A fada que se apaixonou por uma humana
O Sussurro da Seiva e a Barganha de Prata
A primavera em Dartmoor não chegava com um anúncio claro, mas sim com uma mudança na densidade do ar. O cheiro de terra úmida e raízes despertando tornava-se quase intoxicante para quem sabia sentir. Reader estava na cozinha, sovando a massa do bolo de mel que prometera aos pais. Suas mãos, cobertas de farinha, moviam-se com uma destreza rítmica, mas sua mente estava longe dali, vagando entre os carvalhos retorcidos onde, dias antes, ela havia enfrentado o Pixie.
Ela sentia uma estranha inquietação. A floresta parecia estar chamando, não com vozes, mas com vibrações que faziam os pelos de seus braços se arrepiarem. Seus pais conversavam na sala, o som reconfortante da voz do pai lendo um jornal antigo e o tilintar das agulhas de tricô da mãe criando uma bolha de segurança. Mas Reader sabia que a segurança era uma ilusão frágil quando se morava no limiar do Outro Mundo.
— Filha, você está tão quieta hoje — comentou a mãe, entrando na cozinha com um xale sobre os ombros. — Aconteceu alguma coisa na vila?
Reader forçou um sorriso, limpando o suor da testa com o dorso da mão limpa.
— Nada, mamãe. Só estou concentrada para que o bolo fique bem fofinho. A senhora sabe como o papai gosta.
— Você é um anjo, querida. Às vezes acho que você cuida mais de nós do que de si mesma.
— Eu gosto de cuidar de vocês — respondeu Reader, com uma sinceridade que aqueceu o ambiente. — É o que me faz feliz.
Após colocar o bolo no forno, Reader sentiu uma necessidade irresistível de ar fresco. Ela pegou um balde vazio, pretendendo buscar água na fonte que ficava na orla da mata, um lugar que ela considerava seguro. O sol estava começando a se pôr, pintando o céu com tons de ocre e cinza-névoa, a paleta favorita das fadas de Brian Froud.
Ao se aproximar da fonte, ela percebeu que algo estava errado. A água, geralmente cristalina, estava turva, com um brilho leitoso que lembrava a hemolinfa das criaturas que ela vira no atalho. Sentado na borda da fonte, balançando as pernas longas e finas como juncos, estava um ser diferente do Pixie anterior. Este era maior, com a pele da cor de líquen seco e olhos que brilhavam como âmbar profundo sob um capuz feito de uma folha de carvalho perfeitamente preservada.
Reader parou, o coração batendo contra as costelas. Sua timidez inicial voltou como uma onda, fazendo-a apertar a alça do balde com força.
— Olá? — sussurrou ela, a voz quase sumindo no vento.
A criatura virou a cabeça com um movimento brusco, quase mecânico. Suas orelhas eram longas e pontiagudas, movendo-se para captar o som da voz de Reader.
— A violeta com espinhos de ferro retorna — disse a criatura, sua voz soando como o sussurro da seiva subindo pelos troncos. — O pequeno Skitter contou histórias sobre você. Disse que você tem mãos que curam e olhos que queimam com o fogo da proteção.
Reader engoliu em seco, tentando manter a calma.
— Eu não quero brigar. Só vim buscar água para minha casa.
A criatura saltou da fonte, pousando com uma leveza sobrenatural. Ela era esguia, com articulações que pareciam se dobrar mais do que o necessário. Seus dedos eram longos, terminando em unhas escuras que pareciam agulhas de espinheiro.
— Água? — A fada riu, um som seco como folhas de outono sendo esmagadas. — A água da fonte está doente, humana. A seiva não dança como deveria. As raízes estão presas em algo frio... algo que não pertence à terra.
Reader sentiu sua empatia incondicional despertar. O medo começou a ser substituído por uma preocupação genuína.
— Doente? Como assim? Posso ajudar em algo?
A fada inclinou a cabeça, os olhos de âmbar fixos em Reader com uma curiosidade predatória, mas não hostil.
