A família caos
Promessas de Aliança e o Pequeno Recrutador
A manhã de sábado na residência Antropova-Bergmann começou com o que Julia costumava chamar de "o despertar do furacão". Léo, agora com seus cinco anos e uma capacidade argumentativa que claramente herdara da persistência russa de Kate, não aceitava mais respostas evasivas. Ele entrou no quarto das mães como se estivesse invadindo uma quadra em final de campeonato, pulando exatamente no meio do colchão king-size.
— Bom dia, mamães! Hoje é o dia de ir na loja de bebês? — perguntou o pequeno, com os olhos azuis brilhando de expectativa, enquanto sacudia o ombro de Julia.
Julia soltou um resmungo abafado contra o travesseiro. Ela tinha chegado tarde de um amistoso na noite anterior e seu corpo parecia pesar uma tonelada. Já Kate, que tinha o sono mais leve, sentou-se na cama rindo da determinação do filho.
— Léo, meu amor, já falamos sobre isso — disse Kate, puxando o menino para um abraço esmagador. — Bebês não vendem em lojas. Eles demoram para chegar, precisam de planejamento.
— Mas o Enzo já chegou! — rebateu Léo, referindo-se ao primo, filho de Nicolas e Mariana. — E o tio Nico disse que se vocês não pedirem logo, a cegonha vai ficar sem estoque.
Julia finalmente se virou, encarando o teto com um sorriso de canto.
— Eu vou matar o seu tio Nicolas — murmurou a ruiva, a voz rouca de sono. — Primeiro ele engravida aos dezesseis, agora quer dar consultoria de logística de bebês para a gente.
— Mamãe Ju, você prometeu! — Léo insistiu, engatinhando até ela e fazendo aquele bico que desarmava qualquer defesa da ponteira brasileira. — Eu quero um irmão para ensinar a jogar vôlei. O Enzo é muito pequeno, ele só sabe babar.
Julia suspirou, sentando-se e passando a mão pelos cabelos ruivos bagunçados. Ela olhou para Kate, que sustentava um olhar cúmplice e, ao mesmo tempo, provocador. A ideia de um segundo filho já não era mais um "se", mas um "quando".
— A gente vai conversar sobre isso hoje, Léo. Eu prometo — disse Julia, dando um beijo na testa do filho. — Agora vai lá embaixo ver se a tia Gabi já fez o café. Se ela estiver dormindo, pula em cima dela.
O menino saiu correndo, gritando de alegria, deixando um silêncio confortável, porém carregado, no quarto. Kate se aproximou de Julia, deslizando as mãos pela cintura da namorada.
— Ele não vai desistir, sabe disso, não é? — sussurrou a loira.
— Eu sei. E para ser sincera, nem eu quero que ele desista — admitiu Julia, virando-se para encarar Kate. — Mas antes do irmãozinho, Antropova... a gente tem um assunto pendente.
Kate sorriu, sabendo exatamente do que ela falava.
— O casamento.
— O casamento — confirmou Julia. — Se vamos trazer mais uma vida para esse caos, eu quero que a gente oficialize tudo. Quero a festa, o papel, e quero você usando a aliança que eu comprei e que está guardada há três meses porque nunca achamos o "momento perfeito".
Kate sentiu o coração acelerar. A russa era extrovertida e segura na quadra, mas quando se tratava de Julia, ela ainda sentia o mesmo frio no estômago de quando eram adolescentes.
— Então vamos fazer isso — disse Kate, a voz suave. — Vamos planejar a festa. Mas com uma condição.
— Qual? — Julia arqueou a sobrancelha, desconfiada.
— Eu quero escolher o seu vestido. Ou pelo menos garantir que ele seja... justo o suficiente.
Julia soltou uma gargalhada, empurrando Kate de leve.
— Você não tem jeito! Nem em um momento romântico você deixa de ser possessiva.
— Não é possessão, Bergmann. É apreciação estética — Kate respondeu, as mãos descendo inevitavelmente para o quadril de Julia, apertando com firmeza. — Você tem noção do que esse seu treino de pernas está fazendo com a minha sanidade? Cada vez que você entra na quadra com aquele uniforme novo, eu tenho vontade de pedir tempo técnico só para te tirar de lá.
— Kate, a gente tem um café da manhã com a família inteira em dez minutos — avisou Julia, embora não fizesse menção de se afastar.
