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A dualidade do passado

O Eco do Vazio nas Paredes de Vidro

O silêncio nos aposentos da Equipe Phoenix não era o silêncio da paz; era o silêncio de uma câmara de vácuo, onde qualquer som parecia distorcido, pesado demais para ser carregado. Após a missão na mansão Valmont e o teatro cruel do leilão, o ar entre os quatro jovens parecia ter se tornado sólido.

Jack estava parado diante da janela de vidro reforçado que dava para o pátio interno da Agência Central. Ele ainda usava a camisa do smoking, agora desabotoada e com as mangas dobradas, revelando a pele irritada do pulso esquerdo. Ele não conseguia parar de olhar para o próprio reflexo. Por três horas, ele permitira que Harry assumisse o controle. Ele sentira a leveza nos ombros, o sorriso fácil, a necessidade quase infantil de buscar a aprovação de Marcus com o olhar. E agora, o gosto daquela personificação queimava em sua garganta como bile.

A porta da área comum se abriu. Luna entrou, movendo-se como um espectro. Ela já havia trocado o vestido de seda por roupas táticas pretas, mas seu rosto ainda carregava os resquícios da maquiagem que a fizera parecer a doce Sarah.

— Você está fazendo de novo — disse Luna, sua voz mal passando de um sussurro.

Jack não se virou.

— Fazendo o quê?

— Olhando para o nada como se estivesse tentando encontrar o caminho de volta — Luna aproximou-se, parando a uma distância segura. — Nós combinamos, Jack. O teatro era para eles. Para desestabilizá-los. Para garantir que Vance nos desse mais autonomia enquanto Helena e Marcus se perdem em luto.

— Eu sei o que combinamos — retrucou Jack, finalmente virando-se. Seus olhos estavam injetados. — Mas você sentiu, não sentiu? Quando Kira chamou seu nome. O nome dela.

Luna desviou o olhar, as mãos tremendo levemente antes de se fecharem em punhos.

— Eu não senti nada. Eu agi de acordo com o protocolo de disfarce.

— Mentira — disparou Jack, dando um passo à frente. — Por um segundo, quando você se encolheu naquele salão, você não estava atuando. Você voltou para aquele galpão. Você voltou para o momento em que a primeira viga caiu e você gritou por uma Sarah que ninguém veio salvar.

Luna soltou uma risada amarga, um som quebrado.

— E você? Coçando o pulso como se a pele fosse cair? O Harry era um fraco, Jack. Ele era um menino que acreditava em heróis. Se você deixar esse fantasma se alimentar de você, ele vai nos destruir antes que possamos terminar o que viemos fazer.

A discussão foi interrompida por Josh, que saiu de seu quarto jogando a moeda de prata para o alto e pegando-a com uma precisão mecânica. No entanto, o brilho em seus olhos não era o de Oliver; era algo mais sombrio, mais afiado.

— O clima está ótimo aqui, como sempre — ironizou Josh. — Alguém mais sente que o roteiro hoje foi um pouco... pesado demais?

— Você parecia estar se divertindo — Kira disse, aparecendo logo atrás dele, encostada no batente da porta com os braços cruzados. — As piadas, o jeito de andar. Você foi o mais convincente, Josh. Helena quase teve um colapso nervoso no meio do salão.

Josh parou a moeda no ar, pressionando-a contra a palma da mão até que o metal deixasse uma marca profunda.

— É fácil interpretar um idiota — disse ele, a voz subitamente desprovida de humor. — O Oliver era um mecanismo de defesa ambulante. Ele achava que, se todo mundo estivesse rindo, ninguém perceberia que ele estava morrendo de medo. Usar a voz dele hoje... foi como vestir uma roupa que ficou pequena demais. Aperta. Incomoda. Faz você querer rasgar a própria pele para respirar.

Kira caminhou até o centro da sala, observando seus companheiros. Ela era a que mais parecia manter a compostura, mas seus dedos não paravam de tamborilar no coldre vazio em sua cintura.

— Nós subestimamos o impacto — admitiu Kira. — Achamos que usar as memórias deles contra Helena e Marcus seria a arma definitiva. Mas a arma tem dois gumes. Para sermos eles, tivemos que acessar arquivos que deveriam estar lacrados sob sete chaves.

— Não são arquivos, Kira — Jack corrigiu, sentando-se pesadamente no sofá de couro sintético. — São cicatrizes. O que fizemos hoje foi cutucar a crosta de feridas que ainda não fecharam.

— E por que não fecharam? — Luna perguntou, a voz subitamente aguda. — Passamos dois anos no inferno! Dois anos sendo caçados, morrendo de fome, sendo reconstruídos pela Divisão Norte como ferramentas descartáveis. Por que o fantasma de uma menina que gostava de desenhar e de um menino que queria ser capitão ainda têm tanto poder sobre nós?

