A Era do Dragão Branco
O Voo do Corvo e a Dança das Traições
O sol mal havia começado a lamber as torres da Fortaleza Vermelha quando a notícia chegou, não por meio de dragões, mas através de um corvo de asas negras e olhos cansados, vindo de Ponta Tempestade. O Rei Viserys estava em seu pior estado, confinado ao leito por dores que nem mesmo o leite de papoula conseguia aplacar, deixando o governo do reino nas mãos nervosas da Rainha Alicent e nas mãos calculistas de Otto Hightower.
Lucerys estava na biblioteca real, tentando se concentrar em um pergaminho sobre a história de Valíria, mas seus pensamentos estavam na noite anterior. O calor da pele de Aemond ainda parecia queimar em suas próprias mãos. O cheiro de sândalo parecia impregnado em suas roupas, e ele temia que qualquer um que passasse por ele pudesse ler a traição — ou a libertação — escrita em seu rosto.
A porta da biblioteca se abriu com um estrondo. Jacaerys entrou, o rosto pálido e os punhos cerrados.
— Luke, precisamos ir para Pedra do Dragão agora mesmo — disse Jacaerys, a voz baixa e urgente.
Lucerys levantou-se de um salto, o coração disparando contra as costelas.
— O que aconteceu, Jace? O avô... o Rei morreu?
— Ainda não — respondeu o irmão, aproximando-se para falar quase ao ouvido de Luke. — Mas Lorde Borros Baratheon enviou uma resposta. Ele não aceitará os termos da nossa mãe a menos que um de nós se case com uma de suas filhas. E pior: Aemond partiu com Vhagar ao amanhecer. Ele foi enviado por Otto.
O mundo de Lucerys pareceu girar. Aemond havia partido sem dizer uma palavra. A promessa de proteção, os sussurros de que "queimariam o mundo juntos", tudo parecia desmoronar diante da realidade política. Se Aemond estivesse em Ponta Tempestade, ele estaria lá como um pretendente, ou pior, como o carrasco das pretensões de Rhaenyra.
— Eu vou — disse Lucerys, sua voz saindo mais firme do que ele esperava.
— Você? Luke, você é o herdeiro de Driftmark, mas Arrax ainda é... — Jacaerys hesitou.
— Arrax é rápido — interrompeu Lucerys, os olhos brilhando com uma determinação que assustou o irmão. — Eu sou um mensageiro, Jace. Não um guerreiro. Lorde Borros me conhece. Eu posso convencê-lo antes que o tio Aemond faça algo estúpido.
O que Luke não disse foi que ele precisava olhar nos olhos de Aemond. Ele precisava saber se o homem que o segurara nos braços naquela noite era o mesmo que agora cavalgava a maior fera do mundo para selar uma aliança que os separaria para sempre.
A viagem até Ponta Tempestade foi um borrão de nuvens cinzentas e ventos cortantes. O clima estava mudando drasticamente, como se os próprios deuses estivessem preparando o cenário para um desastre. Quando Arrax finalmente circulou sobre o castelo dos Baratheon, a sombra de Vhagar já estava lá, repousando como uma montanha de escamas velhas e ódio sobre as falésias.
Lucerys sentiu um calafrio que não vinha do vento. Ele desceu de Arrax, acalmando o dragão que gania de medo diante da presença da Rainha de Todos os Dragões. Ao entrar no salão principal, o cheiro de tempestade e mar salgado foi substituído pelo calor das lareiras e pela tensão palpável.
Lorde Borros estava sentado em seu trono, cercado por suas quatro filhas. E lá, parado como uma estátua de ferro e safira, estava Aemond. Ele não usava sua armadura de couro, mas sim as cores da Casa Targaryen, o manto verde dos Hightower sutilmente presente em seus detalhes.
— O pequeno príncipe Velaryon — trovejou Lorde Borros, sua voz ecoando pelas vigas de pedra. — Veio me trazer uma oferta melhor que a do seu tio? O Príncipe Aemond veio com uma proposta de casamento e a força de Vhagar. O que sua mãe oferece, além de ordens e lembranças de juramentos antigos?
Lucerys ignorou o Lorde por um momento, seus olhos fixos em Aemond. O alfa não se moveu. Seu rosto era uma máscara de indiferença absoluta, mas Luke notou o modo como a mão de Aemond se fechou sobre o punho da espada quando ele entrou.
— Eu venho como um mensageiro da Rainha Rhaenyra — disse Lucerys, forçando a voz a não tremer. — Os juramentos feitos ao meu avô, o Rei, não expiram com o tempo, Lorde Borros. A lealdade é a base de todo grande lorde.
Borros soltou uma risada ruidosa.
— Lealdade não aquece minhas filhas nem protege minhas costas. O Príncipe Aemond prometeu se casar com Floris. O que você tem a dizer sobre isso, garoto?
