Eles acham que somos fantasmas do passado — disse Jack, e pela primeira vez, um brilho de determinação real ardeu em seus olhos azuis. — Mas nós somos o futuro que eles criaram. E o futuro chegou para cobrar a conta.
— Pela Phoenix? — perguntou Luna, estendendo a mão.
Josh e Kira colocaram as mãos sobre a dela. Jack hesitou por um milésimo de segundo, uma lembrança fugaz de um pacto de amizade feito em um orfanato cruzando sua mente como um relâmpago. Ele a esmagou com a força de sua vontade.
— Pela Phoenix — ele confirmou, fechando o círculo.
Naquela noite, nos corredores da Agência Central, o silêncio era absoluto. Mas para quem soubesse ouvir, as cinzas já estavam começando a queimar novamente. E desta vez, não haveria bombeiros para apagar o incêndio.