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A escola dos amores

Fundações em Colapso e a Estática dos Desejos

A Faculdade de Engenharia do Porto estava mergulhada num silêncio enganador durante a hora de almoço. Nos corredores de cimento polido, o eco dos passos parecia amplificar as tensões que, como fissuras numa viga sobrecarregada, começavam a surgir entre o grupo de Gestão Civil.

Mateus estava sentado num dos bancos de pedra do pátio interior, com um pequeno recipiente de plástico contendo cubos de maçã cortados com precisão milimétrica. Ele estava a tentar processar a conversa da biblioteca, mas a sua mente, habitualmente lógica, parecia um ficheiro corrompido. O toque de Luís tinha deixado uma marca sensorial, mas era o olhar de Gabriel, constante e analítico, que o estava a deixar verdadeiramente inquieto.

— Sabes, Mateus, a tua barba hoje tem uma desordem estatística que me fascina — disse Gabriel, sentando-se ao lado dele sem pedir licença. O seu perfume de designer invadiu o espaço pessoal de Mateus como uma força invasora.

— Desordem estatística? — Mateus ajustou os óculos, sem olhar diretamente para o colega. — Eu escovei-a de acordo com o padrão habitual.

— Pois, mas há um fio ali, perto do canto da boca, que está a desafiar a gravidade — Gabriel aproximou-se, a sua mão subindo devagar. — Deixa-me... ajustar a estrutura.

Os dedos de Gabriel, finos e bem cuidados, tocaram os pelos ásperos da barba de Mateus. O toque não foi rápido; foi uma carícia deliberada. Mateus sentiu um calafrio que percorreu a sua espinha magra, uma sensação que não conseguia categorizar como "estímulo aversivo".

— Tu achas que és o mais invisível deste grupo, não achas? — sussurrou Gabriel, os olhos fixos nos lábios de Mateus. — Mas eu vejo-te. Vejo como o teu corpo reage quando eu me aproximo. Tu não és feito de betão, Mateus. Tu és feito de carne e de uma curiosidade que estás a tentar enterrar em cálculos.

— Eu... eu tenho de ir para a aula de Hidráulica — gaguejou Mateus, mas não se moveu. Pela primeira vez, a rigidez do seu autismo encontrava um ponto de fusão.

— A Hidráulica pode esperar — disse Gabriel, a sua voz tornando-se um murmúrio aveludado. — Deixa-me mostrar-te que a Gestão Civil também pode ser aplicada ao prazer.

Gabriel inclinou-se e selou a distância. O beijo foi uma colisão de mundos: a sofisticação calculada de Gabriel contra a pureza crua e inexperiente de Mateus. Mateus soltou um som abafado, as suas mãos agarrando-se à camisola de seda de Gabriel, puxando-o para mais perto. A barba de Mateus arranhava a pele de Gabriel, um contraste que parecia incendiar ainda mais o momento. Ali, no pátio da faculdade, Mateus descobriu que algumas variáveis não podiam ser previstas, apenas sentidas.

Enquanto isso, no bar da faculdade, o clima era consideravelmente mais tóxico. Ricardo estava sentado com a perna esticada, a olhar com desprezo para uma sanduíche de delícias do mar. Simões estava ao seu lado, a dedilhar silenciosamente uma guitarra imaginária.

— Ricardo, eu estive a pensar numa rima sobre o teu TDAH... — começou Simões.

— Se terminares essa frase, eu juro que te mato — interrompeu Ricardo. — Onde está o Nuno? Ele disse que me trazia o carregador do portátil.

— O Nuno está no balneário com o João — respondeu Simões, com um brilho estranho nos olhos. — Eles dizem que estão a preparar uma "live colaborativa", mas eu vi o João a esconder um frasco de lubrificante na mochila.

Ricardo parou de mastigar. Uma onda de ciúme, súbita e irracional, atingiu-o. Ele e o Nuno tinham uma espécie de pacto não dito — eram os parceiros de jogo, os companheiros de infortúnio académico. A ideia de Nuno e João, os dois Vtubers, estarem a levar a colaboração para um nível físico, deixava-o com um sabor amargo na boca.

— O João? Aquele viciado em Danganronpa? — Ricardo bufou. — O Nuno tem melhor gosto que isso.

— Pelos vistos, não — comentou Luís, que acabara de chegar, parecendo estranhamente satisfeito consigo mesmo. — Eu acabei de passar por eles. Digamos que o avatar do Nuno não é a única coisa que está a "ficar rígida" naquele balneário. O João está a usar as táticas de manipulação do Monokuma para levar o Nuno ao desespero... ou ao êxtase.

