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A escola dos amores

O Desgaste das Estruturas e a Fluidez dos Desejos

A manhã na Faculdade de Engenharia do Porto nasceu cinzenta, com aquela neblina típica que sobe do Douro e se entranha nos ossos. Para a maioria dos estudantes de Gestão Civil, era apenas mais uma quarta-feira de cálculos intermináveis. Mas para o grupo, o ar parecia mais denso, carregado com as repercussões da noite anterior.

Mateus foi o primeiro a chegar à sala 204. Ele sentou-se no seu lugar habitual, retirando meticulosamente o seu computador, o rato ergonómico e um pequeno cubo de rubik que usava para acalmar a ansiedade. A barba dele, densa e bem cuidada, roçava na gola da camisola. Ele notou que a luz da sala piscava a uma frequência de 50 Hertz, mas com uma irregularidade de 0.2 segundos que o deixava ligeiramente tenso.

— Bom dia, Mateus. Estás com cara de quem contou todos os grãos de café do pequeno-almoço — disse Gabriel, entrando na sala com um casaco de cabedal sintético e uns óculos de sol que retirou dramaticamente assim que cruzou a porta.

— Eu não bebo café em grão, Gabriel, uso cápsulas de intensidade sete — respondeu Mateus, sem desviar os olhos do ecrã. — E tu cheiras a uma mistura de perfume barato e desespero. Estiveste numa discoteca até tarde?

— Antes fosse, querido. Estive a discutir com um "hétero top" no Grindr que achava que podia me dar ghosting. Ninguém dá ghosting ao Gabriel. Eu sou o evento principal deste curso — Gabriel sentou-se, cruzando as pernas e exibindo as botas impecáveis. — Viste o trio maravilha? O Francisco, o Rafael e o Daniel entraram agora no parque de estacionamento. O Daniel vinha a coxear... e não era de uma perna partida como o Ricardo.

Mateus franziu a testa, tentando processar a implicação social daquela frase, mas foi interrompido pelo barulho metálico das muletas de Ricardo. O rapaz de rosto de bebé entrou na sala com um aspeto exausto. O seu TDAH estava a mil; ele tentava equilibrar as muletas, uma mochila aberta e um copo de papel que vertia gotas de chá.

— Alguém me ajude antes que eu mande esta faculdade pelos ares! — exclamou Ricardo, deixando-se cair na cadeira ao lado de Mateus.

— Cuidado com o chá, Ricardo. A humidade pode danificar os circuitos do meu portátil — avisou Mateus, movendo o equipamento três centímetros para a esquerda.

— O chá é o menor dos meus problemas — bufou Ricardo. — O Simões enviou-me flores. Flores, Mateus! Entregues em minha casa às oito da manhã com um cartão que dizia: "As tuas pétalas estão murchas, mas o meu regador está cheio". Isto é assédio! É crime! É de um mau gosto atroz!

— Eu achei poético — disse uma voz vinda da porta. Era Simões, encostado ao batente, com um sorriso de quem tinha acabado de ganhar a lotaria. — O amor não conhece limites de horário, Ricardo. E as flores eram lírios, simbolizam a pureza... a mesma que eu vejo em ti, apesar desse teu feitio de urze brava.

— Simões, se voltares a aparecer à porta da minha casa, eu uso o meu gesso para te fazer uma rinoplastia gratuita — retorquiu Ricardo, os olhos a faiscarem.

Enquanto a discussão matinal se desenrolava, Nuno e João entravam, ambos com olheiras profundas. João tinha o telemóvel na horizontal, os dedos movendo-se freneticamente num combate de Danganronpa, enquanto Nuno verificava as estatísticas da live da noite anterior no seu tablet.

— O pessoal está a pedir um crossover entre o meu canal e o teu, João — comentou Nuno, ignorando o drama de Ricardo e Simões. — Estão a chamar-nos de "Os Engenheiros do Caos". Acho que se fizermos uma stream a jogar LoL com o Luís, batemos o recorde de visualizações.

— Só se o Luís não passar o tempo todo a fazer comentários sobre o tamanho das "espadas" dos campeões — disse João, sem tirar os olhos do jogo. — Ontem ele disse que queria ser "farmado" pelo Garen. Foi desconfortável para os moderadores.

