A família caos
O Pacto de Ferro e a Doçura do Caos
A luz prateada da lua entrava pelas janelas amplas da mansão, refletindo-se nos troféus de vôlei que adornavam a estante da sala. O silêncio era uma raridade naquela casa, um breve intervalo entre o barulho dos treinos diários e a energia inesgotável de Léo. Julia Bergmann estava sentada na poltrona de couro da biblioteca, com um tablet nas mãos, revisando os documentos que seu advogado enviara por e-mail. A expressão em seu rosto era de pura concentração, a testa franzida de um jeito que fazia Nicolas, que acabara de entrar na sala, parar no meio do caminho.
— Ju? — sussurrou o rapaz de dezenove anos, segurando uma mamadeira vazia. — Você ainda está acordada por causa daquilo?
Julia levantou o olhar. Seus olhos verdes, geralmente vibrantes, pareciam escuros sob a luz fraca. Ela suspirou e deixou o tablet de lado, sinalizando para que o cunhado se aproximasse.
— Nicolas, eu não vou deixar que levem o Enzo. Já falei com a Kate, e nós vamos assinar a co-responsabilidade amanhã de manhã. Mas você precisa entender que isso nos vincula legalmente. Se você cometer um erro, se você for pego em alguma situação irresponsável, a justiça vai cair em cima de nós três.
Nicolas sentou-se no puff à frente dela, parecendo subitamente muito mais jovem do que sua idade sugeria.
— Eu sei, Ju. Eu juro que mudei. Ver o Enzo sorrir de manhã... é melhor do que qualquer festa. E a Mariana... eu não quero perder ela. Obrigado por não contar para a Kate sobre o meu pânico inicial. Eu sei que ela teria surtado.
— Ela teria — concordou Julia com um meio sorriso. — Mas a Kate é coração, Nicolas. Ela grita, morde e faz cena, mas ela morreria por você. Agora vá dormir. Amanhã você tem o primeiro dia oficial na administração da academia. Se chegar atrasado, eu mesma te coloco para fazer trezentos agachamentos de castigo.
Nicolas riu, um som aliviado, e saiu da sala. Julia ficou ali por mais alguns minutos, sentindo o peso da responsabilidade. Ela era o pilar, a "bruta" que mantinha as vigas daquela família no lugar enquanto Kate era a alma extrovertida que trazia a cor.
Ao subir para o quarto, Julia encontrou a porta entreaberta. O som de respiração profunda indicava que Kate já estava deitada. Julia despiu-se silenciosamente, ficando apenas com uma lingerie de renda preta que Kate adorava. Quando se deslizou para debaixo dos lençóis de seda, sentiu imediatamente o calor do corpo da esposa.
— Você demora demais para vir para a cama, Bergmann — murmurou Kate, a voz arrastada pelo sono, mas carregada de uma possessividade latente.
— Alguém tem que garantir que o mundo não acabe enquanto você dorme, Antropova — respondeu Julia, virando-se de lado.
Em um movimento rápido, Kate se sobrepôs a ela, prendendo os pulsos de Julia acima da cabeça. Os olhos azuis da loira brilhavam com uma intensidade predatória.
— O mundo pode acabar, desde que você esteja aqui para eu morder — disse Kate, descendo o rosto até o pescoço de Julia e cravando os dentes com força moderada na pele macia, logo acima da clavícula.
— Kate! — Julia arqueou as costas, um misto de dor e prazer percorrendo seu corpo. — Eu tenho uma sessão de fotos com a seleção amanhã. O que eu vou dizer sobre essa marca?
— Diga que você pertence a uma russa muito territorial — Kate soltou os pulsos de Julia e desceu as mãos para os quadris da ruiva, apertando a carne firme com uma força que fez Julia perder o fôlego. — Eu vi você hoje no treino, Julia. Aquele agachamento para pegar a bola no fundo de quadra... você faz de propósito, não faz?
— Talvez — provocou Julia, passando as pernas ao redor da cintura de Kate, sentindo a musculatura poderosa da esposa. — Eu gosto de ver você perder a concentração. É divertido ver a grande Antropova errar um saque porque ficou olhando para a minha bunda.
— Você é uma abusada — Kate desferiu um tapa sonoro na nádega de Julia, o som ecoando no quarto. — Mas é a minha abusada. E amanhã, depois que assinarmos os papéis do Nicolas, eu vou levar você para aquele hotel na serra. Só nós duas. Sem Léo, sem bebês, sem adolescentes em crise.
