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A escola dos amores

O Teorema de Lopa e a Instabilidade das Massas

A rotina da Faculdade de Engenharia do Porto era como uma viga de betão: sólida, cinzenta e previsível até que uma força externa aplicasse uma carga de rutura. Para o grupo de Gestão Civil, essa força externa tinha nome, apelido e uma presença que fazia o ar no anfiteatro parecer subitamente mais rarefeito.

O Lopa entrou na sala de aula como se o espaço lhe devesse dinheiro. Com 1,75m, um corpo definido por anos de natação e uma atitude que oscilava entre o desdém intelectual e o carisma predatório, ele era a nova variável numa equação que já estava prestes a explodir. O Lopa não era apenas um aluno transferido; ele era um antigo "conhecido" de Gabriel e, ao que os rumores indicavam, tinha contas a ajustar com o ego de Francisco.

— Mas quem é aquele? — sussurrou Luís, deixando o telemóvel cair sobre a mesa, esquecendo por completo o Pokémon que estava a tentar capturar. — Ele tem um "vibe" de vilão de anime que me está a dar um "critical hit" direto nas hormonas.

Mateus, sentado ao lado, ajustou os óculos e observou o recém-chegado. O seu autismo permitia-lhe notar detalhes que outros ignoravam: a forma como o Lopa evitava o contacto visual direto, mas analisava a sala como um predador, e a tensão imediata que emanava de Gabriel assim que os seus olhos se cruzaram.

— O nome dele é Lopa — respondeu Gabriel, a voz invulgarmente baixa e carregada de uma acidez que Mateus nunca ouvira. — Ele é o tipo de pessoa que entra numa estrutura só para encontrar o ponto fraco e ver tudo ruir por diversão.

— Parece que ele já encontrou o ponto fraco do Francisco — comentou João, apontando discretamente para o fundo da sala.

Francisco, o musculado instrutor de ginásio, estava com o maxilar rígido. Ele e Rafael tinham acabado de entrar, ainda envoltos naquela aura de cumplicidade silenciosa (e secreta) da noite anterior. Mas, ao ver o Lopa, Francisco parou a meio do caminho.

— Lopa. Pensei que tinhas sido expulso de Coimbra — disse Francisco, a voz ressonando como um aviso.

— O mundo é pequeno, Chico — respondeu o Lopa, com um sorriso de lado que não chegava aos olhos. — E as estruturas do Porto parecem-me muito mais... interessantes de explorar. Especialmente as que se acham inabaláveis.

O Lopa caminhou calmamente até à última fila e sentou-se exatamente entre o trio composto por Francisco, Rafael e Daniel. Daniel, que acabara de chegar do seu turno no Lidl, olhou para o Lopa com uma curiosidade maliciosa.

— Tu és o tal Lopa de que o Gabriel falava? — perguntou Daniel, encostando-se à cadeira. — Ele disse que eras um problema. E eu adoro problemas.

— O Gabriel sempre foi dado a exageros dramáticos — disse o Lopa, olhando de relance para Rafael. — E tu deves ser o Rafael. O Vtuber barbudo que funde metal. Ouvi dizer que tens mãos muito... precisas.

Rafael sentiu um desconforto imediato. Havia algo na forma como o Lopa falava que parecia despir as pessoas de todas as suas defesas.

— Trabalho com o que é sólido — respondeu Rafael, a voz grave. — Não gosto de jogos.

— Que pena — murmurou o Lopa, abrindo um caderno preto. — Porque eu acabei de chegar e já percebi que esta turma é um autêntico jogo de Jenga. E eu estou mortinho por tirar a peça da base.

Enquanto a aula de Planeamento Urbanístico decorria, a tensão era quase visível, como o calor a subir do asfalto num dia de verão. Ricardo, com a sua perna partida, tentava ignorar as investidas de Simões, mas até ele estava distraído com a nova dinâmica da sala.

— O Lopa está a olhar para o rabo do Francisco há dez minutos — sussurrou Ricardo para Nuno. — E o Simões está a olhar para mim. Isto é um ciclo infinito de sofrimento.

