A família caos
Herança, Ressaca e Promessas de Ninar
A mansão "Antroju" — apelido carinhoso que Gabi dera ao lar caótico e luxuoso das atletas — estava decorada com balões coloridos e restos de bolo de chocolate. Léo, agora um pequeno tagarela de cinco anos com a energia de um set de tie-break, corria pela sala com uma capa de super-herói.
— Mamãe Ju! Mamãe Kate! — gritou o menino, parando subitamente na frente das duas, que tentavam descansar no sofá após a festa de aniversário dele. — Eu já decidi o meu presente de verdade.
Julia Bergmann, que sentia cada músculo do corpo reclamar após uma semana intensa de treinos na seleção, abriu um olho e sorriu para o filho.
— Mais um presente, Léo? Você ganhou uma pista de corrida gigante e um videogame novo.
— Não é brinquedo, mamãe — disse Léo, fazendo um bico sério que era a cópia fiel do de Julia. — Eu quero um irmãozinho. Ou uma irmãzinha. Igual ao bebê da Mariana, mas um que seja meu de verdade.
Kate Antropova, que estava com a cabeça repousada no colo de Julia, soltou uma risada alta e engasgou com a própria saliva.
— Um irmãozinho, *amore mio*? — Kate sentou-se, puxando o filho para um abraço. — Você sabe que bebês dão muito trabalho, não sabe? Eles choram, fazem cocô e não deixam ninguém dormir.
— Eu ajudo! — insistiu o pequeno, com os olhos brilhando. — A tia Gabi disse que vocês podem comprar um na loja de bebês.
Julia lançou um olhar mortal para Gabi Guimarães, que estava na cozinha fingindo não ouvir a conversa enquanto tomava um suco.
— A tia Gabi vai levar um tapa na bunda se continuar ensinando bobagem para você — resmungou a ruiva, sentindo o rosto esquentar.
A conversa sobre aumentar a família era um tema recorrente e delicado. Julia ainda estava no auge da forma física. Seus treinos de academia haviam se tornado lendários entre as colegas de equipe; a genética brasileira misturada com uma disciplina militar resultara em um físico cada vez mais curvilíneo. Kate, por sua vez, continuava tão possessiva quanto no primeiro dia. Seus olhos raramente saíam da silhueta de Julia, e o ciúme, embora mais maduro, ainda faiscava sempre que alguém olhava demais para a ruiva no ginásio.
A paz da tarde foi interrompida pelo som da porta da frente batendo com força. Nicolas, agora com 19 anos, entrou na sala tropeçando nos próprios pés. O cheiro de álcool era perceptível a metros de distância.
— Cheguei, família! — exclamou ele, a voz arrastada, ignorando o olhar gélido de Kate.
— Nicolas, são quatro da tarde de um domingo — disse Kate, levantando-se com os punhos cerrados. — A Mariana está lá em cima cuidando do seu filho de dois meses sozinha. Você prometeu que ia ajudar com o banho hoje.
— Ela dá conta, Kate... ela é mãe, né? — Nicolas deu de ombros, tentando subir as escadas, mas Julia bloqueou o caminho.
A ruiva não disse uma palavra, apenas cruzou os braços e o encarou com aquele olhar de "bruta" que fazia até os árbitros mais experientes tremerem.
— Você vai tomar um banho gelado, Nicolas — a voz de Julia era um sussurro perigoso. — E depois você vai pedir desculpas para a sua mulher. Se eu ouvir o bebê chorar e você não estiver lá, você vai descobrir por que eu sou a maior bloqueadora da liga.
Nicolas engoliu em seco, a embriaguez sumindo instantaneamente sob o efeito do medo. Ele subiu as escadas em silêncio, sob os olhares reprovadores das irmãs.
— Ele está passando dos limites, Ju — sussurrou Kate, encostando a testa no ombro da namorada. — A Mariana mora aqui com a gente, nós damos todo o suporte, e ele age como se fosse um solteiro sem responsabilidades.
— Ele é jovem e está assustado, mas isso não é desculpa — respondeu Julia, apertando a mão de Kate. — Vamos resolver isso. Mas agora, temos o aniversário da Kisy na piscina, lembra?
O evento na casa de Kisy deveria ter sido um momento de relaxamento, mas o clima pesou rapidamente. Entre drinks e música alta, um comentário infeliz de uma convidada sobre a "sorte" de Kate em ter Julia em casa gerou um desentendimento. Kate, sempre extrovertida, mas territorial, não gostou do tom de brincadeira e acabou discutindo com uma das colegas de clube.
Julia teve que intervir, puxando Kate para um canto reservado perto das espreguiçadeiras.
— Kate, chega! Você está sendo irracional — disse Julia, os olhos faiscando de irritação.
— Irracional? Ela estava praticamente despindo você com os olhos, Julia! — rebateu a loira, a voz trêmula de raiva. — E você fica aí, agachando para pegar as coisas, sabendo muito bem o efeito que isso tem!
— Eu estou em uma festa de piscina, Kate! O que você quer que eu faça? Que use um roupão de neve? — Julia suspirou, tentando manter a calma. — Você sabe que eu só tenho olhos para você. Para de criar fantasma onde não tem.
A discussão esfriou os ânimos, e elas voltaram para casa mais cedo do que o planejado. O silêncio no carro só foi quebrado pelos soluços baixos de Léo no banco de trás.
— O que foi, meu amor? — perguntou Kate, preocupada.
— Vocês estão bravas... e eu não vou ganhar meu irmãozinho, né? — choramingou o menino.
