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A fada que se apaixonou por uma humana

O Ferro do Desprezo e o Zumbido da Vingança

A manhã havia começado com o brilho enganador de um céu de safira, mas o ar em Dartmoor carregava um peso metálico que fazia os pássaros silenciarem. Na vila, o burburinho habitual de camponeses trocando mercadorias fora substituído por um silêncio tenso. Cavalos de linhagem fina, com pelagens reluzentes e arreios de couro trabalhado, batiam os cascos contra o chão batido da praça central.

Eles haviam chegado: os coletores da corte real. Homens que viviam em castelos de pedra polida, longe da lama e do suor das charnecas, vestindo sedas e veludos que custariam dez anos de colheita de qualquer família local. Eram nobres de baixo escalão, mas, para os habitantes da vila, eram deuses distantes e impiedosos que vinham buscar o tributo pela "proteção" que o Rei jurava oferecer contra os perigos da floresta.

Reader estava na praça, ajudando o pai a carregar os sacos de grãos e as moedas de prata que haviam economizado com tanto esforço. Ela usava seu vestido de linho mais simples, remendado nos cotovelos, e seus cabelos estavam presos em uma trança prática, embora alguns fios rebeldes insistissem em emoldurar seu rosto redondo e gentil.

— Próximo! — gritou um dos oficiais, sentado atrás de uma mesa de carvalho maciço trazida especialmente para a ocasião.

O pai de Reader avançou, curvando a cabeça em sinal de respeito. Reader ficou logo atrás, segurando a cesta com os últimos potes de mel que seriam entregues como parte do pagamento.

Um dos nobres, um homem jovem de cabelos loiros oleosos e olhos pequenos que transbordavam tédio, inclinou-se para frente. Seu nome era Lorde Alistair, e ele parecia achar o ar da vila ofensivo aos seus pulmões aristocráticos.

— Ora, veja só o que temos aqui — disse Alistair, ignorando o pai de Reader e fixando o olhar nela. — Um espécime curioso das profundezas da lama.

Reader sentiu o rosto esquentar e baixou o olhar para os próprios pés, apertando a alça da cesta.

— Por favor, senhor — murmurou o pai —, aqui está o imposto da família. Tudo conforme a lei.

Alistair mal olhou para os sacos. Ele se levantou, caminhando ao redor de Reader como se estivesse inspecionando um animal de carga em uma feira. Outros dois homens da escolta riram, cruzando os braços sobre as couraças de metal brilhante.

— Diga-me, camponesa — continuou o nobre, a voz carregada de um escárnio açucarado —, é verdade que aqui vocês se casam com os porcos para economizar no dote? Explicaria por que você tem esse ar tão... rústico. Ou talvez seja a falta de um espelho? Suas bochechas parecem ter sido pintadas com terra, e esse vestido... eu não o usaria nem para limpar as estrebarias de meu cão.

Reader sentiu um nó apertar sua garganta. Ela sempre soube que não era uma beleza de corte, mas ouvir aquilo diante de toda a vila, de forma tão gratuita e cruel, foi como receber um golpe físico. Ela era sensível, seu coração era feito de algodão e empatia, e não tinha defesas contra a maldade puramente humana.

— Eu... eu sinto muito se minha aparência desagrada ao senhor — gaguejou ela, a voz tremendo.

— Desagradar? — Alistair soltou uma gargalhada estridente, sendo acompanhado pelos soldados. — Você é uma ofensa visual, menina. Olhe para essas mãos... grossas de trabalho, sem a delicadeza de uma dama. E esse jeito de bicho do mato. Você sequer sabe falar a língua dos homens ou apenas balança a cabeça como as ovelhas que pastoreia?

Uma lágrima teimosa escapou do olho de Reader e rolou pela bochecha. Ela tentou limpá-la rapidamente, mas o choro já estava engasgado.

— Oh, vejam! — gritou outro soldado, apontando para o rosto dela. — A pequena violeta começou a murchar! Vai chorar agora? Talvez as lágrimas limpem um pouco dessa sujeira que você chama de pele.

— Por favor, senhores — interveio o pai, a voz firme mas carregada de medo —, minha filha é uma moça de bem. Não há necessidade de tais palavras.

— Silêncio, velho! — Alistair bateu com a luva de metal na mesa. — Você deveria nos agradecer por darmos atenção a essa coisa insignificante. Ela é tão sem graça que se desaparecesse na floresta hoje, as próprias árvores morreriam de tédio.

