A Era do Dragão Branco
O Eclipse da Coroa e o Renascer das Marés
A brisa de Driftmark era diferente de qualquer outra no mundo; carregava o sal das profundezas e o sussurro de gerações de marinheiros que haviam feito do mar sua morada. Lucerys estava parado na sacada de seus aposentos em Maré Alta, observando o pequeno Viserys, agora com cinco anos, correr pelas areias brancas lá embaixo, tentando imitar o rugido de Arrax. O menino era uma mistura hipnotizante de ambos: a agilidade e os cachos escuros de Luke, mas com a intensidade silenciosa e o olho violeta penetrante de Aemond.
— Ele está ficando rápido demais para os guardas acompanharem — comentou uma voz profunda atrás de si.
Lucerys não precisou se virar para saber que Aemond estava ali. O cheiro de couro, sândalo e o calor metálico que parecia emanar da pele do alfa eram sua maior segurança. Sentiu os braços fortes de Aemond envolverem sua cintura, as mãos grandes espalmando-se sobre seu abdômen com uma possessividade que o tempo só fizera refinar.
— Ele tem o sangue do dragão, Aemond — respondeu Lucerys, inclinando a cabeça para trás para encostá-la no ombro do marido. — E o temperamento de um certo príncipe caolho que eu conheço.
Aemond soltou um riso baixo, uma vibração que Luke sentiu contra suas costas.
— Que os deuses tenham piedade de Westeros quando ele decidir que quer algo.
A paz que haviam conquistado em Driftmark era um tesouro frágil, mantido pela força de seus nomes e pelo medo que Vhagar ainda instilava em qualquer um que ousasse navegar perto demais. No entanto, o mundo lá fora não parava. Rhaenyra governava em Porto Real, mas as cartas que chegavam por corvos falavam de uma rainha que envelhecia precocemente sob o peso de uma coroa de espinhos, cercada por conselheiros que ainda olhavam para o mar com desconfiança.
Naquela tarde, porém, o corvo que chegou não trazia selos oficiais ou pedidos de impostos. O selo era de cera negra, marcado com o sinete pessoal de Daemon.
Lucerys sentiu um aperto no peito quando Aemond quebrou o lacre na biblioteca, sob a luz morna do entardecer.
— O que ele diz? — perguntou Luke, aproximando-se da mesa de carvalho.
Aemond leu em silêncio, sua expressão endurecendo a cada linha. Sua cicatriz parecia pulsar sob a luz das velas.
— Minha mãe está morrendo, Luke — disse Aemond, referindo-se a Alicent Hightower. — Daemon diz que ela não fala mais, apenas sussurra o meu nome e o seu. Ela quer nos ver uma última vez antes que o Estranho a leve.
Lucerys sentiu uma onda de emoções conflitantes. Alicent fora a mulher que pedira seu olho, a mulher que odiara sua mãe e que alimentara a guerra que quase os destruíra. Mas ela também era a mãe de Aemond, a mulher que passara anos em um exílio amargo e silencioso na Fortaleza Vermelha após a ascensão de Rhaenyra.
— Você quer ir? — perguntou Lucerys suavemente, tocando a mão de Aemond.
Aemond olhou para o pergaminho como se fosse um inimigo.
— Eu não lhe devo nada. Ela me usou como uma arma, Luke. Ela tentou nos separar. Mas... — Ele hesitou, e Luke viu a vulnerabilidade que Aemond raramente permitia que outros vissem. — Ela é a última ligação com a família que eu tive antes de você.
— Então nós vamos — declarou Lucerys. — Não como súditos, mas como família. Levaremos Viserys. É hora de ele conhecer o lugar de onde viemos, mesmo que seja apenas para entender por que escolhemos partir.
A viagem para Porto Real foi realizada em silêncio. Vhagar e Arrax voavam lado a lado, uma visão que ainda causava terror e admiração por onde passavam. Quando a capital surgiu no horizonte, Lucerys sentiu uma náusea familiar. A cidade parecia cinzenta, as cicatrizes do incêndio de Aegon ainda visíveis em alguns telhados reconstruídos.
Eles pousaram no Fosso dos Dragões, onde foram recebidos por Daemon. O Príncipe Consorte parecia pouco mudado pelo tempo, exceto por alguns fios de prata a mais em seu cabelo.
— Vocês demoraram — disse Daemon, observando o pequeno Viserys que descia de Arrax com a ajuda de Lucerys. — O menino é a imagem cuspida da discórdia. Rhaenyra vai adorá-lo.
— Onde ela está? — perguntou Aemond, ignorando as provocações de Daemon.
— Nos aposentos da Torre da Mão. Ela não sai de lá há semanas.
A caminhada pela Fortaleza Vermelha foi como atravessar um mausoléu de memórias. Lucerys sentia os fantasmas do passado em cada corredor — o riso de seus irmãos, o olhar severo de Otto Hightower, o cheiro de sangue e medo. Eles foram levados aos aposentos de Alicent. O quarto estava escuro, cheirando a ervas amargas e incenso velho.
Alicent Hightower estava deitada em uma cama imensa, parecendo minúscula entre os lençóis de seda verde. Seus cabelos, outrora castanhos e bem cuidados, eram agora uma massa rala e branca. Quando eles entraram, seus olhos turvos se abriram lentamente.
— Aemond? — a voz dela era apenas um sopro, como o roçar de folhas secas.
Aemond aproximou-se da cama. Ele não se ajoelhou, mas pegou a mão ossuda da mãe.
— Estou aqui.
Alicent olhou para ele por um longo tempo, e depois seus olhos se moveram para Lucerys, que permanecia um pouco atrás, segurando a mão de Viserys.
— O menino... — sussurrou ela. — Ele tem os olhos dele.
