A fada que se apaixonou por uma humana
O Beijo do Musgo e o Coração de Algodão
A manhã do Dia dos Namorados em Dartmoor não nasceu com o fogo vermelho das paixões avassaladoras, mas com uma névoa cor-de-rosa pálida que se agarrava às colinas como um cobertor de lã fina. Na vila, o ar estava saturado com o cheiro de lavanda e o aroma doce dos bolos de mel que as moças preparavam para seus pretendentes. Era um dia de risinhos abafados, fitas coloridas entrelaçadas nos cabelos e trocas de olhares que valiam mais do que mil promessas.
Reader, no entanto, observava tudo da janela de sua pequena cabana com um sorriso suave, embora houvesse uma pontada de melancolia escondida no fundo de seus olhos. Aos trinta e quatro anos, ela via suas amigas de infância com famílias formadas, trocando carícias públicas com maridos dedicados. Ela, por outro lado, sempre fora a "violeta murchinha", a mulher que preferia o silêncio da floresta e o balido das ovelhas à agitação dos bailes. Sua autoestima era como uma planta que crescia na sombra; saudável, mas sempre pequena, convencida de que sua doçura era comum demais para despertar o interesse de qualquer homem da vila.
— Eles parecem tão felizes, não é, mamãe? — comentou ela, enquanto terminava de amarrar um laço de fita em uma pequena cesta.
Sua mãe, que tricotava perto da lareira, olhou para a filha com um carinho infinito.
— A felicidade tem muitas formas, querida. A sua é a que transborda e cura os outros.
Reader suspirou, ajeitando a mecha de cabelo atrás da orelha. Ela não se achava interessante. Quem iria querer uma mulher que falava com pássaros e guardava segredos de fadas, quando havia moças vibrantes e seguras de si na praça? Mas ela não deixaria a tristeza se abater. Se não tinha um amor romântico para celebrar, celebraria o amor que sentia por cada ser vivo que cruzava seu caminho.
Naquela manhã, Reader transformou-se em um turbilhão de generosidade. Ela passara semanas preparando presentes feitos à mão, cada um carregado com uma intenção específica.
Primeiro, foram seus pais. Ela lhes entregou mantas de lã bordadas com fios de seda que brilhavam sutilmente, um segredo que Skitter a ajudara a colher.
— Para que o inverno nunca chegue aos seus ossos — disse ela, depositando um beijo terno na bochecha de cada um.
Depois, ela partiu para a vila. Sua cesta estava cheia de bonecos de pano recheados com ervas calmantes para os bebês, saquinhos de fumo de cereja para os idosos e doces de amora para as crianças. Reader caminhava pelas ruas como uma brisa de primavera. Ela não esperava nada em troca. Para cada pessoa que recebia seu presente, ela oferecia um sorriso tímido e, para aqueles que eram próximos, um beijo casto na bochecha que cheirava a sabão de ervas e sinceridade.
— Feliz dia, Sra. Gable — disse ela, entregando um xale de renda à mulher que um dia chorara por um bebê trocado.
— Você é um anjo, Reader — respondeu a mulher, retribuindo o beijo. — Algum dia, um homem terá a sorte de perceber o tesouro que você é.
Reader apenas corou e seguiu em frente, o coração aquecido, mas a mente ainda duvidosa. Ela não se via como um tesouro; via-se apenas como alguém que cuidava.
Quando o sol começou a descer, tingindo as charnecas de dourado e ocre, Reader pegou uma segunda cesta, escondida sob um pano de linho verde. Esta não era para os humanos. Ela caminhou em direção à floresta, sentindo a mudança imediata na pressão do ar. O Dia dos Namorados era uma invenção humana, mas o amor — ou a forma feérica dele, que era uma mistura de lealdade, obsessão e proteção — era muito real em Dartmoor.
— Skitter? — chamou ela, entrando na clareira das Pedras Cinzentas. — Eu trouxe algo para vocês.
Um zumbido agudo rasgou o silêncio, e o Pixie materializou-se sobre sua cabeça, descendo em espiral até pousar no seu ombro. Suas antenas tremiam de curiosidade.
— A violeta está distribuindo beijos na vila! — sibilou ele, o tom entre o deboche e uma estranha possessividade. — Eu vi da árvore. Beijos para o moleiro, beijos para o velho Jan... humanos são criaturas muito úmidas e barulhentas.
Reader riu, sentando-se no musgo macio.
— É um dia de amor, Skitter. E eu amo meus vizinhos. Mas não esqueci de vocês.
Ela começou a retirar os presentes da cesta. Para a Fada Alta, ela trouxera um colar feito de sementes de carvalho esculpidas com símbolos de proteção. Para os Trolls da ponte, grandes pedras de açúcar mascavo. E para as fadas menores, pequenos espelhos feitos de metal polido, para que pudessem admirar sua própria vaidade.
As criaturas começaram a emergir das sombras. A Fada Alta aceitou o colar com uma elegância silenciosa, permitindo que Reader o colocasse em seu pescoço.
— Seu toque é quente, mortal — disse a fada, a voz como o sussurro das folhas. — E seu coração é vasto.
Reader, movida pelo espírito do dia e pela gratidão por sua vida ter sido salva tantas vezes, inclinou-se e beijou a bochecha fria e levemente áspera da Fada Alta.
— Feliz dia para você também — sussurrou Reader.
Houve um suspiro coletivo entre os seres feéricos. Um beijo de um humano dado livremente, sem medo e sem barganha, era uma magia potente. Skitter, observando a cena, cruzou os braços longos e finos, as asas batendo em um ritmo irritado.
