A dualidade do passado
Máscaras de Vidro e Cinzas de Ontem
O salão de festas da mansão Valmont transbordava opulência. Lustres de cristal derramavam luz sobre a elite financeira do país, mas para os quatro agentes infiltrados, aquele cenário era apenas um tabuleiro de xadrez com peças previsíveis. A missão era clara: extrair os códigos de acesso do servidor privado de Julian Valmont, um magnata suspeito de financiar o mercado negro de armas cibernéticas.
Jack e Kira caminhavam pelo centro do salão, personificando o casal "it" do momento: os herdeiros de um império de navegação grego. Jack, em um smoking sob medida, mantinha a mão possessivamente na cintura de Kira. Ela, deslumbrante em um vestido de seda esmeralda, exibia um sorriso radiante que nunca teria pertencido à antiga Alyssa.
— Você está maravilhosa hoje, querida — disse Jack, sua voz carregada de um afeto meloso que fez os pelos do braço de Marcus se arrepiarem.
Marcus, posicionado a poucos metros de distância como o segurança particular do casal, mantinha o olhar atento através dos óculos escuros. Ele sentia o estômago embrulhar. No passado, Harry e Alyssa eram como cão e gato; qualquer missão que exigisse um disfarce romântico era recebida com protestos, caretas e uma distância de segurança de pelo menos meio metro.
— E você é o homem mais sortudo deste salão — respondeu Kira, inclinando-se para beijar Jack.
Não foi um selinho rápido de disfarce. Foi um beijo prolongado, apaixonado, as mãos de Kira subindo pelo pescoço de Jack de uma forma que parecia dolorosamente real. Marcus desviou o olhar por um segundo, o coração batendo forte. Ele conhecia Harry. Ele conhecia Alyssa. Aquilo não era apenas atuação; era uma profanação das memórias que ele guardava. Ou talvez, a prova definitiva de que aquelas pessoas à sua frente eram completos estranhos.
Pelo ponto eletrônico, a voz de Luna soou fria e técnica, vinda de algum lugar nos dutos de ventilação ou de uma van a quilômetros dali.
— Parem com a demonstração pública de afeto. Marcus, sua frequência cardíaca subiu. Mantenha o foco no perímetro. Jack, o alvo está se movendo para a varanda leste.
— Copiado, Luna — disse Jack, sem quebrar o personagem, apenas sussurrando no ouvido de Kira enquanto a conduzia para a pista de dança.
Enquanto isso, no outro extremo do salão, Josh desempenhava o papel de um herdeiro de tecnologia excêntrico e levemente embriagado. Ele usava óculos de aro fino e uma jaqueta de veludo, girando uma taça de champanhe com uma displicência estudada. Ao seu lado, Helena, disfarçada de sua assessora pessoal, tentava manter a compostura enquanto ele falava alto sobre algoritmos de compressão.
— Eu já disse, Helena! — exclamou Josh, rindo de forma expansiva. — Se o código não for elegante, ele não merece ser executado. É como uma piada... se você tem que explicar, é porque foi mal feita.
Helena estancou. A frase, o tom de voz, o jeito que ele jogou a cabeça para trás... era Oliver. Era exatamente o que Oliver dizia quando tentava animar o grupo após um treinamento exaustivo.
— Você... você sempre achou isso, não é? — Helena perguntou, a voz falhando, esquecendo por um momento o protocolo.
Josh parou de rir e olhou para ela. Por um breve segundo, o brilho de deboche em seus olhos pareceu suavizar-se em algo que Helena reconheceu como carinho.
— Sabe, Helena — disse Josh, inclinando-se para frente como se fosse contar um segredo —, às vezes eu sinto que já vivi essa conversa antes. Em outra vida, talvez? Onde eu não era tão rico e você não era tão séria.
— Do que você está falando? — Helena sussurrou, o coração disparado. — Josh, se você está aí dentro... se você se lembra...
Josh piscou, e a expressão de Oliver desapareceu tão rápido quanto surgiu, substituída por um tédio aristocrático.
— Do que eu estou falando? De ficção científica, querida. O champanhe deve estar subindo à minha cabeça. — Ele deu um tapinha condescendente no ombro dela. — É apenas o personagem, Helena. Um herdeiro jovem e despreocupado precisa de um pouco de profundidade melancólica para atrair os investidores. Não confunda o roteiro com a realidade.
