A Era do Dragão Branco
O Legado das Chamas Eternas e o Despertar da Maré
A luz do alvorecer em Driftmark sempre possuía uma claridade que Porto Real jamais conseguiria emular. Era uma luz limpa, filtrada pelo sal e pelo reflexo constante do Mar do Verão, que banhava as janelas de Maré Alta com tons de madrepérola. Lucerys Velaryon despertou com o calor rítmico de Aemond às suas costas, uma presença que, mesmo após anos de união oficial e secreta, ainda fazia seu coração vibrar com a mesma intensidade de quando eram apenas dois jovens fugindo de um destino de sangue.
Ele sentiu os lábios de Aemond roçarem a curva de seu pescoço, onde a marca de união — invisível aos olhos, mas latente na alma — pulsava.
— Você está acordado há muito tempo — murmurou Aemond, sua voz rouca de sono, mas carregada daquela possessividade protetora que o tempo apenas refinara.
— Estava apenas ouvindo o som das ondas — respondeu Lucerys, virando-se nos braços do alfa para encarar o olho safira que o observava com adoração. — E pensando em como a vida é estranha. Se alguém nos dissesse, há dez anos, que estaríamos aqui, em paz, com um filho que é o orgulho de duas linhagens... eu teria rido.
Aemond sorriu de canto, um gesto que suavizava a cicatriz em seu rosto, aquela marca que outrora fora símbolo de ódio e que agora era apenas um lembrete do fio que os unira para sempre.
— Eu não teria rido — disse Aemond, puxando Luke para mais perto. — Eu teria queimado o mundo muito antes para chegar a este momento mais rápido.
— Você sempre foi dramático, meu príncipe — brincou Luke, passando os dedos pelos cabelos prateados de Aemond, que agora caíam soltos sobre os travesseiros de seda.
— Não é drama, Lucerys. É a verdade de um homem que encontrou sua casa em um ômega que deveria ser seu inimigo.
O momento de quietude foi interrompido pelo som de batidas rápidas na porta de carvalho, seguidas pelo estrépito de pés pequenos correndo pelo corredor. Antes que qualquer um dos dois pudesse reagir, a porta se abriu e o pequeno Viserys, com seus cinco anos de energia indomável, saltou sobre a cama.
— Pai! O Arrax está acordado! — gritou o menino, os olhos violetas brilhando de excitação. — Ele rugiu para o sol e eu acho que ele quer voar até as Ilhas de Verão hoje!
Aemond soltou um suspiro fingido de cansaço, mas seus braços envolveram o filho com uma ternura que ele jamais mostrara a ninguém além de Luke.
— O Arrax quer voar, ou é o pequeno dragão de Driftmark que não consegue ficar parado? — perguntou Aemond, bagunçando os cachos escuros do menino.
— Os dois! — Viserys exclamou, olhando de Aemond para Lucerys. — Podemos ir, pai Luke? Por favor?
Lucerys sentou-se, observando a imagem dos dois homens de sua vida. Aemond, o alfa dominante cuja rudeza fora domada pelo amor, e Viserys, a promessa de um futuro onde o sangue Targaryen e Velaryon não mais se enfrentariam em campos de batalha, mas se uniriam no céu.
— Depois do desjejum, Viserys — disse Luke, beijando a testa do filho. — E apenas se você prometer não tentar fazer manobras de mergulho sem a supervisão do seu pai Aemond.
— Eu prometo! — O menino pulou da cama e saiu correndo novamente, sua voz ecoando pelos corredores enquanto chamava pelos servos para apressarem sua refeição.
Lucerys olhou para Aemond, que ainda permanecia deitado, observando o teto com uma expressão pensativa.
— O que foi? — perguntou Luke, sentindo uma leve alteração no aroma do alfa.
— Nada — respondeu Aemond, embora sua mão estivesse apertando o lençol com força. — Apenas... às vezes eu temo que essa paz seja um sonho. Que Porto Real acorde e decida que nossa felicidade é uma afronta que eles não podem mais tolerar.
— Porto Real está longe, Aemond — disse Luke, segurando o rosto do marido e forçando-o a olhar em seus olhos. — Rhaenyra é a Rainha, e ela nos deve a estabilidade do trono dela. Daemon sabe que, se algo nos acontecer, Vhagar e Arrax não seriam os únicos a queimar o continente. O povo de Driftmark morreria por nós. Nós não somos mais os peões da Dança. Nós somos os senhores da Maré.
Aemond relaxou sob o toque de Luke, fechando o olho e respirando fundo o aroma de jasmim e mar que emanava do ômega.
— Você tem razão. Eu apenas... eu morreria mil vezes antes de ver você ou Viserys em perigo novamente.
— Então viva mil vezes para nos proteger — sorriu Luke, selando seus lábios com os de Aemond em um beijo que sabia a promessa e eternidade.