Reader não aguentou mais. As lágrimas agora corriam livremente, quentes e salgadas. Ela soltou a cesta de mel no chão e, sem dizer uma palavra, virou-se e correu. Ela correu para longe das risadas, para longe do olhar de pena dos vizinhos, para longe da humilhação que parecia queimar sua alma.

Ela não parou até que os sons da vila fossem apenas um eco distante. Ela entrou na floresta, buscando o único lugar onde nunca fora julgada: a penumbra de Dartmoor. Ela caiu de joelhos perto de um riacho, soluçando tão alto que seus ombros sacudiam.

— Eles são maus... — murmurou ela entre soluços. — Por que eles têm que ser tão maus?

O zumbido começou quase instantaneamente. Não era o som de abelhas, mas o som de asas vibrando em uma frequência de fúria.

— Violeta chorando... violeta sangrando água pelos olhos — a voz de Skitter surgiu de trás de uma samambaia.

O Pixie materializou-se no ar, mas ele não estava com sua postura habitual de deboche. Suas antenas estavam retas e rígidas, e seus olhos de âmbar brilhavam com uma luz incandescente. Ele nunca vira Reader naquele estado de desolação total causado por palavras.

— Skitter... — Reader tentou limpar o rosto, mas os soluços continuavam a vir. — Eles disseram coisas horríveis. Disseram que eu sou feia, que eu sou suja... que eu não sou nada.

— Homens de metal — sibilou Skitter, os dentes afiados à mostra. — Homens que cheiram a cavalo e orgulho. Eles tocaram em você?

— Não... só com as palavras. Mas as palavras doem tanto, Skitter.

O Pixie desceu e pousou no ombro dela. Ele não tentou brincar. Ele encostou sua cabeça fria na bochecha úmida de Reader.

— Palavras de humanos são como vento em caverna vazia — disse ele, a voz vibrando com um perigo contido. — Mas eles fizeram a violeta murchar. E ninguém faz a violeta murchar no meu território.

— Não faça nada, Skitter — pediu ela, embora sem muita convicção. — Eles são poderosos. Têm espadas e cavalos.

— Eles têm ferro — corrigiu o Pixie. — Mas nós temos a charneca. E a charneca tem fome de orgulho.

Skitter desapareceu em um estalo de luz verde. Reader ficou ali por um longo tempo, lavando o rosto na água fria do riacho, tentando recuperar sua dignidade. Ela não sabia que, enquanto se acalmava, um exército invisível estava se mobilizando.

Na vila, Lorde Alistair e seus homens terminavam de carregar as carroças. Eles estavam de bom humor, rindo da "pequena cena" da camponesa chorona.

— Vamos — ordenou Alistair, montando em seu garanhão negro. — Quero estar longe deste cheiro de esterco antes do pôr do sol.

Eles pegaram a estrada que cortava a orla da floresta. No início, tudo parecia normal. Mas, conforme avançavam, a névoa começou a subir do chão, uma névoa espessa e com cheiro de musgo antigo.

— Que estranho — comentou um dos soldados. — O céu estava limpo há um minuto.

De repente, o cavalo de Alistair empinou, relinchando de terror. O nobre quase caiu da sela.

— O que foi isso?! — gritou ele.

Das árvores, o som de mil sinos de latão começou a ecoar, mas não era uma música festiva. Era um som dissonante, que parecia perfurar os ouvidos.

— Olhem as crinas! — gritou outro soldado.

Em segundos, as crinas dos cavalos reais foram trançadas em nós apertados e impossíveis, cheios de espinhos e urtigas. Os animais, sentindo a dor e o pânico, começaram a correr descontroladamente para dentro da floresta, ignorando os comandos de seus cavaleiros.

— Parem! Voltem para a estrada! — Alistair tentava desesperadamente controlar as rédeas, mas elas pareciam ter ganhado vida própria, escorregadias como enguias.

Eles foram levados para o fundo da charneca, onde o chão se tornava mole e traiçoeiro. Os cavalos pararam, atolados até os joelhos na lama negra.

— Quem está aí? — Alistair desembainhou sua espada de prata decorativa. — Apareçam, seus covardes!

Uma risada estridente e multiplicada ecoou por todos os lados.

— O senhor quer ver o que é rústico? — A voz de Skitter pareceu vir de dentro da própria névoa. — O senhor quer ver o que é feio?