Kate suspirou, sentindo o coração apertar. Ela olhou para Julia, que mantinha o olhar fixo na estrada, as mãos apertando o volante.
— Vem cá, Léo — disse Kate, puxando o filho para o seu colo assim que estacionaram na garagem. — Não é que você não vá ganhar um irmão. É que as mamães precisam ter certeza de que é a hora certa. Ter um bebê é uma promessa de amor, e a gente nunca quebra promessas.
— Mas o bebê do tio Nico é legal — insistiu Léo.
— É legal, mas o tio Nico está aprendendo a ser papai ainda — explicou Kate, lançando um olhar significativo para Julia.
Naquela mesma noite, a realidade bateu à porta de forma urgente. Mariana entrou no quarto das duas, pálida.
— Julia, Kate... o bebê está com febre muito alta. E o Nicolas... ele não acorda. Ele bebeu demais e apagou.
Julia saltou da cama imediatamente.
— Deixa o Nicolas pra lá. Pega as coisas do neném, vamos para o hospital agora.
Enquanto Kate ficava em casa com Léo, Julia dirigiu para a emergência pediátrica com Mariana e o pequeno Enzo. Durante as horas de espera, Julia viu o cansaço e a solidão nos olhos da jovem mãe. Ela segurou a mão de Mariana, oferecendo o suporte que o próprio cunhado falhara em dar.
— Você não está sozinha, Mari — disse Julia firmemente. — Nós somos uma família. Se o Nicolas não crescer, nós vamos fazer ele crescer na marra.
Quando voltaram para casa ao amanhecer, com o bebê já medicado e estável, encontraram Nicolas sentado na calçada da entrada, com a cabeça entre os joelhos. Ele parecia ter finalmente entendido a gravidade de suas ações.
— Eu sou um lixo, não sou? — perguntou ele quando Julia passou por ele carregando o bebê.
— Você é um irresponsável — respondeu Julia, sem parar. — Mas você tem a sorte de ter irmãs que não vão desistir de você. Agora entra, toma um café forte e vai cuidar do seu filho. É a sua última chance de não perder a mulher maravilhosa que você tem.
A tarde de segunda-feira na mansão foi marcada por uma tentativa de retorno à normalidade. Para aliviar a tensão, Gabi sugeriu uma noite de jogos. Thiago, Nicolas (já sóbrio e visivelmente arrependido), Mariana, Gabi, Kate e Julia se reuniram ao redor da mesa de centro.
— Nada de roubar no Uno, Antropova! — avisou Gabi, distribuindo as cartas.
— Eu não roubo, eu uso táticas russas de distração — brincou Kate, já recuperada do mau humor da festa.
O jogo estava acirrado. Julia estava concentrada, mas sentia o olhar de Kate queimando em sua direção. A ruiva usava um short de pijama de algodão fino, e a posição sentada no tapete não ajudava a esconder a herança física que tanto atormentava e encantava a russa.
— Julia, pelo amor de Deus, senta direito — resmungou Kate, jogando um +4 na mesa.
— O que foi agora, Kate? — Julia riu, jogando um reverso.
— Você está fazendo isso de propósito. Esse short... essa posição... eu não consigo focar no jogo!
— Deixa a menina, Kate! — Thiago riu, jogando sua última carta. — Uno! Ganhei de novo!
— Ah, não! Roubo! — gritou Nicolas, tentando pegar o baralho, o que iniciou uma guerra de almofadas na sala.
No meio da bagunça, Gabi, que estava em um momento de rara introspecção amorosa (aparentemente encantada por uma nova fisioterapeuta do clube), soltou a pergunta que todos queriam fazer.
— Falando em compromisso... quando é que vocês duas vão casar de verdade? Com festa, papel assinado e a Julia de branco?
O silêncio caiu sobre a sala. Julia e Kate se olharam.
— Nós já somos casadas no que importa, Gabi — disse Julia, embora o brilho em seus olhos sugerisse que ela não descartava a ideia.
— Mas eu queria ver a mamãe Ju de vestido! — exclamou Léo, pulando no colo de Kate. — E aí, depois do casamento, vem o irmãozinho?
Kate riu, beijando o topo da cabeça do filho.
— Talvez, Léo. Talvez.
Mais tarde, quando a casa finalmente silenciou, Julia e Kate estavam na varanda, observando a lua.
— Foi um dia longo — suspirou Julia, sentindo os braços de Kate envolverem sua cintura por trás.
— Foi. Mas eu vi você hoje no hospital com a Mariana. Você vai ser uma mãe de dois incrível, sabia? — Kate sussurrou, distribuindo beijos pelo pescoço ruivo.
Julia virou-se nos braços da loira, o olhar sério mas carregado de afeto.
— Você realmente quer isso, Kate? Mais um para o nosso caos?
— Eu quero tudo com você, Julia. O casamento, o bebê, as brigas por ciúmes e até os seus tapas quando eu te irrito.
Julia sorriu, puxando a nuca de Kate para um beijo profundo, um selo de promessa que ia muito além de qualquer papel.
— Mas se eu ficar grávida, Antropova, você vai ter que aguentar o meu humor triplicado. E nada de morder a minha bunda se ela ficar maior ainda, entendeu?
Kate soltou uma risada maliciosa, as mãos descendo para o lugar de costume.
— Isso é uma promessa que eu receio não poder cumprir, *amore mio*. Algumas coisas são simplesmente irresistíveis demais.
O som de um tapa estalado e uma risada abafada ecoou pela noite, provando que, na mansão Antroju, o amor podia ser bruto, barulhento e complicado, mas era, acima de tudo, indestrutível.