Luke sentiu como se tivesse levado um soco no estômago. Casar com Floris? Seus olhos buscaram os de Aemond, implorando por uma negação, por um sinal. Aemond finalmente se virou para ele. O olho safira brilhava com uma luz perigosa, quase cruel.
— Por que o silêncio, sobrinho? — a voz de Aemond era um rosnado baixo. — Ficou sem palavras agora que não está mais protegido pelas saias da sua mãe ou pelas sombras da noite?
— Você deu sua palavra? — perguntou Lucerys, ignorando o protocolo, ignorando a presença dos guardas. — Você aceitou este acordo, Aemond?
Aemond deu um passo à frente, a aura de alfa dominante se expandindo, fazendo os lordes menores recuarem.
— Eu faço o que é necessário para o meu sangue — disse Aemond, cada palavra soando como uma mentira deliberada aos ouvidos de Luke. — Diferente de você, eu sei o meu lugar.
Lorde Borros, percebendo a eletricidade entre os dois, levantou-se.
— Já ouvi o suficiente. Lucerys Velaryon, leve minha resposta para sua mãe: eu não sou um cão que vem quando é chamado. Se ela quiser minha ajuda, terá que pagar o preço que os Verdes já pagaram. Agora, saia. Não quero sangue sob o meu teto.
Lucerys virou-se para sair, a bile subindo por sua garganta. Ele sentia-se traído, usado. Será que as palavras de Aemond na praia e nos lençóis de seda foram apenas uma estratégia para amolecer o herdeiro dos Pretos? Mas, ao chegar à porta, a voz de Aemond o parou.
— Espere, Lorde Borros.
O príncipe caolho caminhou lentamente até Luke. Ele retirou o punhal da cintura.
— Você não vai embora tão facilmente, Lorde Strong — sibilou Aemond, usando o insulto que sempre inflamava as brigas de família. — Você tirou um olho meu anos atrás. Eu vim aqui para cobrar a dívida. Tire seu próprio olho, e eu deixarei que você parta. Caso contrário... eu mesmo o tirarei.
— Não no meu salão! — gritou Borros. — Leve-o para fora se quiser, mas aqui não haverá derramamento de sangue!
Lucerys não esperou. Ele correu para o pátio, a chuva agora caindo em torrentes, o trovão rugindo como um dragão furioso. Ele montou Arrax às pressas, suas mãos escorregando nas rédeas molhadas.
— Arrax, voe! — gritou ele. — Para cima!
O pequeno dragão perolado lutou contra as rajadas de vento, elevando-se acima das torres de Ponta Tempestade. Mas, logo abaixo, um rugido muito mais profundo e antigo estremeceu as fundações do mundo. Vhagar emergiu da escuridão, suas asas imensas rasgando a chuva.
Aemond estava sobre ela, o rosto distorcido por uma expressão que Luke não conseguia decifrar — era fúria, ou era desespero?
— Você achou que poderia fugir de mim, Lucerys? — a voz de Aemond foi carregada pelo vento, amplificada pelo poder de Vhagar.
A perseguição entre as nuvens era uma dança desigual. Arrax era ágil, mergulhando entre os desfiladeiros de rocha, tentando usar seu tamanho menor para escapar da gigante. Lucerys estava aterrorizado, mas em meio ao medo, uma percepção começou a surgir. Aemond não estava atacando. Vhagar poderia ter fechado as mandíbulas sobre Arrax a qualquer momento, mas Aemond a mantinha apenas perto o suficiente para aterrorizar, não para matar.
— Aemond, pare com isso! — gritou Luke, embora soubesse que não seria ouvido.
De repente, um raio iluminou o céu, e Arrax, agindo por puro instinto de sobrevivência e medo, virou-se e cuspiu uma lufada de fogo diretamente no rosto de Vhagar.
O rugido da velha dragoa não foi de dor, mas de indignação. Ela não era mais uma montaria obediente; ela era a encarnação da guerra.
— Não, Vhagar! — Luke ouviu o grito de Aemond, uma nota de pânico genuíno atravessando o ar. — Obedeça! Vhagar, não!
Mas a fera não ouvia mais. Ela mergulhou, suas mandíbulas abertas como os portões do próprio inferno. Lucerys fechou os olhos, esperando o fim, esperando ser partido ao meio pelo animal que seu amado montava.
O impacto nunca veio.
Em um movimento desesperado e bruto, Aemond puxou as rédeas de Vhagar com tanta força que as mãos dele sangraram, forçando a cabeça da dragoa para o lado no último milissegundo. Vhagar passou raspando por Arrax, o deslocamento de ar fazendo o dragão menor girar violentamente no céu. Arrax despencou em direção ao mar, mas conseguiu abrir as asas pouco antes de atingir as ondas revoltas.
Lucerys, ofegante e encharcado, guiou Arrax para uma pequena enseada isolada, longe da vista do castelo. Ele desabou na areia, o corpo tremendo incontrolavelmente. Segundos depois, o som pesado de Vhagar pousando nas proximidades fez a terra vibrar.