Mais tarde naquela manhã, o céu sobre Driftmark foi cortado por três silhuetas distintas. A colossal Vhagar, cujas asas pareciam cobrir o sol, voava com uma majestade lenta, enquanto Arrax, ágil e perolado, executava voltas graciosas ao seu redor. Entre eles, o jovem dragão de Viserys, uma fera de escamas prateadas chamada Stormdancer, tentava manter o ritmo, soltando pequenos jatos de chama que se dissipavam no ar salgado.
Lucerys sentia a liberdade em cada fibra de seu ser. Lá de cima, o mundo não tinha fronteiras, nem cores de facções, nem coroas pesadas. Havia apenas o vento e o vínculo. Ele olhou para o lado e viu Aemond montado em Vhagar. O alfa parecia uma divindade antiga, o vento açoitando seu manto negro, o olho fixo no horizonte, mas sempre desviando para garantir que Luke e o filho estivessem seguros.
Eles voaram até o limite da costa, onde as águas se tornavam de um azul tão profundo que pareciam negras. Foi ali que Lucerys viu algo que o fez puxar as rédeas de Arrax.
No horizonte, vindo do Leste, uma pequena frota de navios com velas douradas avançava. Não eram navios de guerra, mas embarcações mercantes de Essos.
— Aemond! — chamou Luke através do vínculo, apontando para os navios.
Vhagar inclinou-se majestosamente, aproximando-se de Arrax.
— Eu vi — respondeu Aemond, sua voz projetada pelo vento. — São de Pentos. Provavelmente trazem as especiarias que Lorde Corlys encomendou.
— Ou talvez tragam notícias — disse Luke, uma sombra de preocupação cruzando seu rosto.
Eles desceram em direção ao porto de Maré Alta, pousando em uma área reservada para os dragões. Viserys desceu de seu dragão com a ajuda de um escudeiro, mas correu imediatamente para os pais.
— Vocês viram? São navios de verdade! — exclamou o menino.
— Sim, pequeno — disse Aemond, colocando a mão no ombro do filho. — Mas lembre-se do que eu te ensinei. Navios podem trazer seda, mas também podem trazer espiões. Fique perto de Arrax até eu dizer que é seguro.
Eles caminharam até o cais, onde Lorde Corlys, a Serpente Marinha, já os aguardava. O velho lorde parecia revigorado pela presença dos netos e do bisneto, sua autoridade em Driftmark sendo absoluta e incontestável.
— Lucerys! Aemond! — saudou Corlys. — Chegaram bem a tempo. O capitão deste navio diz ter uma mensagem urgente, mas ele se recusou a entregá-la a qualquer um que não fosse o Senhor da Maré ou o Príncipe Aemond.
Um homem de vestes ricas e pele bronzeada pelo sol de Essos adiantou-se, curvando-se profundamente diante dos cavaleiros de dragão.
— Príncipes — disse o capitão em um valiriano impecável. — Trago uma mensagem de Pentos, enviada por um contato que vocês conheceram há muitos anos. Alguém que prefere permanecer nas sombras, mas que zela pelo seu exílio.
Aemond estreitou o olho, um rosnado baixo escapando de sua garganta.
— Daemon.
O capitão apenas entregou um pequeno cilindro de metal, gravado com a silhueta de um dragão de três cabeças. Aemond abriu o objeto e retirou um pergaminho fino. Enquanto lia, Lucerys observava a expressão do marido mudar de cautela para uma fúria fria e contida.
— O que houve? — perguntou Luke, aproximando-se.
— Aegon — sibilou Aemond, amassando o papel em sua mão enluvada. — Ele não morreu nas masmorras, como Rhaenyra nos disse. Ele fugiu. Com a ajuda de alguns remanescentes dos Hightower, ele cruzou o mar e está tentando reunir mercenários nas Cidades Livres.
Lucerys sentiu o sangue gelar. A paz que tanto lutaram para construir parecia, de repente, um castelo de areia diante de uma maré montante.
— Ele quer o trono de volta — disse Luke, a voz falhando por um momento.
— Ele quer mais do que o trono — corrigiu Aemond, olhando para Viserys, que brincava com uma concha na areia, alheio à conversa. — Ele quer vingança. Ele sabe que, enquanto Vhagar estiver viva e sob o meu comando, ele nunca poderá tocar em Porto Real. Ele virá para cá, Lucerys. Ele virá para destruir o que eu mais amo.
Corlys Velaryon interveio, sua mão pesada pousando no cabo de sua espada.
— Ele não passará pela frota Velaryon. Se Aegon Targaryen pensa que pode trazer mercenários para estas águas e sair ileso, ele esqueceu quem governa os mares.
— Ele não virá com navios comuns, Lorde Corlys — disse Aemond, voltando seu olhar para o horizonte. — Ele está buscando algo antigo. Daemon diz que há rumores de que ele encontrou um ovo de dragão nas ruínas de Valíria que eclodiu. Um crescimento acelerado por magia de sangue.