— Você é estranha. A maioria dos mortais correria ou tentaria nos ferir com ferro frio. Mas você... você sente a dor da terra, não sente?
— Eu sinto quando os animais estão sofrendo — admitiu Reader, dando um passo cauteloso à frente. — E sinto que a floresta está... inquieta.
— Há um nó de ferro preso sob a Raiz-Mãe, perto do riacho. Os homens da vila cavaram onde não deviam, buscando pedras brilhantes, e deixaram suas ferramentas para trás quando o pânico os levou. O ferro está azedando o fluxo. Se a seiva não subir, a primavera será estéril. Seus pais passarão fome, violeta.
O rosto de Reader empalideceu. A ideia de seus pais sofrendo por causa de uma colheita perdida era o gatilho que transformava sua doçura em determinação.
— Onde fica esse lugar? Eu posso tirar o ferro. Eu não tenho medo de me sujar ou de carregar peso.
A criatura sorriu, revelando dentes finos e espaçados.
— Não é apenas peso, humana. O ferro drena nossa força, mas para você, é apenas metal. No entanto, o caminho está guardado. A Corte Unseelie não gosta de intrusos, mesmo aqueles com boas intenções.
— Eu vou — afirmou Reader, sua postura mudando. A timidez desapareceu, substituída pela fúria protetora que ela reservava para os indefesos. — Mostre-me o caminho.
A fada começou a se mover pela floresta com uma rapidez incrível, saltando sobre troncos caídos e deslizando por entre as sarças. Reader a seguia como podia, ignorando os galhos que arranhavam seus braços. O ar tornava-se cada vez mais pesado, com um cheiro de metal oxidado e decomposição.
Finalmente, chegaram a uma clareira onde uma árvore imensa, cujas raízes pareciam veias expostas na terra, erguia-se em agonia. Entre as raízes, uma picareta de ferro e várias correntes pesadas estavam cravadas profundamente, cercadas por uma lama negra e fétida. Pequenas criaturas, semelhantes a insetos com rostos humanos distorcidos, zumbiam ao redor, mas fugiram quando viram Reader.
— Ali — apontou a fada, mantendo uma distância segura do metal. — O toque disso é como veneno para nós.
Reader não hesitou. Ela se ajoelhou na lama, sentindo o frio do ferro contra suas mãos. Era pesado e estava enterrado fundo. Ela começou a puxar, seus músculos protestando, o rosto ficando vermelho pelo esforço.
— Vamos lá... — grunhiu ela, focando na imagem de sua mãe sorrindo na cozinha e de seu pai colhendo o trigo. — Vocês não vão estragar a primavera deles!
Com um grito de esforço, ela conseguiu arrancar a picareta. O som do metal saindo da terra foi como um suspiro de alívio da própria árvore. Em seguida, ela começou a desenredar as correntes, suas mãos ficando esfoladas e sujas de graxa e ferrugem.
Enquanto trabalhava, vultos começaram a se mover nas sombras da clareira. Criaturas pontudas, com asas que pareciam feitas de pergaminho queimado, observavam-na com malevolência. Eram a Corte Unseelie, os guardiões da decomposição.
— Por que a carne macia ajuda a madeira? — sibilou uma voz vinda das sombras. — Deixe o ferro ficar. Deixe o inverno eterno levar os velhos.
Reader parou por um segundo, segurando uma das correntes como se fosse uma arma. Seus olhos brilharam com uma intensidade assustadora.
— Afastem-se! — ordenou ela, sua voz ecoando com uma autoridade que surpreendeu até a fada que a acompanhara. — Eu estou cuidando deste lugar agora. Se vocês querem que o inverno fique, terão que passar por mim. E eu garanto que não sou tão macia quanto pareço.
As criaturas Unseelie recuaram, sibilando e batendo as asas. Havia algo na aura de Reader — uma mistura de pureza absoluta e fúria maternal — que as repelia mais do que o próprio ferro.