Ricardo levantou-se bruscamente, as muletas batendo com força no chão.

— Eu vou lá. Aquilo é um espaço público!

— Tu vais lá porque estás com ciúmes, Ricardinho — provocou Luís, rindo. — Mas olha, se quiseres companhia para afogar as mágoas, o Simões continua aqui, fiel como um Pokémon de primeira geração.

Ricardo ignorou-o e saiu disparado pelo corredor, o som rítmico das muletas ecoando como um aviso.

No balneário masculino, a atmosfera estava carregada de vapor e segredos. Nuno estava encostado aos armários metálicos, com o cabelo desgrenhado, enquanto João o prendia com os braços, o telemóvel esquecido num banco próximo.

— Tu sabes que isto vai arruinar a nossa dinâmica no canal, não sabes? — sussurrou Nuno, a respiração ofegante.

— O desespero é a base de toda a boa narrativa, Nuno — respondeu João, a sua voz habitualmente aguda agora num tom mais baixo e perigoso. — Imagina o que os nossos seguidores diriam se soubessem que o Vtuber jogador de futsal se ajoelha perante o mestre do Danganronpa.

— Tu falas demais — murmurou Nuno, puxando João para um beijo que cheirava a adrenalina e traição.

Eles sabiam que estavam a quebrar as regras silenciosas do grupo. João sabia que Ricardo tinha sentimentos por Nuno, e Nuno sabia que João estava a usar o sexo como um jogo de estratégia. Mas naquele momento, sob a luz fria dos fluorescentes, nada disso importava.

A porta do balneário abriu-se com um estrondo. Ricardo apareceu, ofegante, as muletas servindo de suporte para a sua indignação.

— Mas que porra é esta? — gritou Ricardo, a voz a falhar.

Nuno e João afastaram-se rapidamente. João tinha um sorriso cínico nos lábios, enquanto Nuno parecia genuinamente culpado.

— Ricardo! O que é que estás aqui a fazer? — perguntou Nuno, tentando ajeitar a t-shirt.

— Eu vim buscar o carregador, mas pelos vistos estava a interromper o "boss final" — cuspiu Ricardo. — Tu és um nojo, João. E tu, Nuno... eu pensava que éramos uma equipa.

— E somos! — disse Nuno, dando um passo em frente.

— Não, não somos — Ricardo virou as costas, a dificuldade de manobrar as muletas tornando a sua saída menos dramática do que desejava. — Fiquem com o vosso jogo. Eu espero que o Monokuma vos execute a ambos.

Enquanto o drama dos Vtubers explodia, no laboratório de materiais, a traição tomava uma forma mais complexa.

Francisco e Rafael estavam sozinhos. Daniel tinha ido ao Lidl para o turno da tarde, deixando os dois pilares do grupo entregues um ao outro. O ar entre eles ainda vibrava com o encontro da manhã, mas havia algo de novo.

— O Daniel é especial, Rafael — disse Francisco, aproximando-se do gigante barbudo. — Mas ele é... volátil. Como areia movediça.

Rafael olhou para as suas mãos calejadas, as mesmas mãos que tinham tocado Daniel com tanta urgência.

— Eu gosto da areia — respondeu Rafael com a sua voz profunda. — Mas eu preciso de fundações sólidas, Francisco. E o Daniel... o Daniel gosta de ver o mundo arder.

Francisco colocou as mãos na cintura de Rafael, sentindo a massa muscular imensa por baixo do macacão.

— Eu sei que ele te disse que queria que estivéssemos os três. Mas eu quero saber... o que é que acontece quando o catalisador não está aqui?

Rafael olhou nos olhos de Francisco. Havia uma lealdade profunda para com Daniel, mas a atração física por Francisco era como uma força de tração que excedia o limite elástico do seu caráter.

— Tu estás a sugerir que o traímos? — perguntou Rafael.

— Eu estou a sugerir que testemos a nossa própria resistência — respondeu Francisco, empurrando Rafael contra a mesa de ensaios. — O Daniel não precisa de saber tudo. Algumas experiências são privadas.

Rafael hesitou por um segundo, pensando no sorriso sarcástico de Daniel, mas quando os lábios de Francisco encontraram os seus, a moralidade dissolveu-se como calcário em ácido. Eles entregaram-se um ao outro com uma ferocidade que não tinham mostrado na presença de Daniel. Era uma luta pelo domínio, um choque de massas musculares e barbas que fazia as ferramentas nas prateleiras vibrar. Francisco, habituado a ser o ativo, encontrou em Rafael um desafio que o levava ao limite.