— Promete? — perguntou Julia, puxando a nuca de Kate para um beijo profundo, um encontro de línguas que falava de anos de parceria e um desejo que nunca esfriava.
— Prometo. Mas até lá... eu ainda tenho algumas horas para garantir que você não consiga sentar direito no banco de reservas amanhã.
A madrugada seguiu com a intensidade característica das duas. Onde Julia era força e resistência, Kate era ataque e fogo. Entre tapas de afeto e mordidas de pura posse, elas reafirmaram o pacto que as unia. Para Julia, as marcas que Kate deixava eram como medalhas; cada uma delas contava a história de uma mulher que a amava com uma ferocidade que poucas pessoas entenderiam.
Na manhã seguinte, o sol brilhou forte sobre a mansão. O café da manhã foi uma operação militar coordenada por Gabi.
— Thiago, coma o pão! Léo, pare de dar cereal para o cachorro! — gritava Gabi, enquanto tentava equilibrar Enzo no colo para que Mariana pudesse comer.
Julia e Kate desceram as escadas juntas, ambas vestidas com roupas esportivas, mas com uma aura de seriedade. Nicolas já estava à mesa, impecavelmente vestido com uma camisa polo, tentando parecer o adulto que agora precisava ser.
— Prontos? — perguntou Julia, pegando uma torrada.
— Prontos — respondeu Nicolas, trocando um olhar de gratidão com a cunhada.
Eles foram até o escritório do advogado na cidade. A assinatura dos documentos foi um momento solene. Ao colocar seu nome no papel, Kate sentiu uma lágrima solitária escorrer. Ela olhou para Nicolas e depois para Julia.
— Se você estragar isso, Nicolas, eu mesma te mando de volta para a Sibéria a pé — brincou Kate, mas sua voz estava embargada.
— Eu não vou estragar, Kate. Eu prometo.
Na saída do escritório, Julia puxou Kate para um canto enquanto Nicolas e Mariana seguiam para o carro com o bebê.
— Viu? O primeiro set foi nosso — disse Julia, envolvendo a cintura da loira.
— Você é incrível, Ju. Eu sei que eu sou a que grita e faz barulho, mas você é quem segura a rede para a gente não cair.
— É o que eu faço, Antropova. Agora, sobre aquela promessa de ontem à noite... o hotel na serra ainda está de pé?
Kate sorriu, aquele sorriso extrovertido que iluminava o rosto inteiro, e deu um beliscão rápido na bunda de Julia, fazendo a ruiva dar um pulinho.
— Mais do que de pé. Mas antes, temos um treino aberto para a imprensa. E eu vi que você colocou aquele short cinza, Bergmann. Você quer me matar hoje?
— Eu quero que você jogue bem, Kate. E se a visão da minha bunda te motiva a saltar mais alto, quem sou eu para privar o vôlei mundial desse espetáculo? — Julia riu, correndo em direção ao carro antes que Kate pudesse revidar.
O treino foi um evento à parte. A imprensa estava lá em peso para cobrir o retorno das "Rainhas da Mansão" após o casamento. Julia estava em um estado de graça técnica. Cada movimento seu era acompanhado pelas lentes das câmeras e pelo olhar obsessivo de Kate.
Durante uma pausa para hidratação, Kate aproximou-se de Julia por trás, enquanto a ruiva estava agachada ajustando a joelheira. A russa não resistiu; inclinou-se e sussurrou no ouvido de Julia, alto o suficiente para que apenas ela ouvisse, mas perto o suficiente para que os fotógrafos captassem a intimidade.
— Se você agachar assim mais uma vez na frente desses fotógrafos, eu vou fazer uma cena que vai virar capa de jornal amanhã, Julia.
Julia levantou-se, virando-se para a esposa com um olhar desafiador.
— Ah, é? E o que você vai fazer, Antropova? Vai me morder na frente de todo mundo?
— Não me desafie, ruiva. Você sabe que eu sou louca o suficiente para isso.
A tensão sexual entre as duas era quase palpável, transformando o treino em uma exibição de poder e desejo. Gabi, observando de longe, apenas balançava a cabeça.
— Essas duas ainda vão causar um incidente diplomático — comentou com Thiago, que ria da situação.