— Eles podem esperar — murmurou a loira, cravando os dentes levemente na curvatura do pescoço de Julia, deixando uma marca que certamente exigiria corretivo mais tarde.
A descida para a cozinha foi, como sempre, barulhenta. Gabi já estava em pé, tentando impedir Léo de colocar açúcar demais no cereal, enquanto Nicolas e Mariana tentavam acalmar o pequeno Enzo, que chorava por causa do nascimento dos primeiros dentes. Thiago, o sobrinho de Gabi que agora era praticamente um irmão mais velho para Léo, ajudava a arrumar a mesa.
— Bom dia para quem finalmente resolveu aparecer — provocou Gabi, notando o cabelo de Julia ainda mais desalinhado que o normal. — E bom dia para a Kate, que claramente estava ocupada marcando território. Esse roxo no pescoço da Ju é novo, né?
Julia revirou os olhos, sentando-se à mesa, enquanto Kate apenas sorriu vitoriosa, servindo-se de café.
— Temos um anúncio — declarou Kate, batendo levemente com a colher na xícara para atrair a atenção de todos.
Nicolas parou de balançar o carrinho do bebê e Léo parou de mastigar.
— Vamos casar. No mês que vem — anunciou a loira. — Uma cerimônia íntima no jardim, mas com tudo o que temos direito.
A cozinha explodiu em comemorações. Léo começou a pular, gritando que seria o pajem, enquanto Mariana abraçava Julia. Nicolas, tentando redimir-se de suas mancadas recentes, ofereceu-se para organizar a playlist da festa.
— E depois do casamento... — começou Julia, olhando para Léo — ...nós vamos começar a organizar a chegada do seu irmão.
O grito de alegria de Léo foi tão alto que até o pequeno Enzo parou de chorar por um instante, assustado.
O restante do dia foi dedicado aos preparativos iniciais. Julia e Kate sentaram-se na varanda com seus notebooks, revisando listas de convidados e fornecedores. No entanto, a concentração de Kate era volátil. Julia estava sentada no chão, debruçada sobre uma mesa baixa, e a posição realçava cada curva de seu corpo atlético sob o short de compressão.
— Julia, você está fazendo isso de propósito — disse Kate, fechando o laptop abruptamente.
— O quê? Eu só estou vendo o orçamento do buffet — respondeu a ruiva, sem olhar para trás.
— Essa sua mania de ficar agachada ou curvada enquanto trabalha. Você sabe perfeitamente o que isso faz com o meu foco.
Julia virou o rosto, exibindo um sorriso malicioso.
— Eu não tenho culpa se o meu corpo responde bem aos treinos, Kate. E se eu me lembro bem, você disse que queria que o meu vestido de noiva fosse justo. Estou apenas garantindo que o modelo tenha um bom material para trabalhar.
Kate levantou-se e caminhou até ela, parando logo atrás. Ela passou as mãos pelas coxas firmes de Julia, subindo até encontrar a borda do short.
— Se o vestido for metade do que essa visão é agora, eu não vou conseguir dizer "sim" sem gaguejar — confessou a loira, a voz carregada de desejo. — Eu tenho um ciúme doentio dessa sua bunda, sabia? Às vezes, no meio do jogo, eu vejo as câmeras focando em você e tenho vontade de ir lá e cobrir a lente com a minha toalha.
Julia riu, virando-se nos braços de Kate e puxando-a para um beijo calmo.
— Você é louca, Antropova. Mas é a minha louca. E para sua tranquilidade, o vestido vai ser elegante. Só você vai ter o privilégio de tirar.
A preparação para o casamento trouxe à tona uma faceta mais suave de Nicolas. O rapaz, que antes era o centro dos problemas, parecia ter encontrado um propósito em ajudar as irmãs. Ele passava horas conversando com Julia sobre a responsabilidade de ser pai, buscando conselhos que muitas vezes tinha vergonha de pedir a Kate.
— Ju, você acha que eu vou dar conta? — perguntou Nicolas em uma tarde, enquanto ajudava a ruiva a carregar algumas caixas de decoração. — Às vezes eu olho para o Enzo e sinto um medo absurdo de falhar.
Julia colocou a caixa no chão e olhou seriamente para o cunhado.
— O medo é bom, Nico. Significa que você se importa. A Kate agiu daquela forma quando descobriu porque ela te ama e queria que você tivesse a melhor vida possível. Ser pai não é sobre não errar, é sobre estar lá todos os dias, mesmo quando você está exausto ou com ressaca.