Lucerys sentiu a mão de Aemond segurar a sua, os dedos entrelaçados com uma força que beirava a dor.
— Nós não vamos deixá-lo chegar perto — disse Luke, recuperando sua determinação. — Se ele quer guerra, ele a terá. Mas desta vez, não estaremos lutando por uma coroa de ferro. Estaremos lutando por nossa família.
Aemond olhou para Lucerys, e naquele momento, Luke viu o alfa que o resgatara das sombras, o homem que desafiara sua própria rainha e sua própria mãe para estar ao seu lado.
— Você está pronto para voar para a batalha mais uma vez, Lucerys? — perguntou Aemond.
— Eu nunca parei de voar, Aemond — respondeu Luke, erguendo o queixo. — E Arrax sente o mesmo. Se Aegon quer as cinzas de Westeros, ele terá as suas próprias primeiro.
A noite caiu sobre Driftmark com uma tensão palpável. Tochas foram acesas por toda a ilha, e o som de martelos batendo em metal ecoava dos estaleiros. Viserys fora colocado para dormir, protegido por uma guarda de elite e pelo próprio Stormdancer, que permanecia vigilante na entrada de seus aposentos.
Lucerys e Aemond estavam sozinhos na biblioteca, debruçados sobre mapas de Essos e das rotas marítimas.
— Se ele estiver em Lys ou Tyrosh, podemos alcançá-lo antes que ele consiga uma frota considerável — sugeriu Luke, apontando para o mapa.
Aemond negou com a cabeça, seus dedos traçando as linhas das ilhas vizinhas.
— Ele não é estúpido, Luke. Ele sabe que não pode nos enfrentar em campo aberto. Ele vai tentar nos atrair para uma armadilha. Ele quer que deixemos Driftmark desprotegida.
— Ele subestima a Serpente Marinha — disse Luke. — E ele subestima a nós. Ele ainda nos vê como o tio ressentido e o sobrinho bastardo. Ele não conhece o poder de dois dragões que lutam por um lar.
Aemond puxou Lucerys para si, enterrando o rosto em seus cabelos.
— Eu tenho medo, Luke. Não por mim. Por você. Por Viserys.
— O medo é o que nos mantém vivos, Aemond — sussurrou Luke, abraçando o pescoço do alfa. — Mas o amor é o que nos faz vencer. Lembra-se do que prometemos em Valíria? Que seríamos o fogo e a maré?
— Eu me lembro — disse Aemond, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos de Luke. — Eu me lembro de cada palavra.
— Então não tema — continuou Luke. — Aegon pode ter um exército, pode ter magia de sangue, mas ele não tem o que nós temos. Ele está sozinho em sua loucura. Nós estamos juntos.
Aemond sorriu, um sorriso real e feroz, o sorriso de um dragão que se preparava para incinerar seus inimigos.
— Amanhã ao amanhecer, partiremos — declarou Aemond. — Encontraremos Daemon em Pedra do Dragão e traçaremos o ataque final. Aegon teve sua chance de viver nas sombras. Agora, ele conhecerá a luz de Vhagar uma última vez.
— Juntos? — perguntou Luke, estendendo a mão.
— Até que o sol se apague e o mar seque — respondeu Aemond, selando o pacto com um beijo que carregava o peso de uma guerra iminente e a doçura de uma vida que eles se recusavam a perder.
Enquanto a lua subia no céu, os dragões em Driftmark rugiram em uníssono, um som que ecoou por quilômetros sobre as águas. Era o som do legado Lucemond, um som que dizia ao mundo que a Dança dos Dragões ainda não havia terminado, mas que, desta vez, o final seria escrito por aqueles que escolheram o amor em vez do trono.
Lucerys olhou pela janela para a escuridão do mar, sentindo a presença de Arrax em sua mente. Ele não era mais o menino assustado de Ponta Tempestade. Ele era um homem, um pai, um parceiro. E se o preço da paz era mais uma vez o fogo, ele o pagaria com prazer, desde que Aemond estivesse ao seu lado, cortando as nuvens e desafiando os deuses.
— Durma um pouco, Luke — disse Aemond suavemente, guiando-o para a cama. — Amanhã, o mundo voltará a saber por que os dragões governam os céus.
— Eu sei — respondeu Luke, fechando os olhos enquanto sentia o calor de Aemond envolvê-lo. — E o mundo saberá que nada pode separar o que o destino uniu.
O silêncio finalmente caiu sobre Maré Alta, mas era o silêncio que precede a tempestade. Uma tempestade de escamas, chamas e um amor que, mesmo diante da morte, permaneceria eterno, gravado nas pedras de Driftmark e nas memórias de todos aqueles que um dia ousaram sonhar com a liberdade sob as asas de um dragão.