Ao cair da tarde, conforme prometido, elas deixaram Léo sob os cuidados de Gabi e Thiago — que agora agiam como os tios mais dedicados do mundo — e partiram para a serra. O hotel era um refúgio de luxo, cercado por neblina e montanhas.
Assim que a porta da suíte se fechou, a fachada de atletas profissionais caiu.
— Finalmente — suspirou Julia, jogando as chaves sobre a mesa.
Kate não perdeu tempo. Ela prensou Julia contra a porta de madeira maciça, suas mãos grandes encontrando o caminho para debaixo da blusa da ruiva.
— Eu passei o dia inteiro vendo você ser a capitã, a administradora, a protetora do Nicolas... — Kate falou entre beijos vorazes. — Agora, eu quero apenas a minha Julia. A Julia que reclama quando eu aperto demais, mas que pede por mais.
— Eu sou toda sua, Kate. Você sabe disso.
Julia desamarrou o cabelo ruivo, deixando-o cair em cascata sobre os ombros. Ela tomou a iniciativa, empurrando Kate em direção à cama king-size. A dinâmica mudou; ali, no isolamento da montanha, Julia permitia que seu lado mais bruto aparecesse, dominando a russa com uma força que surpreendia até a própria Kate.
— Morda-me — desafiou Julia, os olhos faiscando. — Prove para mim que você é a dona desse jogo.
Kate obedeceu com um rugido baixo, a noite transformando-se em uma celebração de tudo o que haviam construído. Não era apenas sobre sexo; era sobre a entrega total de duas almas que haviam encontrado uma na outra o encaixe perfeito. Entre os tapas que deixavam a pele quente e as mordidas que selavam o compromisso, elas esqueceram do mundo.
No dia seguinte, enquanto tomavam café na varanda com vista para o vale, o celular de Julia vibrou. Era uma foto enviada por Nicolas: Enzo estava sentado no tapete da sala, segurando uma pequena bola de vôlei de pelúcia, com Léo ao lado tentando ensiná-lo a "manchetar".
— Olha isso — disse Julia, mostrando a tela para Kate.
Kate sorriu, um brilho de pura doçura nos olhos.
— Nós fizemos um bom trabalho, não fizemos?
— Fizemos. E vamos continuar fazendo. O Nicolas está no caminho certo, a Mariana está segura, e o nosso Léo tem um "irmão" para cuidar enquanto o dele não chega.
Kate pegou a mão de Julia, entrelaçando seus dedos.
— Sabe, Ju... eu estive pensando. Talvez a gente não precise esperar tanto para o próximo bebê. A casa é grande, o amor é maior ainda... e eu acho que o Léo ia adorar ter uma irmãzinha russa-brasileira para atormentar.
Julia riu, puxando a mão de Kate para beijar os nós dos dedos da esposa.
— Uma coisa de cada vez, Antropova. Primeiro, vamos sobreviver a esse final de temporada. Depois, quem sabe?
— Eu vou cobrar isso de você — Kate deu um tapa leve na coxa de Julia por baixo da mesa. — E vou cobrar com juros.
— Eu não esperaria nada menos de você.
Elas ficaram ali, em silêncio, aproveitando a companhia uma da outra. A vida na mansão Antroju continuaria sendo um caos — haveria mais crises de Nicolas, mais ciúmes de Kate no ginásio, mais agachamentos provocativos de Julia e, certamente, muitas mais marcas de mordidas e tapas. Mas, para Julia Bergmann, não havia lugar no mundo onde ela preferisse estar.
— Vamos voltar? — perguntou Julia. — Sinto falta do barulho.
— Vamos — concordou Kate, levantando-se e oferecendo a mão para a esposa. — Mas antes... você se importa de agachar só mais uma vez para eu conferir se a vista das montanhas é realmente a melhor coisa aqui?
Julia revirou os olhos, mas não conseguiu esconder o sorriso.
— Você é incorrigível, Ekaterina Antropova.
— E você me ama exatamente por isso.
Enquanto desciam a serra de volta para a realidade, a certeza que as acompanhava era a de que, independentemente dos desafios judiciais ou das pressões do esporte, a união delas era um bloqueio triplo que nada no mundo seria capaz de furar. O segredo de Nicolas fora o catalisador que transformara a casa em um lar de verdade, e Julia, a ruiva bruta e ciumenta, sabia que seu maior troféu não era de ouro, mas sim a família caótica e apaixonada que a esperava no vale.