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A escola dos amores

O Calor dos Balneários e as Peças de Encaixe

A luz alaranjada do pôr do sol portuense filtrava-se pelas janelas altas da Faculdade de Engenharia, mas o grupo já não estava focado em gráficos ou leis de resistência. O clima no bar tinha escalado de uma simples pausa para café para uma eletricidade palpável que corria entre as mesas.

Mateus, ainda sentado ao lado de Ricardo, sentia o seu sistema nervoso a entrar em sobrecarga. O barulho das cadeiras a arrastar, o cheiro intenso do perfume excessivo de Gabriel e a conversa alta de Luís sobre as "evoluções" de certos colegas deixavam-no inquieto. Ele começou a tamborilar os dedos na mesa, seguindo um padrão de números primos, tentando manter o foco.

— Estás bem, Mateus? — perguntou Ricardo, notando a agitação do amigo. O rapaz de rosto de bebé parecia genuinamente preocupado, esquecendo por um segundo a dor na perna e o ódio mortal que sentia por Simões.

— O ruído branco do frigorífico do bar está a mudar de frequência — murmurou Mateus, a voz rouca escondida pela barba farta. — É um sinal de que o compressor está a falhar. Isso incomoda-me.

— Esquece o compressor, Mateus — disse Gabriel, ajustando os óculos e inclinando-se para a frente com um sorriso malicioso. — O que devia incomodar-te é o facto de estares aqui a desperdiçar essa genética de "urso" numa mesa de café. Sabes quantos gajos na Invicta matariam para se perderem nessa tua barba?

Mateus piscou os olhos, processando a informação de forma literal.

— Matar é um crime grave, Gabriel. E a minha barba tem exatamente sete centímetros de comprimento médio. Não é um lugar onde alguém se possa perder geograficamente.

Luís soltou uma gargalhada escandalosa, quase entornando o seu sumo.

— Oh, Mateus, tu és um tesouro! O Gabriel tem razão. Tu és tipo um Snorlax, mas em versão magra e peluda. Dá vontade de usar uma "Flauta Pokémon" só para ver se acordas para a vida... ou para o quarto de alguém.

— Deixem o Mateus em paz — interveio Nuno, sem tirar os olhos do telemóvel onde monitorizava os comentários da sua última stream. — Nem toda a gente quer ser uma "slut" do Grindr como tu, Luís. Alguns de nós têm reputações de Vtuber a manter.

— Fala o gajo que faz lives de futsal com um avatar que usa calções mais curtos que os meus — retorquiu João, rindo enquanto fechava finalmente o seu PS Vita. — O Monokuma aprovaria este caos. Mas agora a sério, o plano de logo à noite mantém-se?

No fundo da mesa, o trio que realmente comandava a tensão física daquele grupo trocou olhares cúmplices. Francisco deu um último gole no seu café preto e levantou-se, os músculos do peito a marcarem nitidamente a t-shirt justa do ginásio.

— Eu tenho de ir abrir o ginásio para o turno da noite — anunciou Francisco, a voz profunda fazendo Daniel estremecer ligeiramente. — Mas a proposta está de pé. Rafael, passas lá depois de fechares a oficina? E tu, Daniel... tenta não bater com o carro no caminho.

Daniel deu um sorriso de lado, aquele sorriso de quem sabe exatamente o poder que tem.

— Vou tentar, mas não prometo nada. Se o carro for para o lixo, o Rafael arranja-o, não é?

Rafael, o gigante de 1,90m, levantou-se logo a seguir. A sua presença era imponente, uma massa de músculos e barba que parecia ocupar o espaço de duas pessoas.

— Eu trato do carro e do que for preciso — disse Rafael, a voz vibrando como um motor de baixa rotação. — Vejo-vos lá.

O trio afastou-se, deixando para trás um rasto de hormonas e promessas não ditas. Simões, aproveitando a distração, aproximou-se novamente de Ricardo.

