A família caos
Tempestades no Paraíso e Rede de Descanso
A manhã seguinte ao segredo compartilhado por Nicolas nasceu com uma tensão invisível que pairava sobre a mansão. Julia tentou agir naturalmente, mas cada vez que seus olhos cruzavam com os de Kate, ela sentia o peso da omissão. O treino da manhã foi exaustivo, e a ruiva descontou toda a sua ansiedade nos pesos da academia, focando em cada repetição até que seus músculos queimassem.
Enquanto isso, em casa, o clima estava longe de ser tranquilo. Léo, o pequeno de dois anos, parecia ter captado a eletricidade no ar. Ele estava em uma fase particularmente apegada a Julia, e o fato de a mãe ter saído cedo para treinar o deixou de mau humor. Quando Kate tentou pegá-lo no colo para brincar, o menino se esquivou, cruzando os braços gordinhos e fazendo um bico que era a cópia fiel do de Julia.
— Não, mamãe Kate! Quero a mamãe Ju! — exclamou o pequeno, empurrando a mão da loira.
Kate suspirou, sentindo uma pontada de ciúme bobo, mas compreensivo.
— A mamãe Ju já volta, Léo. Vem cá com a mama, vamos ver desenho.
— Não! — Léo insistiu, sentando-se no chão da sala com um olhar desafiador.
Gabi, que observava a cena enquanto tomava café com Thiago, soltou uma risadinha.
— Ele puxou o gênio da ruiva, Kate. Não adianta forçar. Quando a Julia chegar, ele vai grudar nela e não solta mais.
Kate deu de ombros, tentando não transparecer a irritação que começava a borbulhar. Ela já estava com os nervos à flor da pele por causa do comportamento estranho de Nicolas, que mal saíra do quarto e evitava contato visual com ela a todo custo.
O estopim, porém, veio ao cair da tarde. O sol começava a se pôr quando a campainha tocou. Gabi foi atender e deu de cara com uma menina loira, de aparência frágil e olhos vermelhos de tanto chorar. Era Mariana.
— O Nicolas está? — perguntou ela com a voz trêmula.
Kate, que estava na sala tentando convencer Léo a comer uma maçã, ouviu o nome do irmão e se aproximou da porta. Ao ver o estado da menina, seu instinto protetor e sua intuição de irmã mais velha dispararam um alerta vermelho.
— Mariana? O que aconteceu? Cadê o Nicolas? — Kate chamou o irmão aos gritos, a voz ecoando pela casa.
Nicolas desceu as escadas correndo, o rosto pálido. Ao ver Mariana ali, ele soube que o tempo de esconder havia acabado. O que se seguiu foi uma explosão de emoções. No meio da sala, diante de Gabi, Thiago e um Léo confuso que começou a chorar pelo barulho, a verdade veio à tona.
— Grávida? Nicolas, você tem dezesseis anos! — o grito de Kate foi tão alto que Thiago teve que levar Léo para o andar de cima. — Como você pôde ser tão irresponsável? Meus pais vão ter um colapso na Rússia!
— Kate, para de gritar! — Nicolas tentou se defender, a voz embargada. — Eu sei que errei, mas a Mariana precisa de apoio agora, não de sermão!
— Apoio? Eu vou te dar o apoio! — Kate gesticulava freneticamente, a paciência que costumava ser sua marca registrada evaporando completamente. — E a Julia? A Julia sabia disso? Eu vi vocês cochichando no jardim ontem!
— Ela não tem nada a ver com isso, eu pedi para ela não contar! — Nicolas gritou de volta.
A discussão escalou. Kate estava possessiva, sentindo-se traída por Julia ter guardado um segredo tão sério e furiosa com a imaturidade do irmão. Mariana chorava no sofá, sendo consolada por uma Gabi que tentava, sem sucesso, mediar o conflito.
Foi nesse cenário caótico que Julia Bergmann atravessou a porta da frente. Ela estava suada, usando um top de compressão e shorts curtos, com a bolsa de treino pendurada no ombro. Seus olhos rapidamente mapearam a cena: Kate vermelha de raiva, Nicolas na defensiva e Mariana em prantos.
— Mas que diabos está acontecendo aqui? — a voz de Julia saiu grossa, autoritária, fazendo o silêncio se instalar por um segundo.