— Você fez de propósito — acusou ela, em voz baixa.
— Eu estou cumprindo a missão — retrucou Josh, voltando-se para um grupo de empresários próximos. — Agora, se me der licença, preciso convencer aqueles senhores de que meu novo software é a oitava maravilha do mundo.
No centro da pista de dança, Jack e Kira giravam em uma valsa perfeita. Marcus os observava, tentando processar a mudança. O Harry que ele treinou era rígido, focado em táticas de combate, desajeitado em situações sociais. Este homem, Jack, movia-se com a fluidez de um predador de elite que dominava cada centímetro do ambiente.
— Eles estão bem demais nisso — comentou Marcus pelo canal privado para Helena. — A atuação do beijo... a proximidade... é visceral.
— Josh está brincando comigo — respondeu Helena, sua voz tremendo levemente. — Ele está usando os maneirismos do Oliver como se fossem uma arma. Ele nega, diz que é o personagem, mas ele sabe o que está fazendo com a minha cabeça.
— Talvez seja essa a intenção — interrompeu a voz de Luna no comunicador. — Manter vocês desestabilizados é uma forma de garantir que não tentem interferir no que somos agora. Foco, agentes. Valmont entrou na sala de segurança privada. Jack, Kira, é a sua deixa.
Jack e Kira pararam de dançar em sincronia. Jack limpou um pouco de batom do canto da boca — um gesto tão natural que parecia cotidiano — e deu um aceno discreto para Marcus.
— Segurança, estamos indo para o jardim — anunciou Jack em voz alta. — Minha noiva precisa de um pouco de ar fresco.
Marcus os seguiu, mantendo a distância regulamentar. Assim que cruzaram o limiar para a área externa, onde as sombras das árvores ofereciam cobertura, a aura de casal apaixonado evaporou instantaneamente. Kira soltou a mão de Jack e limpou o sorriso do rosto como se estivesse removendo uma máscara física.
— Marcus, cubra a entrada norte do pavilhão — ordenou Jack, sua voz agora fria e desprovida de qualquer emoção. — Kira, você tem três minutos para clonar o cartão do Valmont enquanto eu neutralizo os sensores de pressão.
— Entendido — disse Kira, já puxando um dispositivo eletrônico oculto na liga de sua perna.
Marcus hesitou por um segundo.
— Aquele beijo lá dentro... — ele começou, mas parou ao ver o olhar de Jack.
Jack se aproximou de Marcus. Não havia o calor do "filho" que Marcus sentia falta, apenas o aço de um superior.
— O que aconteceu lá dentro foi uma ferramenta tática, Agente Marcus. Se você está tendo dificuldades em distinguir disfarce de realidade, talvez deva solicitar uma reavaliação com a Dra. Arlene.
— Eu conheço vocês dois — insistiu Marcus, em um sussurro urgente. — Harry e Alyssa teriam morrido de vergonha em fazer aquilo. Vocês estão tentando provar o quê? Que são diferentes? Que não sentem nada?
Kira parou o que estava fazendo e olhou para Marcus. A cicatriz em seu rosto parecia mais profunda sob a luz do luar.
— Harry e Alyssa estão mortos, Marcus. — Ela disse isso com uma calma aterrorizante. — Se eles tivessem sido capazes de atuar assim, talvez tivessem percebido a traição antes do galpão explodir. Jack e eu não temos os mesmos... pudores. Nós fazemos o que for necessário para vencer. Se isso inclui nos beijar ou fingir amor, faremos. Porque, ao contrário dos seus fantasmas, nós pretendemos sobreviver.
Ela se virou e desapareceu entre as sombras do pavilhão. Jack deu um último olhar para Marcus — um olhar que continha um rastro de piedade, ou talvez de desprezo — e seguiu Kira.
Dentro da mansão, Josh continuava seu show. Ele havia conseguido atrair Julian Valmont para uma conversa sobre "investimentos em infraestrutura de rede". Helena estava ao lado, observando como Josh manipulava o homem com uma facilidade assustadora.
— O problema das grandes agências, Julian — dizia Josh, gesticulando com a taça —, é que elas estão presas ao passado. Elas buscam por heróis, por lealdade. Mas o mundo moderno? O mundo moderno é movido por dados e por quem tem a coragem de ser quem for necessário.
