A fada que se apaixonou por uma humana
O Banquete dos Pequenos e a Sombra do Trocado
A manhã seguinte à limpeza da Raiz-Mãe nasceu com uma claridade quase sobrenatural. O orvalho sobre as urzes de Dartmoor brilhava como se cada gota contivesse um fragmento da moeda de prata que Reader agora escondia em uma pequena bolsa de couro sob o corpete. O bolo de mel, símbolo da prosperidade da família, repousava sobre a mesa, mas o clima de celebração foi subitamente interrompido por um grito vindo da trilha que levava à vila.
Reader, que estava no jardim conversando em voz baixa com um par de tordos, sentiu o corpo retesar. O grito não era de dor física, mas de um desespero profundo, o tipo de som que só uma mãe poderia emitir.
— O que foi isso? — perguntou o pai de Reader, saindo apressado da casa com um ancinho na mão.
— Veio da estrada — respondeu Reader, já começando a correr. Sua timidez habitual foi deixada para trás, atropelada pela urgência de ajudar.
Ao chegar à orla da floresta, encontraram a Sra. Gable, a esposa do moleiro, caída de joelhos no chão batido. Ela soluçava, abraçando um berço de vime vazio.
— Ele se foi! — gritou a mulher ao ver Reader e seu pai. — Eu me virei por um segundo para colher algumas ervas e... e quando olhei, meu Thomas não estava mais lá! Em seu lugar... vejam o que deixaram!
Reader aproximou-se, o coração martelando. Dentro do berço, enrolado nos lençóis de linho bordados, não estava o bebê rosado de seis meses que ela conhecia. Em seu lugar, jazia uma criatura enrugada, com a pele da cor de um cogumelo passado e olhos que pareciam duas fendas de obsidiana. O ser soltou um guincho agudo e seco, um som que não tinha nada de humano.
— Um trocado — sussurrou o pai de Reader, fazendo o sinal da cruz. — Os Pixies levaram o menino.
A Sra. Gable entrou em um novo acesso de choro, mas Reader sentiu aquela conhecida onda de calor subir pelo seu peito. A "mãe-urso" despertou com uma fúria que fez suas mãos tremerem. Ela sabia quem era o responsável. A floresta estava em dívida com ela, e ela pretendia cobrar.
— Eu vou buscá-lo, Sra. Gable — disse Reader, sua voz soando firme e assertiva, desprovida de qualquer hesitação.
— Filha, não! É perigoso demais — interveio o pai, segurando seu braço. — Você sabe o que dizem sobre entrar no Reino das Fadas para buscar o que foi roubado. Você pode nunca mais voltar.
Reader olhou para o pai, e ele recuou um passo ao ver a determinação nos olhos da filha.
— Eles quebraram as regras, papai. Eu ajudei a restaurar a seiva, eu protegi a raiz deles. Eles não têm o direito de tirar um filho de uma mãe nesta vila. Eu conheço o caminho.
Sem esperar por mais avisos, Reader embrenhou-se na floresta. Ela não seguiu a estrada, mas sim o rastro de vibrações que só ela parecia notar. O ar tornava-se mais denso à medida que ela avançava para o coração de Dartmoor, onde as pedras antigas de pé formavam círculos que os humanos evitavam a todo custo.
— Skitter! — chamou ela, sua voz ecoando entre os carvalhos. — Skitter, apareça agora!
Um zumbido agudo preencheu o ar, e o pequeno Pixie que ela enfrentara no atalho materializou-se em um galho de azevinho, balançando as pernas longas e finas. Ele parecia mais agitado do que o normal, suas antenas tremendo freneticamente.
— A violeta grita! A violeta está amarga de novo! — sibilou ele, abrindo as mandíbulas em um sorriso nervoso. — Por que chama o senhor da charneca?
— Onde está o bebê da Sra. Gable? — Reader deu um passo à frente, ignorando o fato de que Skitter estava cercado por outros três vultos menores e igualmente grotescos. — Eu sei que foram vocês. Eu limpei o ferro da sua árvore, eu salvei a sua primavera. Devolvam a criança.
Skitter deu uma pirueta no ar, rindo com um som de vidro quebrado.
— Troca justa, violeta! Um bebê de carne por um bebê de musgo! A Corte Unseelie queria um novo brinquedo, um que não tivesse espinhos de ferro como você. Ele está no Pixie's Parlour, sendo banhado em orvalho de lua.
— Leve-me até lá — ordenou Reader. — Agora.