— Eu mudei, Ju. Eu juro.
— Eu sei que mudou. E é por isso que você vai ser um dos nossos padrinhos.
Na noite anterior ao casamento, a casa estava em um silêncio raro. Léo dormia no quarto de Thiago, e Mariana tinha levado o bebê para a casa dos pais para que o casal pudesse ter uma última noite de "solteiras".
Julia estava no jardim, observando o altar de madeira que tinha sido montado sob a grande mangueira. Kate apareceu logo atrás, envolvendo-a em um abraço quente.
— Está nervosa? — perguntou a loira.
— Um pouco. É estranho, não é? Já vivemos juntas, temos um filho, uma casa... mas assinar aquele papel parece tão definitivo. Tão real.
— É real, Julia. É a nossa aliança contra o mundo — Kate virou Julia para si, os olhos azuis brilhando sob a luz da lua. — Eu te amo desde a primeira vez que você me bloqueou em um treino e me olhou com aquela cara de quem ia me devorar viva.
— E eu te amo desde que percebi que, por trás dessa loira convencida, existia a mulher mais paciente e dedicada que eu já conheci.
Elas ficaram ali por um longo tempo, apenas aproveitando a presença uma da outra. Mas, sendo quem eram, o momento de ternura logo se transformou em provocação. Kate deu um tapa sonoro na bunda de Julia, fazendo a ruiva soltar um gritinho de surpresa.
— Ai! Kate! Amanhã eu vou estar com a marca da sua mão no altar!
— É para você não esquecer a quem pertence aquela região privilegiada enquanto estiver caminhando em direção a mim — brincou Kate, saindo correndo em direção à casa enquanto Julia ia atrás dela, rindo.
O dia do casamento amanheceu límpido. A cerimônia foi exatamente como planejado: simples, elegante e cheia de emoção. Gabi chorou copiosamente durante os votos, Thiago e Léo entraram com as alianças — Léo usando um mini-terno que o fazia parecer um pequeno boneco —, e Nicolas fez um discurso que emocionou até os parentes russos que vieram por vídeo-chamada.
Quando o juiz de paz finalmente as declarou casadas, o beijo que trocaram não foi apenas um selo contratual, mas a celebração de uma jornada de superação.
Na festa, enquanto a música tocava e os convidados se divertiam, Léo puxou a barra do vestido de Julia.
— Mamãe, agora que vocês casaram, já pediram o bebê?
Julia olhou para Kate, que estava com um copo de champanhe em uma mão e a outra, como sempre, repousada possessivamente em sua cintura.
— Vamos pedir hoje à noite, Léo — disse Kate com um piscar de olhos malicioso para a esposa.
— Eba! — o menino saiu correndo para contar a novidade para Enzo, que dormia no colo de Mariana.
Mais tarde, quando a festa acabou e os convidados se foram, Julia e Kate finalmente se viram sozinhas no quarto. O vestido de noiva de Julia, como Kate previra, era uma obra de arte que abraçava cada curva de seu corpo, especialmente a região que a loira tanto adorava.
— Você está deslumbrante, Sra. Antropova-Bergmann — sussurrou Kate, ajudando a abrir o zíper nas costas de Julia.
— E você está muito falante, Sra. Bergmann-Antropova — rebateu Julia, virando-se e puxando Kate pela gola da camisa social. — Menos conversa e mais ação. Temos uma promessa para cumprir para o Léo, lembra?
Kate sorriu, o olhar descendo para o quadril de Julia com uma fome que anos de convivência não conseguiram diminuir.
— Ah, eu me lembro perfeitamente. Mas primeiro... — Kate desferiu um tapa firme e depois uma mordida provocante na nádega de Julia — ...eu preciso ter certeza de que essa bunda continua sendo a oitava maravilha do mundo.
— Kate! — Julia protestou, mas seus braços já envolviam o pescoço da loira, puxando-a para a cama.
A noite foi longa, marcada por risos, confissões e o início silencioso de um novo capítulo. Entre os tapas de afeto de Kate e a força bruta e apaixonada de Julia, a promessa de um novo membro na família começou a tomar forma. Elas sabiam que os desafios seriam muitos — o ciúme de Kate, a teimosia de Julia, o crescimento de Léo e a redenção de Nicolas —, mas enquanto estivessem juntas, o jogo da vida seria sempre uma vitória garantida no set final.