Dezenas de Pixies começaram a se materializar nos galhos baixos. Eles não eram as criaturas curiosas que Reader conhecia. Suas faces triangulares estavam retorcidas em caretas de malevolência, e seus olhos brilhavam como brasas.

— O que são essas coisas?! — balbuciou um dos soldados, tentando golpear o ar, mas os Pixies eram rápidos demais, saltando como salmões, puxando seus cabelos e beliscando a carne exposta entre as armaduras.

— Nós somos os donos desta lama! — gritou Skitter, pairando diante dos olhos de Alistair. — E você... você é apenas um brinquedo quebrado.

Com um estalo de dedos, os Pixies atacaram. Eles não mataram, mas fizeram algo pior para homens tão orgulhosos. Eles rasgaram as sedas e os veludos com suas unhas afiadas. Urinaram nas botas de couro fino. Esfregaram lama e excremento de pássaro nos rostos aristocráticos.

Alistair tentou gritar, mas um Pixie jogou um punhado de musgo podre em sua boca.

— A violeta tem mãos de trabalho? — sibilou Skitter no ouvido do nobre. — Pois você terá mãos de mendigo!

Os Pixies roubaram as joias, os anéis e as moedas de ouro, enterrando-os profundamente no pântano onde nunca seriam encontrados. Eles soltaram os cavalos, que fugiram de volta para a vila, deixando os nobres a pé, cobertos de imundície e perdidos no coração de Dartmoor.

Enquanto isso, Reader caminhava de volta para a vila, sentindo-se um pouco mais calma, embora ainda triste. Ao chegar na praça, ela viu uma cena bizarra. Os cavalos dos nobres haviam retornado sozinhos, mas estavam calmos, como se tivessem sido conduzidos por mãos invisíveis.

— Reader! — Seu pai correu até ela. — Você está bem?

— Estou, papai. Sinto muito por ter fugido.

— Não se preocupe com isso. Aqueles homens... eles partiram há algum tempo, mas algo estranho aconteceu. A floresta parece ter engolido a estrada.

Reader olhou para a orla da mata. Ela viu Skitter sentado no topo de um poste de cerca. Ele estava polindo algo pequeno e dourado — um botão de brasão real — e, ao ver Reader, ele piscou um olho de âmbar e deu uma pirueta vitoriosa antes de desaparecer.

Horas depois, Lorde Alistair e seus homens emergiram da floresta. Eles estavam irreconhecíveis. Suas roupas eram trapos, seus rostos estavam inchados de picadas e cobertos de lama fétida. Eles tremiam de frio e de um terror que as palavras não podiam descrever.

Eles não pediram mais impostos. Não fizeram mais piadas. Eles subiram em seus cavalos e galoparam para longe de Dartmoor o mais rápido que puderam, jurando nunca mais colocar os pés naquela "terra amaldiçoada".

Reader observou a partida deles da varanda de sua casa. Ela sentiu uma mão pequena e fria tocar seu ombro.

— Eles foram embora, violeta — sussurrou Skitter, aparecendo ao seu lado. — Eles aprenderam que a beleza da charneca tem dentes.

— Você não precisava ter feito isso, Skitter — disse ela, embora um pequeno sorriso começasse a surgir em seus lábios.

— Precisava sim — o Pixie cruzou os braços, orgulhoso. — Humanos são cegos. Eles olham para você e veem lama. Eu olho para você e vejo o coração de Dartmoor. E ninguém insulta o coração da floresta na minha frente.

Reader pegou o Pixie e o trouxe para perto, dando-lhe um beijo suave no topo da cabeça.

— Obrigada por me defender.

— Não se acostume com isso — resmungou Skitter, embora suas asas batessem em um ritmo feliz. — Agora, cadê aquele creme com mel? Vingar a sua honra dá uma fome terrível.

Reader riu, uma risada clara que limpou os últimos resquícios de tristeza de sua alma. Ela sabia que os nobres voltariam para seus palácios e contariam histórias sobre monstros e maldições, mas ela continuaria ali, na sua casinha simples, amada por seres que viam através das aparências.

Ela não era uma dama de corte, e nunca seria. Ela era a guardiã do limiar, a amiga das sombras e a mulher que possuía o exército mais leal de Dartmoor. E enquanto Skitter estivesse por perto, nenhuma palavra humana teria poder suficiente para fazê-la murchar novamente. Naquela noite, o banquete de creme e mel foi o mais doce de todos, servido sob a luz da lua e o som de risadas que, pela primeira vez, não eram de escárnio, mas de pura e selvagem liberdade.