— Ai, falaram em mim? — Luís surgiu por trás deles, com um sorriso malicioso e uma t-shirt com a estampa de um Pikachu musculado. — Eu ouvi "espadas" e "Garen"? Sabem que eu sou fã de aço bem temperado. E falando em aço, olhem só quem vem ali.

A sala silenciou-se ligeiramente quando o trio final entrou. Francisco vinha à frente, exalando a confiança de quem tinha o mundo na palma da mão. Atrás dele, Rafael, o gigante barbudo, parecia ainda mais imponente, com o seu olhar calmo mas intenso. Daniel fechava o grupo, com um sorriso sarcástico e o caminhar ligeiramente relaxado de quem tinha passado uma noite muito produtiva.

— Bom dia, flores do campo — disse Daniel, sentando-se na última fila e esticando as pernas por cima da mesa. — Alguém tem os apontamentos de Estruturas? Eu bati com o carro ontem e... bem, digamos que o meu caderno ficou "inutilizado".

— Bateste com o carro ou bateste com outra coisa? — atirou Gabriel, piscando o olho a Francisco.

Francisco soltou uma risada curta e grave, sentando-se ao lado de Rafael.

— O Daniel tem dificuldades em manter-se na via correta — disse Francisco, a sua mão roçando deliberadamente no ombro largo de Rafael. — Mas o Rafael é um excelente mecânico. Ele sabe exatamente onde apertar os parafusos para a máquina não falhar.

Rafael não disse nada, mas o brilho nos seus olhos e a forma como a sua respiração mudou quando Francisco o tocou não passaram despercebidos a ninguém. Ele abriu o seu caderno de desenho técnico, mas em vez de vigas, começou a esboçar uma linha curva que se assemelhava muito ao perfil de Daniel.

A aula começou, mas a atenção de todos estava noutro lado. O professor falava sobre a durabilidade do betão armado, mas para Luís, o assunto era muito mais carnal.

— Sabem o que é que tem durabilidade? — sussurrou Luís para o grupo, num tom que chegava perfeitamente aos ouvidos de Mateus. — O abdómen do Francisco. Eu vi-o a trocar de t-shirt no balneário uma vez e, juro pelo meu Charizard, dava para lavar roupa naqueles gomos. Eu deixava-o usar-me como betoneira qualquer dia da semana.

— Luís, por favor, eu estou a tentar processar a constante de elasticidade — pediu Mateus, sentindo as orelhas a arder. O autismo tornava difícil filtrar as imagens mentais que as descrições gráficas de Luís evocavam.

— Oh, Mateus, não sejas assim — disse Luís, inclinando-se para ele. — Tu também tens o teu charme. Essa barba toda... sabes o que dizem de homens com muita barba, não sabes? É como um matagal, esconde tesouros que só os exploradores mais corajosos conseguem encontrar. Eu adorava ser o teu Indiana Jones.

Mateus ficou rígido como uma estaca, o cubo de rubik paralisado nas suas mãos.

— Eu não tenho tesouros escondidos, Luís. Tenho apenas pele, folículos pilosos e uma estrutura óssea dentro da média — respondeu ele, embora o seu coração estivesse a bater num ritmo que desafiava qualquer lógica de engenharia.

No fundo da sala, a tensão entre Francisco, Rafael e Daniel continuava a crescer. Francisco, aproveitando que o professor estava de costas a desenhar um diagrama, deslizou a mão por baixo da mesa, encontrando a coxa de Rafael. O gigante estremeceu, a sua barba roçando no pescoço de Daniel, que estava sentado do outro lado.

— Estás muito tenso, Rafael — murmurou Francisco, a voz apenas um sopro. — Precisas de outra sessão de "manutenção" hoje?

— A oficina está aberta até tarde — respondeu Rafael, a voz rouca. — Mas o Daniel tem de prometer que não vai tentar conduzir o empilhador outra vez.

— Eu só queria chegar mais perto do topo — disse Daniel com um sorriso atrevido. — E o topo, neste caso, eras tu, Rafael.

A aula arrastava-se, e o tédio alimentava a luxúria e o drama. Ricardo, incapaz de ficar quieto, começou a desenhar corações partidos no seu gesso, enquanto Simões lhe passava bilhetinhos dobrados em forma de aviões de papel.

