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A dualidade do passado

O Reflexo do Que Nunca Fomos

O brilho da "Lágrima de Perséfone", uma safira do tamanho de um ovo de codorna e de um azul tão profundo que beirava o negro, parecia absorver toda a luz da sala de segurança da Agência Central. O artefato seria o centro de um leilão beneficente em uma mansão fortificada nos arredores de Brasília, e a inteligência indicava que um grupo mercenário internacional planejava o roubo.

Na sala de briefing, Helena e Marcus trocaram um olhar carregado de um nervosismo que ia além da missão. Eles haviam passado a noite anterior em claro, vasculhando arquivos antigos, vídeos de missões de três anos atrás e relatórios psicológicos. Eles tinham um plano: se os quatro jovens se recusavam a admitir quem eram, eles seriam forçados a "interpretar" a si mesmos.

— Para esta infiltração — começou Marcus, projetando os perfis nos tablets dos quatro jovens —, o Diretor Vance aprovou uma abordagem de 'personalidades pré-fabricadas'. Precisamos que vocês assumam arquétipos específicos para desarmar a segurança social do evento.

Jack, Josh, Luna e Kira pegaram os dispositivos. O silêncio que se seguiu foi cortante. Nos tablets, não havia nomes falsos genéricos. Havia descrições detalhadas de traços de personalidade, tiques nervosos, preferências alimentares e estilos de combate.

— Jack — disse Helena, a voz levemente trêmula —, seu perfil é o de um líder jovem, mas impulsivo, que tende a proteger o grupo de forma quase obsessiva. Você gosta de xadrez, mas odeia perder, e costuma coçar o pulso esquerdo quando está sob pressão.

Jack olhou para o próprio pulso. Era exatamente o que Harry fazia.

— Josh — continuou Marcus —, você será o alívio cômico técnico. Alguém que faz piadas ácidas para esconder o nervosismo, que tem o hábito de girar uma moeda entre os dedos e que sempre tenta invadir os sistemas apenas 'por diversão'.

Josh apertou os lábios. Oliver era o mestre das moedas e das piadas em momentos impróprios.

— Luna e Kira — Helena virou-se para as garotas —, vocês serão a dupla de suporte. Luna, você é introspectiva, quase tímida, mas com uma precisão cirúrgica. Kira, você é a força bruta com um pavio curto e uma lealdade cega à Luna.

Eram eles. Sarah, a doce e precisa. Alyssa, a leal e explosiva. Helena e Marcus observaram atentamente, esperando por um tremor, um lampejo de raiva, um gatilho que fizesse as máscaras da Equipe Phoenix caírem.

— Entendido — disse Jack, sua voz desprovida de qualquer emoção enquanto colocava o tablet sobre a mesa. — Personagens baseados em perfis psicológicos obsoletos. Uma escolha curiosa, Agente Marcus. Acha que essa... 'nostalgia' nos ajudará na missão?

— Achamos que esses perfis são os mais adequados para a cobertura — respondeu Marcus, tentando manter a voz firme. — Eles são naturais. Humanizam vocês.

— Humanidade é uma falha de segurança — comentou Luna, levantando-se. — Mas se o comando deseja teatro, daremos a vocês a melhor performance de suas vidas.

O leilão estava em pleno vapor. A mansão era um labirinto de mármore e segurança armada. Helena e Marcus observavam das câmeras de vigilância, com os corações disparados. O que viram a seguir os deixou sem fôlego.

No salão principal, Jack não caminhava mais com a postura predatória do líder da Phoenix. Ele parecia... mais jovem. Seus ombros estavam levemente caídos, e ele olhava ao redor com uma curiosidade ansiosa que Helena não via há anos. Quando um segurança se aproximou para pedir seu convite, Jack coçou o pulso esquerdo, exatamente como Harry fazia quando estava prestes a entrar em combate.

— Desculpe, senhor — disse Jack, com um sorriso que era a cópia exata do sorriso de Harry: meio torto, levemente desafiador. — Eu me perdi procurando o buffet. Minha equipe diz que eu me distraio fácil.

— Jack, foco! — sibilou Kira pelo ponto eletrônico, mas sua voz não era a de Kira. Era o tom agudo e impaciente de Alyssa. — Se você se perder de novo, eu vou ter que te carregar pela orelha!

— Ela está sendo má comigo de novo, Josh — reclamou Jack, virando-se para o rapaz ao seu lado.