Kate virou-se para ela, os olhos faiscando.
— O que está acontecendo é que o meu irmão engravidou uma criança e você, a minha mulher, achou que era uma boa ideia esconder isso de mim!
Julia suspirou, soltando a bolsa no chão. Ela sabia que esse momento chegaria, mas esperava que Nicolas tivesse tido a chance de falar com calma.
— Kate, respira. Eu ia te contar se o teste desse positivo, o Nicolas precisava de um tempo para processar...
— Não me venha com "respira", Julia! — Kate interrompeu, a voz carregada de veneno. — Você não tinha o direito. Ele é meu irmão, minha responsabilidade.
Sem esperar resposta, Kate deu as costas e saiu para a varanda dos fundos, batendo a porta de vidro com tanta força que o som ecoou por toda a mansão.
Julia ficou parada por um momento, sentindo a exaustão do treino se misturar com a frustração. Ela olhou para Nicolas e Mariana.
— Vão para a cozinha. Gabi, por favor, ajuda eles a se acalmarem. Eu vou falar com ela.
Na cozinha, Nicolas desabou em uma cadeira, enterrando o rosto nas mãos. Gabi e Thiago se aproximaram, tentando oferecer algum conforto enquanto explicavam para o jovem que a reação de Kate era fruto do choque e do medo.
Enquanto isso, Julia caminhou até a varanda. O céu estava escuro agora, e a única luz vinha da piscina iluminada. Kate estava deitada em uma rede de descanso, balançando-se furiosamente, o olhar fixo no horizonte.
Julia se aproximou devagar, tentando ignorar o fato de que seu corpo pedia um banho e comida.
— Kate... — começou Julia, com a voz mais mansa que conseguia produzir.
— Não encosta em mim, Julia. Vá tomar seu banho, você está cheirando a suor e a traição — disparou a loira, sem olhar para a namorada.
Julia sentiu o sangue subir. Sua paciência de "bruta" era limitada.
— Traição? Não exagera, Antropova. Eu tentei proteger o garoto por uma noite para que ele não tivesse um ataque de pânico. Olha o estado que você está, você acha que ele teria conseguido conversar com você nesse nível de histeria?
— Histeria? Meu irmão de dezesseis anos vai ser pai! — Kate sentou-se na rede, encarando Julia com fúria. — E você agiu pelas minhas costas. Se você estivesse no meu lugar, teria quebrado a casa inteira de ciúmes e raiva. Não tente ser a sensata agora.
— Eu sou a sensata porque alguém tem que ser nesta casa! — rebateu Julia, cruzando os braços. — Agora, em vez de ficar aqui sendo grossa comigo, por que você não entra e ajuda a decidir o que vamos fazer? A menina está apavorada.
— Eu não vou a lugar nenhum. Me deixa sozinha — Kate deitou-se novamente, virando o corpo para o lado oposto.
Julia soltou um rosnado de frustração e entrou. Ela precisava de um banho antes que perdesse a cabeça e dissesse algo de que se arrependeria. No andar de cima, ela encontrou Léo, que já tinha sido banhado por Thiago, mas se recusava a dormir. Ao ver a mãe ruiva, o pequeno correu e abraçou suas pernas com força.
— Mamãe Ju! A mama Kate tá brava. O Léo tá com medo — soluçou o pequeno.
Julia o pegou no colo, sentindo o cheirinho de shampoo de bebê, o que finalmente a fez relaxar um pouco.
— Shh, meu amor. Está tudo bem. A mama Kate só está um pouco cansada. Vamos deitar com a mamãe?
Ela passou a hora seguinte ninando o filho até que ele finalmente adormeceu profundamente. Depois, tomou um banho quente, deixando a água levar a tensão dos ombros. Quando desceu para a cozinha, encontrou Gabi terminando de preparar um jantar simples. Nicolas e Mariana haviam subido para o quarto de hóspedes para conversar com os pais da menina por telefone, um passo necessário e doloroso.
— Ela ainda está lá fora? — perguntou Julia, apontando para a varanda.
— Está. Não quis comer nada, não quis falar com ninguém. O Léo tentou ir lá, mas ela foi meio ríspida e ele voltou chorando para o Thiago — contou Gabi, suspirando. — Ela está realmente magoada, Ju.
