A Era do Dragão Branco
O Sussurro do Dragão entre os Lençóis de Seda
O retorno a Porto Real era sempre um exercício de tortura para Lucerys Velaryon. O ar da capital, pesado com o cheiro de peixe podre e fumaça, parecia sufocar o aroma de jasmim que Aemond tanto apreciava. Luke caminhava pelos corredores da Fortaleza Vermelha com os ombros tensos, sentindo o peso do colar de pérolas que sua mãe, Rhaenyra, insistia que ele usasse para reforçar sua linhagem. Ele era um príncipe, um herdeiro, um ômega que deveria ser o epítome da graça e da obediência.
Mas, por dentro, Luke era um incêndio. Cada vez que seus olhos cruzavam com os de Aemond durante as refeições formais ou nos treinos no pátio, ele sentia a eletricidade percorrer sua espinha. Aemond era mestre na arte da dissimulação; ele mantinha o rosto como uma máscara de mármore frio, seu único olho safira fixo em algum ponto distante, ou, pior ainda, lançado sobre Luke com um desprezo tão bem fingido que chegava a doer.
Naquela tarde, o Conselho estava reunido. O clima era de guerra iminente. Mapas estavam estendidos sobre a mesa, e as vozes de Alicent Hightower e Rhaenyra Targaryen colidiam como espadas. Luke estava sentado ao lado de seu irmão Jacaerys, tentando manter a expressão neutra enquanto sentia o cheiro de Aemond — couro, sândalo e o perigo metálico de sangue — preencher a sala.
— Não podemos permitir que as guarnições de Ponta Tempestade fiquem sem resposta — declarou Rhaenyra, sua voz firme, mas com um toque de cansaço.
— E você propõe o quê, enteada? — a Rainha Alicent retrucou, as mãos apertando o tecido verde de seu vestido. — Que enviemos dragões para cada pequena disputa de fronteira? Isso é imprudência.
Aemond, encostado em uma das colunas de pedra atrás de sua mãe, soltou um estalido com a língua, um som de puro tédio.
— Talvez devêssemos enviar o pequeno Lucerys — disse Aemond, sua voz cortando a tensão da sala como uma navalha. — Ele é tão... diplomático. Tenho certeza de que os Baratheon ficariam encantados com sua presença delicada.
Luke sentiu o rosto esquentar. Ele sabia que aquilo era um jogo, uma camada de proteção para o que realmente sentiam, mas a provocação ainda o atingia. Ele olhou para Aemond, encontrando o olhar desafiador do tio.
— Pelo menos eu sei quando usar palavras em vez de chamas, tio — rebateu Lucerys, a voz suave, mas carregada de um veneno que só Aemond entenderia. — Alguns de nós não precisam de uma montanha voadora para provar seu valor.
Um silêncio desconfortável caiu sobre a mesa. Jacaerys tocou o braço do irmão, um sinal para que ele se acalmasse. Aemond deu um passo à frente, a luz das tochas refletindo na safira em seu olho, um brilho predatório que fez o coração de Luke errar uma batida.
— Palavras são para os fracos que não podem lutar — rosnou Aemond. — Mas não se preocupe, sobrinho. Eu cuidarei para que você esteja seguro em seu ninho enquanto os homens de verdade resolvem o destino do reino.
— Chega — interrompeu o Rei Viserys, sua voz fraca ecoando pela sala. — Somos uma família. Parem com essa animosidade.
A reunião prosseguiu, mas para Luke, o resto do mundo era apenas ruído de fundo. Ele sentia o olhar de Aemond queimando sua pele, um convite silencioso, uma ordem mascarada de insulto.
Horas depois, quando a lua já estava alta e a Fortaleza Vermelha mergulhada em um silêncio inquietante, Lucerys saiu de seus aposentos. Ele conhecia as passagens secretas, os caminhos que os criados raramente usavam. Seu coração martelava contra as costelas a cada sombra que se movia. Ele sabia que o que estava fazendo era loucura. Se fosse pego entrando nos aposentos do Príncipe Aemond, não haveria explicação diplomática que pudesse salvá-lo.
Ao chegar à porta pesada de carvalho, Luke hesitou por um segundo. A mão tremia quando ele empurrou a madeira, que cedeu sem um ruído. O quarto estava fracamente iluminado por uma lareira que morria.