Josh estava girando uma moeda de prata entre os dedos com uma destreza hipnotizante. Ele soltou uma risada curta e seca.

— Relaxa, 'capitão'. A Kira só está nervosa porque o sinal de Wi-Fi aqui é pior que o senso de humor do Diretor. Aliás, vocês viram o sistema de segurança? É tão básico que eu poderia invadi-lo usando uma torradeira.

Helena apertou as mãos de Marcus sob a mesa de monitoramento.

— Meu Deus, Marcus... — sussurrou ela. — É o Oliver. É exatamente o jeito que ele falava.

— Eles estão reagindo aos gatilhos? — Marcus perguntou, esperançoso. — Ou estão apenas...

— Estão sendo eles mesmos — Helena completou, com lágrimas nos olhos.

No canto do salão, Luna permanecia em silêncio, observando a joia com uma intensidade melancólica. Quando um convidado tentou puxar assunto, ela deu um passo atrás, encolhendo-se levemente, o olhar fugidio de Sarah quando se sentia sobrecarregada por multidões.

— Ela é um pouco tímida — disse Kira, aproximando-se e colocando o braço ao redor de Luna de forma protetora. — Mas se você chegar perto demais, ela morde. Não é, Sarah?

O nome "Sarah" ecoou no canal de áudio. Helena prendeu a respiração. Kira havia usado o nome proibido.

— É... é Luna, Kira — corrigiu Luna, em um sussurro que soava como se ela estivesse prestes a chorar. — Você sabe que eu não gosto de nomes barulhentos.

A atuação era perfeita. Dolorosamente perfeita. Eles estavam recriando dinâmicas, piadas internas e vulnerabilidades que só Harry, Oliver, Sarah e Alyssa conheceriam. Por três horas, Helena e Marcus viveram em um sonho. Eles riram das piadas de Josh, emocionaram-se com a proteção de Jack e sentiram o peito apertar com a doçura de Luna.

Mas então, o perigo real se manifestou.

Três homens vestidos como garçons sacaram submetralhadoras ocultas sob as bandejas. O pânico explodiu no salão.

— Agora! — gritou Marcus pelo rádio. — Protocolo de defesa!

O que aconteceu a seguir destruiu o coração de Helena e Marcus de forma mais definitiva do que qualquer mentira.

No momento em que o primeiro tiro foi disparado, a "humanidade" dos quatro desapareceu instantaneamente. Não houve hesitação, não houve o medo impulsivo de Harry ou a timidez de Sarah.

Jack, que um segundo antes coçava o pulso com ansiedade, moveu-se como um borrão cinzento. Ele desarmou o primeiro mercenário com um golpe de quebra-rins que Harry jamais teria força ou crueldade para executar. Enquanto o homem caía, Jack usou o corpo dele como escudo humano, disparando com uma precisão gélida.

— Josh, setor norte. Kira, flanco. Luna, neutralize os sensores de saída — ordenou Jack. Sua voz não era mais a de Harry. Era a voz de Jack, o comandante da Phoenix.

Josh parou de girar a moeda. Ele não fez nenhuma piada enquanto sacava um dispositivo de pulso e fritava os circuitos da mansão, mergulhando o salão em uma penumbra tática. Ele se movia com uma eficiência mecânica, sem o menor traço da hesitação que Oliver sempre demonstrava antes de machucar alguém.

Kira e Luna tornaram-se uma unidade de extermínio silenciosa. Onde antes havia timidez e lealdade cega, agora havia apenas técnica. Luna não se encolhia; ela deslizava pelas sombras, sua faca encontrando pontos vitais com uma frieza que fazia Helena desviar o olhar do monitor.

A batalha durou menos de dois minutos. Os mercenários estavam no chão, mortos ou incapacitados. A "Lágrima de Perséfone" permanecia intacta em seu pedestal.

Jack ficou de pé no centro do salão, o smoking impecável manchado de sangue alheio. Ele olhou diretamente para uma das câmeras de segurança.

— Missão cumprida, Agentes Helena e Marcus — disse ele. A voz era plana, sem o tom desafiador de antes. — A joia está segura.

Quando voltaram para a base, o silêncio na van era diferente. Não era o silêncio tenso de antes, mas um silêncio de vitória... e de luto.

Helena esperou por eles na garagem. Assim que as portas da van se abriram, ela caminhou até Jack, que estava limpando o sangue do rosto.

— Por que vocês fizeram aquilo? — perguntou ela, a voz embargada.