— É conteúdo de qualidade, Ricardo — respondeu Nuno, que estava a tentar desenhar o Lopa em versão avatar de Vtuber. — Se eu puser este gajo numa stream, o chat explode. Ele tem aquele olhar de quem te beija e depois te rouba a carteira.

No intervalo, o grupo reuniu-se no pátio, mas a atmosfera estava mudada. O Lopa não se juntou a eles; ficou encostado a uma coluna, fumando um cigarro eletrónico e observando-os como se estivesse a estudar um gráfico de tensões e deformações.

Gabriel, incapaz de conter a sua natureza territorial, caminhou até ele.

— O que é que vieste fazer para aqui, Lopa? — perguntou Gabriel, cruzando os braços e tentando manter a pose de "gay alfa" da turma. — O Porto já tem drama suficiente. Não precisamos de um infiltrado de Coimbra a tentar minar o terreno.

— Eu não mino terrenos, Gabriel. Eu apenas exponho as falhas de fundação — o Lopa soltou uma nuvem de vapor que cheirava a baunilha e cinismo. — Como aquela ali entre o Francisco e o Rafael. Eles acham que escondem bem o que aconteceu no laboratório, mas o cheiro a traição é mais forte que o perfume do Francisco.

Gabriel empalideceu. Se o Lopa já sabia daquilo, o equilíbrio do grupo estava em perigo de colapso total.

— Tu não vais dizer nada ao Daniel — disse Gabriel, num tom de ameaça.

— Eu? Claro que não. Eu prefiro que eles se denunciem sozinhos — o Lopa sorriu, um brilho perigoso nos olhos. — Mas diz-me, Gabriel... e o pequeno Mateus? O barbudo autista que tu andas a tentar "educar"? Ele parece-me a peça mais valiosa deste tabuleiro. Tão frágil, tão lógico... seria uma pena se alguém o baralhasse.

— Afasta-te do Mateus — disse Gabriel, a voz a tremer de raiva.

O Lopa apenas soltou uma gargalhada curta e caminhou em direção ao bar, passando por Mateus e Luís. Ao passar, ele deixou cair um pequeno papel na mesa de Mateus.

Mateus, com a sua curiosidade analítica, abriu o papel. Tinha uma coordenada geográfica e uma frase escrita numa caligrafia perfeita: "A lógica falha onde o desejo começa. Encontra-me na oficina às 20:00 se quiseres ver a verdadeira resistência dos materiais."

— O que é isso, Mateus? — perguntou Luís, tentando espreitar.

— Uma proposta de ensaio experimental — respondeu Mateus, o seu coração a bater num ritmo que ele não conseguia explicar. Ele sabia que devia ignorar, mas o Lopa tinha despertado algo nele que nem Gabriel nem Luís tinham conseguido: o desafio do desconhecido.

A noite caiu sobre as faculdades e, como era habitual, o grupo dispersou-se. No entanto, o destino de vários deles convergiu para a oficina de Rafael.

Rafael estava a trabalhar numa peça de grande porte, o som do metal a ser martelado ecoando pelo espaço industrial. Ele precisava de descarregar a culpa. A traição a Daniel pesava-lhe como chumbo. Francisco tinha passado por lá mais cedo, tentando convencê-lo de que "o que Daniel não sabe, não o magoa", mas Rafael era um homem de estruturas sólidas, e a mentira era uma fissura que ele não conseguia ignorar.

Subitamente, a porta da oficina abriu-se. Não era Francisco. Era o Lopa. E, para surpresa de Rafael, Mateus vinha logo atrás, parecendo um gatinho assustado mas curioso num território de leões.

— O que é que vocês estão aqui a fazer? — perguntou Rafael, pousando o martelo.

— Vim mostrar ao Mateus como é que se forja o desejo — disse o Lopa, caminhando pela oficina com uma familiaridade irritante. — E vim ver se tu, Rafael, és realmente o mestre do metal ou se és apenas uma peça moldável nas mãos do Francisco.