Antes que pudesse dar o segundo passo, uma mão forte agarrou seu braço e o puxou para dentro, prensando-o contra a porta que se fechava. O impacto foi firme, mas não doloroso. O cheiro de Aemond o envolveu instantaneamente, agindo como uma droga em seus sentidos de ômega.
— Você demorou — sussurrou Aemond, o rosto a milímetros do de Luke.
— Eu tive que esperar Jace dormir — respondeu Luke, tentando recuperar o fôlego. — Você foi um idiota no Conselho, Aemond. Minha mãe quase percebeu o quanto você estava focado em mim.
Aemond soltou uma risada baixa e rouca, soltando o braço de Luke para traçar o contorno de seu pescoço com as pontas dos dedos frios.
— Eu não consigo evitar. Ver você tentando agir como um herdeiro sério enquanto eu sei exatamente como você soa quando clama pelo meu nome... é a única coisa que torna essas reuniões suportáveis.
— Isso é perigoso demais — disse Luke, embora suas mãos já estivessem subindo para os ombros de Aemond, puxando-o para mais perto. — O clima está mudando. Meus avôs estão falando de guerra. Se eles souberem...
— Deixe que falem de guerra — interrompeu Aemond, sua voz tornando-se subitamente séria, perdendo o tom de deboche. Ele segurou o rosto de Luke com ambas as mãos, forçando-o a olhar em seu olho. — Eu passaria Vhagar por cima de qualquer exército que tentasse tirar você de mim, Lucerys. Você entende isso?
— Eu entendo que você é louco — sussurrou Luke, um sorriso triste brincando em seus lábios. — E eu entendo que sou louco por amar você.
Aemond não respondeu com palavras. Ele o beijou com uma intensidade que parecia querer fundir suas almas. Não era o beijo desesperado da praia; era algo mais profundo, carregado de uma promessa de proteção e posse. Ele carregou Luke em direção à cama de dossel, deitando-o sobre os lençóis de seda escura que cheiravam a ele.
Enquanto Aemond se livrava de sua túnica de couro, Luke observava as cicatrizes no peito do tio, marcas de treinos exaustivos e da própria vida dura que ele levava. Aemond era uma arma forjada no fogo e no ressentimento, mas ali, entre aquelas quatro paredes, ele era apenas o homem que fazia Luke se sentir completo.
— Às vezes eu sinto que estamos vivendo em um sonho que vai terminar em cinzas — murmurou Luke, enquanto Aemond se posicionava entre suas pernas, a presença do alfa dominando o espaço.
— Então queimaremos juntos — disse Aemond, beijando a curva do ombro de Luke, onde o aroma de jasmim era mais forte. — Mas ninguém vai nos separar. Nem sua mãe, nem a minha. Nem mesmo os deuses.
Aemond era rude em seus movimentos, uma força da natureza que não conhecia a sutileza, mas com Luke, havia uma reverência oculta. Ele marcava a pele do ômega com beijos e mordidas leves, deixando sua trilha, reivindicando o que considerava seu por direito de alma. Lucerys arqueava o corpo, os dedos enterrados nos cabelos platinados de Aemond, deixando escapar gemidos que seriam sua condenação se ouvidos por ouvidos errados.
— Diga — ordenou Aemond, a voz vibrando contra o peito de Luke. — Diga que você é meu.
— Eu sou seu, Aemond — suspirou Luke, as lágrimas de prazer e medo borrando sua visão. — Sempre fui. Desde o dia no Septo, desde o dia na caverna... eu sou seu.
Eles se perderam um no outro por horas, o tempo parando enquanto o mundo lá fora continuava a conspirar. Para Aemond, Lucerys era a única coisa pura em uma vida de deveres e ódio cultivado. Para Lucerys, Aemond era a âncora que o impedia de ser levado pelas expectativas de sua posição.
Mais tarde, quando o suor esfriava em seus corpos e eles estavam abraçados sob as peles grossas, o silêncio retornou, mas desta vez era pesado com a realidade.
— Rhaena virá para Porto Real na próxima lua — disse Luke em voz baixa, desenhando círculos no peito de Aemond. — Eles querem anunciar nosso noivado formalmente.