— Fizemos o que, Agente Helena? — Jack perguntou, sem parar o que estava fazendo. — Protegemos o alvo. Eliminamos a ameaça.

— Não é disso que estou falando! — Helena explodiu. — A atuação no salão. O pulso, as piadas, o nome da Sarah... Vocês foram eles. Por três horas, vocês foram os meus meninos de novo. Como puderam fazer isso se dizem que não se lembram? Se dizem que eles morreram?

Jack parou de limpar o rosto. Ele olhou para Helena, e pela primeira vez, não havia apenas frieza, mas uma espécie de cansaço infinito.

— Vocês nos deram perfis — disse Jack, calmamente. — Como agentes de elite, nossa função é incorporar o disfarce da forma mais convincente possível. Estudamos os dados que vocês nos forneceram. Analisamos os padrões de comportamento de Harry, Oliver, Sarah e Alyssa.

— Vocês... estudaram? — Marcus perguntou, aproximando-se, sentindo um nó na garganta.

— Sim — disse Josh, saindo da van e guardando sua moeda no bolso. — Foi uma excelente lição de história, Marcus. Aqueles adolescentes eram previsíveis, cheios de 'gatilhos' emocionais e falhas táticas. Foi fácil interpretá-los porque eles eram caricaturas de fraqueza.

— Vocês usaram as memórias que nós temos deles para zombar de nós? — Helena perguntou, horrorizada.

— Não — disse Luna, passando por Helena com o olhar fixo à frente. — Usamos o que vocês nos deram para provar um ponto. Vocês querem tanto que sejamos eles que estão dispostos a ignorar quem realmente somos. Se vocês preferem uma mentira bem atuada à realidade da nossa eficiência, o problema é da Agência, não nosso.

Jack deu um passo à frente, ficando a centímetros de Helena.

— A performance no leilão foi um presente, Helena. Mostramos a vocês exatamente o que vocês queriam ver. E no momento em que a vida de vocês e a segurança da joia dependeram de nós, mostramos por que é bom que Harry e os outros não existam mais.

— Harry teria tentado salvar aqueles mercenários — sussurrou Marcus. — Ele teria buscado uma saída sem mortes.

— E é por isso que Harry teria falhado — retrucou Jack. — Harry morreu porque acreditava que o amor e a lealdade o protegeriam. Jack vive porque sabe que só a lâmina e o cálculo importam.

Jack começou a se afastar, mas parou e olhou por cima do ombro.

— Da próxima vez que tentarem usar 'gatilhos' conosco, lembrem-se do que viram hoje. Podemos ser qualquer pessoa que vocês quiserem. Podemos rir como Oliver, chorar como Sarah ou liderar como Harry. Mas, por baixo da pele, continuaremos sendo a Phoenix. E a Phoenix não tem passado.

Os quatro caminharam em direção aos alojamentos, deixando Helena e Marcus sozinhos na garagem fria.

— Eles são monstros, Marcus — sussurrou Helena, desabando nos braços do parceiro. — O que fizeram com eles na floresta? Como transformaram crianças tão doces em atores tão cruéis?

Marcus não respondeu. Ele olhava para o chão, onde a moeda de prata que Josh estava usando havia caído. Ele a pegou. No verso da moeda, havia uma pequena marca, um arranhão em forma de "O" que o próprio Marcus havia feito anos atrás para Oliver.

Eles se lembravam. Marcus sabia disso agora com uma certeza absoluta. A atuação não foi baseada em arquivos; foi baseada na dor. Eles não estavam apenas interpretando; estavam demonstrando que podiam vestir suas antigas peles como se fossem roupas de brechó, sem que isso mudasse o vazio que agora carregavam no peito.

Lá em cima, no alojamento, Jack entrou em seu quarto e fechou a porta. Ele caminhou até o espelho e olhou para o próprio pulso esquerdo. A pele estava vermelha de tanto ele a ter coçado durante a missão.

Ele fechou o punho com tanta força que as unhas cravaram na carne.

— Só mais um pouco — sussurrou ele para o próprio reflexo, e por um breve, minúsculo segundo, os olhos de Harry brilharam através do aço de Jack. — Só mais um pouco e ninguém mais vai precisar fingir nada.

A fogueira da vingança ainda estava acesa, e Helena e Marcus, em sua busca desesperada por amor, acabaram de dar aos seus "filhos" o combustível que faltava para reduzir a Agência Central a cinzas. Eles queriam os fantasmas de volta, e agora, teriam que aprender a viver com o que os fantasmas haviam se tornado.