Aemond desceu da sela antes mesmo que Vhagar se estabilizasse. Ele correu pela areia, tropeçando, sua capa verde arrastando na lama.
— Lucerys! — ele gritou, a voz rouca, desprovida de qualquer autoridade ou malícia.
Luke se levantou, os punhos cerrados, as lágrimas se misturando à chuva em seu rosto. Quando Aemond se aproximou, Luke o empurrou com toda a força que lhe restava.
— Você quase me matou! — gritou Luke. — Você e seu jogo de vingança, sua encenação diante daquele lorde... você quase deixou que ela me devorasse!
Aemond não revidou o empurrão. Ele ficou parado, a respiração pesada, os cabelos brancos colados ao rosto. Ele parecia destruído.
— Eu não consegui controlá-la por um segundo — disse Aemond, a voz falhando. — Arrax a atacou, e o instinto dela... Luke, eu nunca... eu nunca deixaria nada acontecer com você.
— Você aceitou o casamento! — acusou Luke, a mágoa transbordando. — Você ficou lá e disse que faria o necessário pelo seu sangue.
Aemond deu um passo à frente e agarrou os ombros de Luke, forçando-o a olhar para ele.
— Eu menti! — rugiu Aemond contra o som do trovão. — Eu disse o que meu avô queria que eu dissesse, o que Borros precisava ouvir para não suspeitar. Eu vim aqui para tirar você de lá antes que a guerra começasse de verdade! O plano do casamento era uma distração. Eu ia levar você, Luke. Eu ia levar você para longe de tudo isso esta noite.
Lucerys parou de lutar. Ele olhou para o olho safira de Aemond e viu o terror absoluto que ainda residia ali. O alfa dominante, o guerreiro rude, estava tremendo.
— Você ia me levar? — sussurrou Luke.
— Vhagar é grande o suficiente para nós dois e para Arrax nos seguir — disse Aemond, sua testa encostando na de Luke. — Eu não posso lutar esta guerra contra você. Eu não posso ver você do outro lado de um campo de batalha. Eu prefiro ser um traidor a ser o homem que matou a única coisa que o faz sentir vivo.
— Eles vão nos caçar — disse Luke, embora sua mão já estivesse buscando a de Aemond. — Se fugirmos agora, não haverá volta. Seremos párias.
— Já somos — respondeu Aemond, beijando a testa de Luke com ferocidade. — Um alfa que não segue as ordens do trono e um ômega que se recusa a ser uma moeda de troca. O mundo nunca teve lugar para nós, Luke. Então vamos criar o nosso.
Lucerys olhou para Arrax, que estava se recuperando, e depois para Vhagar, que observava os dois com um olho antigo e sábio. O plano de ser apenas um mensageiro havia morrido na tempestade. O que restava era a escolha.
— Para onde iremos? — perguntou Luke.
— Para o Leste — disse Aemond. — Para além das Cidades Livres. Onde os dragões ainda são vistos como deuses e não como ferramentas de velhos sentados em cadeiras de ferro.
— Minha mãe... ela vai sofrer — murmurou Luke, a dor da despedida já começando a doer.
— Ela vai sobreviver — disse Aemond, sua voz voltando a ter a firmeza habitual. — Mas você não sobreviveria a Porto Real, e eu não sobreviveria sem você.
Eles se beijaram ali, sob a fúria da tempestade, um beijo que selava um pacto muito mais antigo e poderoso do que qualquer juramento de lealdade a um rei. Era o pacto do sangue e do fogo, da alma que encontrou sua metade na escuridão.
Aemond ajudou Lucerys a subir em Vhagar, prendendo-o à sela à sua frente, onde ele poderia protegê-lo com seu próprio corpo. Arrax, sentindo a mudança no mestre, levantou voo, seguindo a sombra imensa da Rainha de Todos os Dragões.
Enquanto Ponta Tempestade desaparecia na bruma e as luzes de Westeros se tornavam apenas pontos distantes, Lucerys se aconchegou contra o peito de Aemond. O vento soprava forte, mas ele não sentia mais frio.
A Dança dos Dragões começaria sem eles. O trono seria disputado com sangue e traição, e famílias seriam destruídas. Mas, nas crônicas que viriam, o desaparecimento do Príncipe Lucerys e do Príncipe Aemond seria um mistério que perduraria por séculos. Alguns diriam que eles se mataram na tempestade. Outros, os mais românticos, sussurrariam que, em noites de lua cheia, dois dragões — um perolado e um de bronze — podiam ser vistos voando juntos sobre o Mar Estreito, livres de coroas, livres de guerras, pertencendo apenas um ao outro e ao céu infinito.
Aemond apertou o abraço em torno de Luke, guiando Vhagar para o sol que começava a despontar no horizonte distante. Eles eram o fogo que não queimava, a sombra que não assombrava. E, pela primeira vez em suas vidas, eles eram verdadeiramente livres.