— O Parlour não é para humanos — avisou Skitter, sua voz tornando-se subitamente séria. — Se você entrar, terá que participar do banquete. E se comer uma única semente de romã ou beber uma gota do vinho de sabugueiro, ficará presa conosco até que as pedras virem pó.
— Eu não vou comer nada. Só quero o Thomas.
Skitter hesitou, mas a aura de Reader era opressora. Ele mergulhou na névoa, fazendo sinal para que ela o seguisse. Eles caminharam por lugares onde o espaço parecia se dobrar; uma árvore oca que continha um corredor infinito, um riacho que corria para cima, e finalmente, uma abertura entre duas rochas cobertas de líquen dourado.
O Pixie's Parlour era uma caverna magnífica e terrível. O teto era cravejado de fungos luminescentes que emitiam uma luz azulada e fria. No centro, uma mesa feita de uma única fatia de carvalho ancestral estava coberta com iguarias que pareciam deliciosas, mas que Reader sabia serem ilusões: frutas de cores impossíveis e néctares que cheiravam a memórias esquecidas.
Dezenas de fadas estavam lá. Algumas eram esguias e elegantes como a que lhe dera a moeda, outras eram disformes, com membros que pareciam raízes e rostos que lembravam insetos. No fundo da caverna, sobre um monte de musgo macio, estava o pequeno Thomas. Ele não chorava; parecia estar em um transe profundo, cercado por Pixies que teciam coroas de flores em seus cabelos ralos.
— Parem! — a voz de Reader cortou o zumbido da caverna como uma lâmina.
As fadas pararam. Uma criatura alta, vestida com trapos que pareciam feitos de asas de mariposa, levantou-se. Seus olhos eram puramente brancos, sem pupilas.
— A protetora da Raiz-Mãe — disse a criatura, sua voz ecoando nas paredes de pedra. — Você veio reclamar o que não é seu. O que nasce na terra pertence à terra quando nós decidimos colher.
— O Thomas não é uma colheita — rebateu Reader, aproximando-se da mesa. — Ele é um ser humano, com uma mãe que o ama. Vocês têm o seu trocado. Devolvam o menino.
— O trocado é fraco — sibilou a fada de olhos brancos. — Ele morrerá em três dias no mundo dos homens. O humano, por outro lado, viverá para sempre aqui, servindo à nossa corte. A menos que...
— A menos que o quê? — Reader sentiu a armadilha se fechando, mas não recuou.
— A menos que você nos dê algo de igual valor. Algo que cure o silêncio do nosso reino. Ouvimos sua voz ontem à noite, violeta. Uma voz que fez a seiva vibrar. Cante para nós no banquete. Se sua canção for capaz de fazer as pedras chorarem, você leva o menino.
— Não aceite! — sussurrou Skitter de algum lugar nas sombras. — Se você cantar aqui, sua voz ficará presa nas paredes da caverna. Você nunca mais falará no mundo dos homens!
Reader olhou para o bebê Thomas. Ele parecia tão pequeno, tão indefeso. Ela pensou na Sra. Gable, pensou em seus próprios pais e no amor incondicional que recebia deles todos os dias. O que era uma voz comparada a uma vida?
— Eu aceito — disse ela, sua voz tremendo apenas um pouco antes de se tornar firme.
As fadas formaram um círculo ao redor dela. O silêncio na caverna tornou-se absoluto, pesado como o chumbo. Reader fechou os olhos. Ela não pensou na plateia grotesca, nem nas promessas de perdição. Ela pensou na sensação do sol da manhã, no cheiro do bolo de mel de sua mãe e na gratidão de estar viva.
Ela abriu a boca e começou a cantar.
Não era uma canção de ninar comum. Era um lamento pela terra, uma celebração da vida e um rugido de proteção. Sua voz subiu, clara e poderosa, vibrando nas paredes de cristal da caverna. As notas pareciam ganhar forma física, pequenas luzes que dançavam entre os Pixies.
Reader cantou sobre a dor das árvores cortadas e a alegria dos primeiros brotos. Cantou sobre o amor que não conhece fronteiras entre os mundos. À medida que ela atingia as notas mais altas, algo incrível aconteceu. As pedras luminescentes do teto começaram a "suar", gotas de água límpida caindo como lágrimas sobre o chão de terra.
As fadas, seres que raramente sentiam emoção além do capricho e da malícia, ficaram imóveis. Algumas cobriram os rostos com as mãos longas; outras, como Skitter, ficaram paralisadas, com as antenas baixas.