— Eles vão divertir-se, Ricardo. Nós também podíamos... eu podia levar-te a casa, ajudar-te com essa perna. Escrevi um soneto sobre a brancura do teu gesso.

— Simões — disse Ricardo, pegando nas muletas com um ar de quem ia cometer um crime —, se tu disseres mais uma palavra sobre o meu gesso, eu juro que te enfio esta muleta na traqueia. Eu quero ir para casa jogar LoL e esquecer que tu existes.

— Eu jogo contigo! — ofereceu-se Luís prontamente. — Vou de suporte e protejo-te o "bot" o tempo todo. E garanto-te que o meu "heal" é muito prazeroso.

Ricardo suspirou, derrotado pela insistência dos amigos. Enquanto o grupo se dispersava, o destino da noite já estava traçado para três deles.

Duas horas depois, o ginásio onde Francisco trabalhava estava quase deserto. O cheiro de metal e borracha era o cenário perfeito para o que estava prestes a acontecer. Francisco estava a terminar de arrumar uns halteres quando a porta das traseiras se abriu.

Era Rafael. Ele ainda usava o macacão de trabalho, manchado de óleo e poeira metálica, as mangas arregaçadas revelando braços cobertos de pelos escuros e veias salientes. Logo atrás dele, Daniel entrou com um ar expectante, a sua pele morena a brilhar sob as luzes fluorescentes.

— Chegaram a tempo — disse Francisco, caminhando até eles com uma confiança predatória. — O pessoal do último turno já saiu. Estamos sozinhos.

Daniel encostou-se a uma das máquinas de musculação, cruzando os braços.

— O Rafael diz que tem uma peça nova para me mostrar. Mas eu acho que não é nada que se venda no Lidl.

Rafael aproximou-se de Daniel, a diferença de altura obrigando o rapaz cigano a olhar para cima. O gigante barbudo estendeu a mão e tocou no rosto de Daniel com os dedos calejados.

— A peça é única, Daniel. E só funciona com a lubrificação certa.

Francisco, não querendo ficar de fora, colocou-se atrás de Rafael, envolvendo a cintura larga do gigante com os seus braços musculosos. A imagem era de uma força bruta impressionante: o instrutor de ginásio, o mecânico e o rapaz rebelde, todos unidos por uma tensão que vinha a ser construída desde o início do semestre de Gestão Civil.

— Eu disse que gostava de coisas sólidas — sussurrou Francisco contra as costas de Rafael, sentindo o calor que emanava do corpo do maior. — E tu, Rafael, és a estrutura mais sólida que eu já vi nesta faculdade.

Rafael soltou um gemido baixo quando sentiu as mãos de Francisco a explorarem o seu corpo por cima do macacão. Ele puxou Daniel para mais perto, prendendo-o entre o seu corpo e a máquina de musculação.

— E o Daniel? — perguntou Rafael, a respiração a ficar pesada. — Ele é a carga que nós temos de suportar.

— Eu aguento qualquer carga — respondeu Daniel, puxando a cabeça de Rafael para um beijo intenso, onde o sabor a tabaco e o toque da barba áspera se misturavam.

Enquanto isso, noutro ponto da cidade, a noite era bem diferente, mas não menos caótica. No apartamento de Nuno, ele e João estavam em plena live.

— E aqui temos o nosso querido João, a tentar explicar porque é que o design de interiores de Danganronpa é superior a qualquer projeto de Gestão Civil! — anunciava Nuno para a câmara, enquanto o seu avatar de anime saltitava no ecrã.

— É uma questão de estética e desespero, pessoal! — gritava João, entusiasmado. — Se a faculdade tivesse mais armadilhas e menos exames de Hidráulica, as notas seriam melhores!

No chat, os comentários passavam a toda a velocidade. Alguém perguntou: "Onde está o barbudo magro e o gajo da perna partida?".

— O Mateus está em casa a organizar a sua coleção de parafusos por ordem alfabética de liga metálica — respondeu Nuno, rindo. — E o Ricardo... bem, o Ricardo está a tentar sobreviver às investidas do Simões num grupo de WhatsApp.