— Lopa, vai-te embora — rosnou Rafael.

— Porquê? Estás com medo que o Daniel apareça? — o Lopa aproximou-se de Rafael, a sua mão subindo para tocar na barba densa do gigante. — Tu tens uma força incrível, Rafael. Mas és lento a reagir. Precisas de alguém que te provoque, que te faça sentir o calor da forja na pele.

Mateus observava a cena, os seus sentidos em alerta máximo. O cheiro de metal quente, a luz amarelada da oficina e a tensão entre aqueles dois homens eram quase insuportáveis para a sua sensibilidade.

— O Lopa diz que a lógica falha aqui — disse Mateus, a voz trémula. — Eu quero entender porquê.

O Lopa virou-se para Mateus com um sorriso predatório.

— Queres entender, Mateus? Então observa.

Num movimento rápido, o Lopa puxou Rafael pela barba e beijou-o com uma agressividade que deixou o gigante paralisado por um segundo. Não era um beijo de amor; era um beijo de domínio, um teste de resistência. Rafael, num instinto de defesa que rapidamente se transformou em desejo reprimido, agarrou o Lopa pela cintura, as suas mãos imensas apertando o corpo definido do outro.

Mateus sentiu as pernas fraquejarem. Ele nunca tinha visto nada assim. Era bruto, era real, e era completamente ilógico.

Nesse momento, as luzes da oficina acenderam-se por completo. Daniel estava parado à entrada, com Francisco logo atrás.

— Mas que caralho é este? — gritou Daniel, a sua voz carregada de uma fúria cigana que fez Rafael afastar-se do Lopa instantaneamente.

— Daniel, eu posso explicar... — começou Rafael, mas as palavras morreram-lhe na garganta.

— Explicar o quê? — Daniel caminhou até ao centro da oficina, os olhos fixos no Lopa. — Que estás a comer o gajo novo enquanto o Francisco te olha como se fosses um troféu? Eu sabia que vocês se andavam a comer pelas costas, mas isto? Com este gajo?

O Lopa limpou o lábio com o polegar, parecendo deliciado com o caos.

— Eu disse-vos que as fundações eram fracas — comentou o Lopa, olhando para Francisco. — O teu "Chico" aqui já te traiu com o Rafael, Daniel. E agora o Rafael traiu-vos aos dois comigo. É um ciclo de desperdício de materiais, não acham?

Francisco avançou para o Lopa, os punhos cerrados.

— Tu vieste para aqui para destruir tudo, não foi?

— Eu vim para aqui para ver quem é que fica de pé quando a estrutura cai — retorquiu o Lopa. — E parece-me que o único que está a aprender alguma coisa é o Mateus.

Mateus estava num canto, a balançar o corpo, tentando processar a explosão emocional. A agressividade de Daniel, a culpa de Rafael, a fúria de Francisco e a manipulação do Lopa criavam um ruído branco que o estava a levar ao limite.

— Parem! — gritou Mateus, a sua voz cortando o ar como uma lâmina. — Vocês estão a agir como se fossem variáveis independentes, mas estão todos ligados! A traição do Francisco criou um momento fletor no Rafael, e a intervenção do Lopa causou um esforço transverso que vocês não conseguem suportar! Isto não é sobre amor, é sobre falha estrutural catastrófica!

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Todos olharam para Mateus, o rapaz magro e barbudo que raramente falava, mas que tinha acabado de resumir o desastre das suas vidas em termos de engenharia.

Daniel soltou uma gargalhada amarga.

— O Mateus tem razão. Isto é um desastre.

Daniel olhou para Rafael e depois para Francisco.

— Eu sabia que vocês se queriam. Eu até gostava de ver. Mas a mentira... a mentira é o que fode tudo. E tu, Lopa... tu és um cancro.

— Eu sou a cura, Daniel — disse o Lopa, aproximando-se de Daniel. — Eu sou aquele que te mostra que tu mereces mais do que ser apenas o "terceiro" numa relação de dois mentirosos.