— "O teu gesso é o molde do meu desejo" — leu Ricardo em voz alta, antes de esmagar o papel. — Simões, eu vou denunciar-te à reitoria por poluição visual!

— Denuncia-me por amor, Ricardo! — exclamou Simões, dramático. — O meu coração é uma obra ilegal que tu te recusas a licenciar!

— Calem-se todos! — gritou o professor, batendo com o apagador na mesa. — Se querem discutir licenciamentos e estruturas, façam-no no exame. Agora, silêncio!

O silêncio durou exatamente trinta segundos, até que Gabriel sussurrou para João:

— O professor tem um rabo interessante para alguém da idade dele, não achas?

João, que estava a meio de uma execução no Danganronpa, apenas acenou com a cabeça.

— Desde que ele não seja o "Mastermind", por mim tudo bem.

Quando o intervalo finalmente chegou, o grupo dispersou-se para o bar. A tensão que fora acumulada na sala de aula precisava de uma válvula de escape. Francisco, Rafael e Daniel desapareceram rapidamente em direção ao parque de estacionamento, com uma urgência que não tinha nada a ver com comida.

Mateus, Ricardo e os outros ficaram no bar. Luís continuava a sua narrativa sobre as virtudes físicas dos colegas, enquanto Nuno tentava convencê-los a participar numa live de "ASMR de Engenharia".

— Imaginem só — dizia Nuno —, o Mateus a sussurrar fórmulas de cálculo enquanto o Rafael bate com um martelo ao fundo. O pessoal ia adorar!

— Eu não sussurro — disse Mateus, comendo uma maçã cortada em cubos perfeitos de dois centímetros. — Eu falo com uma modulação de voz adequada ao ambiente.

— Tu és tão fofo quando tentas ser lógico — disse Gabriel, passando a mão pelo braço peludo de Mateus. — Sabias que os teus pelos do braço estão todos eriçados? Estás excitado ou é só o ar condicionado?

Mateus olhou para o próprio braço. A sensibilidade tátil era uma das suas maiores dificuldades, mas naquele momento, o toque de Gabriel não era desagradável. Era apenas... diferente.

— É uma resposta galvânica da pele a um estímulo externo imprevisto — explicou Mateus, embora o seu rosto estivesse agora num tom de vermelho que combinava com a maçã.

— Eu chamo-lhe "tensão sexual" — disse Luís, bebendo o seu café. — E olha que aqui há tanta tensão que podíamos alimentar a rede elétrica do Porto durante um ano.

No parque de estacionamento, dentro da carrinha de trabalho de Rafael, a situação era muito mais explícita. O espaço era apertado, rodeado de ferramentas e peças de metal, mas para o trio, era o refúgio perfeito.

Francisco tinha Daniel contra a parede da carrinha, enquanto Rafael observava, a sua mão massiva apertando o ombro de Francisco.

— Eu disse que queria ver a tua resistência, Rafael — disse Francisco, a respiração curta. — Mas o Daniel é quem está a testar os meus limites.

— Então deixa-me ajudar-te a ultrapassá-los — respondeu Rafael, puxando Francisco para um beijo que misturava a força bruta de um com a técnica do outro.

Daniel, entre os dois, ria baixinho, deliciando-se com o caos que tinha ajudado a criar.

— Vocês falam muito sobre estruturas e resistência — disse Daniel, as mãos explorando os corpos dos outros dois —, mas no fim do dia, tudo se resume ao encaixe perfeito. E eu acho que encontrei o meu.

A tarde na Faculdade do Porto continuaria com mais aulas, mais gráficos e mais dramas. Ricardo continuaria a fugir de Simões, João e Nuno continuariam a planear o seu império digital, e Gabriel continuaria a ser a estrela do seu próprio espetáculo. Mas para Mateus, sentado novamente na sala de aula e sentindo o calor persistente onde Gabriel lhe tinha tocado, a Gestão Civil estava a tornar-se uma disciplina muito mais imprevisível do que ele alguma vez imaginara.

Ele olhou para o grupo e percebeu que, apesar das diferenças, das obsessões e dos desejos cruzados, eles eram uma estrutura única. Uma estrutura que podia oscilar com o vento da paixão, mas que, de alguma forma, permanecia sólida. Ou talvez, pensou ele enquanto ajustava os óculos, fosse apenas o início de um colapso estrutural muito prazeroso.