No entanto, o que eles não sabiam era que Daniel não tinha ido para o Lidl.

O rapaz cigano estava parado junto à janela alta do laboratório, observando tudo através de uma fresta. Ele não parecia zangado; pelo contrário, um sorriso predatório iluminava o seu rosto moreno. Ele sabia que isto ia acontecer. Ele tinha planeado isto. Na sua mente, a traição não era o fim, mas sim uma nova camada de complexidade que ele podia usar para os manter a ambos na palma da mão.

— Queimem-se bem — sussurrou Daniel, acendendo um cigarro e afastando-se silenciosamente. — Porque quando eu voltar, vou querer as cinzas todas para mim.

A tarde avançava e a faculdade tornava-se um labirinto de corações partidos e alianças secretas. No fundo do corredor, Gabriel e Mateus caminhavam lado a lado. Mateus parecia estar num transe, a sua mão roçando ocasionalmente na de Gabriel.

— Então, Mateus — disse Gabriel, o seu tom agora suave e protetor —, como foi a tua primeira lição de "gestão de desejos"?

Mateus parou e olhou para Gabriel. O autismo tornava difícil para ele ler as entrelinhas, mas o calor que sentia no peito era um dado empírico que não podia ignorar.

— Foi... desorientador — admitiu Mateus. — Mas a minha análise preliminar sugere que os benefícios superam os riscos de instabilidade.

Gabriel sorriu e, num gesto de rara ternura, beijou a testa de Mateus, mesmo por cima dos óculos.

— Tu vais ser o meu melhor projeto, barbudo.

A poucos metros dali, Luís observava-os de longe, escondido atrás de uma coluna. Ele tinha o telemóvel na mão, com uma aplicação de encontros aberta, mas o seu olhar estava triste. Ele passava o tempo todo a fazer piadas e a objetificar os colegas, mas no fundo, sentia-se como um Pokémon abandonado pelo treinador.

— Toda a gente a evoluir... e eu aqui preso no nível um — murmurou Luís para si mesmo.

Ele viu Ricardo passar por ele, furioso, as muletas a baterem no chão como tambores de guerra. Luís sentiu uma pontada de empatia. Ele sabia o que era ser traído pelas expectativas.

— Ei, Ricardo! — chamou Luís.

Ricardo parou e olhou para trás, com os olhos vermelhos.

— O que é que queres, Luís? Vais fazer uma piada sobre o meu gesso ou sobre o meu coração?

Luís aproximou-se, o seu habitual tom sarcástico desaparecido.

— Não. Vou só dizer-te que o Simões está no bar a escrever uma ode à tua fúria. E, honestamente? Entre o Nuno que te trai e o Simões que te idolatra como se fosses um lendário... eu sei quem é que eu escolheria para o meu ginásio.

Ricardo olhou para o bar, onde Simões estava sentado sozinho, com uma expressão de preocupação genuína, olhando para a porta à espera dele.

— O Simões é um idiota — disse Ricardo, mas o seu tom era mais suave.

— Somos todos idiotas, Ricardo — respondeu Luís. — É essa a primeira lei da Gestão Civil: nada do que construímos é permanente se não cuidarmos das fundações.

A noite caiu sobre o Porto, envolvendo a Faculdade de Engenharia num manto de sombras e segredos. Nos balneários, o vapor dissipava-se, deixando para trás o rasto da traição de Nuno e João. No laboratório, Francisco e Rafael vestiam-se em silêncio, o peso do que tinham feito pairando entre eles como uma viga de betão prestes a ceder. No pátio, Gabriel e Mateus partilhavam um momento de paz que desafiava a lógica.

E no bar, Ricardo sentou-se finalmente à frente de Simões.

— Escreve lá o teu nome no meu gesso, Simões — disse Ricardo, exausto. — Mas se usares a palavra "amor", eu parto-te os dentes.

Simões sorriu, o maior sorriso que o Porto alguma vez vira.

— Não preciso da palavra, Ricardo. Eu tenho a estrutura toda aqui.

A Gestão Civil continuaria na manhã seguinte, com as suas fórmulas e exames. Mas para aquele grupo de homens, o curso mais difícil tinha acabado de começar: o curso de sobreviver uns aos outros, entre traições, desejos e a eterna busca por um encaixe que não fosse apenas físico, mas que aguentasse a carga de uma vida inteira. E no meio do caos, Daniel observava tudo, pronto para o próximo movimento, sabendo que, naquela faculdade, a única coisa que nunca caía era a vontade de pecar.