O Lopa tocou no rosto de Daniel, e por um momento, a fúria do rapaz cigano pareceu vacilar perante o magnetismo sombrio do Lopa.

Enquanto isso, noutro ponto da faculdade, o drama não era menor. Ricardo tinha finalmente cedido e deixado Simões levá-lo a casa. No carro, o silêncio era interrompido apenas pelo som da chuva.

— Ricardo... — começou Simões.

— Se vais dizer uma rima, Simões, eu juro que me atiro do carro em andamento.

— Não é uma rima. É que... o Nuno e o João estão a fazer uma stream agora mesmo. Eles estão a pedir desculpa publicamente. Dizem que o "incidente" no balneário foi um erro de guião.

Ricardo olhou para o telemóvel. De facto, a live estava a bombar. Nuno parecia arrasado, e João, pela primeira vez, não estava a sorrir.

— Eles são uns idiotas, Simões — disse Ricardo, fechando os olhos. — Toda a gente nesta faculdade é idiota.

— Eu também sou um idiota por ti, Ricardo.

Ricardo olhou para Simões. O rapaz de 1,80m tinha um olhar de cão fiel que, naquele momento, parecia a única coisa sólida num mundo de traições.

— Escreve logo o teu nome no gesso, Simões. E faz um coração. Mas pequeno! Se alguém vir, eu digo que foi o Luís que desenhou.

De volta à oficina, a tensão tinha atingido um novo patamar. Daniel, num ato de rebeldia pura, puxou o Lopa para um beijo, mesmo à frente de Francisco e Rafael. Foi um beijo de vingança, mas também de uma curiosidade perigosa.

— Queres ver o mundo arder, Lopa? — sussurrou Daniel. — Então vamos pôr fogo nisto tudo.

Francisco e Rafael observavam, impotentes, enquanto a bússola moral do grupo se desintegrava. Mateus, sentindo que o seu limite tinha sido atingido, caminhou até à porta.

— Eu vou para casa — disse Mateus. — Amanhã temos exame de Betão Armado. E nenhum de vocês está em condições de passar.

Gabriel apareceu na porta da oficina nesse momento, ofegante. Ele tinha seguido Mateus. Ao ver a cena — Daniel com o Lopa, Francisco e Rafael em choque — ele percebeu que o Porto nunca mais seria o mesmo.

— Lopa, tu conseguiste — disse Gabriel, a voz carregada de mágoa. — Destruíste o único grupo onde eu me sentia em casa.

— Eu não destruí nada, Gabriel — disse o Lopa, soltando Daniel e caminhando para a saída, passando por Gabriel com um sorriso vitorioso. — Eu apenas acelerei o processo de erosão. O que era verdadeiro vai ficar. O que era falso... bem, o entulho é por vossa conta.

O Lopa saiu da oficina, desaparecendo na noite portuense. Daniel olhou para Francisco e Rafael uma última vez antes de sair também, sem dizer uma palavra, deixando os dois amantes sozinhos entre as máquinas frias.

Gabriel aproximou-se de Mateus e abraçou-o. Mateus, pela primeira vez, não recuou. Ele enterrou o rosto no ombro de Gabriel, sentindo a textura da seda e o cheiro do perfume caro.

— A lógica falhou, Gabriel — murmurou Mateus.

— Eu sei, barbudo. Eu sei. Mas a gente reconstrói. A engenharia serve para isso, não é?

A noite na oficina de Rafael terminou em silêncio, mas as repercussões da chegada do Lopa mal tinham começado. Entre corações partidos, traições expostas e novas alianças perigosas, o curso de Gestão Civil na Faculdade do Porto tinha acabado de se tornar o projeto mais instável e fascinante de sempre. E enquanto o Lopa caminhava pelas margens do Douro, ele sabia que a próxima aula seria, sem dúvida, inesquecível. O entulho estava no chão, mas a verdadeira construção... essa ainda estava para vir.