— E para mim? — resmungou ele. — Ou eu sou apenas o Pixie que carrega suas mensagens e não ganha nada além de creme azedo?
Reader sorriu, sentindo aquela onda de afeto que só Skitter conseguia despertar. Ela abriu o último embrulho de couro. Dentro, havia um pequeno colete feito de musgo seco e fios de ouro, meticulosamente costurado para não prender seus movimentos.
— Eu sei que vocês não gostam de roupas, Skitter — disse ela, estendendo o presente —. Mas este é orgânico. Foi feito para te proteger do vento frio quando você voa alto demais. E tem um bolso... para o seu sino.
O Pixie pegou o colete com mãos trêmulas. Ele o vestiu rapidamente, e o musgo parecia fundir-se à sua pele esverdeada, tornando-o ainda mais parte da floresta. Ele deu uma pirueta, o sino tilintando no bolso novo.
— Ficou... aceitável — sibilou ele, embora seus olhos brilhassem como âmbar derretido.
Reader aproximou-se dele, ajoelhada no chão da floresta.
— E o meu beijo, Skitter? Você não quer um também?
O Pixie parou de se mover. Suas antenas ficaram eretas.
— Pixies não beijam — disse ele, embora não tenha recuado quando Reader o trouxe para perto de seu rosto.
— Mas este é um beijo especial — disse ela, a voz carregada de uma doçura que faria o mel parecer amargo. — É o beijo da minha gratidão por você ser meu melhor amigo. Por nunca me deixar sozinha, mesmo quando eu acho que não sou ninguém.
Ela fechou os olhos e depositou um beijo suave na testa pontuda do Pixie.
O efeito foi instantâneo. Uma pequena faísca de luz dourada saltou do ponto de contato. Skitter soltou um som que era metade suspiro, metade zumbido, e por um momento, sua forma pareceu brilhar com uma intensidade sobrenatural. Ele não se afastou; em vez disso, apoiou a cabeça no nariz de Reader, fechando os olhos.
— Você é muito estranha, Reader — murmurou ele, a voz perdendo a aspereza habitual. — Nenhuma humana olharia para um Pixie e veria um amigo. Elas veem monstros ou ferramentas.
— Eu vejo você — respondeu ela, sentindo as lágrimas picarem seus olhos. — E para mim, você é a criatura mais interessante de Dartmoor.
Skitter afastou-se um pouco, observando-a.
— Você diz que não é interessante, violeta. Mas você deu beijos na vila e ninguém brilhou como eu brilhei agora. Sabe por quê?
Reader balançou a cabeça, confusa.
— Porque o amor deles é comum — disse o Pixie, saltando para o galho de uma árvore e começando a tocar uma melodia suave na sua flauta de osso. — O seu é antigo. É o tipo de amor que faz as pedras falarem e a seiva correr no inverno. Você não precisa de um homem da vila, Reader. Você tem a charneca inteira no seu bolso.
Reader sorriu, sentindo o peso da solidão diminuir. Talvez ela não tivesse um namorado para passear de mãos dadas na praça, mas ela tinha algo que ninguém mais tinha. Ela tinha a lealdade de um guardião das sombras e o respeito de uma corte milenar.
Ela passou o resto da tarde na floresta, distribuindo o restante dos beijos e carinhos entre os animais e as fadas menores que se atreviam a chegar perto. Para cada esquilo, um pedaço de noz e um afago. Para cada flor que parecia murcha, uma canção de ninar e um toque gentil.
Ao anoitecer, quando ela finalmente voltou para casa, seus pais já estavam dormindo. A casa estava silenciosa, iluminada apenas pelas brasas da lareira. Reader sentou-se em sua poltrona, sentindo-se exausta, mas preenchida. Ela olhou para o próprio reflexo no espelho de metal polido que Skitter "esquecera" em seu bolso.
Pela primeira vez, ela não viu apenas uma mulher tímida de trinta e quatro anos com rugas de preocupação nos olhos. Ela viu a mulher que fizera as pedras de Dartmoor chorarem. Viu a protetora que enfrentara a Corte Unseelie. Viu alguém que era amado não pela sua aparência ou pelo que possuía, mas pela essência pura de sua alma.
De repente, um tilintar suave veio da janela. Skitter estava lá, batendo no vidro com a flauta. Quando Reader abriu, ele não entrou. Apenas estendeu uma pequena flor de gelo, uma raridade que só crescia nos picos mais altos de Dartmoor, onde o tempo não passava.
— Para a violeta — disse ele. — Para que ela lembre que é única.
— Obrigada, Skitter.
— E Reader? — O Pixie hesitou, as asas vibrando devagar.
— Sim?
— O beijo... — ele tossiu, um som seco e engraçado —. Não foi tão ruim. Pode repetir no próximo ano. Se eu deixar.
Reader riu, o som ecoando pela casa silenciosa.
— Eu vou lembrar disso, Skitter.
Ela fechou a janela e colocou a flor de gelo em um frasco de cristal. Enquanto se deitava, Reader percebeu que a autoestima não era sobre ser amada por um estranho, mas sobre reconhecer o valor do amor que ela mesma era capaz de gerar. Ela era a "mãe-urso", a amiga das fadas, a mulher que beijava a bochecha do mundo e o tornava um lugar melhor.
Naquela noite, Reader não sonhou com pretendentes ou bailes. Ela sonhou com florestas de cristal, com lobos que guardavam seus passos e com um Pixie que, apesar de toda a sua malícia, usava um colete de musgo feito com o fio da sua amizade. E em Dartmoor, o Dia dos Namorados terminou com a certeza de que o amor mais verdadeiro é aquele que não pede permissão para brilhar, mesmo nas sombras mais profundas da charneca.