A escola pode ser boa
Entre Copos, Risadas e o Brilho dos Olhos
A sexta-feira na faculdade tinha um peso diferente. Enquanto a maioria dos alunos se arrastava pelos corredores com olheiras profundas e pilhas de xerox debaixo do braço, Miguel Santos parecia flutuar. Ele caminhava pelo saguão principal com a mochila pendurada em apenas um ombro, o cabelo descolorido — agora com a raiz escura começando a dar as caras — perfeitamente bagunçado. Ele não estava pensando na prova de Economia Política que teria na segunda-feira. Na verdade, ele mal lembrava que o curso de Administração exigia leitura. Sua mente estava focada em algo muito mais interessante: o plano para a noite.
Ao avistar Mariah perto da biblioteca, um sorriso largo e genuinamente "besta" surgiu em seu rosto. Ela estava encostada na parede, mexendo no celular, com aquele jeito distraído que sempre o desarmava. O cabelo castanho médio brilhava sob as luzes fluorescentes, e ela usava uma jaqueta jeans que Miguel jurava ser dele, embora nunca tivesse pedido de volta.
— Ei, gatinha — disse Miguel, aproximando-se e envolvendo a cintura dela com um braço só, puxando-a para um beijo rápido e barulhento na bochecha. — Pronta para esquecer que esse lugar existe por umas quarenta e oito horas?
Mariah guardou o celular e sorriu, jogando os braços em volta do pescoço dele.
— Eu já esqueci faz tempo, Miguel. Minha mente deu log-off na metade da aula de Estatística.
— Essa é a minha garota — ele riu, dando um selinho nela. — Vamos sair daqui antes que algum professor decida que a gente tem cara de quem quer fazer trabalho extra.
Enquanto o casal se preparava para deixar o campus, em uma mesa estrategicamente posicionada no café em frente à biblioteca, Lívia e Alice observavam tudo com a precisão de duas analistas de inteligência.
— Lá vão eles — comentou Lívia, ajeitando seus fios ondulados castanhos. — Você viu a cara dele? Ele olha para ela como se ela fosse o último copo de água no deserto. É hipnotizante.
Alice, que estava ocupada tentando prender seus cachos volumosos em um coque alto, parou o que estava fazendo para focar a visão.
— É a química, Lívia. Não tem explicação científica, é puro destino. Olha como a Mariah relaxa quando está com ele. Ela pode estar prestes a bombar em três matérias, mas se o Miguel sorri, parece que ela ganhou na loteria.
— A gente precisa de um plano para hoje à noite — disse Lívia, batucando os dedos na mesa. — Eles mencionaram que iam para aquele barzinho novo perto da praça. A gente tem que estar lá. Não para atrapalhar, claro, mas para garantir que o ship continue navegando em águas seguras.
— E para tirar fotos escondidas para o nosso grupo secreto, obviamente — completou Alice com uma piscadela.
Horas mais tarde, o cenário mudou do concreto cinza da universidade para as luzes neon e o som abafado de um bar universitário lotado. O ar estava saturado com o cheiro de petiscos fritos e o burburinho de centenas de conversas sobrepostas. Miguel e Mariah estavam instalados em uma mesa de canto, dividindo uma porção de batatas fritas e uma torre de chope que parecia grande demais para apenas duas pessoas.
— Você acha que a Lívia e a Alice estão por aqui? — perguntou Mariah, olhando ao redor com um sorriso travesso. — Eu tive a leve impressão de ver o cabelo da Alice passando pela porta agora há pouco.
Miguel deu de ombros, pegando uma batata e mergulhando-a no ketchup.
— Aquelas duas são nossas sombras oficiais. Às vezes eu acho que elas sabem mais da nossa vida do que a gente mesmo. Mas hoje eu não ligo. Hoje eu só quero ver você.
— Você é muito brega, Miguel Santos — Mariah riu, mas seus olhos brilhavam.
— Brega, mas sou seu — rebateu ele, inclinando-se sobre a mesa. — E você sabe que adora.
A poucos metros dali, escondidas atrás de uma planta ornamental que claramente já tinha visto dias melhores, Lívia e Alice observavam a interação.
— Eles estão muito próximos — sussurrou Alice, ajustando os óculos. — Acho que o Miguel vai se declarar de novo. Ele faz aquela cara de bobo toda vez que vai dizer algo meloso.
— Shhh! — Lívia pediu silêncio, embora o barulho do bar tornasse impossível ouvir qualquer coisa. — Olha como ela toca no braço dele. Isso é linguagem corporal de alto nível, Alice. Eles estão em total sincronia.
No centro da atenção das amigas, o clima entre Miguel e Mariah ficava cada vez mais íntimo. Miguel, com sua altura de 1,75m, parecia envolver Mariah completamente no espaço da mesa. Ele não era o tipo de cara que se importava com as convenções sociais; se queria segurar a mão dela e beijar cada dedo, ele o fazia, independentemente de quem estivesse olhando.
— Sabe, Mariah — começou Miguel, o tom de voz ficando um pouco mais sério, o que era raro para ele —, eu sei que a gente não é o exemplo de alunos dedicados. Meus pais vivem reclamando que eu gasto mais com tinta de cabelo do que com livros, e você... bom, você é você.
— Ei! — ela protestou, rindo. — Eu li pelo menos três capítulos de Introdução ao Direito este mês.
— Tá, tá — ele riu, apertando a mão dela. — O que eu quero dizer é que, no meio dessa bagunça toda de prazos e DP's, você é a única coisa que faz sentido. Eu não preciso de nota dez quando eu tenho você.