Valmont riu, batendo no ombro de Josh.
— Você fala como um homem que já viu as entranhas do sistema, rapaz.
— Eu vi o suficiente para saber que o sistema é um incêndio — respondeu Josh, e por um breve instante, ele olhou diretamente para Helena. — E eu aprendi a gostar do calor das chamas.
Helena sentiu um calafrio. Aquela era a teoria de Arlene se manifestando diante de seus olhos. Eles não estavam apenas fingindo; eles haviam abraçado a destruição de quem foram. Josh estava usando a personalidade de Oliver como uma paródia cruel, uma forma de dizer: "Eu lembro do que você quer que eu seja, e eu escolho ser o oposto".
— Extração de dados completa — a voz de Luna ecoou nos ouvidos de todos. — Equipe Phoenix, iniciem protocolo de retirada. Marcus, Helena, preparem o transporte nos fundos.
A saída foi tão coreografada quanto a entrada. Jack e Kira voltaram a ser o casal elegante, caminhando de braços dados até o carro. Josh se despediu de Valmont com uma piada final que fez o magnata gargalhar, enquanto Helena o seguia, sentindo-se como se estivesse caminhando em um funeral.
Já dentro da van blindada, a caminho da base, o silêncio era denso. Josh tirou a jaqueta de veludo e os óculos, jogando-os no chão do veículo. Jack e Kira sentaram-se em lados opostos, a proximidade de minutos atrás completamente extinta.
— Excelente trabalho, equipe — disse Jack, verificando os dados no tablet. — Valmont não saberá que foi hackeado até que seja tarde demais.
— Foi uma atuação impressionante — comentou Marcus do banco do motorista, olhando pelo retrovisor. — Especialmente você, Josh. Aquelas referências... aquelas piadas. Você quase me convenceu de que o Oliver estava de volta.
Josh inclinou a cabeça para o lado, um sorriso enigmático nos lábios.
— Como eu disse à Helena, Marcus... é apenas um disfarce. Um herdeiro de tecnologia precisa parecer inteligente e levemente nostálgico. Se isso lembrou vocês de alguém que conheceram, é pura coincidência estatística.
— Coincidência? — Helena virou-se para ele, os olhos marejados. — Você usou as palavras dele! Você agiu exatamente como ele!
— Talvez — disse Josh, sua voz tornando-se subitamente fria — porque o seu precioso Oliver era um livro aberto e fácil de ler. Se eu quero enganar alguém, eu uso o que funciona. Se o fantasma de um garoto morto ajuda a abrir portas, eu usarei o fantasma. Mas não se engane, Helena. O garoto que contava piadas para fazer vocês sorrirem morreu gritando naquele galpão. O que sobrou aqui é apenas o que vocês treinaram para ser uma arma.
Jack interveio antes que Helena pudesse responder.
— Chega. Missão cumprida. Guardem as análises psicológicas para a Dra. Arlene. Temos um relatório para entregar ao Diretor Vance.
A van seguiu pelas ruas escuras da cidade. Helena e Marcus trocaram um olhar de puro desespero. Eles estavam ali, fisicamente presentes, mas cada interação, cada beijo de disfarce e cada piada cruel era um tijolo a mais na muralha que os quatro haviam construído.
A teoria da agência era de que eles estavam traumatizados. Mas, observando Jack e Kira sentados em silêncio, e Josh limpando o batom de Kira de sua mão com um lenço descartável, Helena começou a suspeitar de algo muito pior.
Eles não estavam tentando esquecer quem eram. Eles estavam tentando fazer com que Helena e Marcus esquecessem. Eles queriam apagar Harry, Oliver, Sarah e Alyssa da existência, transformando-os em meras ferramentas de atuação, em fantasmas que podiam ser invocados para uma missão e descartados logo em seguida.
— Vocês nunca vão admitir, não é? — sussurrou Marcus, quase para si mesmo.
Jack olhou para ele pelo espelho.
— Admitir o quê, Agente Marcus? Que somos eficientes? Isso os registros já provam. O resto... o resto é apenas ruído.
E no silêncio que se seguiu, o ruído das memórias parecia ser a única coisa que os quatro jovens não conseguiam silenciar totalmente, por mais que fingissem que o fogo já havia consumido tudo.