Finalmente, a última corrente foi removida. Reader arrastou o metal para longe da árvore, jogando-o em um buraco profundo e cobrindo-o com pedras, para que ninguém mais o encontrasse.
Quase instantaneamente, a clareira pareceu mudar. O cheiro de ferrugem foi substituído por uma fragrância doce de flores silvestres. A seiva começou a fluir com vigor, e pequenas luzes douradas começaram a brotar das raízes da árvore.
A fada que a guiara aproximou-se, observando Reader com um respeito renovado.
— Você fez o que nenhum de nós poderia. A Dança da Seiva poderá começar.
Reader, agora exausta e coberta de lama, sentou-se no chão, tentando recuperar o fôlego. Ela voltou a ser a mulher tímida de antes, limpando as mãos no vestido e evitando o olhar da criatura.
— Eu só... eu só não queria que nada de ruim acontecesse.
A fada estendeu a mão e deixou cair algo na palma de Reader. Era uma pequena moeda de prata antiga, mas não uma moeda humana; ela brilhava com uma luz própria e tinha o desenho de um junco dobrado pelo vento.
— Um presente pela sua ajuda, violeta. Mas lembre-se: segredo absoluto. Se contar a um humano sobre este presente, a sorte se transformará em pó.
— Obrigada — murmurou Reader, fechando a mão sobre a moeda.
— E mais uma coisa — disse a fada, antes de desaparecer entre as árvores —. O pequeno Skitter estava certo sobre sua voz. Cantar para os animais é bom, mas a floresta inteira gostaria de ouvir a canção daquela que protege a primavera.
Reader sentiu o rosto esquentar. Ela se levantou rapidamente, pegando seu balde agora cheio de água limpa da fonte que voltara a correr cristalina.
Ao chegar em casa, o bolo de mel estava pronto, preenchendo a sala com um aroma divino. Seus pais a esperavam, preocupados com sua demora.
— Minha nossa, filha! O que aconteceu com você? — exclamou o pai, vendo o estado de seu vestido.
— Eu... eu escorreguei perto do riacho, papai — mentiu ela, sentindo o peso da moeda de prata no bolso. — Mas a água está ótima. A primavera vai ser linda este ano, eu sinto isso.
Naquela noite, após o jantar, Reader sentou-se na varanda enquanto seus pais dormiam. O silêncio de Dartmoor era profundo, mas se ela prestasse atenção, podia ouvir os sinos das fadas ecoando nos morros rochosos.
Ela respirou fundo e, pela primeira vez na vida, não cantou apenas para um passarinho ou para si mesma. Ela deixou sua voz, doce e poderosa, fluir para a escuridão da floresta.
— "Pela terra, pelo ar, deixe a vida despertar..." — cantou ela, uma melodia simples que aprendera com a avó.
Longe dali, na clareira da Raiz-Mãe, os Pixies pararam suas travessuras para ouvir. As criaturas Unseelie esconderam-se em suas cavernas, incomodadas pela pureza do som, enquanto os Trolls calçavam seus sapatos de pele para começar a Dança da Seiva.
Reader terminou a canção com um sorriso, sentindo que, embora fosse apenas uma humana em uma casinha afastada, ela agora fazia parte da tapeçaria mágica daquele lugar. Ela era a guardiã do limiar, a violeta com espinhos de ferro, e enquanto ela estivesse ali, sua família e a floresta estariam seguras.
Ela entrou e fechou a porta, mas antes de apagar a última lâmpada, deixou uma tigela com o melhor creme de leite perto da lareira. Um agradecimento silencioso aos seus novos e estranhos vizinhos.
Lá fora, a primavera finalmente floresceu em uma única noite, cobrindo a charneca com um manto de cores que nenhum pintor humano jamais conseguiria replicar. O ciclo continuava, movido pelo capricho das fadas e pela coragem de uma mulher que só queria fazer um bolo para seus pais.