Aemond ficou tenso instantaneamente, seus músculos endurecendo sob o toque de Luke.
— Isso não vai acontecer.
— Como você pode impedir? — perguntou Luke, olhando para ele. — Seria uma afronta política. Minha mãe precisa da aliança com os Velaryon.
Aemond sentou-se na cama, a luz da lua filtrando-se pela janela e iluminando seu perfil severo.
— Eu não me importo com alianças. Se eu tiver que sequestrar você de cima do altar, eu o farei. Se eu tiver que queimar a frota de Driftmark para garantir que ninguém mais toque em você, eu o farei.
— Aemond, você não pode simplesmente queimar o mundo toda vez que algo não sai do seu jeito — disse Luke, embora uma parte dele se sentisse perigosamente lisonjeada pela possessividade do alfa.
— Por você? Eu posso — afirmou Aemond, virando-se para ele. — Você tem um espírito livre, Luke. Você ama voar em Arrax. Você acha que conseguiria viver uma vida de mentiras, deitado ao lado de uma mulher enquanto seu coração pertence a mim? Isso mataria você. E eu não vou deixar você morrer por dentro.
Lucerys sentou-se também, segurando a mão de Aemond.
— Então precisamos de um plano. Não podemos apenas reagir com fogo. Precisamos de aliados, ou de um momento em que eles não possam nos impedir.
— Você está sugerindo que fujamos? — Aemond arqueou a sobrancelha. — O Príncipe Herdeiro de Driftmark e o Príncipe de Porto Real desaparecendo na calada da noite? Seria o início de uma guerra de qualquer maneira.
— Talvez — admitiu Luke. — Mas seria uma guerra por nós, não por um trono de ferro que nenhum de nós realmente deseja.
Aemond olhou para as mãos unidas, os dedos morenos de Luke entrelaçados nos seus, tão pálidos. O contraste era perfeito.
— Você lutaria ao meu lado? — perguntou Aemond, repetindo a pergunta que Luke fizera na praia. — Se o mundo se voltasse contra nós, você montaria Arrax e queimaria os céus comigo?
Lucerys sentiu uma força nova crescer em seu peito. Ele não era mais apenas o menino delicado que temia a sombra do tio. Ele era um cavaleiro de dragão, e seu coração tinha escolhido seu mestre.
— Eu montaria Arrax até o fim do mundo por você, Aemond.
Aemond puxou-o para um abraço apertado, escondendo o rosto no pescoço de Luke. Por um momento, o alfa dominante permitiu-se ser apenas um homem que amava desesperadamente.
— Então vamos esperar — murmurou Aemond. — Vamos deixar que eles joguem seus jogos de poder por mais um tempo. Mas no momento em que tentarem colocar uma aliança em seu dedo que não seja a minha, nós partiremos. E Porto Real lembrará do dia em que dois dragões decidiram ser livres.
A madrugada começava a tingir o céu de um azul pálido. Lucerys sabia que precisava ir. Ele se vestiu rapidamente, os movimentos sendo observados pelo olhar atento de Aemond. Antes de sair, ele se inclinou e deu um último beijo no tio, um beijo que carregava o gosto da promessa e do perigo.
— Tome cuidado, pequeno dragão — disse Aemond, sua voz suave, mas com o peso de uma ordem.
— Você também, meu alfa — respondeu Luke com um sorriso audaz.
Ele deslizou para fora do quarto, sua sombra desaparecendo nos corredores de pedra fria. Aemond permaneceu na cama, ouvindo o som distante do mar batendo contra as muralhas da cidade. Ele sabia que os dias de paz estavam contados. Ele sentia o cheiro da tempestade chegando, uma tempestade de sangue e fogo que mudaria a história de Westeros.
Mas, pela primeira vez em sua vida, Aemond Targaryen não estava lutando por glória, pelo seu avô ou pela coroa de seu irmão. Ele estava lutando por um par de olhos castanhos e pelo direito de amar o único ser que teve a coragem de marcá-lo para sempre.
A guerra estava vindo, sim. Mas ele seria o último homem de pé, e Lucerys Velaryon estaria ao seu lado, ou o mundo não passaria de cinzas sob seus pés.