Mariah sentiu aquele calor familiar no peito. Miguel podia ser "besta" e muitas vezes agir sem pensar, mas sua honestidade emocional era o que a prendia a ele.
— Eu também, Miguel. Às vezes eu sinto que a faculdade é só um ruído de fundo. O que importa é quando a gente sai daqui.
Nesse momento, Lívia não aguentou. A empolgação de ver seu ship favorito em um momento tão vulnerável e fofo superou sua discrição. Ela se levantou da cadeira, puxando Alice pelo braço.
— Chega de espionagem, vamos lá falar com eles — declarou Lívia.
As duas se aproximaram da mesa, fingindo surpresa ao "encontrarem" o casal.
— Não acredito! — exclamou Alice, fazendo uma performance digna de Oscar. — Miguel? Mariah? O que vocês estão fazendo aqui?
Miguel olhou para as duas, um sorriso sarcástico surgindo em seus lábios.
— Ah, claro. Que coincidência incrível, não é? O bar tem duzentas mesas e vocês aparecem exatamente na nossa.
— É o destino, Miguel — disse Lívia, sentando-se sem ser convidada, logo sendo seguida por Alice. — O destino quer que a gente celebre a existência do casal mais icônico desse campus.
Mariah revirou os olhos, mas não conseguia parar de sorrir. Ela adorava a energia das amigas, mesmo que às vezes fosse um pouco invasiva.
— Vocês são loucas — disse Mariah. — Mas já que estão aqui, ajudem a gente com esse chope. O Miguel achou que a gente conseguiria beber isso tudo sozinhos.
— Eu aguentaria! — protestou Miguel. — Só estava tentando ser um cavalheiro e dividir.
A conversa fluiu levemente. Lívia e Alice, como boas entusiastas do relacionamento alheio, começaram a fazer perguntas que pareciam entrevistas de uma revista de fofocas.
— Então, Miguel — começou Alice, apoiando o queixo nas mãos —, qual é o plano para o aniversário de namoro de vocês? A gente ouviu boatos de que vai ser algo grandioso.
Miguel olhou para Mariah, confuso.
— Aniversário? Já?
— Semana que vem, Miguel — suspirou Mariah, dando um tapa leve no braço dele. — Eu disse que ele era esquecido.
— Viu só? — Lívia apontou para eles. — É por isso que eles precisam da gente. Para manter a ordem no caos. Mas sério, vocês dois são a nossa esperança de que o amor sobrevive à vida universitária.
— Sobrevive até às provas finais — brincou Miguel, levantando seu copo. — Um brinde a isso. Aos amores que matam aula e aos amigos que não deixam a gente esquecer as datas importantes.
O brinde foi selado com risadas. Para quem olhasse de fora, eram apenas quatro estudantes jogando conversa fora em uma noite quente. Mas para Lívia e Alice, era a confirmação de uma teoria que elas defendiam desde o primeiro semestre: Miguel e Mariah eram uma força da natureza.
Conforme a noite avançava e o chope diminuía, o grupo começou a planejar o futuro. Lívia e Alice já estavam imaginando o casamento, discutindo se o cabelo de Miguel deveria estar descolorido ou natural para a cerimônia, enquanto Mariah tentava convencê-las de que ainda era cedo demais para pensar em convites.
— Imagina só — disse Lívia, animada —, a entrada da noiva com uma música indie que ninguém conhece, e o Miguel chorando no altar com aquele sorriso de bobo.
— E a gente como madrinhas, usando vestidos que combinam com os cachos da Alice e as minhas ondas — completou Alice, os olhos brilhando.
Miguel ria, abraçando Mariah de lado.
— Vocês estão indo longe demais, sabiam?
— Nunca é longe demais para um ship de respeito — retrucou Lívia com convicção.
Perto da meia-noite, a fadiga da semana começou a bater. O grupo decidiu que era hora de ir embora. Ao saírem do bar, o ar fresco da noite foi um alívio. Miguel e Mariah caminharam um pouco à frente, os dedos entrelaçados, enquanto Lívia e Alice vinham logo atrás, observando a silhueta dos dois contra as luzes da cidade.
— Sabe, Alice — sussurrou Lívia —, às vezes eu acho que a gente shipa eles porque eles representam a liberdade que a gente queria ter. Eles não se importam com o que os outros pensam. Eles só vivem.
— É verdade — concordou Alice. — E, no final das contas, é isso que a faculdade deveria ser, não é? Encontrar alguém que faça o caos valer a pena.
Miguel parou de repente e se virou para as amigas.
— Vocês vêm ou vão ficar aí filosofando sobre a nossa vida? O carro está logo ali.
— Já estamos indo, "estudioso"! — gritou Lívia, rindo.
Eles se despediram no estacionamento. Miguel e Mariah entraram no carro, o mesmo que horas antes tinha sido o palco de momentos muito mais intensos e privados. Antes de dar a partida, Miguel olhou para Mariah, que estava encostada no banco, com os olhos semicerrados de cansaço e felicidade.
— Valeu a pena matar aquela aula hoje, não valeu? — perguntou ele, a voz baixa.
Mariah se inclinou e deu um beijo demorado nele, um beijo que carregava toda a promessa de que, independentemente do que acontecesse na sala de aula, eles estariam bem.
— Sempre vale a pena com você, Miguel.
O motor roncou e o carro se afastou, deixando para trás o campus silencioso e as amigas que, mesmo após a partida deles, continuariam a celebrar cada capítulo daquela história. Porque na faculdade da vida, Miguel e Mariah já tinham garantido o diploma de felicidade, e Lívia e Alice eram as professoras mais orgulhosas dessa disciplina.