Quando a última nota desapareceu, o silêncio que restou era diferente. Não era mais pesado, mas sim reverente.
A fada de olhos brancos inclinou a cabeça.
— Você fez as pedras chorarem, humana. O acordo está selado.
Com um gesto, os Pixies que cercavam Thomas se afastaram. Reader correu até o bebê e o pegou nos braços. Ele despertou do transe instantaneamente, soltando um choro forte e saudável que pareceu assustar as criaturas ao redor.
— Vá agora — disse a fada alta. — Antes que a magia da sua voz se dissipe e a nossa natureza mude novamente.
Reader não precisou ser avisada duas vezes. Ela apertou Thomas contra o peito e correu em direção à saída, guiada por um Skitter visivelmente abalado.
— Você foi tola, violeta — sibilou o Pixie enquanto eles emergiam na névoa de Dartmoor. — Mas foi a tola mais corajosa que já vi.
Ao cruzarem o limiar de volta para o mundo humano, Reader sentiu um aperto súbito na garganta. Ela tentou dizer "obrigada" a Skitter, mas nenhum som saiu. Sua voz, aquela ferramenta maravilhosa de cura e poder, havia ficado para trás, gravada nas pedras do Parlour.
Ela não se importou.
Ao chegar à estrada, a Sra. Gable ainda estava lá, cercada pelos moradores da vila que se preparavam para uma busca inútil. Quando viram Reader emergindo da floresta com o bebê nos braços, um silêncio de choque caiu sobre todos.
— Thomas! — gritou a mãe, correndo para pegar o filho. — Oh, meu Deus, Thomas!
A Sra. Gable abraçou Reader com força, chorando de alegria.
— Como você conseguiu? Como posso te agradecer?
Reader sorriu, um sorriso doce e cansado. Ela apontou para a própria garganta e balançou a cabeça, indicando que não podia falar.
— Ela está em choque — disse um dos vizinhos. — Pobre moça, o que ela deve ter passado lá dentro?
O pai de Reader aproximou-se e a abraçou, as lágrimas correndo pelo seu rosto envelhecido.
— Você voltou — sussurrou ele. — Você trouxe o menino de volta.
Eles caminharam de volta para casa sob o sol do final da tarde. Naquela noite, a vila inteira celebrou. O bolo de mel foi partido e compartilhado, e a história da "Violeta Silenciosa" começou a se espalhar.
Reader sentou-se em sua varanda habitual. Ela não podia mais cantar para os pássaros, mas percebeu algo novo. Quando ela assoviava baixo, ou apenas movia os lábios, os animais pareciam entendê-la melhor do que antes. Havia uma conexão mais profunda, uma linguagem de silêncio e intenção que ela aprendera no reino das fadas.
Ela sentiu um movimento no bolso e tirou a moeda de prata. Ela brilhava mais do que nunca.
De repente, um pequeno vulto saltou para o parapeito da janela. Era Skitter. Ele trazia um pequeno frasco de cristal, do tamanho de uma semente, cheio de um líquido que brilhava com todas as cores do arco-íris.
— O banquete terminou — sibilou o Pixie, olhando para os lados para garantir que ninguém o via. — A fada de olhos brancos mandou isso. Ela disse que uma canção daquelas não merece ficar presa em uma caverna escura. Ela prefere que você continue protegendo a seiva.
Ele deixou o frasco cair na mão dela e desapareceu com um zumbido.
Reader abriu o frasco e bebeu o conteúdo. Era frio como o gelo e doce como o primeiro raio de sol da primavera. Instantaneamente, ela sentiu o calor retornar à sua garganta.
— Obrigada, Skitter — sussurrou ela. Sua voz estava de volta, mas agora tinha um timbre novo, algo que soava como o vento entre os juncos e o murmúrio dos riachos.
Ela olhou para a floresta, sabendo que sua vida nunca mais seria a mesma. Ela era Reader, a filha zelosa, a mulher tímida que amava animais. Mas ela também era a aliada das fadas, a protetora de Dartmoor, e a única humana que sabia que, por trás de cada travessura e sombra daquela charneca, havia uma magia que exigia respeito, coragem e, acima de tudo, um coração disposto a cuidar.
Ela entrou em casa, beijou os pais e foi dormir, enquanto lá fora, no coração da floresta, a Raiz-Mãe pulsava em harmonia com cada batida do seu coração. A primavera tinha finalmente chegado para ficar.