De facto, Ricardo estava nesse exato momento a olhar para o telemóvel com uma expressão de puro horror. Simões tinha acabado de enviar um áudio a cantar uma versão acústica de "Careless Whisper", mas com a letra alterada para falar sobre vigas e pilares.

— Eu vou matar-me — disse Ricardo em voz alta para o seu quarto vazio. — Eu vou saltar da ponte, e nem preciso de muletas para isso.

Nesse momento, uma notificação de Luís apareceu no ecrã: "Ricardo, anda jogar. O Gabriel também vem. Ele diz que se o vires a jogar de Ahri, vais finalmente admitir que ele é a gaja mais boa deste curso."

Ricardo sorriu involuntariamente. Apesar de serem todos uns autênticos cromos, eram o seu grupo.

De volta ao ginásio, o ambiente tinha aquecido consideravelmente. Francisco tinha guiado os outros dois para a zona dos balneários, onde o vapor dos chuveiros criava uma névoa densa.

O macacão de Rafael estava agora caído no chão, revelando um corpo coberto de pelos escuros que seguiam a linha do peito até ao abdómen forte. Daniel, já sem camisola, observava com desejo.

— Tu és um animal, Rafael — murmurou Daniel, passando as mãos pelo peito peludo do gigante. — Como é que consegues esconder tudo isto naquelas aulas secas?

— Gestão Civil exige discrição — respondeu Rafael, pegando em Daniel e sentando-o na bancada de mármore fria. — Mas aqui... aqui não há nada para gerir, a não ser o prazer.

Francisco posicionou-se entre as pernas de Daniel, mas o seu olhar estava fixo em Rafael. O instrutor de ginásio sempre fora o ativo, o homem que comandava, mas havia algo na imponência de Rafael que o desafiava.

— Hoje — disse Francisco, a voz carregada de autoridade e desejo —, eu quero ver até onde a tua resistência vai, Rafael. Daniel, ajuda-me a ver se este gigante é tão duro como parece.

A noite avançou entre gemidos abafados pelas paredes de azulejo e o som da água a correr. Ali, longe das fórmulas de cálculo e das preocupações com o futuro profissional, eles eram apenas três homens a explorar os limites dos seus corpos. Francisco dominava com a sua técnica e força de ginásio, Daniel trazia a malícia e a agilidade, e Rafael era a fundação de tudo, recebendo e retribuindo com uma intensidade que fazia as luzes do balneário parecerem tremer.

Horas depois, quando o sol já ameaçava nascer sobre o Douro, Mateus acordou no seu quarto perfeitamente arrumado. Ele teve um sonho estranho com uma ponte feita de barbas e teclados de computador. Levantou-se, vestiu a sua camisola de lã favorita — a que não picava — e preparou o café exatamente à mesma temperatura de todos os dias.

Ele pegou no telemóvel e viu a foto desfocada do dia anterior no grupo de WhatsApp da turma. Sorriu ao ver a cara de pânico de Ricardo e a pose de modelo de Gabriel.

— Hoje temos aula de Planeamento Urbanístico — murmurou Mateus para si mesmo. — Espero que o compressor do bar já tenha sido reparado.

Naquela manhã, na Faculdade de Engenharia, o grupo voltaria a reunir-se. Ricardo chegaria com mais rabiscos no gesso, Simões teria uma nova canção pronta, Gabriel reclamaria de uma unha partida, e o trio do fundo trocaria olhares que ninguém mais conseguiria decifrar.

A Gestão Civil podia ser a ciência de construir edifícios, mas entre aqueles rapazes, o que se estava a construir era algo muito mais complexo, instável e, sem dúvida, muito mais interessante do que qualquer obra de engenharia. E enquanto o Porto acordava, eles preparavam-se para mais um dia de caos, desejo e, acima de tudo, a estranha amizade que os mantinha a todos de pé.