— Porque nós os matamos, Luna — disse Josh, olhando para a moeda. — Mas não enterramos os corpos. Nós os deixamos apodrecer dentro de nós. E hoje, Helena e Marcus nos obrigaram a fazer uma autópsia em público.

O silêncio voltou a cair, mas desta vez era carregado de uma melancolia sufocante. Eles vieram para a Agência Central com um plano de infiltração e vingança. Queriam usar a culpa dos veteranos para acessar os níveis mais profundos do servidor de Vance e expor a podridão que causara a explosão do galpão. Mas não contavam com a força gravitacional do passado.

— Marcus pegou a moeda — disse Josh, do nada.

Jack levantou a cabeça.

— O quê?

— No final. Eu a deixei cair de propósito. Ou talvez não. Talvez o Oliver tenha deixado. Marcus a pegou. Ele viu a marca.

— Isso é perigoso, Josh — avisou Kira. — Se eles tiverem certeza absoluta de que somos nós, Vance vai apertar o cerco. Ele vai usar o vínculo emocional para nos controlar.

— Ele já está tentando — Jack levantou-se, caminhando até um pequeno painel de controle e ativando um bloqueador de sinal mais potente. — A consulta com a Arlene, o leilão, os perfis... Eles estão tentando nos "curar". Eles acham que, se nos forçarem a lembrar, voltaremos a ser os cães leais que éramos.

— Eles não entendem — Luna murmurou, abraçando os próprios joelhos no sofá. — Eles acham que o que aconteceu foi um acidente. Eles não entendem que a traição dói mais do que o fogo. Ver o Marcus e a Helena hoje... ver o amor nos olhos deles... isso me deu nojo. Onde estava esse amor quando o Miller armou a emboscada? Onde estava a intuição deles quando fomos deixados para trás?

— Eles estavam procurando — disse Jack, e sua voz falhou por um milésimo de segundo. — Eles disseram que nunca pararam de procurar.

— E você acredita? — Kira desafiou, aproximando-se dele. — Você acredita neles agora, Jack? Depois de tudo o que vimos nos arquivos da Divisão Norte? Vance sabia que o galpão ia explodir. Ele deixou acontecer para ver quem sobreviveria. Ele queria ver qual de nós era o "material de elite".

Jack fechou os olhos. A imagem de Harry coçando o pulso voltou à sua mente. Não era um tique de nervosismo; era uma memória de dor. Harry fizera aquilo enquanto as chamas subiam, tentando desesperadamente soltar as algemas que o prendiam a uma tubulação. A cicatriz física sumira com as cirurgias plásticas na Divisão Norte, mas a memória celular permanecia.

— Eu não acredito em ninguém — afirmou Jack, abrindo os olhos, agora frios novamente. — Mas a missão de hoje provou uma coisa. Não podemos continuar usando o passado como disfarce. É instável demais. Quase perdemos o controle lá dentro.

— Quase? — Josh riu sem vontade. — Jack, você quase abraçou o Marcus quando ele te chamou de "filho" no corredor. Eu vi seus dedos tremerem.

— Isso não vai acontecer de novo — Jack rosnou. — A partir de amanhã, seremos puramente Phoenix. Sem piadas de Oliver, sem timidez de Sarah, sem impulsividade de Harry. Se Vance quer os melhores, daremos a ele máquinas.

— Máquinas não sentem culpa — Luna disse, olhando para as próprias mãos. — Máquinas não têm pesadelos com o cheiro de fumaça e sândalo da sala da Arlene.

— Então seremos máquinas — Jack decretou.

Mas, enquanto ele falava, a porta da área comum foi batida levemente. Pelo monitor interno, viram Helena. Ela estava parada no corredor, segurando uma bandeja com quatro xícaras de chocolate quente. Era uma tradição antiga. Depois de cada missão difícil, Harry, Oliver, Sarah e Alyssa se reuniam na cozinha da agência e Helena preparava aquela bebida, prometendo que o mundo lá fora ficaria bem.

Os quatro ficaram imóveis, observando a tela. Helena parecia envelhecida dez anos em uma única noite. Seus olhos estavam vermelhos, e ela olhava para a porta fechada com uma esperança que era quase insuportável de testemunhar.

— Ela não vai embora — sussurrou Kira.

— Deixe que ela fique — disse Jack, embora sua mandíbula estivesse travada.

— Josh — Helena chamou, sua voz abafada pela porta reforçada. — Eu sei que você gosta com um pouco mais de canela. E Jack... eu coloquei o marshmallow que você prefere. Eu só... eu só queria dizer que vocês foram incríveis hoje. Independentemente de quem vocês dizem que são agora... o que eu vi naquele salão... eu vi meus meninos. E eu estou tão orgulhosa de vocês por terem voltado para casa.