— O nome dele é Viserys — disse Lucerys, sua voz firme mas sem malícia.
Uma lágrima solitária escorreu pelo rosto sulcado de Alicent.
— Eu vi o mundo queimar... por causa de cores — disse ela, sua mente parecendo oscilar entre o presente e o passado. — Mas vocês encontraram o fogo que não consome. Perdoe-me, Lucerys. Eu pedi por um olho, mas a vida me tirou a visão de tudo o que importava.
Lucerys sentiu um nó na garganta. O ódio que ele guardara por anos parecia insignificante diante daquela mulher quebrada.
— Está perdoado, Alicent. O passado está enterrado sob as cinzas de Valíria.
Alicent apertou a mão de Aemond com uma força surpreendente.
— Proteja-o, meu filho. O trono é um monstro que devora seus próprios filhos. Não deixe que ele o alcance.
— Ele nunca alcançará, mãe — prometeu Aemond. — Nós somos o mar e o céu. O trono é apenas terra e ferro.
Alicent fechou os olhos, um suspiro de alívio escapando de seus lábios. Ela não acordaria novamente.
Naquela noite, Rhaenyra ofereceu um jantar privado para eles. Foi um encontro estranho, cheio de silêncios longos e palavras cuidadosamente escolhidas. Rhaenyra observava Viserys com uma melancolia evidente, talvez lembrando-se de seus próprios filhos que a guerra levara.
— Vocês poderiam ter tudo isso — disse Rhaenyra, apontando para o salão decorado. — Se ficassem, se aceitassem seus lugares na corte.
— Nós já temos tudo, mãe — respondeu Lucerys, olhando para Aemond. — Ter um lugar nesta mesa significa aceitar as correntes que vêm com ela. Preferimos as rédeas de nossos dragões.
Aemond assentiu, sua mão encontrando a de Luke sob a mesa.
— O reino está estável, Rhaenyra. Mas não se engane: se algum dia a coroa tentar se impor sobre Driftmark, ou se os lordes começarem a sussurrar novamente sobre a legitimidade do meu filho... eu voltarei. E não será para conversar.
Rhaenyra deu um sorriso triste, reconhecendo a determinação implacável do irmão.
— Eu sei. É por isso que durmo melhor sabendo que vocês estão longe deste ninho de víboras.
Eles partiram na manhã seguinte, antes que o funeral de Alicent começasse. Aemond não queria ficar para ver a mãe ser entregue às chamas ou à terra; ele preferia lembrar-se dela como a mulher que, no último suspiro, reconhecera a verdade.
Enquanto sobrevoavam a Baía da Água Negra, deixando Porto Real para trás mais uma vez, Lucerys sentiu uma paz imensa. Ele olhou para o lado e viu Aemond montado na colossal Vhagar, o vento agitando seus cabelos prateados. O alfa olhou para ele e, por um breve momento, a máscara de rudeza caiu, revelando um amor tão profundo quanto o oceano abaixo deles.
— Para onde agora? — perguntou Luke através do vínculo que compartilhavam.
— Para onde o vento nos levar, passarinho — respondeu Aemond. — Mas primeiro, vamos levar o nosso filho para ver as baleias cinzentas perto de Pedra do Dragão. Ele disse que queria ver se elas são maiores que Arrax.
Lucerys riu, o som sendo carregado pelo vento. Eles eram os renegados, os amantes proibidos, os príncipes que haviam trocado o poder pela paz. Mas, ao olhar para o horizonte, Luke sabia que eles haviam ganhado muito mais.
Eles haviam ganhado a eternidade.
Anos depois, as crônicas de Westeros falariam pouco sobre o reinado de Rhaenyra sem mencionar os "Dragões Errantes". Diriam que o Príncipe Lucerys e o Príncipe Aemond foram os guardiões de uma paz que o reino nunca vira antes, uma paz mantida não por decretos, mas pelo simples fato de que ninguém ousava desafiar o amor que unia o mar e o fogo.
Viserys cresceu e tornou-se um lorde justo em Driftmark, unindo as linhagens de forma que nenhum rei jamais conseguira. Ele teve filhos e filhas, e em cada um deles, o olho violeta ou o cabelo escuro lembrava ao mundo a história de dois homens que escolheram amar em meio à guerra.
E nas noites de tempestade, os marinheiros de Driftmark ainda juravam ver dois dragões voando juntos acima das nuvens, um perolado e um de bronze, protegendo a ilha e a linhagem que nascera do sacrifício e da coragem.
Lucerys e Aemond nunca foram esquecidos. Eles tornaram-se o mito que sussurrava nos ouvidos de cada jovem ômega e cada alfa que sentia que o mundo era pequeno demais para seus corações. Eles eram a prova de que, mesmo nas sombras mais profundas, a luz de uma conexão verdadeira poderia incendiar o mundo e transformá-lo em algo novo, algo puro, algo eterno.
— Você está bem? — perguntou Aemond, quando finalmente pousaram nas areias de Maré Alta, com o sol se pondo em um espetáculo de dourado e púrpura.
Lucerys desceu de Arrax e caminhou até o marido, envolvendo-o em um abraço que cheirava a liberdade.
— Estou em casa, Aemond — disse Luke. — E enquanto você estiver comigo, eu sempre estarei bem.
Aemond segurou o rosto de Luke com as duas mãos, beijando-o com uma reverência que o tempo só fizera crescer.
— Sempre — prometeu Aemond.
E ali, sob as estrelas que começavam a surgir, os dois dragões descansaram, sabendo que sua dança nunca terminaria, pois ela estava escrita no próprio fôlego do mundo. A guerra acabara, as coroas haviam caído, mas o Lucemond — o vínculo sagrado entre o mar e o fogo — permaneceria para sempre, indomável e infinito.