Julia pegou um prato de comida e dois copos de suco. Ela sabia que Kate, quando entrava nesse estado de teimosia, precisava de um choque de afeto para desarmar a guarda.
Caminhou até a varanda novamente. O vento noturno estava fresco. Kate continuava na rede, imóvel. Julia colocou a bandeja na mesa lateral e se aproximou.
— Você não vai jantar? — perguntou Julia, sentando-se na borda da rede.
— Não estou com fome — respondeu Kate, a voz agora mais baixa, mas ainda fria.
Julia não se deu por vencida. Ela se inclinou e começou a distribuir beijos leves no ombro exposto da loira, subindo para o pescoço.
— Sai, Julia — resmungou Kate, embora seu corpo não tenha se afastado.
— Não saio. Você é minha loira teimosa, e eu não vou deixar você dormir com fome e com raiva de mim — Julia continuou, alternando entre selinhos carinhosos na bochecha e mordidas leves, quase imperceptíveis, no lóbulo da orelha de Kate. — Eu sinto muito por não ter contado na hora, tá? Eu só queria que o Nicolas tivesse a chance de ser homem e assumir o erro sozinho.
Kate suspirou, o balanço da rede diminuindo. Ela se virou lentamente, os olhos azuis encontrando os verdes de Julia. A raiva ainda estava lá, mas a tristeza e a exaustão ganhavam espaço.
— Eu fiquei com medo, Ju. Medo por ele, medo da reação dos meus pais... e me senti excluída por você — confessou Kate, a voz falhando.
Julia envolveu o rosto de Kate com as mãos, os polegares acariciando as maçãs do rosto da namorada.
— Você nunca está excluída. Você é o centro de tudo aqui. Mas às vezes, meu amor, você precisa deixar as pessoas respirarem antes de cair matando.
Kate finalmente cedeu, puxando Julia para dentro da rede com ela. O espaço era apertado, os corpos colados, mas era exatamente onde ambas precisavam estar. Kate enterrou o rosto no peito de Julia, sentindo o perfume de sabonete e a segurança que só a ruiva lhe proporcionava.
— Você é uma bruta irritante — sussurrou Kate.
— E você é uma loira dramática que eu amo — respondeu Julia, dando um selinho demorado nos lábios de Kate. — Agora, você vai comer. E amanhã, nós duas vamos sentar com o Nicolas e a Mariana e resolver isso como uma família. Sem gritos.
Kate assentiu, finalmente relaxando os músculos.
— E o Léo? Ele ficou chateado comigo?
— Ele ficou com ciúmes porque eu não estava, e depois se assustou com os gritos. Mas ele já está dormindo. Amanhã você compensa com muitos beijos e desenhos.
Julia se afastou um pouco para pegar o prato de comida, mas antes que pudesse se levantar totalmente, sentiu a mão de Kate apertar sua bunda com força, um gesto que já era rotina, mas que naquele momento serviu como um pedido de paz.
— Ai! — Julia riu, olhando para trás. — Nem na hora da briga você esquece, né?
— Nunca — Kate deu um sorriso de canto, o primeiro da noite. — Especialmente porque você está usando esse shorts que me deixa louca.
Julia balançou a cabeça, entregando o garfo para a namorada. A tempestade ainda não tinha passado totalmente — afinal, um bebê estava a caminho e a vida de Nicolas mudaria para sempre —, mas ali, naquele casulo de pano e afeto, elas sabiam que dariam um jeito. Como sempre davam.
— Come logo — ordenou Julia, voltando a se aninhar nos braços de Kate. — Porque depois que você terminar, eu ainda tenho que te cobrar por ter sido grossa comigo quando eu cheguei do treino.
Kate riu, uma risada leve que aqueceu o coração de Julia.
— Ah, é? E como você pretende me cobrar, Bergmann?
Julia inclinou-se no ouvido dela, a voz baixinha e carregada de segundas intenções.
— Digamos que eu aprendi algumas coisas sobre mordidas ontem à noite. E eu pretendo colocar em prática agora mesmo.
A noite terminou não com gritos de raiva, mas com o som suave da rede balançando e o início de uma conversa longa, difícil, mas necessária, sobre o futuro que batia à porta daquela família tão perfeitamente imperfeita.