Josh deu um passo em direção à porta, a moeda caindo de sua mão e rolando pelo chão. Luna cobriu a boca com a mão, um soluço sufocado escapando por entre os dedos. Kira desviou o olhar para a parede, as lágrimas finalmente vencendo a barreira de seus cílios.

Jack sentiu um aperto no peito que nenhuma técnica de respiração da Divisão Norte conseguia aliviar. Por um momento, o vidro fumê de sua alma rachou. Ele queria abrir aquela porta. Ele queria ser Harry de novo. Queria chorar no ombro de Helena e dizer que o fogo ainda queimava todas as noites quando ele fechava os olhos. Queria que Oliver contasse uma piada idiota e que Sarah desenhasse algo que não fosse um mapa tático.

Mas então, ele lembrou-se do relatório que encontrara nos arquivos secretos de Vance. O documento que provava que a Agência Central havia recebido o sinal de socorro deles dez minutos antes da explosão final e decidira não enviar o resgate para "não comprometer a operação secreta".

O gelo voltou, mais espesso e cortante do que antes.

— Não abra — ordenou Jack, sua voz saindo como um estalo de chicote.

— Jack... — Josh começou, sua voz falhando.

— Eu disse: não abra! — Jack virou-se para eles, a face transformada em uma máscara de fúria e dor. — Ela não está nos dando chocolate quente, Josh. Ela está nos dando veneno. Ela está tentando nos amansar para que esqueçamos que eles nos deixaram morrer! Vocês querem ser os órfãos gratos de novo? Querem esperar por um resgate que nunca vem enquanto o teto desaba sobre suas cabeças?

Josh parou. Sua mão, que estava a centímetros do trinco, recuou. Ele pegou a moeda do chão e a guardou no bolso mais profundo.

— Não — disse Josh, a voz agora tão fria quanto a de Jack. — Eu não quero.

Helena ficou do lado de fora por mais vinte minutos. Ela falou sobre o tempo, sobre como o jardim da agência estava bonito, sobre como sentira falta do barulho deles nos corredores. Ela não pediu para entrarem, não exigiu confissões. Ela apenas ofereceu presença.

E do lado de dentro, os quatro ficaram em silêncio absoluto, sentados no escuro, ouvindo a voz da mulher que amavam como uma mãe, enquanto planejavam a destruição de tudo o que ela representava.

Quando Helena finalmente desistiu e deixou a bandeja no chão, afastando-se com passos pesados, Jack aproximou-se do painel e desligou as câmeras.

— Amanhã — começou Jack, sua voz soando estranhamente oca no quarto escuro —, começamos a fase dois. Vamos acessar os servidores do Nível 5. Vance vai estar distraído com o "sucesso" da missão de hoje.

— E se a Arlene tentar outra sessão? — Kira perguntou.

— Nós daremos a ela o que ela quer — Luna disse, levantando-se e caminhando para seu quarto com uma determinação sombria. — Daremos a ela um labirinto de espelhos. Ela vai ver tantas versões de nós que não saberá qual é a real. Nem nós saberemos.

— Já não sabemos — Josh murmurou, passando por Jack.

Jack ficou sozinho na sala comum. Ele caminhou até a porta e, por um breve segundo, encostou a testa no metal frio. Ele conseguia sentir o calor sutil que ainda emanava das xícaras de chocolate do outro lado. O cheiro de canela e chocolate penetrava pelas frestas, um ataque sensorial mais potente do que qualquer gás lacrimogêneo.

Ele fechou os olhos e, por um momento fugaz, permitiu-se lembrar da sensação de ser Harry. Lembrou-se de como era ter um nome que não fosse um codinome. Lembrou-se de como era acreditar que o mundo era justo.

— Adeus, Harry — sussurrou ele para o vazio.

Jack endireitou a postura, ajustou a camisa e caminhou de volta para as sombras. A missão na mansão Valmont havia mexido com eles, sim. Havia provado que as cinzas de ontem ainda guardavam brasas vivas. Mas também havia ensinado a eles a lição mais importante de todas:

Brasas não servem para aquecer. Elas servem para queimar.

Naquela noite, nos aposentos da Equipe Phoenix, ninguém dormiu. Eles ficaram acordados, polindo suas armas e suas mentiras, enquanto o chocolate quente de Helena esfriava no corredor, tornando-se uma relíquia amarga de um passado que eles se recusavam a aceitar, mas que jamais conseguiriam esquecer completamente.

O jogo de espelhos continuava, e a cada reflexo, a imagem original tornava-se mais borrada, até que não restasse nada além de silhuetas de vidro, prontas para estilhaçar ao menor toque de humanidade. Eles eram a Phoenix, e o preço do renascimento era a destruição eterna do que foram um dia.